No Coffee
6 Holmes
Notas iniciais

–Bom, fiquem à vontade — eu disse, abrindo a porta e suspirando em alívio ao ver que o lugar estava arrumado — Eu vou tomar um banho rápido, podem montar o quadro, se quiserem.
–Eu tenho uma grande objeção sobre tudo isso! — Sirius resmungou mais uma vez — Eu ia vir pra sua casa para ficar com a Lene, não com um quadro!
–Tá, nós sabemos — Remus interviu — Se você quer tanto assim, pode nos abandonar, sem problemas…
–LENE! — ele gritou, sem deixar o amigo terminar e já indo pra parte de dentro da casa — Lene! Ô, catso… Cadê ela, Lily?
Subi os ombros para mostrar que não sabia também, mas logo achei um pequeno bilhete dela e estendi ao cabeludo que veio logo ver do que se tratava. Era bem típico da Marlene, na verdade, só dizia “Ensaio noturno da silhueta de Manhattan. Vai me dar muita grana, depois te conto direito. PS.: Diga ao Sirius para apagar o fogo no meio das pernas até eu chegar. xx”.
–Isso é um ultraje — ele suspirou e se jogou no sofá — Vai lá tomar banho, fogueta, eles vão arrumar tudo enquanto isso. — eu sorri em concordância e fui pegar minha troca de roupa antes de entrar no chuveiro quente.
(…)
–LILY! LILY! LILY! — ouvi uma voz incessante esmurrando a porta do banheiro, como se os robôs tivessem se virado contra nós e eu só pudesse me salvar saindo do chuveiro.
–Já vou! O que foi?! — agarrei a toalha e me enrolei, com os cabelos ainda pingando e gotas escorrendo pelas minhas pernas, mas o tom de urgência na voz de Remus era tão extremo que eu não arriscaria ter tempo pra me secar mais. Abri a porta, dando de cara com um rosto suado, com olheiras profundas e a veia da testa latejando. Sinceramente? Não o seu melhor momento.
–Nós… — ele tentou respirar — Encontramos… Um padrão!
–Remus John Lupin! Isso, realmente, não podia esperar até que eu estivesse vestida?! — minha raiva subiu e eu senti meu rosto se avermelhar, refletindo na expressão de pânico do meu amigo.
–Você vai querer ver isso… — eu estranhei aquele tom de voz, apertei os braços contra o peito, segurando bem a toalha e fui até a sala.
Minha sala parecia um quartel-general. O objetivo de sair da DP e rever o caso era uma atmosfera mais tranquila, fácil de trabalhar, mas aquilo era estressante e cheio de tudo. Sirius não estava ali, obviamente, estava no quarto da Marlene em um silêncio absoluto (e eu desejava que continuasse assim); haviam três notebooks na minha mesa de centro, um deles conectado com a televisão. No meu quadro, as fotos que eu havia guardado por anos tinham sido tiradas e empilhadas no balcão, dando lugar a anotações, nomes, figuras e muita linha ligando pontos. E, bem no meio de tudo isso, estava James Potter. Deitado de costas no chão gelado, sem o uniforme e usando uma camiseta que o Sirius havia deixado aí, o cigarro aceso e os olhos inertes. Ao sentir que nós estávamos ali, ele se levantou e encostou no meu sofá, ainda no chão. Olhou para o meu rosto e mordeu o lábio inferior, ainda que se controlando para não sorrir; ele me mediu por alguns instantes e eu não disse nada, continuava olhando para a imagem na televisão, algo que eu só tinha notado agora.
–O que é tudo isso?
–Uhn… Bom, nós, er — ele tentava colocar em palavras, explicar aquilo, mas não conseguia. Voltei meu olhar para ele, os olhos arregalados em ódio e ele suspirou — Coloca uma roupa pra eu poder me concentrar e te explicar, por favor? Aí você perde a linha e me xinga… Mas, sério, vai colocar uma roupa.
Eu me envergonhei e saí da sala em direção ao meu quarto. Abri meu armário e peguei meu moletom dos Yankees, assim como uma calcinha e um shorts jeans jogado. Nem coloquei sutiã e, sinceramente, eu não me importava: aquilo precisava ser explicado. Calcei meus chinelos e, no caminho, aumentei a temperatura no aquecedor. Afinal, era fim de ano e New York estava congelando lá fora.
