No Body, No Crime
1 I wasn't letting up until the day he died!
Notas iniciais
Como vocês estão? Eu estou bem, apesar de um pouco atarefada ksksks.
Bom, como hoje é halloween, trouxe mais uma história temática, a terceira desse ano.
Eu amo escrever histórias com base em músicas da Taylor, e desde o ano passado eu tenho uma ideia de escrever algo baseado na música No Body, No Crime, que por sinal é do meu álbum favorito, o Evermore.
Desde o início dessa ideia eu só pensava na Sam e na Jade para ilustrarem essa história, principalmente porque o Beck era um namorado terrível e só agora estamos tendo consciência disso, não é?
Mas enfim, o fato é que eu consegui colocar essa ideia em ação! E o resultado está aqui. Eu particularmente gostei muito, não sou acostumada a escrever histórias desse gênero mas foi simplesmente incrível me desafiar!
Mas preciso alertá-los que a história contém conteúdo sensível, logo, se você tiver algum tipo de gatilho com esses temas, eu sugiro que não leia, tem muitas outras histórias no meu perfil que podem ser melhores nesse momento.
Bom, já falei demais. Vou deixá-los ler agora! Mas por favor, leiam as notas finais. Ok? ♥ ♥
Boa leitura amados!

Foi ele
He did it!
Foi ele
He did it!
“Estamos aqui no Lake Washington onde um corpo foi encontrado há poucas horas. A vítima, identificada como Jadelyn Christina West Oliver, estava desaparecida há duas semanas e uma campanha de busca incessante se iniciou desde então. A polícia suspeita de feminicídio; uma vez que o corpo apresentava diversas marcas de golpes de faca. Voltaremos quando forem liberadas mais notícias, eu sou Jane Everett para o Seattle News.”
Jade é uma amiga minha
Este's a friend of mine
Nós nos encontramos toda terça à noite para jantar
We meet up every Tuesday night for dinner
E beber uma taça de vinho
And a glass of wine
Jade anda perdendo o sono
Este's been losing sleep
O marido dela está agindo diferente
Her husband's acting different
E isso cheira a infidelidade
And it smells like infidelity
08 de outubro de 2024
O batom traçava uma linha rosa celeste à medida em que eu o passava em meus lábios. Assim que finalizei, soltei o meu cabelo, apenas dando uma amassada nos cachos das pontas, e voilá; estava pronta! Nunca fui de gastar muito tempo me arrumando, sempre preferi destacar o que a natureza já havia me dado, e sendo sincera, eu preferia assim, era bem mais prático e rápido.
Sorri, satisfeita com o resultado, e apaguei as luzes do banheiro.
—Amor, já estou indo. -disse para Freddie quando cheguei à sala, desviando a atenção dele que há poucos segundos estava focada no jornal de economia que passava na TV.
Ele olhou para mim; um sorriso de lado que eu conhecia muito bem se fazendo presente no canto de sua boca.
—Ok, nossa amor… como você está linda!
Sorri e fui de encontro a ele.
—Obrigada, querido. — me curvei para dar um selinho rápido em seus lábios. -Volto no mesmo horário.
—Ok, se divirta e manda um abraço pra Jade.
—Pode deixar.
Me virei mas não resisti e o roubei mais um selinho antes de finalmente abrir a porta, e assim que a fechei, pude ouvir suas risadas do outro lado, inevitavelmente não consegui evitar rir também.
{...}
Quando cheguei ao Olive Garden, estacionei minha moto na vaga de sempre, guardei o capacete no bagageiro e adentrei o restaurante. Eu gostava muito daqui, o clima é bem aconchegante, um pouco rústico, tocava músicas boas e a comida simplesmente fascinante! Não demorei muito para encontrar Jade sentada em uma das muitas mesas que haviam no canto, ao lado da janela.
—Sempre pontual. -disse, como forma de cumprimentá-la, quando me aproximei.
Eu e Jade nos conhecemos desde o jardim de infância, somos melhores amigas desde sempre e nossa ligação era equiparada a de irmãs! Passamos por muita coisa juntas, e quando ela voltou para Bothell, após se formar, se tornou uma tradição nossa nos encontrar toda terça para jantar no Olive Garden, (foi ela que me apresentou esse lugar incrível, inclusive) foi a forma que encontramos de não deixar a correria da vida adulta interferir em nossa amizade e na proximidade que sempre tivemos e se manteve intacta mesmo quando ela passou quatro anos fora estudando artes cênicas.
Jade é uma das pessoas mais importantes da minha vida, eu a amo como uma irmã, e sempre será assim!
—E você sempre atrasada! -ela retruca, enquanto termina de retocar o batom vermelho e me encara assim que fecha o espelho para guardá-lo na bolsa.
—Ei, eu não estou atrasada! Saí até cinco minutos mais cedo…
—Marcamos sete e meia e já são oito e dez…
Revirei os olhos, eu tinha certeza que ela me disse oito e dez!
—Por que eu sempre esqueço o horário certo?
Ela dá de ombros para a minha pergunta. Um garçom se aproxima e nos entrega dois cardápios.
—Acho que vou pedir frango grelhado com salada de agrião… e você, Sam?
—Vou de lasanha a bolonhesa e presunto marinado no vinagre.
O garçom anotou nossos pedidos e em seguida nos perguntou o que iríamos beber, pedimos o de sempre; vinho cabernet sauvignon tinto.
Assim que nossos pratos chegaram, começamos a comer enquanto conversávamos descontraídas. Jade me contou um monte de coisas do trabalho dela, e eu também.
—E você e o Freddie, como estão?
—Estamos bem, cada dia melhor! A propósito, ele te mandou um abraço.
Ela sorriu.
—Manda outro pra ele. E sobre aquilo… deu certo?
Larguei os talheres no prato e desviei o olhar, já tem um tempo que Freddie e eu tentamos ter um filho, o nosso maior sonho é formar uma família! Mas, por algum motivo, não conseguimos. Começamos a planejar dois anos depois do casamento e já estamos casados há cinco anos e até agora, nada. Já até fizemos diversos exames e ao que tudo indica, nós dois temos capacidade baixa de reprodução. Mas apesar disso, os diversos médicos que nos atenderam disseram que não é impossível termos um bebê. E após pensar e conversar muito, estamos passando a considerar a hipótese da fertilização in vitro, mas Freddie se preocupa com os efeitos colaterais que eu posso ter; uma vez que no início do tratamento eu teria que ingerir um monte de hormônios e outras coisas, e não era uma garantia de que o meu corpo iria reagir bem a isso.
Essa era a nossa maior tristeza!
—Não, minha menstruação veio, como sempre. -percebi que minha voz vacilou um pouco- Mas, estamos conversando sobre fertilização in vitro.
—Vou torcer pra dar certo, amiga.
—Obrigada.
Sorri e dei mais uma garfada no meu presunto.
Jade deu uma bebericada no vinho e agora quem estava com o olhar longe era ela. Me pus a observar a minha amiga com mais atenção; por trás da impecável maquiagem que usava, ela parecia abatida, e seus olhos estavam inchados, como quem chora ou não dorme por muitas horas. Franzi a testa, não é normal ver Jade assim, ela nunca foi do tipo que se chateia ou se abate com facilidade… logo, me preocupei.
—Jade… -tentei chamar sua atenção, e ela me olha novamente. -Está tudo bem, amiga? Você parece… triste e chateada.
Ela arregalou um pouco os olhos e abaixou a cabeça, certamente não esperava que eu a fosse questionar. Um silêncio paira sobre nós até que ela volta a me olhar.
—Eu acho que o Beck está me traindo!
Engasguei com a comida.
Como assim?
Beck sempre aparentou ser um marido perfeito, mesmo na época em que eles namoravam, eu acompanhei esse relacionamento desde que ele começou.
—Por que você acha isso?
—Porque… ele está agindo diferente, muito diferente!
