No Limiar dos Mundos

18 Sobrevivendo ao novo mundo


Os irmãos não sabiam o que dizer após ouvir tudo aquilo, mas Heloísa meio que resumiu tudo em uma única interjeição.

- Uau! – exclamou ela, ainda zonza de tanta informação.

- E bota uau nisso! – complementou “eloquentemente” o irmão.

- Nossa, Gaida, que doideira! – continuou Heloísa. – Mesmo depois de ter visto tudo o que nós vimos, ainda é difícil de acreditar que possam haver outros mundos por aí e com tanta coisa acontecendo, mas que ninguém por aqui faz a mínima ideia. Nem imagino como deve ter sido difícil para você conseguir se virar por aqui depois de chegar desse jeito tão inesperado e ainda por cima machucado.

- Não foi fácil mesmo. – concordou Gaida, mas com certo saudosismo e até esboçando um leve sorriso no canto dos lábios.

“Eu não sabia nada sobre a Terra e muito menos sobre seus habitantes ou seus costumes, mas não pensei muito nisso num primeiro momento, até mesmo porque, minha intenção não era permanecer nesse mundo e sim voltar imediatamente para Vartaris. Eu fiquei estirado bem aqui, neste mesmo lugar, por várias horas, sangrando, sem conseguir mover um músculo. Quando finalmente tive forças para me levantar, tentei abrir um portal para minha casa, mas não consegui fazer absolutamente nada, a não ser, sentir dor.”

“De início não entendi porque minhas habilidades não estavam funcionando, mas concluí que talvez fosse porque eu estivesse esgotado fisicamente. Talvez eu conseguisse voltar para Vartaris depois de me recuperar um pouco, mas foi durante essa espera que eu percebi que algo mais havia acontecido comigo, pois eu não estava me recuperando na velocidade de costume. Para um vartariano, as feridas que eu tinha pelo corpo, levariam apenas algumas horas para começarem a cicatrizar, mas depois de um bom tempo, minhas dores haviam até aumentado. Resumindo, eu havia me tornado um de vocês e isso não era nada bom. Se eu continuasse por aqui, naquelas condições, não duraria muito tempo.”

- Falando nisso, você está bem mesmo? – observou Heloísa. Era visível que ele estava exausto e sua fala se tornava cada vez mais pausada.

- Estou sim. Como eu disse, isso é uma espécie de efeito colateral da travessia de longa distância. É um pouco cansativo, ainda mais quando levo outras pessoas comigo. Ele me deixa fraco e com muito sono, mas eu só preciso descansar e dormir um pouco.

- Então acho melhor fazermos uma pausa para você se recuperar. – sugeriu Miguel.

- Obrigado. Acho que estamos seguros por enquanto. Kyrios não conseguirá nos encontrar aqui tão rapidamente.

- Só por curiosidade... – interrompeu Heloísa. – Onde é “aqui”, exatamente?

- Nós estamos próximos a Codajás.

- Codajás? Acho que não conheço… — disse a moça, pensativa, tentando puxar pela memória se já tinha ouvido falar daquele lugar antes. – Onde fica?

- No Amazonas.

- No Amaz… — Heloísa não conseguiu completar a frase devido ao choque de descobrir para onde ele os tinha levado em apenas um piscar de olhos.

- Quer dizer que meia hora atrás a gente estava lá em São Paulo e agora estamos no meio da Floresta Amazônica? – concluiu Miguel, exibindo no rosto a mesma expressão de choque da irmã.

- Sim. Por isso eu acabei me desgastando mais do que o normal. Foi uma bela viagem. Estão escutando esse som de água corrente? É o Rio Amazonas. Ele fica bem pertinho daqui.

Os gêmeos não sabiam o que dizer. Nunca que eles imaginaram que um dia estariam naquele lugar.

- Tá bom… Só mais uma perguntinha. – disse Miguel. – A que distância estamos dessa tal de Codajás?