–Okay, — comecei ainda antes de chegar no cômodo — eu saí por cerca de quarenta minutos e, quando eu volto, Sirius está no quarto com a minha amiga e vocês dois não só descobriram um padrão para o serial killer que estamos caçando há meses, mas também colocaram na televisão características sobre o meu pai, o trabalho dele, a minha irmã em reabilitação, a minha mãe e o meu padrasto, é isso?!
–Sente-se. — a voz dele estava profunda, como se estivesse em um funeral, mas sem toda a tristeza e compaixão.
Ele tinha em mãos uma xícara de chá recém-feito, pois Remus estava na cozinha despejando água em outras duas xícaras para eles. Durante o tempo que eu vi o meu pai trabalhar para a polícia e mesmo durante o tempo em que eu mesma trabalhei, eu nunca senti tanto medo do que estava vindo quanto eu senti quando olhei nos olhos de James Potter. Normalmente, eles eram castanhos e quase amarelos a luz do sol, mas eu os via negros e opacos naquele momento e era assustador. Então, eu me sentei. Bebi um pouco do chá, engolido também o remédio da minha enxaqueca e me preparei para a explicação. Mal sabia eu que nada me prepararia para o que estava por vir.
–Lily, olha… — ele se sentou à beira da mesa de centro, de frente para mim e com os cotovelos apoiados nos joelhos — Eu sinto muito pelo que nós vamos levantar agora, tudo bem? Mas eu preciso que você me escute e seja racional, não deixe a emoção te levar, não agora.
Eu assenti em sinal de que havia entendido, ao mesmo tempo em que eu via Sirius sair do quarto de Lene (completa e estranhamente normal) e se sentar ao meu lado, também sem saber porque tinha sido chamado.
–Nós identificamos um padrão nos assassinatos de Tom Riddle. Todas as vítimas são mulheres, como vocês já sabem, e a mais velha a ser morta tinha 21 anos. Nós identificamos, também, que todas as execuções são inspiradas em clássicos da literatura norte-americana e britânica. Ele está seguindo ordem alfabética nos seus autores favoritos. Agora, tem outra parte, uma um pouco mais difícil: ele planejou tudo isso faz muito tempo… Precisamente cinco anos em que as suspeitas começaram a aparecer, o nosso primeiro ano no Ensino Médio. Eu lembro de uma ou duas reportagens que saíram com algo relativo ao primeiro caso, que só foi acontecer três anos depois. A escolha das vítimas também data dessa época. Mais de 50% das vítimas relataram em alguma delegacia que achavam estar sendo seguidas, numa marca de dois anos antes do crime.
–Ele é um artista?! — eu interrompi a narrativa — Você está me dizendo, então, Potter, que o Riddle é um artista que traz assassinatos célebres para o mundo real?
Ele assentiu em silêncio absoluto e Sirius bufou, jogando o peso do corpo para trás. Remus bebeu mais um pouco do chá e eu observei o quadro e dois dos computadores, um aberto em arquivos de emissoras e jornais e, o outro, aberto em cerca de 5 fichas de professores, todos com feições parecidas, mas com nomes e origens completamente diferentes. E, entre todos, um não me parecia muito estranho.
–James Potter, — ele me olhou de um modo como se já soubesse o que eu ia dizer — O que a minha família e eu temos a ver com essa história? E não me poupe.
–Lily Evans, você se lembra qual era a sua primeira opção para o futuro, faculdade e tudo isso?
–Claro que sim, era Literatura.
–E você se lembra como, no primeiro ano, te colocaram em uma turma avançada de Literatura e você, ainda sim, era a primeira da classe? — eu assenti, já não querendo continuar aquela conversa. Ele também parecia não querer — Em que ano seu pai morreu?
–No meu segundo ano do Ensino Médio… Pouco antes de eu decidir me tornar policial — ele assentiu, pegando um papel e me entregando, enquanto eu lia a ficha do meu pai.
–Ele sabia que você não estava segura. Ele morreu na cena de um assassinato extremamente romântico, Lily… E o suspeito nem mais lá estava quando aconteceu. Eu achei isso no arquivo do seu pai, outro dia quando estava pesquisando na DP — ele me entregou um pequeno bilhete, amassado e com marcas de sangue seco. Eu reconhecia a folha, era do bloco de notas que meu pai carregava consigo. As palavras estavam rabiscadas e trêmulas, mas eu conhecia aquela caligrafia bem e podia ler facilmente “Mantenha Lily a salvo”.