Ela diz: Aquele não é o meu merlot na boca dele
She says, that ain't my merlot on his mouth
Aquelas joias não são as minhas na nossa conta conjunta
That ain't my jewelry on our joint account
Não, não há dúvida
No, there ain't no doubt
Eu acho que vou expô-lo
I think I'm gonna call him out
—Beck não bebe vinho, ele detesta. Mas semana passada chegou em casa com hálito de um, um merlot seco… e o único tipo de merlot que entra lá em casa é merlot tinto, eu detesto vinhos secos! -fez uma pausa e respirou fundo- E não é só isso, eu andei checando o extrato da nossa conta conjunta e lá aparece algumas joias que não são minhas… são coincidências demais para serem apenas coincidências!
Terminei de ouvir seu desabafo… eu não esperava por aquilo, nunca passou pela minha cabeça que algo do tipo pudesse estar acontecendo.
Deixo escapar um suspiro baixo e seguro as mãos trêmulas da minha amiga, ela está se esforçando para não chorar, de novo.
—Sinto muito, Jay… se eu puder te ajudar de alguma forma, por favor me fala, eu não aguento te ver assim!
Ela sorri fraco, e aperta a minha mão.
—Obrigada… mas não precisa fazer nada, eu é que vou fazer. Vou investigar melhor, reunir provas mais concretas, e finalmente, pedir o divórcio! E quando isso acontecer, vamos eu, você, a Carly e a Cat tirar umas férias para comemorar! O que acha?
—Parece ótimo! Que tal um verão em Los Angeles? Podemos visitar a rua que funcionava a Sunset Strip e o pier de Santa Mônica.
A morena bateu palmas.
—É isso que eu chamo de férias perfeitas! E depois podemos esticar até o Tennessee para visitar Graceland também, só fui uma vez e quando eu tinha dezessete anos…
—Acho ótimo, amiga!
—Então vamos fazer um brinde a essas férias perfeitas que apesar de ainda não existirem, já são as favoritas de toda a minha vida!
Sorrimos e batemos as nossas taças, bebendo o conteúdo quente delas em seguida.
Ela diz: Acho que ele fez isso, mas simplesmente não posso provar
She says, I think he did it, but I just can't prove it
Eu acho que ele fez isso, mas eu simplesmente não posso provar
I think he did it, but I just can't prove it
Eu acho que ele fez isso, mas eu simplesmente não posso provar
I think he did it, but I just can't prove it
Não, sem corpo, sem crime
No, no body, no crime
Mas eu não vou deixar isso de lado até o dia em que eu morrer
But I ain't letting up until the day I die
Pagamos a conta e fomos juntas até o estacionamento, ainda rindo e conversando.
—Bom Puckett… eu vou indo nessa! -Jade vestiu o casaco branco novamente e abriu o carro com a chave, fazendo um barulhinho característico do automóvel- Até a próxima terça.
Ela estava prestes a entrar no carro e eu estava prestes a dar as costas quando sentia que não ia conseguir descansar se não a aconselhasse sobre algo que eu considerava importante.
—Espera, Jade… -ela voltou sua atenção à mim -Eu te apoio em tudo o que você fizer! Só, tenha cuidado, tá? Você acabou de descobrir um lado do Beck que você não conhecia… tenho medo dele fazer mais alguma coisa.
Ela sorri de lado e me abraça.
—Não precisa se preocupar, baixinha… eu sei que você tem um grande instinto materno mas não precisa usar ele comigo, ok? Eu sei me cuidar muito bem, e ele não vai ser nem louco de ousar fazer mais alguma coisa, eu ainda sou faixa preta em jiu-jitsu!
Nos separamos do abraço.
—Tudo bem então… mas me mantém informada?
—Mantenho sim! Eu juro Sam, vou descobrir toda a verdade, e me vingar de uma forma que ele nunca mais vai esquecer!
Dessa vez sou eu quem a puxo para um abraço.
—Até mais, West.
—Até mais, Puckett.
Nos separamos novamente do abraço e eu a observo sair com o carro antes de pegar a minha moto para enfim, ir para a casa também.
(Não, não)
(No, no)
Eu acho que ele fez isso
I think he did it
(Não, não)
(No, no)
Ele fez isso
He did it
—Não sei… porque…ainda…insistimos em tomar… banho juntos. -disse, enquanto ofegava.
Freddie apenas olhava para mim com um sorriso sacana nos lábios. Era sempre assim quando eu dizia algo do tipo, e eu vinha dizendo muito ultimamente porque os banhos a dois têm sido uma prática cada vez mais comum entre a gente. E, claro, a última coisa que fazíamos era tomar banho… é por isso que a conta de água tem vindo cara, pelo menos dinheiro não é um problema para nós.
—Não me diga que não gosta porque eu não vou acreditar, -me deu um selinho rápido e me colocou no chão — sua boca diz outra coisa.
Ri, enquanto ele me virava de costas e logo senti ele ensaboando meu cabelo e massageando o meu couro cabeludo. Fechei os olhos e decidi aproveitar e me concentrar naquela massagem que o meu marido estava fazendo, ele sabe exatamente todas as formas possíveis de me agradar… me pergunto se é possível eu me apaixonar ainda mais por esse homem a cada dia.
Quando ele terminou de lavar o meu cabelo, o prendeu com um prendedor -que eu deixava lá no banheiro para usar especialmente no banho-, e começou a lavar o meu corpo, suspirei quando ele chegou nas partes íntimas, “mas que droga”, pensei.
—E como vão as coisas lá no trabalho?
Resolvi puxar assunto antes que ele percebesse minha reação e trocasse a esponja pelos próprios dedos.
De novo.
—Vão bem, agora estamos pensando em começar um projeto que ensina programação para crianças que não tem condições de pagar pelas aulas.
Sorri. Freddie trabalha em uma empresa de softwares bem popular de Seattle, e têm se destacado cada vez mais. Eu me orgulho tanto dele!
—Que bom, amor. Espero que esse projeto dê certo, vocês vão poder ajudar muitas crianças.
—Sim, eu também.
Ele me deu um beijo na testa quando terminou de me banhar. E em seguida, eu repeti nele todos os gestos que ele havia feito em mim. Como eu fui agraciada com uma altura baixa ao nascer, ele precisou se abaixar para que eu conseguisse lavar e massagear seu cabelo, e em poucos minutos, terminei de banhá-lo. Dei um beijo em seu pescoço e ouvi o chuveiro sendo desligado.
—Amei o banho, cuteness.
—Também amei, nerd.
Selamos nossas palavras com um beijo demorado e em seguida nos separamos. Eu soltei o cabelo, o enrolando em uma toalha. Usei outra para me enxugar e depois vesti o roupão, Freddie a essa altura já havia deixado o banheiro, ele não gosta muito de usar roupão então voltou para o quarto assim que terminou de se enxugar.
Quando voltei para o quarto, ele estava no telefone pedindo comida. Me dirigi até a penteadeira para secar meu cabelo, mas ao notar meu celular ali, não resisti a tentação de pegá-lo para, pelo menos, checar se havia mensagens; o dia havia sido corrido e eu não tive muito tempo de mexer nele.
No entanto, assim que o desbloqueio, levo uma surpresa que faz minhas sobrancelhas se arquearem e meus olhos se arregalarem:
“Amiga… minhas suspeitas foram confirmadas!”
“Beck realmente está me traindo, e o pior; com uma vadia de quinta que vivia se jogando pra cima dele no ensino médio.”
Jade não estava lá
Este wasn't there
Terça à noite no Olive Garden
Tuеsday night at Olive Garden
No trabalho dela ou em qualquer outro lugar
At her job, or anywhеre
Ele relata o desaparecimento de sua esposa
He reports his missing wife
E eu percebo quando eu passo por sua casa
And I notice when I passed his house
Seu caminhão tinha pneus novinhos
His truck has got some brand new tires
Terminei de passar o batom nos meus lábios e soltei o cabelo, libertando meus cachos do coque e em seguida saí do banheiro. Peguei minha bolsa na poltrona e entrei na sala, sorri quando vi Freddie cozinhando, pelo cheiro parecia ser macarronada.
