No Caos Do Inferno
1 Cidade do Tártaro
Passo a passo, vou andando até chagar ao fim, uma rua sem saída, um beco escuro nas ruelas de uma cidade podre.
A cidade que faz a mais pura criança se corromper, e a pessoa mais honesta ludibriar.
Como vim parar aqui?
Essa cidade me persegue, sua capital sou eu. Ódio, dor e solidão são o capital de lucro dessa merda.
Ladrões, assassinos, corruptos, traficantes, estupradores, pedófilos, mafiosos e todo esse tipo de gentinha se encontram aqui.
A cada esquina, a cada viela, a cada passo dado nessa porra uma parte de sua alma é corrompida.
Esse é o lugar que muitos conhecem como inferno, mas já posso apelida-lo de minha casa.
Aparentemente depois que se entra não há mais como voltar a "superfície", à alegria que te leva a ela é tomada de você.
Bem vindo ao tártaro.
Depois de anos vivendo aqui, parei de especular o motivo de minha vinda, ainda assim, me intriga o fato de no ápice de minha euforia vir parar nesse abismo.
Há alguns anos, estava prestes a me casar, eu, pelo menos, pensava que tinha bons motivos para isso. Já estava com a idade avançada. E bem, acho que aquilo que eu sentia podia ser chamado de amor.
Eu estavá feliz, eu sentia alegria em estar vivo.
Com o passar da mais alguns anos, doze ou treze, não me recordo muito bem, eu havia conseguido um saudável primogênito. E, juntamente a isso, uma promoção no emprego. Não era grande coisa, eu nunca gostei de trabalhar lá, mas o dinheiro extra que estava vindo era de grande ajuda para cuidar de uma criança.
Bom, o tempo foi passando, sem grandes acontecimentos em minha vida monótona, já me encontrava com quarenta e cinco anos, se me recordo com clareza.
Havia alcançado o posto de vice-presidente da porcaria da empresa em que trabalhei a merda da minha vida inteira.
Meu filho estava a completar quinze anos, quando minha esposa resolveu verificar os motivos das faltas sem explicação na escola do garoto, e o sumiço de dinheiro e jóias pela casa.
Baterias de exames, vários dias gastos em psicólogos e psiquiatras, clinicam de reabilitação. Essa é, com certeza, a pior coisa que um pai pode presenciar sobre o seu filho. Mas, eu ainda tinha esperança em sua melhora, continuei a trabalhar, firmemente para poder bancar os gastos de meu querido filho.
E finalmente tivemos êxito, sua reabilitação foi um sucesso, minha alegria retornara, e eu tinha o meu filho de volta! Errado.
O desgraçado me culpou por tudo, "não me apoiou, não se importou, nem ao menos veio me visitar, me largou no inferno sem amor!".
Eu dei minha vida por você, miserável, mal-agradecido!
Como se não bastasse, em menos de um ano, apenas um misero ano, ele retornou aos narcóticos. Uma decepção como filho, meu maior desejo era deserdar o garoto, joga-lo no mundo! Ele mal havia completado dezoito anos. Minha esposa passava a mão na cabeça do maldito. "Isso é só uma fase", ela dizia. Bom, percebemos que não era.
Com o tempo apenas piorou, e piorou. Ele começou a vender os móveis, eletrônicos e eletrodomésticos da casa para bancar o vicio, mas eu não podia fazer nada, pois a "fase" ia passar.
Bom, vejo que estou enrolando demais nessa história. Mas é inevitável, algo tão estupido me prendeu aqui nessa cidade, em um corpo juvenil, e imortal. Sim, imortal, as pessoas que entram aqui, viveram aqui para sempre, são fadadas a sofrer, viver no abismo de sua infelicidade, lembrar dos momentos que o fizeram parar aqui. Não, aqui não é o purgatório, não iremos ao céu depois de pagarmos um tempo aqui. Quem entra aqui, aqui ficará até o fim dos tempos.
Bem, é fato que todos pensam que um mundo sem morte seria as mil maravilhas, é porque não vivem aqui, isso mesmo, não importa o que você tente você não ira morrer. As várias tentativas de suicídio, que são cometidas ou assistidas aqui, já viraram rotina. A pessoa, depois de um tempo, simplesmente levanta e sai andando normalmente. Como se nada houvesse acontecido. Depois de um tempo até se torna engraçado.
Bobby, um conhecido, tenta uma nova maneira de se matar todas as terças, maneiras hilarias já foram presenciadas. Mas ainda, não teve sucesso, e ninguém aqui tem esperanças de que ele conseguirá.
Enfim, me distrai, peço perdão por isso, mas continuando.
Em uma manha, resolvemos fazer uma viagem, apenas eu e minha esposa. É claro, depois de mais uma ou duas clinica achamos que nosso filho estava curado, finalmente.
A viagem foi ótima! Vários pontos turísticos, muita dança e cultura local, passamos por quase toda a América do Sul e partimos para a Europa! Foi a viagem dos sonhos, isso nos aproximou muito, nós éramos quase como recém-casados em lua-de-mel! Fora que o sexo nunca havia sido tão bom!
Brincadeiras a parte, retornamos renovados, como se não tivéssemos problemas!
Mas, como diz o velho ditado "Tudo que é bom dura pouco", nossa casa estava limpa, sem móveis, sem nada, apenas uma bagunça infernal de lixo, papéis, cachimbos feitos com latinha de bebidas, e um cheiro insuportável no ar.
Depois disso, não me recordo, com clareza, do que aconteceu. Apenas sei que naquele dia, meu filho e minha esposa morreram.
Foi minha causa? Provavelmente.
Esse corpo no qual vivo hoje é idêntico ao meu falecido primo gênito, se não for o do próprio.
A lembrança do momento desapareceu, apenas sei que eles estão mortos, é impossível lembrar.
Uma memória falha pode ter feito eu parar nesse inferno, essa cidade sem lei.
A juventude recuperada no corpo de um garoto drogado não torna isso menos doloroso, um lugar sem morte, um lugar sem velhice é um lugar onde não a respeito pela vida, onde não a respeito por si próprio.
Sei que minha história não é tão dramática quanto a de algumas pessoas que também vieram parar aqui, mas causa a mesma dor que a pior delas, e não saber o que de fato ocorreu aquele dia, torna pior suportar os dias nessa vala.
Rezo por você, rezo por sua alma, rezo para que nunca venha parar nesse lugar.
Abismo, tártaro, travas ou inferno, chame do que preferir, apenas prepare sua alma caso tenha passagem para viver aqui.
Fale com o autor