No Matter What
4 Capítulo III
Notas iniciais
O despertador tocou as sete horas em ponto, fazendo com que Cécile caísse da cadeira com o susto. Havia ficado acordada até tarde tentando fazer o dever de física, que acabou adormecendo na escrivaninha do seu quarto. Levantou do chão com sonolência, esfregando os olhos em uma tentativa de afastar o sono.
Se sentou na cadeira novamente a fim de arrumar o seu material. Escondido debaixo das folhas do seu caderno, Cécile encontrou uma caixinha azul com alguns detalhes em dourado. Arqueou as sobrancelhas enquanto passava a mão pelos detalhes. Nunca havia visto algo parecido em toda a sua vida e não fazia ideia de como aquilo tinha aparecido em seu quarto.
Abriu a caixinha por curiosidade, sem saber o que poderia encontrar lá dentro. Para a sua surpresa, ela encontrou um colar de ouro na forma de borboleta. Cécile segurou o ar. Era um colar muito bonito e certamente muito caro. Antes que pudesse o observar melhor, uma luz azul o envolveu, fazendo com que Cécile largasse o colar no chão para poder proteger os seus olhos.
— Olá.
Cécile tirou as suas mãos dos olhos rapidamente, levando um susto ao ver uma criaturinha azul pairar frente ao seu rosto. Um grito saiu de sua garganta e sem hesitar, a garota correu para o outro lado do quarto, tentando fugir da pequena criatura.
— Ei, não fuja, não lhe farei mal!
— Ah Meu Deus, ah Meu Deus! — Cécile gritou, enquanto jogava alguns de seus cadernos na direção da criatura, que desviava dos seus ataques sem muito esforço.
— Cécile, você poderia me ouvir?! — gritou a kwami, se aproximando da menina.
— C-como, como você sabe o meu nome? — Cécile perguntou, pegando um travesseiro que estava no chão para se defender de qualquer ataque.
— Meu nome é Nixie e eu sou uma kwami. Você foi a escolhida para ser a portadora do Miraculous da borboleta.
— Portadora do que?
— Deixe-me terminar de explicar. Paris corre perigo. Um dos Miraculous foi roubado e o seu portador é alguém que irá usar o poder para o mal. Você foi escolhida para impedir que ele destrua a cidade.
— Eu? Escolhida? Olha, acho que está havendo algum engano. Eu vou ligar para o seu... Você tem algum dono? Alguém que eu possa entrar em contato?
— Você não está entendendo, Cécile. Você tem que fazer isso. De agora em diante você será Queen Fairy, uma super-heroína que defenderá Paris.
[...]
Andrew olhava para a janela do carro com um olhar preocupado. Não havia encontrado Cécile na escola e temia que algo tivesse acontecido. Aquele era o dia do almoço mensal entre os dois, e ela nunca deixaria de comparecer. Esse era um motivo suficiente para que o loiro pensasse que algo havia acontecido com a garota. Mesmo sendo melhores amigos, Andrew não sabia nem 30% da vida de Cécile. Ele sabia que ela escondia algo, mas sempre que perguntava, Cécile arranjava alguma desculpa e saía sem nenhuma explicação. Nunca a pressionou, pois como ninguém, ele sabia o que era esconder algo, mesmo que todas aquelas mentiras da amiga o machucassem.
Fingir ser outra pessoa era o que Andrew fazia de melhor. Sua verdadeira personalidade estava escondida sob sete chaves, e ele sempre passava a imagem de um menino bom e obediente. O "garoto perfeito" como muitos ousavam dizer. Às vezes ele tinha a ligeira impressão de que as pessoas gostavam mais dele quando fingia ser outro alguém. Seus amigos por exemplo demonstravam isso. Eles eram amigos de Andrew, o garoto de ouro. Mas e quando ele arrancasse a máscara e o seu verdadeiro eu aflorasse, o que aconteceria? Eles continuariam sendo seus amigos? E os seus fãs, continuariam sendo os mesmos? E Cécile, ela ainda continuaria sendo a sua melhor amiga? Pois ela era amiga do garoto de ouro, afinal.