Sorrindo, fui até ele.
—Já vou, meu amor.
Dei um selinho demorado em seus lábios quando ele se virou para me encarar, senti suas mãos em minha cintura; ele amava fazer isso desde que começamos a namorar, ainda na adolescência.
—Ok, manda um abraço pra Jade.
—Mando sim. Até mais tarde, baby.
—Até, cuteness.
Demos mais um selinho, dessa vez rápido, e eu saí.
{...}
Dessa vez eu fiz questão de sair meia hora antes de casa, conferi o horário que a Jade me passou mais de cinco vezes até ter certeza que era mesmo às oito e dez. Mas, quando cheguei ao restaurante, não a vi, o que é estranho porque Jade sempre faz questão de chegar mais cedo aos lugares, ela é uma das pessoas mais pontuais que eu conheço! Mas, resolvo não esquentar muito a cabeça, as vezes é normal um atraso. Peço uma água e a aguardo.
Chequei o relógio novamente… agora já eram quase nove horas e até agora nada da minha amiga chegar… sentindo a preocupação tomar conta de mim, pego meu celular a fim de mandar uma mensagem.
“Amiga, você já está vindo??” 20:50
“Olha, se tiver acontecido alguma coisa que tenha te impedido de vir é só me falar, não precisa se acanhar, eu nunca ficaria brava com você por causa disso! 21:00
“Jade… tá tudo bem?” 21:20
“Jade, amiga, me responde por favor! Eu estou morrendo de preocupação!” 22:10
—Com licença, senhora, já sabe o que vai pedir?... senhora?
Olho para o lado e vejo o garçom, nem tinha notado sua presença.
Eu adoraria pedir alguma coisa do delicioso cardápio deles, no entanto o nervosismo e a preocupação que eu estava sentindo formaram um bolo no meu estômago, a minha fome havia desaparecido completamente. Fora que, a essa altura, já era claro que Jade não viria
—Não, obrigada. Vou querer a conta, por favor.
O rapaz assentiu e se retirou.
Olhei para o celular novamente, ainda esperançosa… e nada.
Pelo menos as mensagens haviam sido enviadas, tenho certeza que amanhã quando eu acordar ela já vai ter me respondido!
{...}
Freddie falava animado sobre algo relacionado ao projeto que a empresa onde ele trabalha está fazendo, mas eu não consigo prestar atenção em nenhuma palavra do que ele fala. Tomo mais um gole do meu café, enquanto tento disfarçar o nervosismo que eu ainda sentia. Mas tarde demais, meu marido já tinha percebido, ele parou de falar e me olhou atentamente; como ele sempre fazia quando notava algo de diferente em mim.
—Amor… está tudo bem? Você mal tocou no prato e está com o olhar tão perdido… aconteceu alguma coisa?
Respiro fundo e suspiro, fechando os olhos brevemente.
—É a Jade… ela não foi ontem no Olive Garden. Eu cheguei a mandar mensagens pra ela, mas ela não me respondeu, então pensei que ela me responderia até hoje de manhã, mas nada… ela nunca fez isso, Freddie! Eu estou preocupada… muito!
Ele ergue as sobrancelhas.
—Nossa, que estranho…
—Pois é… ah, Freddie, eu sinto medo só de pensar no que pode ter acontecido com a minha amiga!
Suspiro, e eu sinto ele se levantando e se agachando ao meu lado para me abraçar.
—Calma, amor, vai ficar tudo bem. Tenho certeza que ainda hoje, quando você menos esperar, vai receber uma mensagem ou ligação dela!
—Ah, amor… eu espero que suas palavras sejam verdade!
O aperto ainda mais no abraço e sinto suas mãos acariciando minhas costas e meus cabelos.
{...}
As horas se passaram, lentas e arrastadas. Fui para o trabalho, -meu ateliê pessoal-, terminei um quadro que estava encomendado para a próxima semana, organizei as tintas novas que chegaram, e atendi alguns clientes de forma online. No entanto, quando chegou o horário de almoço, eu não aguentei, e resolvi ir embora sem planos de voltar naquele dia. É essa a vantagem de ser sua própria chefe; ninguém manda em você além de você mesma!
Eu havia acabado de virar a placa “aberto” para “fechado” quando ouvi meu celular tocar.
“Oi, Sam.”
Era Carly, a irmã mais nova da Jade e uma grande amiga minha também.
“Oi Carly, e aí?.”
Ouvi um suspiro do outro lado da linha.
“Você tem notícias da Jade? Acabei de saber que ela não foi ao trabalho hoje, e ela não responde nenhuma mensagem que eu mando…”
Senti meu estômago gelar novamente, e todas as sensações que conseguiram ser entorpecidas pelas ocupações do trabalho voltaram com tudo.
“Na verdade eu não tenho, Carly… ela não foi ao Olive Garden ontem e também não responde as minhas mensagens… eu estou muito, mas muito preocupada!”
“Eu também estou… eu juro, Sam, se ela não aparecer em vinte e quatro horas, eu vou na polícia! Ela nunca sumiu assim…”
“Se você for a polícia me avisa, que eu vou junto! Mas vamos torcer para ela aparecer em breve.”
“Vamos sim. E pode deixar que eu te aviso. Tchau, Sam.”
“Tchau.”
Desliguei o celular, o guardando de volta ao meu bolso, e após retomar meu fôlego, visto novamente meu casaco e enfim saio do ateliê, sentindo o vento frio do meio dia bater em meu rosto.
Almocei no lugar de sempre; um restaurante que tem em frente ao ateliê, e como não estava conseguindo comer praticamente nada, pedi apenas uma sopa de tomate com frango e um copo d’água.
Ao sair do estabelecimento, resolvi passear um pouco pela cidade; Bothell é tão pequena, e mesmo assim eu não tenho o costume de prestar muita atenção nela… talvez seja pela minha cabeça estar a mil, quando queremos nos distrair, prestamos atenção até mesmo em coisas que nunca pareceram tão importantes para nós.
Quando dou por mim, estou ao lado de uma banca de jornais, -a única da cidade-. Sorri, me lembrando de que Jade e eu sempre vínhamos aqui na época da escola, ela para comprar revistas de cinema, e eu para comprar HQ 's. Decidi entrar, nem que fosse apenas para olhar tudo e ir embora depois.
—Boa tarde, senhora Benson, o que vai querer levar hoje?
Senhora Simmons, a dona da banca, me pergunta.
—Não sei… tem alguma sugestão?
—Se bem me lembro você gostava das revistas em quadrinhos, mas infelizmente estamos em falta hoje. O que acha das revistas de moda? -faço uma cara de nojo e ela ri, percebendo- Tudo bem… olha, ontem chegaram algumas revistas de artes plásticas, o que acha?
Sorrio involuntariamente.
—Pode ser, quanto são?
—Cinco dólares cada.
—Vou levar três.
Ela assente e avisa que vai embalar. Enquanto isso, dou uma olhada no lugar, tanta coisa mudou por aqui… e ao mesmo tempo continua tão igual. As paredes brancas, estantes azuis… agora eles também vendem livros e algumas coisas eletrônicas como fones de ouvido e carregador. Desvio meu olhar para a bancada, onde eu estava com os braços apoiados, vejo que o jornal do dia está ali e apesar de não gostar muito de ver notícias, resolvi abri-lo, faz tempo que não leio o jornal da cidade.
—O jornal é duas pratas.
Ouço a voz da senhora Simmons me avisar, quando volta já com as revistas embaladas. Pago as revistas e o jornal e saio do estabelecimento. Decidi atravessar a rua para me sentar em um dos bancos da praça; não estava a fim de continuar lendo aquele jornal em pé.
Ri de algumas notas sobre eventos da alta sociedade, e marquei as dicas de receitas da coluna de gastronomia. Meu humor estava melhorando… até que ao virar uma das últimas páginas do jornal, arregalo meus olhos.
