No Coffee

2 Professionalism


Abracei Remus, desacreditada de quanto tempo fiquei sem notícias dele, um dos meus melhores amigos na época do Ensino Médio, ainda que parte deles.

–Alguma coisa de bom em Chicago? — perguntei e Sirius riu, em malícia, óbvio.

–Sim, uma menina — ele sorriu envergonhado e eu soltei um feminino “awn”, sendo imitada pelo meu parceiro idiota.

–Você vai me contar mais ou eu terei que usar minhas táticas de interrogatório? — ele riu e começou a falar sobre uma loirinha que conheceu num almoço na lanchonete em que ela trabalha, dos pais dela. Seu nome era Dorcas e ele ficava todo bobo, sorrindo e suspirando. Mostrou uma foto dela no celular e disse que, em uma semana ela vem para NY conhecer a cidade.

–E seu apartamento, né, lobão?! — Potter disse, rindo sonoramente ante de se virar para mim — Seu latte, oficial Evans.

–Obrigada, Potter. — ele sorriu de orelha a orelha, por uma razão inexistente.

–Pode chamar de James. Sabe, vamos trabalhar juntos…

–Bom saber, Potter. Mas ainda é Evans. — Sirius e Remus seguravam os risos.

–Essa é minha parceira! Fria desde o primeiro ano do Médio, e ainda sim, desesperadamente linda! — eu revirei os olhos, mas acabei por sorrir de canto — Aleluia, eu estou arrancando um sorriso dessa ruiva! Dois anos de parceria e só vejo resultados agora!

–Profissionalismo, por favor, Black! Então, os nossos tanques estão cheios?

–--

O caminho estava estranhamente silencioso. Como fazemos há dois anos, o rádio era alterado em dias e, para minha felicidade eterna, hoje o dia era de Sirius. Não que ele ouvisse músicas ruins, não! Na verdade, nossos gostos eram bem semelhantes, o que era ótimo para a convivência. Mas a playlist que ele havia colocado tinha letras que simplesmente estavam confundindo cada neurônio meu. Não sabia se era proposital, mas todas elas se encaixavam, hora ou outra, no meu passado ou no exato momento.

Ainda estávamos na metade, quando minha cabeça começou a pesar. Estrada me deixa sonolenta e ele percebeu. Disse algo como “ruiva, pode dormir. Qualquer perigo, eu te acordo!”. Eu ajeitei meus óculos escuros e assenti, relaxando e deixando Morfeu me absorver em seus braços.

A partir desse ponto, a viagem passou bem rápida e eu só acordei com o carro parado e os três conversando do lado de fora, decidindo quem me acordaria.

–Estou desperta, covardes.

–Ah, que bom! — Remus suspirou — Não era medo de te acordar, Lil, era dó… Você estava parecendo uma criancinha dormindo, uma graça!

Eu ri e agradeci. Nossa, como eu gostaria de comer alguma coisa agora. Vasculhei a minha bolsa de sempre, tentando achar um chocolate, barrinha ou algo do tipo… Nada.

–Algum de vocês tem alguma coisa pra comer? — perguntei ao sair do carro.

–James comprou algumas coisas na loja, veja se algo te apetece… — disse Remus, sempre cortês — Estão no banco de trás da viatura.

Fui até lá e encontrei muitas besteiras: salgadinho, água, refrigerante, chocolates, balas fini… Uma sacola cheia. Abri um chocolate e comi. Estávamos na frente de uma floresta fechada, com uma trilha pouco visível. Pelo pouco que Sirius tinha me dito no carro, íamos em direção a uma cabana e ele já havia passado por lá, então o perigo era mínimo. Precisávamos de pistas e essa era, de longe, a parte do meu trabalho que eu mais gostava.

–Evans? Se quiser, eu levo a sacola na minha mochila… Vai saber o quanto teremos que andar, né?

–Ah, certo! — entreguei-lhe a sacola — Bem pensado, Potter. Importa se eu colocar meu celular aí também?

–Não, claro que não — ele sorriu pra mim e eu tirei o aparelho do bolso, estendendo para ele. Sirius e Remus analisavam aquele trecho da trilha e, por alguns instantes, ficamos nós dois isolados — Você realmente está linda, sabia? Faz mais de um ano que não te vejo, só ouço falar de você.

–É, bendita hora que você mudou a DP, não? — ele murchou um pouco, mas ainda estava todo confiante — Pare com isso, Potter. Não sou uma dessas que você joga uma cantada no bar e leva pra casa, você sabe.