Andrew balançou a cabeça, afastando esses pensamentos de si. Precisava pensar em algo para sair de casa despercebido, pois certamente Daphne não deixaria que ele fosse para a casa da amiga ver o que tinha acontecido, então antes mesmo de chegar em casa, Andrew já estava traçando um plano para sair sem que ninguém notasse.
Quando o carro adentrou os portões da imensa propriedade dos Chevalier, Andrew sacou o celular e enviou três mensagens para Cécile. Demorou cinco minutos para que finalmente o carro estacionasse na porta da propriedade para que Andrew saísse. O menino saiu do veículo correndo, logo entrando na mansão. Subiu as escadas com pressa, sem se preocupar em falar com Daphne, que estava ocupada trabalhando em seus deveres como governanta.
Ao chegar em seu quarto, Andrew jogou a sua mochila em cima da cama, pegando logo depois o seu celular no bolso da calça. Soltou um suspiro frustrado assim que percebeu que a menina não havia o respondido.
Olhou para a porta do seu quarto com determinação. Aquela era a hora para começar a executar o seu plano.
[...]
— ... e nós não sabemos quem ele é, nem como se chama, mas ele roubou o Miraculous da Vespa.
— Então ele pode akumatizar pessoas? Fazer com que elas se tornem vilãs?
— Sim.
— Isso é terrível. E-eu... eu não sei se posso fazer isso— Cécile gaguejou, sentindo todo o peso do mundo se instalar em seus ombros.
— Claro que pode, Cécile! Você foi escolhida por um motivo, por favor não o ignore.
Cécile balançou a cabeça, concordando com a pequena kwami. Se sentou na beirada da sua cama, pensando em como a sua vida iria mudar a partir daquele momento. Não poderia contar aquilo a ninguém pelo o que Nixie dissera. Nem a Eloise, nem a Breno, nem a Andrew. Sentiu um nó se formar na boca do estômago. Não queria mentir para eles novamente. A pergunta que se passava em sua cabeça era: que tipo de amiga ela era? A que mentia? A que enganava todos ao seu redor? Por que pelo menos uma vez na vida ela não poderia ser alguém que confiava nos outros?
— Olha, eu sei que é difícil. Já tive outras portadoras e vi isso acontecer inúmeras vezes. Mas eu sei quando eu encontro uma pessoa forte. Você é uma delas, conseguirá fazer isso.
Cécile sorriu com a fala de Nixie. Acariciou a cabecinha azul da kwami, pensando seriamente naquelas palavras. Abriu a boca para agradecer, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, ela foi interrompida pela campainha.
Cécile se levantou num pulo, pensando em quem poderia ser. Escondeu Nixie entre os cobertores de sua cama e saiu do quarto o mais rápido que podia. Desceu as escadas de dois em dois degraus, até chegar na sala. Agradeceu mentalmente por sua mãe não estar jogada no sofá, mas ela sabia que se entrasse no quarto da mais velha, veria a mesma imagem da mulher bêbada.
Aproximou o rosto do olho mágico, vendo a figura de Andrew distorcida pelo vidro. Cécile bateu a palma da mão em sua testa, se lembrando que havia faltado da escola por causa da agradável surpresa em forma de kwami. Colocou um sorriso mínimo no rosto enquanto abria a porta. Andrew sorriu ao ver a amiga, mas o sorriso murchou assim que viu o seu estado.
— Você está bem? Parece que caiu da cama.
Provavelmente, ela estava com olheiras. Este era o resultado de uma noite mal dormida. Não havia se arrumado desde que acordara, já que a sua manhã inteira fora gasta conversando com Nixie. Ela sorriu nervosamente, abrindo espaço para que Andrew entrasse. Os dois ficaram parados de pé um na frente do outro.
— Eu estava estudando, acabei caindo no sono e o meu celular não despertou— mentiu, forçando um sorriso em seus lábios.
— Você faltou no nosso almoço— disse, sentindo tristeza ao falar aquilo.
A expressão de Andrew denunciava que ele estava chateado com aquilo. Cécile sentiu o seu coração apertar. Uma vez por mês, os dois iam a uma lanchonete e almoçavam pizza juntos. Era uma tradição, e ela havia começado pela imensa obsessão que os dois compartilhavam pelo alimento. Aquilo havia se tornado especial para os dois e Cécile se sentiu péssima por ter esquecido, mas por algum motivo, ela tentou transparecer menos do que realmente sentia.