Havia uma foto… havia uma foto da Jade na parte de desaparecidos.
“Vista pela última vez na manhã de terça-feira, dia 15 de outubro de 2024, usando blusa preta, calça jeans, botas ugg pretas e um sobretudo também preto. Qualquer informação, por favor, ligar para seu marido, Beckett Oliver (13121989).”
Fecho o jornal imediatamente… sinto meu estômago se revirar e meu coração gelar.
Beck havia colocado uma nota de pessoa desaparecida sobre a Jade? Mas, a Carly me ligou desesperada… ela sabe disso?
São tantas as perguntas que começam a rodear a minha mente… mas no momento a única coisa que eu sei é que preciso tirar essa história a limpo com o Beck!
{...}
Beck trabalha em casa, e como ele não atende as minhas ligações, decido ir até lá. Peguei minha moto no estacionamento e fui. Jade e Beck moram em um bairro relativamente afastado da cidade, com arredores cheios de árvores e plantas, parece até mesmo uma floresta. Lembro de uma vez Jade me dizer que havia escolhido esse lugar por causa da tranquilidade.
Quando enfim cheguei, estacionei a minha moto na calçada, um pouco longe da casa, ia me dar muito trabalho sair com a moto naquele chão íngreme de terra.
Comecei a andar, mas quando estava prestes a sair do “amontoado de árvores”, percebo que o carro de Jade está na garagem, mas apesar disso claramente ela não está em casa, considerando que fora o próprio Beck quem colocou a nota de desaparecimento no jornal. Mas ao olhar para o lado, vejo a caminhonete dele… franzo o cenho, ela está com uma parte do vidro trincada e os pneus são novos… e isso me intriga porque, na última vez que vi essa caminhonete os pneus estavam bons apesar de desgastados.
E sua amante mudou-se pra lá
And his mistress moved in
Dorme na cama de Jade e tudo mais
Sleeps in Este's bed and everything
Oh, não há dúvida
Oh, there ain't no doubt
Alguém precisa pegá-lo, porque
Somebody's gotta catch him out, 'cause
Escondida atrás de uma das árvores, continuo prestando atenção no outro lado da rua, até que vejo um jipe vermelho estacionar em frente a casa. A buzina é soada, e em questão de segundos Beck aparece, e recepciona a moça -que desce do carro- com um beijo na boca.
Um… beijo… na boca?
Franzo o cenho, ele a rodopia no ar e a ajuda tirar algumas bolsas e caixas do banco de trás. O que significa isso?
Ele coloca uma nota de desaparecimento da esposa no jornal e agora leva a amante para morar com ele?
Eles entram pra dentro, mas eu permaneço ali, parada atrás daquela árvore, ainda absorvendo, ou tentando absorver o que acabei de ver. Minha vontade é de entrar lá dentro e quebrar os dois, mas seria imprudente demais fazer isso… pelo menos agora.
Então decido ir embora, ver aquilo me fez ficar ainda pior… meu estômago não parava de revirar, e meu coração batia cada vez mais descompassado. Quando enfim estava longe daquele lugar, me sentei na moto a fim de me recuperar antes de dirigir…
E é nesse momento que uma ideia se passa pela minha mente:
Para Beck estar agindo assim, é porque Jade não está realmente desaparecida.
Seria isso possível?
E como uma certeza que está ansiosa para se manifestar, sinto meus olhos lacrimejarem e meus pulmões se abrirem; para liberarem um choro desesperador em seguida.
Eu acho que foi ele, mas eu simplesmente não posso provar
I think he did it, but I just can't prove it
Eu acho que foi ele, mas eu simplesmente não posso provar
I think he did it, but I just can't prove it
Eu acho que foi ele, mas eu simplesmente não posso provar
I think he did it, but I just can't prove it
Não, sem corpo, sem crime
No, no body, no crime
Mas eu não vou deixar isso de lado até o dia em que eu morrer
But I ain't letting up until the day I die
Não sei como consegui chegar em casa, mas aqui estou eu.
Deitada no sofá, pensando e repensando nos últimos acontecimentos… é tudo tão estranho, nada disso parece real!
Fico grata por Freddie ainda estar no trabalho… não queria que ele me visse assim, tão preocupada e chorando tanto!
Não sei que horas eram quando abri os olhos… mas não deve ser nem seis horas ainda, considerando que Freddie ainda não havia voltado. Eu nem ao menos percebi que dormi.
Com muito medo, peguei meu celular para checar as horas; cinco em ponto. Me levantei a fim de tomar um banho, precisava mais do que tudo, relaxar, ou pelo menos tentar.
Arrumei a banheira com sais de camomila, prendi meu cabelo em um coque alto, me despi e entrei na água quentinha. Me sentia um pouco mais calma agora, apesar de ainda estar atordoada.
Fechei os olhos, liberando minha mente, e comecei a me lembrar de muitos momentos incríveis que passei com a Jade na nossa infância e adolescência.
Lembro de quando ela me ajudou a andar de bicicleta sem as rodinhas.
Me lembro de seu aniversário de dezesseis anos onde ela chocou a família West inteira por ter usado uma réplica do vestido da protagonista de seu filme favorito; “The Scissoring”.
Me lembrei também de quando eu e Freddie começamos a namorar, o apoio que ela nos deu, principalmente quando a mãe dele foi contra. Fora os conselhos que ela me deu sobre a primeira vez, lembro de ter ficado vermelha de tanta vergonha, o que me arranca uma risada baixa.
Lembro também de quando matamos aula pra ir no show do Paramore; tínhamos dezesseis anos na época, e foi tão bom… conseguimos até nos infiltrar no camarim dos irmãos Ferro; na época eu tinha um crush fortíssimo no Zac, e ela no Josh.
E é nesse carrossel de lembranças que invadem a minha mente que eu me recordo de um acontecimento em específico:
Há uns dois anos atrás, mais ou menos, Jade me confidenciou que o casamento entre ela e Beck é em separação total de bens. Logo, se eles se divorciassem, ambos não teriam direito a nada um do outro. No entanto, se um deles falecer, a parte viva se torna a herdeira direta da parte falecida.
Jade é dona do próprio negócio; uma escola de teatro e música. Já Beck, é ator, mas no momento tem trabalhado com a internet, de uma forma que está quase se tornando um digital influencer. Então é óbvio que Jade ganha bem mais do que ele.
Abro os olhos e me sento ereta na banheira, chocada com a constatação que eu acabei de fazer, ainda que involuntariamente.
Se a Jade realmente está morta, a única pessoa que tinha motivos para matá-la, é Beck!
Mas é claro! Ela me disse que ia tirar essa história a limpo com ele e jurou que ia se divorciar. Se eles se divorciassem ele sairia sem nada, mas se ela morresse…
Sinto uma fúria tomar conta de mim, e bato na mureta da banheira, a fazendo trincar.
Se Beckett Oliver matou a minha melhor amiga, eu juro que vou me vingar!
(Não, não)
(No, no)
Eu acho que foi ele
I think he did it
(Não, não)
(No, no)
Foi ele
He did it
Duas semanas se passaram.
Carly organizou uma campanha de busca por Jade, praticamente a cidade inteira se mobilizou, ajudando. Inclusive eu. Ajudei a pregar alguns cartazes e após alguns telefonemas, consegui colocar a campanha em rede nacional.
Ao mesmo tempo, tenho me dedicado ainda mais ao trabalho, apesar de agora só ir ao ateliê em meio período, pelas manhãs. Quando eu estou trabalhando nas minhas telas, é como se por alguns instantes tudo estivesse bem novamente. E isso me acalma, ainda que seja por tempo limitado.
Eu havia acabado de enviar um e-mail para um cliente quando ouvi a porta da casa ser batida. Saí do quarto e fui até a sala; Freddie havia acabado de chegar.
—Oi amor.
O recepcionei com um selinho e o ajudei a tirar a capa de chuva molhada, a largando no cabideiro ao lado da porta.
Meu marido estava cabisbaixo, com o semblante um pouco tenso, e eu pude perceber.