–É eu sei bem. Eu não esqueci, Lily, não haja como se você tivesse.

–Potter, — eu o encarei — eu estou com 19 anos, quase 20. E você está com 20. Nós já nos formamos, trabalhamos e temos a própria vida. Eu estou cansada de você citando indiretamente algo que eu superei e esqueci, certo? Você também. Agora, por favor, não estrague o prazer que isso é pra mim e, já que temos que fazer isso juntos, colabore.

Ele sorriu de canto para mim, ignorando todo meu fantástico discurso de “Favor Desapegar”.

–Você ainda fica adorável mentindo, EVANS.

Bufei em raiva e ele ainda sorria. Sabe, esse sorriso despreocupado dele me irrita em níveis extremos. Porque há, sempre há, muita coisa pra se preocupar. Por exemplo, agora estamos no encalce de um serial killer, mas ele me olha e sorri como se o mundo fosse pintado de rosa.

–Por que você continua sorrindo, Potter?! — soltei, exausta.

–Não faço a mínima ideia… Isso só acontece perto de você.

Arrumei meu quepe e saí, sem mais olhar para ele. A partir desse ponto, começamos o trabalho sério. A trilha era escondida, mas não totalmente, o que nos fez conseguir seguí-la até uma espécie de chalé. Parecia totalmente abandonado, cenário de filme de terror, e mesmo que aquilo me assustasse muito, engoli todo o meu medo e continuei com o meu trabalho.

Nós entramos lentamente pela porta entreaberta, arma em mãos, caso ele ainda estivesse por ali. A neve tinha começado a cair do lado de fora, e ficava mais densa. Vasculhamos todo o lugar, que era pequeno, mas não havia ninguém. Pistas, por outro lado, nós conseguimos achar.

Remus coletou alguns fios de cabelo, eu vi marcas de sangue e pegamos amostras também, havia marcas na parede… O lugar era, realmente, perturbador. Era como mergulhar em um dos seus piores pesadelos e eu não via a hora de sair dali e voltar para a, ironicamente, segura Manhattan.

–Gente, eu vou fumar um cigarro ali fora, muito estresse aqui… Já volto — Potter anunciou e os meninos fizeram um sinal de ok, mas eu simplesmente ignorei. — Ei, alguém me ajuda com a porta? Está emperrada!

–Droga, Prongs, entra numa academia! — Sirius forçou, mas a porta não abriu, mais uma vez.

Fui até a janela e limpei com a mão o embaçado do frio, então entendi porque não abria: a nevasca havia piorado muito mais do que nós pensávamos e havia uma tonelada de neve do lado de fora.

–Parece que vamos ficar aqui um pouco mais do que o planejado — comentei, e eles vieram checar.

Eles suspiraram, bufaram e praguejaram. Nada que fosse nos tirar dali, na verdade, até que Potter teve uma brilhante lembrança e uma ideia que, tenho que admitir, foi boa.

–Lily! — levantei a sobrancelha e ele logo se corrigiu — Quer dizer, Evans! Seu celular está aqui, lembra? Nós podemos ligar para alguma ajuda aqui perto ou algo do tipo.

–Bom, eu não tenho o telefone de nada aqui perto, mas podíamos ligar para a DP e pedir para o chefe ver isso e nos tirar daqui… É uma ótima ideia, Potter… Nossa. — eu estava realmente perplexa, certo? Potter não é a pessoa mais esperta do mundo, não sabia que ele ia ter uma ideia boa.

Ele me entregou o celular e eu disquei para o pessoal do chefe mesmo, porque ligar na DP ia mobilizar muita gente antes. Ele gritou um pouco, mas assim que soube que estávamos preso disse “Ah, filha, estou ligando pra ajuda e indo a caminho!”, o que me fez sorrir. O homem foi parceiro do meu pai por anos, ele viu o meu pai nos seus últimos instantes… Quando ele se preocupa assim, simplesmente me faz orgulhosa de onde estou e do pai que tive.

–E então? — Sirius perguntou, assim que, após alguns minutos, eu desliguei.

–A ajuda vai demorar, pelo menos 3h… Isso se não for mais, pois parece que lá fora só piora.

–Então… — Remus se sentou encostado numa parede mais limpa — Estamos presos aqui por horas? Com uma sacola de gordices do James e só?

–Sim. — eu assenti. E, mal sabia, aquelas horas seriam torturantes por semanas na minha mente. Pois foram horas presas com James Potter.

Notas finais
Tenham um ótimo natal! xx