— Sério? Era hoje? Me desculpa, eu não me lembrei.
Andrew assentiu, resolvendo deixar para lá. Cécile parecia estar cansada demais, e ele não queria força-lá a dizer o que realmente se passava. Era claro para ele que havia algo a mais nessa explicação, e que ela não estava disposta a lhe contar.
— Eu vim aqui só para ver se você estava bem. Fiquei preocupado.
— Não se preocupe, eu estou ótima.
"Eu estou ótima" Andrew se lembrou de todas as vezes que Cécile simplesmente encerrava um assunto com essa frase, e Cécile se lembrou de quantas vezes aquela sentença fora uma mentira. Ela sentia os seus ombros peados demais, como se carregasse uma bagagem que não poderia suportar.
— Ok. Você não quer sair para tomar
sorvete no lugar do almoço? O dia está bonito e você está trancada dentro de casa.
— Eu tenho que ir a livraria. Você sabe, a minha mãe está doente e eu preciso cuidar das coisas. Podemos ir outro dia, tudo bem pra você?
Andrew pensou em várias coisas para dizer a Cécile. Todas elas estavam envolvidas com brigas que ele sabia o que aconteceria se dissesse aquilo, então respirou fundo e guardou tudo para si. Os seus olhos verdes analisaram o rosto de Cécile, fazendo com que a menina desviasse os olhos.
— Não, não está bem.
E sem dizer mais nada, ele saiu, começando a caminhar na direção da sua casa. Andrew não queria admitir a si mesmo, mas sim, ele estava bravo pela primeira vez com a sua melhor amiga. Cécile já havia ultrapassado o limite de mentiras que poderia contar, e isso estava o incomodando. Ele queria apoiá-la em qualquer coisa que ela estivesse passando, mas Cécile parecia não gostar de se abrir. Ela era uma boa amiga, e ele se sentia feliz de tê-la por perto, mas não podia ignorar aquele sentimento de estar sendo enganado.
Andrew parou de andar, esperando que o sinal abrir para os pedestres. Arregalou os olhos quando notou com um idoso estava atravessando a rua enquanto um carro estava a poucos metros de distância. Olhou ao redor, percebendo que todas as pessoas ao seu lado estavam distraídas demais com os celulares para perceberem o senhor em perigo. Sem pensar duas vezes, Andrew correu na direção do idoso, segurou-o pelo braço e o trouxe com força para a calçada, caindo no chão ao final do processo. O carro passou com uma velocidade impressionante logo depois dos dois estarem a salvos na calçada, o que fez com que Andrew suspirasse aliviado.
— Você está bem, meu jovem?
— Estou, estou ótimo— respondeu, enquanto tentava recuperar o fôlego.
O velhinho ajudou-o a levantar.
— Muito obrigada por me ajudar. Eu sempre acho que consigo atravessar a rua mais rápido do que os carros.
Andrew riu da fala do homem enquanto limpava a poeira de suas roupas.
— Eu ficaria aliviado se o senhor me prometer que não irá mais fazer isso. É perigoso.
— Tudo bem, tudo bem. Não farei mais isso.
— Obrigada... Bom, eu tenho que ir andando.
Andrew começou a correr na direção da sua casa, se virando uma vez a fim de acenar para o velhinho, que sorria ao ver o rapaz desaparecer no meio da multidão.
— Parece que já encontramos o nosso novo herói.
[...]
Quando Andrew chegou em casa, já havia anoitecido. Resultado de passar tempo demais no parque, pensando em coisas demais. Queria poder descansar a sua mente, mas sempre acabava pensando nos problemas em vez de tentar relaxar. Não se importou muito com as broncas de Daphne e logo subiu para o seu quarto. Se jogou na cama, passando em sua mente novamente a sua ida na casa de Cécile.
— Acho que eu pequei pesado com ela. Eu nunca falei com Cécile daquele jeito. Eu sempre fui o menino perfeito perto dela— murmurou, enquanto se revirava na cama.
— A perfeição não existe, meu caro.
Andrew se levantou num pulo, olhando para os lados assustado.
— Quem está aí?— gritou ao mesmo tempo que procurava com os olhos o intruso.
— Eu.
— E você é?
— O seu kwami. Prazer, meu nome é Wood.
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