—O que foi? aconteceu alguma coisa?
E então ele finalmente me olhou, e pegou em minhas mãos, segurando-as protetoramente.
—Sam, eu… eu tenho que te dizer uma coisa…
Franzi o cenho, o que estava acontecendo?
O puxei até o sofá e nós nos sentamos um ao lado do outro, algo me dizia que o que ele tinha pra me dizer não era algo fácil de ser dito, Freddie raramente ficava tenso assim.
—Fala… eu tô ouvindo…
—Olha, eu vou ser direto: a Jade… ela… ela faleceu.
Foi como se um balde de água fria tivesse sido jogado em cima de mim. Meu coração começou a bater descompassado e minhas mãos começaram a suar muito, mas muito forte.
Ainda que lá no meu íntimo eu soubesse que isso tinha acontecido, eu não queria aceitar! É como se alguma força me fizesse ainda preservar as esperanças, afinal, milagres acontecem, não é? A minha intuição poderia estar errada.
Mas ela não estava…
Minha melhor amiga tinha sido morta, e nada nem ninguém a trará de volta.
—Passou uma matéria na televisão… -Freddie voltou a dizer, segurando ainda mais forte a minha mão- todos estão comentando… as suspeitas são de feminicídio. Eu sinto muito, amor.
Fiquei em silêncio durante todos aqueles minutos, e quando eu menos esperava, as lágrimas vieram, liberando toda a dor e toda a angústia da confirmação. Automaticamente senti os braços de Freddie protetoramente ao meu redor, e foi quando eu caí na inconsciência.
{...}
Abri meus olhos devagar, me acostumando novamente à claridade, ainda que essa fosse baixa. Olho para o lado e encontro Freddie deitado ao meu lado com os olhos fechados, percebo que estamos no nosso quarto. Fico o observando dormir, e passo os dedos pela sua bochecha, gesto que o faz despertar.
—Oi amor. -ele diz, com a voz rouca.
—O que aconteceu? -pergunto, ainda sem deixar de desenhar círculos imaginários sob sua face.
—Você desmaiou… e eu fiquei em alerta caso você acordasse, mas acabei pegando no sono.
Pisco involuntariamente, me lembrando do motivo que me fez desmaiar. Me sentei rapidamente na cama, e Freddie fez o mesmo.
—Foi o choque da notícia… que horas são?
Ele checou o relógio no pulso.
—Oito horas… vou preparar o jantar.
Eu apenas assenti, apesar de não estar sentindo fome nenhuma.
Assim que ele se levantou, eu entrei no banho e meia hora depois estávamos jantando uma sopa de legumes, já que não tínhamos estômago para comer nada mais pesado. Depois, lavamos a louça juntos e Freddie foi tomar banho, me sentei na cama esperando por ele.
Não conseguia parar de pensar em Jade… me sentia em câmera lenta. Precisava desabafar sobre as minhas suspeitas com o Freddie, contamos tudo um para o outro, e tenho certeza que ele me dará razão, só não sei se ele me ajudaria na vingança, Freddie é certinho e não acredita na justiça com as próprias mãos.
O senti sentar ao meu lado e me abraçar, deitei minha cabeça em seu peito.
—Freddie…
—Hum?
—Eu preciso dividir uma coisa com você…
Me sentei ereta, olhando profundamente nos olhos dele. Freddie franziu o cenho, um pouco desconfiado..
—Pode falar…
—Eu… eu sei que pode parecer loucura, mas eu meio que já sabia que a Jade estava morta, minha intuição me disse. Mas, mesmo assim, saber que a minha intuição estava certa foi um choque!
Ele me abraçou.
—Não é loucura, amor, eu sei que você é muito intuitiva. Mas isso não é parâmetro para impedir que você tenha uma reação diferente, vocês cresceram juntas! É completamente compreensível que você se apegasse a qualquer vestígio de esperança.
—Que bom que entende, amor. Porque eu tenho mais uma coisa para dizer. -novamente me sentei ereta e olhei em seus olhos, respirando fundo antes de colocar pra fora o que eu precisava. -Já tem algumas semanas que eu venho suspeitando do Beckett!
Ele ergue as sobrancelhas, definitivamente não estava esperando por isso.
—Ele era o único que tinha motivos para matá-la! A Jade queria o divórcio, ela descobriu que ele estava traindo ela. Só que como eles eram casados em separação total de bens, ele só herdaria algo dela se ela morresse!
Um gélido silêncio se ergueu sobre nós.
Freddie estava chocado com o que eu tinha acabado de dizer, suas sobrancelhas ainda estavam erguidas e seus olhos ainda estavam arregalados.
Demorou longos minutos para que ele sequer abrisse a boca. E eu entendo, não é sempre que sua esposa joga em seu colo a suspeita de quem é o assassino de sua melhor amiga. Fora que, apesar de nunca terem sido amigos, Freddie e Beckett foram vizinhos por anos, além de estudarem na mesma escola que nós durante o ensino fundamental e o ensino médio.
—Sam… isso que você me disse agora é… completamente insano! Você tem certeza do que está dizendo?
—Tenho! E vou provar. Eu vou me vingar dele, Freddie!
—Não, Sam, não! Você não tem provas concretas, e se realmente foi ele, pode ser que ele venha atrás de você. E eu não quero e nem posso perder você, meu amor!
Ele me puxou para um abraço forte, e enterrou o rosto em meus cachos. Senti uma pontada no coração, não gosto de vê-lo assim. Retribuo o abraço, colocando meus braços em volta de seu pescoço.
E ficamos alguns segundos assim, apenas sentindo um ao outro.
—Me promete que vai deixar isso com a polícia? -ele me pergunta, ainda abraçado comigo.
—Prometo.
Mas eu não estava dizendo a verdade, e o gesto em meus dedos da mão direita diziam isso.
Sinto muito meu amor, mas eu preciso fazer isso!
Ainda bem que meu pai me fez tirar uma licença de barco quando eu tinha quinze anos
Good thing my daddy made me get a boating license when I was fifteen
E eu limpei casas suficientes para saber como encobrir uma cena
And I've cleaned enough houses to know how to cover up a scene
Ainda bem que a irmã de Jade vai jurar que estava comigo
Good thing Este's sister's gonna swear she was with me
(Ela estava comigo, cara)
(She was with me, dude)
Ainda bem que sua amante fez um grande seguro de vida
Good thing his mistress took out a big life insurance policy
Uma semana se passou.
Nesse meio tempo uma investigação foi aberta para descobrir o que aconteceu com a Jade, e quem poderia ser seu assassino. Ela só foi sepultada quatro dias depois de acharem o corpo; a autópsia demorou a ficar pronta.
Carly está passando um tempo na casa dos pais, todos eles estão péssimos e precisam ficar uns com os outros nesse momento, eu os visito pelo menos três vezes por semana.
Quanto a mim… todos os dias acordo terrivelmente triste, com muitas saudades dela, e quando o dia é terça-feira, aí que a situação piora. Mas, estou conseguindo levar a rotina em um ritmo relativamente normal, fechei três encomendas nos últimos dois dias, entreguei algumas, e no momento estou trabalhando em cinco telas.
Mas, é claro que não esqueci do Beckett!
O canalha ficou de óculos escuros o funeral inteiro, só visitou a família da Jade uma única vez, e age como se ela nunca tivesse existido! Descobri o nome da mulher que está morando com ele; Trina Vega. Ela era uma das líderes de torcida na escola e vivia dando em cima dele, muitas vezes na frente da Jade! Agora eu me lembrava dela… é outra vagabunda, igual ao Oliver!
A vingança está de pé! E todos os dias eu penso em como posso planejá-la… e nos últimos dias algumas ideias têm aparecido na minha mente. Eu só estava esperando o momento certo para colocá-la em ação, mas ao que parece… o momento chegou! Já que, até agora a polícia não conseguiu descobrir praticamente nada e já eliminaram Beckett da lista de suspeitos.
