No Corredor da Morte

1 Capítulo Único: No Corredor da Morte


Notas iniciais

14 de Abril de 1862

Palavras finais da detenta

Bishop, Anne

Existem pessoas que nascem apenas para serem felizes e seguirem sua vida sem menores dificuldades... Já existem outras que não nascem com essa mesma sorte. Minha infeliz pessoa é a prova disso. Reclamaria de quê a esta altura? Estou prestes a ser morta, então não tenho muito a dizer; Muito menos peço que meu leitor, impiedoso diante de uma figura criminosa, creia que minha infelicidade de longa data influenciou no meu mais hediondo ato. Apesar ainda disto, não tenho o mínimo remorso do que fiz se fiz por justiça. Já que minhas palavras finais não hão de ter muito efeito no que me aguarda, então deixarei guardada nesta nota tudo que me ocorreu:

Nasci em 1827, numa noite terrivelmente tempestuosa. Minha mãe, Margaret Bishop, era muito doente, mas ainda sim aguentou a doença nos meus primeiros anos. Quando completei meus cinco anos de idade, meus tios maternos de quem até então eu possuía certo apreço, Odette e Manfred Phinstock ofereceram-se para me levar até a cidade para comemorar meu aniversário. Demoramos muito tempo lá, nos distraindo entre refeições, brinquedos e risos. Assim que voltamos a minha casa, não encontramos meus pais; Procuramo-los por todas as partes, até que encontramos minha mãe morta na cama. Caí no completo desespero, mas como tristeza em pessoas que vivem de felicidade chega não é com apenas uma notícia ruim, ainda demos por falta de meu pai. Achamos meu pai no porão. Ele havia sido atingido por uma bala na cabeça... Ou melhor, se atingiu. Meu pai havia se suicidado por não aguentar a perda de minha mãe, ou pelo menos era o que dizia em uma carta de suicídio perto dele. Meus tios, observando meu pranto, se habilitaram prontamente para cuidar de mim no lugar de meus pais- e pela estima que mantinha pelos dois, acabei aceitando.

Nunca deixei de examinar a tal carta desde que aprendi a ler. Pra mim, de certa forma, havia uma peça na morte de meu pai que não se encaixava de forma alguma. Nos anos seguintes vivi uma vida serena, sem demasiadas complicações ou coisas da qual me queixar, mas aos meus 15 anos tudo mudou. Meus tios se revelaram verdadeiros tiranos que se interessavam apenas em meu dote e nada mais que isso. Forçaram-me a coisas que não queria de forma alguma fazer, mas a pior delas foi obrigar-me a casar com dezessete anos. Não me sentia preparada! Sabia desde cedo o risco que o casamento levava, e não queria que fosse precoce dessa forma, uma vez que meus pais se casaram quando ambos tinham 25 anos.

Arranjaram-me casório com um descendente de uma família matriarca que tinha quatro vezes o dinheiro que a minha possuía. Casei-me com ele depressa; Seu nome era Raphael Dodson, e admito que, pela primeira vez em desde a morte de meus pais, fiquei feliz por muito tempo. Dodson era muito gentil, permitiu que criássemos das mais variadas criaturas em casa, e com o tempo, acabei apaixonando-me por ele.

Novamente, quando minha felicidade estava completa, algo veio e destruiu-a como um redemoinho num mar tempestuoso. Aos 25 anos recebi a notícia de que estava grávida, e meu marido de repente ficou mais áspero comigo, mas nada foi pior até depois do nascimento da criança; Meu marido começou a se entregar ao álcool, aos jogos e a meretrizes da taverna que ele costumava a ir. Resolvi estupidamente deixar tudo isto quieto, até a noite em que ele voltou para casa absurdamente bêbado, e por conta de algo que disse, começou a me agredir. Senti-me terrível- senti-me como um lixo qualquer que é mais fácil jogar na rua do que ficar com ele dentro de casa. Quando se satisfez com as pancadas que me deu, foi embora dormir. Levantei-me, cheia de dor- nem a dor do parto tinha sido tão terrível quanto aquela- e sem querer, fiquei na frente do espelho. Assombrei-me com a criatura que vi a minha frente, mas aí lembrei que não era nenhuma criatura, era apenas o reflexo assombroso da minha submissão, então resolvi dar um basta a tudo isso.

Coletei o nome das mulheres com as quais meu marido supostamente havia se envolvido, e ardilosamente montei um estratagema para matar cada uma delas- era tão simples que não havia como falhar- nas noites, após o fim do trabalho miserável que elas exerciam, simplesmente pegava uma faca e lhes tirava escalpo enquanto dormiam doce e tranquilamente. Em uma semana acabei por matar todas, mas meus problemas ainda não haviam terminado, pois a taverna ainda existia.

Enquanto ocorriam as festividades de páscoa, enfiei-me na taverna e pus fogo em cada canto daquele maldito estabelecimento. No fim, sai e apreciei o fim daquele lugar a risadas- risadas tão pavorosas que qualquer um que olhasse para mim diria que tinha perdido a sanidade mental.

Senti-me tão contente que tomei a liberdade de pegar minha filha e ir até a casa de uma amiga- uma mulher a qual sabia que poderia confiar independente do que fizesse ou deixasse de fazer. Ela, naturalmente, não se agradou com o que fiz, e como sabia da surra a qual fui submetida por meu marido vagabundo, se ofereceu para ficar com minha filha para que ele não fizesse nada de errado com ela. Quando isso me bateu a consciência, resolvi deixa-la lá mesmo.

Depois de minha amiga ter dito que era melhor evitar deixar minha filha por perto para que meu marido não lhe fizesse nenhum mal, perguntei a mim mesma se ele já não teria feito alguma coisa, e meti a ideia na cabeça de dar um fim a vida daquele disgraçado. Empunhando uma pistola, segui até minha casa e ouvi ruídos estranhos vindos do andar de cima. Correndo fui ver o que acontecia e foi uma cena que mesmo nessa nota prefiro não descrever. O que interessa é que meu marido estava me traindo! Uma fúria demoníaca se apossou de mim, e acabei por matar os dois. Antes que desse o tiro em Dodson, ele me falou ainda uma coisa que foi decisiva para que estivesse aqui: Meus tios haviam pedido a ele que matassem meus pais, assim eles poderiam ter o comando sob a fortuna deles.

Foi essa mesma fúria que me levou a causar a morte memorável de minha lista de assassinatos. Convidei meus tios para um jantar em minha casa, e falei de pré-aviso a minha amiga que agora deveria cuidar de minha filha, pois certamente eu não iria mais voltar. Quando fui preparar o jantar, fui bem específica a colocar o sonífero mais forte que encontrei em todas as comidas que ofereci aos dois. Quando os dois chegaram, comeram a vontade, e rapidamente caíram no sono. Era a hora de agir!

Subi na casa com duas cordas e os dois sonolentos. Passei a corda no pescoço de cada um e lá de cima os joguei. Algum vizinho deve ter visto meu ato de enforcamento e chamou a polícia e aqui estou.

Desde já afirmo que nada do que fiz me envergonha. Muito pelo contrário, me orgulho de mim mesma, pois a infelicidade que passei em vida me fez ressurgir das cinzas e me vingar de forma majestosa. Temo que a única e infeliz vítima de minha vingança seja minha filha, e a ela desejo a melhor vida possível.

Anne Bishop

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