- Acho que uns quatro dias de caminhada. Eu levei um pouco mais de uma semana para chegar lá da primeira vez, porque estava machucado e não fazia ideia de onde estava, mas agora eu já conheço o caminho.

- Quatro dias dentro da floresta… Será que sobrevivemos? Deve ser meio perigoso, né? – estremeceu Heloísa.

- Um pouco. Dizem que tem onça-pintada, sucuri, jacaré-açu… só que, para falar a verdade, os perigosos mesmo são os pequenininhos: aranhas, sapos, escorpiões… Mas não precisam se preocupar, porque eu fiquei dias agonizando por aqui e nenhum deles veio para me devorar. – gracejou Gaida.

- Ah, sim. Isso me deixa muito mais tranquila. – ironizou Heloísa.

- Eu só estou brincando com vocês. Podem ficar tranquilos, que assim que eu descansar, consigo levar a gente para o vilarejo, num piscar de olhos.

Os irmãos riram nervosamente com a brincadeira de mau gosto, mas conheceram um novo lado de Gaida, o do humor negro. Era bom estar com alguém que conseguia fazer piada até nos piores momentos. De certa forma, era até reconfortante.

- Então descansa aí, Gaida. Tira um cochilo, que a gente vai ficar aqui esperando.

- Só não vão para longe e nem entrem no rio. Fiquem alerta.

Após dados os conselhos, Gaida finalmente pôde ter o seu merecido descanso. Ele se sentou no chão e recostou-se contra uma daquelas pedras grandes e adormeceu rapidamente, sentado ali mesmo.

Miguel e Heloísa se afastaram um pouco para poderem conversar sem incomodar Gaida. Não foram para muito longe, como aconselhados. De onde estavam, mantinham o companheiro de viagem adormecido sob suas vistas. Eles não queriam incomodá-lo de jeito nenhum, porque estavam ansiosos para sair daquele lugar o mais rápido possível.

Miguel pegou o celular para ver as horas e então pensou que seria bom ligar para a escola para ao menos dar uma satisfação de seu sumiço repentino, mas o aparelho não dava sinal de vida.

- Cobertura em todo canto do país uma ova. – resmungou ele enquanto caminhava erguendo o aparelho em busca de algum sinal da operadora de telefonia.

- Deixa eu ver se o meu funciona. – disse Heloísa, enquanto fazia o mesmo com seu aparelho na mão. – Consegui um pontinho!

Miguel correu na direção da irmã pra ver se ela falava a verdade.

- Vou tentar ligar para a Vanessa. Está chiando, mas está chamando. – chamou uma, duas, três vezes, até que a amiga atendeu.

- Alô, Vanessa? Está me ouvindo? – perguntou Heloísa, quase aos berros.

- Oi, He… a liga… ...tá mui… rui… Onde… ...cê …tá? – Tentou responder a amiga, pouco antes de a ligação cair e Heloísa perder o sinal por completo dessa vez.

- Não deu muito certo. – disse a moça, desapontada. – A ligação estava péssima e caiu.

- Vamos tentar de novo quando estivermos em Codajás. Talvez lá tenha sinal ou, pelo menos, um telefone fixo. Aqui no meio da floresta vai ser quase impossível mesmo. – constatou Miguel.

- Verdade. – concordou a irmã, agora também sentindo o cansaço bater. – Eu também estou caindo de sono. Passamos a madrugada em claro. Acho que também vou tirar um cochilinho.

Miguel também estava cansado e eles até pensaram em dormir por ao menos alguns minutos, mas esse pensamento só durou até eles ouvirem o barulho de algo que parecia se mover na mata e então ficaram completamente em alerta. Até o sono passou. Eles se entreolharam assustados, depois olharam ao redor, mas não viram nada.

- Acho melhor a gente voltar para perto do Gaida. – sugeriu a moça.

- Boa ideia. – concordou o irmão.

E voltaram imediatamente para o lado do seu salvador e ficaram bem quietinhos, apenas observando a mata, não vendo a hora de ele acordar e tirá-los de lá.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.