Mas eu sei que foi ele! E eu juro, Beckett Oliver irá se arrepender do dia em que nasceu!
{...}
Uma curiosidade sobre mim que muitos não sabem, é que eu tenho uma licença de barco. Meu pai era marinheiro, e super defensor dos barcos, veleiros, e qualquer outro meio de transporte subaquático. Quando eu completei quinze anos ele insistiu que eu precisava aprender a dirigir um barco e tirar licença; a justificativa usada foi de que eles são tão importantes quanto os carros e as motos, então eu tirei, a contragosto.
Na época eu considerava algo desnecessário, mas hoje eu entendo a importância desses meios de transporte. Posso viajar sem pegar trânsito, ainda que demore um pouco mais. Também posso usá-los para caçar, pescar… papai estaria orgulhoso se soubesse que eu finalmente aprendi a tomar gosto pela coisa!
Agora, um fato que todos nessa cidade conhecem, é que eu não tinha condições de pagar por uma faculdade. Os valores eram absurdos! E por mais que meu pai ganhasse relativamente bem na época, depois que ele morreu a minha família se afundou em dívidas, e a minha mãe estava sempre desempregada. Quanto a minha irmã, essa se mandou aos dez anos para uma escola de elite e esqueceu que tem família.
O problema era que eu queria ser alguém, queria ter um diploma e realizar o meu sonho de ser uma artista plástica.
Foi então que eu soube que existem cursos técnicos no centro comunitário de Seattle, e um deles era justamente o de artes plásticas. Custava cem dólares por mês e as aulas eram três vezes por semana.
Fiz a minha matrícula e para arcar com os custos, eu comecei a limpar casas de gente rica daqui de Bothell nos três dias restantes da semana, eu recebia cinquenta pratas por faxina e o meu único dia livre era domingo mesmo. Nunca gostei de trabalhar, mas para realizar o meu grande sonho, foi preciso esse sacrifício. E valeu a pena! Hoje tenho meu próprio ateliê e trabalho para mim mesma, sem depender de nenhum chefe chato no final do mês e sem conviver com o medo de ser demitida.
E por que eu estou contando isso se essa história nem sequer é sobre o meu passado triste?
Porque, bom, a minha habilidade de dirigir um barco, somada a minha habilidade de limpar, será crucial para as ideias que estou tendo.
Eu só precisava dar um telefonema e marcar um encontro para começar a colocar o meu plano em prática!
{...}
Bati na porta e em questão de segundos, Carly atendeu.
Mais cedo ao telefone eu pedi para encontrá-la em sua casa, considerando que ela mora sozinha, não haveria riscos de ninguém nos ouvir. Ela estranhou um pouco, mas aceitou me encontrar.
Sua expressão estava caída e seu rosto pálido.
—Oi Sam… entra… -ela me cumprimentou com a voz arrastada, e abriu espaço para eu entrar. Fechou a porta em seguida- Não repare na bagunça, eu não venho aqui desde que tudo aconteceu…
—Não esquenta, eu não pretendo demorar.
Me sentei no sofá e ela fez o mesmo, ficando ao meu lado.
—E então?...
Respirei bem fundo antes de começar a falar. Por onde eu deveria começar?
—Carly, me escuta… -olhei bem fundo nos olhos castanhos- se alguém te perguntar aonde eu estava amanhã a noite, lá pelas sete horas, preciso que diga que estava comigo! Inventa que, sei lá… eu passei aqui pra te ajudar a arrumar seu apartamento, ficou tarde e eu dormi aqui. Ou então que você foi lá pra casa e dormiu lá, aproveitando que amanhã o Freddie vai viajar pra uma convenção de tecnologia em Tacoma. Enfim, só… diga que estava comigo! Está bem?
Houve alguns minutos de silêncio.
Carly me olhava com os olhos esbugalhados, entre assustada, chocada e incompreensiva.
A observei piscar algumas vezes, outrora ela parecia me analisar, milhares de coisas deveriam estar passando pela mente dela.
Eu já estava ficando nervosa com todo aquele silêncio. Por um momento pensei em me desculpar pelo transtorno e ir embora, mas quando eu estava prestes a fazer menção de me levantar, ela me olhou profundamente e respirou fundo.
—Sam… o que tá acontecendo? Me explica melhor isso! Por que eu devo dizer que você estava comigo?
Respirei fundo.
—Porque eu vou cometer um crime!
Ela franziu o cenho; ainda mais confusa.
—Como assim?
—Olha Carly, eu sei quem matou a Jade, e vou me vingar amanhã a noite! E infelizmente vinganças desse tipo ainda são consideradas crime, por isso eu preciso da sua ajuda com o álibi!
O silêncio voltou a reinar. Ela desviou o olhar novamente e se levantou, começando a andar pela sala sem rumo. Passava perto da estante de livros, da rack, ia até a ilha da cozinha, voltava…
Até que parou em minha frente, com as mãos ao peito, parecia estar controlando a própria respiração para não surtar.
—Quem foi? -a ouvi perguntar em voz baixa.
Abaixei a cabeça, iria doer ver a reação dela; Beckett sempre foi como um irmão mais velho para a Carly, ele sempre esteve lá por ela… bom, pelo menos na nossa infância e adolescência era assim, hoje em dia eu não sei. Sinceramente Carly parecia sempre desconfiada quando estava na presença dele, mas ainda assim, preferia não arriscar…
Respirei bem fundo, e soltei de uma vez:
—O Beck!
Levantei a cabeça, e para a minha surpresa, Carly não esboçava nem um pingo de tristeza, muito pelo contrário; seu semblante era de pura raiva e revolta!
O silêncio reinou pouco dessa vez, em questão de segundos um jarro de flores foi atirado pela parede seguido de um grito profundo e sofrido da West mais nova.
—DESGRAÇADOOOOOOO!!
Arregalei os olhos.
—EU SABIA EU SABIA QUE NÃO ERA IMPLICÂNCIA MINHA! EU SABIA! SEMPRE ESTEVE TÃO CLARO… CÉUS!
Ela desabou no chão, se sentando como uma criança entre o sofá e a mesa de centro. Me aproximei e sentei ao seu lado.
E em questão de segundos, ela começou a chorar copiosamente, e eu a envolvi em meus braços.
Meia hora depois estávamos novamente sentadas no sofá. Carly ainda estava nervosa, mas havia parado de chorar. Eu quis fazer um chá pra ela se acalmar mas ela recusou, disse que não precisava.
—Como você… como você descobriu?
Ela me perguntou, e eu contei tudo, do início ao fim; desde as desconfianças da Jade até os comportamentos esquisitos do Oliver. Carly estava horrorizada, mas nada daquilo era uma surpresa para ela. Ela me contou que toda a admiração e amor fraterno que ela tinha por ele morreu quando ela o viu beijando outra mulher no cinema, e após tê-lo confrontado sobre isso, ele a ameaçou dizendo que se ela contasse para Jade o que viu, iria se arrepender muito. É claro que eu fiquei chocada, mas a essa altura nada do que aquele homem é capaz de fazer me surpreende!
Ficamos um bom tempo em silêncio, estava sendo coisa demais.
—Tô dentro! -a ouvi dizer, e o meu olhar -que segundos atrás estava na parede- voltou a atenção a ela. -Eu vou dizer que você estava comigo, que eu fui dormir na sua casa.
Dei um leve sorriso.
—Muito obrigada, Carly.
—Mas, como você pretende fazer isso? Eu estou preocupada, e se algo der errado? É melhor eu ir com você!
—Relaxa, eu sei muito bem o que eu vou fazer, aquele filho da puta não vai ter chance nenhuma contra mim! Além do mais, se fosse comigo, você ia ter que arrumar um álibi pra você, e é melhor que apenas nós duas saibamos disso tudo!
Ela assentiu.
—É, você tem razão… e quer saber de uma coisa?
—Claro!
—De qualquer forma, a última pessoa que a polícia vai suspeitar é de você, mas sabe qual vai ser a primeira? -eu apenas neguei com a cabeça e um sorriso perverso se formou nos lábios de Carly- A biscate da amante dele!