–Ele era o seu professor no primeiro ano, Lily — Remus falou dessa vez — E, no segundo, ele mudou de escola e, supostamente, de cidade. Mas nós não compramos isso… Ele estava fazendo a sua pesquisa de campo, e o padrão fala por si só. Não sabemos quando, mas nós sabemos que vai acontecer.
Sirius passou o braço por mim, pressionando meu corpo contra o seu, mas eu estava atônita. Aterrorizada, furiosa e confusa demais. Olhei para James, à minha frente e tentei lembrar se algo suspeito tinha acontecido naqueles anos e eu havia perdido. Não parecia que tivesse, mas ele estava tão convicto, tão certo de que eu corria perigo, era quase possível ver a tensão exalando do seu corpo.
–Precisamos falar com o chefe, Lily. — Sirius disse e eu assenti. Então eu tomei forças e falei algo, finalmente, mesmo que com a voz fraca e a face pálida.
–Amanhã. Nós vamos falar com ele amanhã. Nós podemos usar isso a nosso favor, não? Podemos finalmente prender esse homem…
–Talvez. Não se for para colocar você em risco.
–Isso é uma decisão minha, Potter. — a frase saiu com bem menos convicção que o planejado, quase um sussuro, e ele suspirou.
–Achei mesmo que você fosse responder algo do tipo, sabe, ser a heroína… Nós vamos ver isso tudo amanhã, tá? Agora você realmente precisa dormir e…
–Não, — eu interrompi – não vão embora, por favor. — A questão é que, mesmo parecendo uma criança assustada, eu precisava falar aquilo. Não queria ficar sozinha, tinha medo de estar ali com Lene e algo acontecer a ela, eu estava com medo de dormir… Eu simplesmente não podia ir para cama como se nada tivesse acontecido logo depois de saber que tem um serial killer, o mesmo que impediu meu pai de o achar, querendo me matar.
–Lily, Dorcas está no apartamento sozinha… Eu não posso deixá-la mais tempo lá, já é bem tarde.
–Não, claro, eu… Eu entendo, Remus, pode ir. Não a deixe sozinha, pobre coitada — eu dei um risinho e ele veio até mim. Abraçou-me com força e me deu um beijo na testa. — Não se preocupe, nós daremos um jeito.
Ele se foi e Sirius me lembrou que ele iria ficar. Eu sorri por um instante, mas de repente me pareceu muito injusto privá-lo de ficar com a Lene, afinal, ele não vinha todos os dias para cá e ela tinha horários loucos.
–Pode ficar com a Lê, Sirius… Eu faço um chá, fico na sala até cair no sono. — ele tentou discutir comigo, mas eu mandei ele sair dali, então ele fez o mesmo que Remus e entrou de fininho no quarto, murmurando um audível “Desculpa, Lê… Vamos conversar, vai”.
–Somos só nós dois, então, até você me mandar embora, tá? — ele disse e eu assenti — Vou pegar mais chá para você… Pode tirar isso tudo da mesa e desocnectar o computador, por favor. Coloca em alguma série, algo que te faça rir, Lily.
Eu tirei tudo muito rápido e liguei a televisão, tentando achar entre gravações algo que eu realmente quisesse ver. Abri a oitava temporada de How I Met Your Mother, salva no meu pen drive, e selecionei para reproduzir todos. James voltou com mais uma xícara e sentou no sofá, nem tão longe e nem tão perto. Mas eu estava desprotegida, eu me sentia com 15 anos e sem pai de novo, então deslizei para perto dele, que me olhou, sorriu fechado e abriu o braço. Eu entrei no abraço dele e apoiei a cabeça em seu ombro. Instintivamente, eu deixei que lágrimas caíssem. Não solucei, não fiz barulho, apenas deixei que meu corpo manifestasse tudo que eu estava sentindo naquele ato. Ele me apertou mais, realmente me segurou, e também me deu um beijo na testa.
–James, — ele murmurou “hun?”, me encorajando a falar — Por favor, não me abandona. Fica aqui, nem que seja por hoje, cuida de mim, porque eu não sei se estou bem.
–Eu nunca vou te abandonar, Lily Evans. Nunca mais vou te deixar sozinha, eu prometo. Nada vai te acontecer, tá? Eu estou aqui.
Ele repetiu a última frase mais uma vez e eu chorei mais um pouco. Porque ele estava ali, realmente estava, e eu acreditava naquilo: que nada iria me acontecer enquanto ele estivesse ali.
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