—Como assim?
—Eu soube que ela é dona de um seguro de vida no nome do Beck; cem mil dólares! Agora, quem fez, se foi ela ou ele eu não sei, só sei que esse seguro existe e está no nome dele, tendo ela como a única beneficiária.
Carly é subgerente do banco daqui da cidade, logo, é bem comum ela saber de coisas assim.
Fiquei surpresa com a nova informação… eu não esperava por essa, mas é a carta na manga que eu não sabia que precisava!
Eles acham que foi ela, mas eles simplesmente não podem provar
They think she did it, but they just can't prove it
Eles acham que foi ela, mas eles simplesmente não
They think she did it, but they just can't prove it
Ela acha que fui eu, mas ela simplesmente não pode provar
She thinks I did it, but she just can't prove it
Não, sem corpo, sem crime
No, no body, no crime
Eu não ia deixar aquilo de lado até o dia em que ele
I wasn't letting up until the day he
Checo o relógio: quatro horas da tarde.
Carly chegará em breve, combinamos que ela chegaria bem mais cedo do que a hora marcada para não levantar suspeitas, ela virá com seu carro e cuidará da casa para parecer que eu também estou aqui, como; deixando as luzes acesas e etc.
Não demora muito e ela chega.
Uso as horas restantes para checar a mochila: luvas, lonas pretas, corda, sacolas plásticas, sonífero, fita adesiva e um disfarce. Ficaria tudo dentro do barco, -que fica estacionado no lago atrás de casa-, e eu iria até o local no barco, seria tudo feito dessa maneira. Assim que checo tudo, deixo a mochila no sofá, apenas aguardando a hora certa de ser usada.
E quando a hora chega, olho para Carly, que me olha de volta.
—Agora? -ela pergunta, em tom de confirmação, e eu apenas balanço a cabeça positivamente. Ela então vem até mim e me abraça quando me levanto, a abraço de volta. -Boa sorte. Vai dar tudo certo! Qualquer coisa, me liga!
—Pode deixar, West.
Ficamos mais algum tempo abraçadas, é como se sentíssemos a presença de Jade ali, permitindo tudo o que estamos fazendo, como se ela fosse estar comigo no momento do ato.
—Bom, eu vou indo. -digo, ao me soltar do abraço. -Se cuida Carly… e não esquece, se o Freddie ligar, em hipótese alguma atende o meu celular. Se ele ligar pra você, diz que eu estou dormindo ou tomando banho, ou que o meu celular está carregando, qualquer coisa.
—Pode deixar, Sam, fica tranquila, eu cuido de tudo por aqui. E se alguém bater na porta, eu não atendo, com a desculpa de estarmos com medo de algo acontecer conosco.
—Ok.
A abraço novamente, e pego a bolsa.
{...}
Chequei as redes sociais do Beckett mais cedo, apenas para confirmar se ele estaria em casa, e para o espanto de todos (contém ironia), ele está. Apenas a amante que não, ela trabalha como cabeleireira no centro, e geralmente só chega em casa depois das nove.
A casa também é próxima a um lago, ele se localiza ao lado e é enorme, fica coberto por mato, assim como a rua inteira. Estaciono o barco ali, e começo a caminhar em direção a casa. Eu não avisei a ele que vinha, mas nem precisa.
Bato na porta e após uns cinco minutos, ele atende; cabelo molhado, regata e sorriso de cretino.
—Oi Sam, que surpresa boa!
O filho da puta nem disfarçou a secada que deu no meu corpo, nojento!
Minha vontade era de voar na cara dele, mas eu precisava disfarçar, para o plano sair bem sucedido!
Mesmo a contragosto, caprichei no meu sorriso falso com aparência de verdadeiro.
—Oi Beck, te atrapalho?
—Você nunca atrapalha, loirinha. Quer entrar?
—Seria bom, muito obrigada.
Assim que ele fecha a porta eu reparo em como a casa está diferente. Havia tapetes de oncinha no chão, uma rack nova e todas as coisas de Jade haviam sumido.
—E então… a que devo a honra de sua visita?
Olho pra ele, e novamente, meu estômago embrulha.
—Eu só queria pegar algumas coisas minhas que a Jade tinha pegado emprestado… e também conversar um pouco, faz tanto tempo que não nos vemos, eu imagino como deve estar sendo difícil pra você.
—É verdade… todos os dias acordo pensando nela… bom, se vamos conversar, acho melhor eu ir fazer um café e buscar uns biscoitos. Quero que essa conversa seja bem longa!
Seu tom de voz é repulsivo, e exala sedução fracassada.
—Pode deixar que eu faço, aprendi uma receita nova recentemente que vai te fazer se sentir nas nuvens!
Ele abre novamente aquele sorriso nojento.
—Tudo bem então, loirinha, me surpreenda! Quem sabe assim eu não te faço se sentir nas nuvens também?
Filho da puta nojento!
Mais uma vez me esforço para abrir meu sorriso falso, e encaminho para a cozinha.
{...}
Um bom tempo se passou.
Beckett agora está dormindo amarrado em uma cadeira na sala. As luzes estão apagadas, apenas os spots da cozinha estão ligados. Quando desperta, ele me olha com os olhos arregalados, profundamente assustado, e apenas murmura, considerando a fita que se encontra em sua boca. Já eu, estou sentada na poltrona em frente a ele, com as pernas cruzadas.
É tão bom vê-lo assim, todo indefeso se debatendo… quem vê de longe pode jurar que sou eu a vilã da história, e não ele.
—Olá, vejo que a bela adormecida acordou… -digo, com um sorriso perverso.
Ele apenas murmura ainda mais alto, e eu solto uma gargalhada.
Me levanto e arranco a fita de sua boca.
—SAM O QUE É ISSO? VOCÊ FICOU MALUCA? ME SOLTA LOGO!
Balanço a cabeça negativamente de forma lenta.
—Não mesmo. Acha que eu não sei o que você fez?
—Como assim? Fiz o que?
—Ah, você sabe! Você sabe melhor do que ninguém!
Ele franze o cenho, parece pensar por alguns instantes, e fecha os olhos em lamentação.
—Como… como você descobriu?
—Ah, você me ajudou. Colocou uma nota de desaparecimento no jornal antes de completar quarenta e oito horas do desaparecimento e não avisou ninguém da família dela. Não atendeu a nenhuma das minhas ligações, trouxe a amante pra morar aqui um dia depois do desaparecimento, deixou o carro da Jade aqui… eu posso continuar.
—Me solta, por favor!
—Mas eu te garanto que eu não vou ser burra assim! -chuto a cadeira, fazendo com que ela caísse junto com ele. -Eu vou fazer você sofrer, sangrar e depois todos vão achar que foi sua querida amante quem fez tudo isso!
—Deixa a Trina fora disso!
—Ah, não mesmo! Ela é a razão pela qual a minha amiga estava sofrendo! Foi isso que aconteceu, não foi? Você confessou a traição pra Jade após ela ter insistido na conversa, ela pediu o divorcio e para não sair dessa relação sem nada, VOCÊ TIROU A VIDA DELA! VOCÊ TIROU A VIDA DA MINHA MELHOR AMIGA POR PURO DINHEIRO E UM PEDAÇO DE CARNE! -chuto seu pau e ele começa a se contorcer de dor- Que direito você acha que tinha? HEIN?
—Foi preciso…
Desgraçado!
Chuto seu estômago com uma força descomunal, que nem eu sabia que tinha dentro de mim. Ele começa a tossir sangue, e eu percebo que está na hora!
—Acha que eu não sei como você fez tudo isso? A Jade era faixa preta em jiu-jitsu, você não tinha chance alguma contra ela! Então de algum jeito a rendeu; fez ela dormir, e a atacou! -dei as costas à ele e fui até a mochila, que repousava na ilha da cozinha. Tirei de lá as luvas e as vesti. -Então eu vou fazer o mesmo com você!
Me virei novamente apenas para ver seu olhar de desespero e rumei para a cozinha. Abri a gaveta e peguei a faca mais afiada que tinha ali.
Voltei pra sala e me ajoelhei ao lado dele, que além de se contorcer, implorava para que eu o deixasse vivo e livre.
—Eu me entrego e não falo nada sobre isso! Que tal?
Eu apenas ignoro, nada do que ele diga me comoverá.
Ergo a faca com as duas mãos e ele fecha os olhos, implorando por um milagre.
—Isso é pela Jade!
Digo, antes de enfiar a faca em sua barriga. E em seguida no estômago, inúmeras vezes, e por fim: o coração. O golpeio com a mesma quantidade de vezes que ele golpeou Jade; dez vezes! Apesar de eu ter sentido vontade de golpeá-lo mais vezes do que isso.
Ao finalizar, me levanto e largo a faca no chão. Passo o braço direito sob a minha franja, estava começando a suar, foi preciso muito esforço pra fazer isso acontecer.
Agora eu precisava limpar… coloco a faca dentro da sacola de plástico e tiro as luvas, as colocando dentro da mesma sacola. Coloco outras luvas e desamarro o corpo, o coloco dentro da lona e novamente o amarro, dessa vez por fora da lona. Arrasto até o barco e jogo um cobertor por cima.
Peguei rodo, pano, água, balde, tudo que eu precisava na despensa e voltei para a sala, limpei aquele chão até não restar uma única gota de sangue. Joguei os panos na lareira e joguei a água ensanguentada na terra do jardim. Quanto ao balde, o lavei e coloquei novamente na despensa, junto com o rodo.
Novamente precisei trocar as luvas, e voltei para o barco.
Eu já havia decidido o que eu iria fazer com esse peso morto; jogá-lo no rio da entrada da cidade, é um rio bem sujo, assim como ele. Pra isso eu precisava me disfarçar então tiro da mochila a peruca, as lentes e a roupa separada para o disfarce; peruca e lentes castanhas e roupa super brega. Mais os óculos de sol, é claro.
Após ter dirigido o barco por todo o percurso, que diga-se de passagem era longo, eu enfim chego ao rio, e me preparo para o que eu vou fazer.
Primeiro elimino as provas, jogando a sacola com a faca e as luvas ensanguentadas. E em seguida, arrasto novamente aquele corpo asqueroso, e após algum esforço, ouço o barulho forte que ele faz ao ser jogado na água.
E eu… abro meu melhor sorriso vitorioso.
{...}
Um mês se passou desde que tudo aconteceu.
Beckett foi dado como desaparecido até encontrarem o corpo boiando no rio depois de uma semana. Logo, uma investigação foi iniciada. A polícia tem considerado Trina a principal suspeita, mas não conseguiam reunir provas suficientes justamente por não ter as digitais dela na cena do crime e nem no corpo. Ela contratou um bom advogado, com o dinheiro do seguro de vida, é claro.
Estou dirigindo rumo a delegacia, a polícia me chamou para prestar depoimento. O engraçado é que eles parecem ter se esquecido completamente do caso da minha amiga… enfim, não é uma surpresa o machismo estar presente até nisso.
Estaciono a minha moto em uma das vagas disponíveis e começo a andar em direção ao portão de entrada. Quando enfim me aproximo das escadas, vejo Trina saindo do portão e descendo as escadas cabisbaixa, assim que me aproximo mais, seu olhar paira em mim, e por um instante sinto que ela sabe de alguma coisa.
Mas, como não tinha nada a provar, não disse nada.
E eu apenas sorri, um sorriso fraco, é claro.
—Bom dia, Trina.
—Bom dia…
E foi embora.
Não, sem corpo, sem crime
No, no body, no crime
Eu não ia deixar aquilo de lado até o dia em que ele
I wasn't letting up until the day he
Não, sem corpo, sem crime
No, no body, no crime
Eu não ia deixar aquilo de lado até o dia em que ele morresse
I wasn't letting up until the day he died
13 de novembro de 2025
Estou terminando de passar o verniz sob a tela de uma cesta de frutas quando ouço meu celular tocar. Paro o que estou fazendo, limpo as mãos com o pano, que segundos atrás estava recostado sob o meu ombro, e pego o celular, no bolso do avental.
Era Carly.
"Oi Carly, e aí?"
“Sam… eles concluíram as investigações da Jade!”
Ergo as sobrancelhas, não esperava por isso. Desde que tudo aconteceu a polícia tem se mostrado desinteressada, pensei até que chegariam a arquivar o caso.
"É sério? E qual foi o resultado?"
“Estávamos certas. Você estava certa. Apesar de não ser uma novidade para nós, é bom saber que agora a máscara dele caiu definitivamente, dessa vez para todos!”
Coloco a mão em meu coração, um alívio enorme se fez presente nele.
"Que bom saber disso! Obrigada por me informar, Carly."
“Disponha. E como você está?”
Sorrio, levando a mão à minha barriga de seis meses.
"Vou bem, e o bebê também. Amanhã eu e o Freddie vamos fazer o ultrassom pra descobrir o sexo."
Ouvi um gritinho de felicidade do outro lado.
“Que maravilha! Estou torcendo aqui, vocês merecem tudo de bom.”
"Obrigada. Depois eu te ligo contando o resultado."
“Ah, não vão fazer chá revelação?”
"Não. Isso é a coisa mais brega inventada nos últimos anos! -dou uma risadinha- Mas relaxa, que vai ter chá de bebê, batizado e festa de um aninho!"
“Aeeeee, mamãe animada, tô gostando de ver!”
Rio novamente, Carly ama festas e sempre está animada para comemorar qualquer coisa, desde as pequenas até as grandes.
"Bom amiga, preciso ir, tenho que terminar de passar verniz em uma tela pra entregar daqui há dois dias."
“Ok, amiga, eu também tenho que ir, hoje tenho uma reunião.”
"Boa sorte. Arrasa lá, garota!"
“Pra você também. Pode deixar que eu vou sim."
{...}
Saí mais cedo do ateliê, desde que recebi a ligação da Carly não tenho pensado em outra coisa.
Passo em uma floricultura e compro violetas; as flores favoritas de Jade. Em seguida entro no carro e as deixo no banco do passageiro.
Não gosto de ambientes assim, me passa uma energia muito negativa. Mas quando chego lá, não sinto nada além de uma tristeza misturada com uma sensação desconhecida.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Entro e após caminhar um pouco, encontro o que procuro:
Em memória de Jadelyn Christina West
1993 — 2024
Filha, irmã, amiga e uma produtora maravilhosa.
“Aqueles que nos amam nunca nos deixam de verdade.”
(Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban).
Coloco as flores sob o mármore, e fico em silêncio, com as mãos no bolso do sobretudo.
Fecho os olhos, e respiro fundo, e em questão de segundos, sinto uma brisa suave.
Logo, abro os olhos novamente.
—Oi minha amiga… tenho algo pra te contar. A investigação foi encerrada, a máscara daquele monstro caiu! Finalmente! Mesmo eu tendo feito ele pagar com as minhas próprias mãos, é bom saber que a polícia fez a parte dela, afinal.
Sinto uma lágrima escorrer dos meus olhos e as limpo, quando volto meu olhar para as flores, percebo que um botão, que antes estava fechado, desabrochou.
E eu automaticamente sorrio, entendendo a manifestação da natureza;
Jade está em paz!
Notas finais
*Tacoma também é uma cidade próxima a Seattle.
*Jane Everett é o nome de uma personagem da série Cold Case, que também era jornalista. Como eu amo essa série, quis fazer essa referência.
*Não conheço as leis matrimonais dos Estados Unidos, então me baseei nas leis matrimoniais daqui. Assim como o processo de divulgação de desaparecimento.
É isso queridos, espero que tenham gostado! ♥ ♥
Link da música, caso queiram conferir: https://www.youtube.com/watch?v=ADSLyfovTNo
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