No Angels

1 Belo Suéter


A sala está vazia, o único som que se pode ouvir vem das gotas de chuva que batem na janela, a luvas que servem para me proteger do frio já estão úmidas de enxugar as lagrimas que caem mesmo sem permissão.

E foi naquele dia qualquer em que eu acordei com uma terrível e anormal dor de cabeça eu poderia ter escolhido apenas um chá quente o a companhia do meu gato laranja Teddy, que só sabe comer e dormir. Tal qual a dona.

Mas eu precisava de mais, eu queria mais, um chocolate quente talvez?

Então me levantei da cama com certa dificuldade embolada pelos lençóis , fui ao banheiro fazer a minha higiene com os dentes trincados de frio. Resultado de um aquecedor queimado. Coloquei um suéter vermelho com a minha inicial bordada nele, um presente nada discreto que eu ganhei no natal passado da minha avó. Como em todos os anos, mas ninguém precisa saber então por cima usei um casaco verde, touca amarela e minhas companheiras para toda obra, botas de plásticos com fofas florezinhas que deixam ela mais feminina, se for possível.

Encontrei no meu caminho um forte vento e a ameaça de chuva. Coloquei as minhas luvas e as mãos dentro do casaco até chegar no meu segundo lugar favorito no mundo.

Deve ser pela torta de banana que servem aqui, ou o bolo de chocolate com a cobertura de pequenas barras de amendoim. Mas nesse dia tudo o que eu queria era o meu chocolate quente. E nada mais.

Encontrei uma mesa solitária no lado esquerdo do lugar, a chuva começou do lado de fora e batia forte na janela de vidro ao meu lado, é um som bom de ouvir. Fora eu e um casal de velhos o lugar estava vazio. A garçonete com a maior parte dos fartos peitos para o lado oposto ao da blusa vermelha mastigava um chiclete incessantemente e fazia bolhas para espocar depois. Ela parou na minha mesa e me analisou completamente.

- O que deseja? – sua voz era baixa e sem vontade de sair, talvez por causa do tédio. Se bem que se fosse eu trabalhando em um lugar onde servem a melhor torta de banana do mundo seria tudo menos tedioso.

- Um chocolate quente por favor. – ela se virou e foi em direção ao balcão parando no meio do caminho quando a porta foi aberta por um cara alto, ele usava uma touca salmão e eu virei o rosto antes que ele me visse o encarando, seria constrangedor. Fora a minha falta de habilidade em contato social.

- Meu chocolate chegou e a garota parecia bem mais animada, o novo cliente tinha parado por um bom tempo em frente ao balcão, não que eu tenha o observado – na verdade sim – até se virar e me encontrar o encarando.

Abaixei a cabeça e tomei um gole do meu chocolate.

- Hey? – fui chamado e levantei a cabeça — posso?

O carinha que eu estava observando anteriormente me encarava, os dedos grandes com as pontas coradas por possivelmente ter apertado demais seu casaco contra si apontava para a cadeira vazia na minha frente. Os olhos verdes brincavam enquanto sua boca continuava em linha reta esperando uma resposta com muita atenção olhei para o lado só para encontrar o estabelecimento quase vazio como antes. O casal de idosos evitando um contato visual um com o outro, e a garçonete ainda expondo seus dotes o máximo possível para fora, sendo mais exata ela analisava a cena do cara parado na minha frente.

E de fato tem muito espaço, então porque a minha mesa?

- Ah..- e porque não aceitar? Eu sempre fui péssima em raciocínio logico e rápido e tudo que consegui responder foi um : sim.

- Ótimo mas um minuto. – o cara deixou o chocolate quente e se voltou para o balcão pedindo mais alguma coisa que eu não conseguiria escutar pela distancia, aproveitei para analisa-lo de alto a baixo, admirando a usa escolha de roupas: um casaco preto, calças pretas e um suéter cinza mais um cardigã da mesma cor, a touca salmão estava pendurada no bolso direito do casaco, os cabelos levemente encaracolados estavam bagunçados por causa da bagunça, ele parecia ter o mesmo pensamento que eu e levou uma das mão para baixar o cabelo volumoso. Eu ri sozinha do ato no momento em que ele se virou me fazendo corar.

Eu fiquei vermelha feito um tomate lembrando das minhas péssimas escolhas de roupa, o suéter bordado pelo vovó, o meu colega de mesa caminhava em minha direção e se torna impossível desviar o olhar quando quem te encara possui duas esperas esverdeadas sorrindo para você. Logo que cheguei tirei o casaco, mais um erro na minha lista interminavel.

Ele se sentou na minha frente colocando dois pratos com de bolos acredito eu não reconhecendo o sabor no primeiro momento.

- Belo suéter. – ele observou sorrindo, cuidei de me esconder da única forma possível no momento, colocando meu copo de chocolate quente na boca e engolindo uma grande porção do mesmo.

É claro que eu queimei a língua, engoli em seco e abri a boca para permitir que o ar frio do ambiente diminuísse meu sofrimento sem grande alarme.

– é para você.

Ele parecia não ter percebido a minha aflição enquanto eu tentava disfarçar ou só não quis me deixar mais constrangida. Com os dedos ágeis empurrou o prato na minha direção e baixou a cabeça levemente lhe dando um ar quase infantil e inocente. Definitivamente ele percebeu.

Analisei as cores da cobertura junto com o aroma até perceber que se tratava de uma: torta de morango.

- Ah obrigada, mais eu estou satisfeita. – falei mais firme do que eu me sentia erguendo o copo de chocolate na minha mão, a minha ultima intenção era parecer grossa ou mal educada, mais afinal ele pode ser um maníaco que quer me matar com uma torta de morango envenenada. O que seria uma pena porque ele é bonito demais para isso.

- Hum, mas é muito boa – ele respondeu com uma mão na boca que ainda mastigava a torta a minha negação..

No fim eu aceitei, e me martirizei internamente por nunca ter pedido esse sabor antes.

Foi o inicio do meu fim.

Agora ele não está mais aqui, só eu chorando em um chão gélido ao som da chuva, um som que não parece tão agradável agora, até que os soluços do meu choro ecoassem tão alto que o barulho de chuva ficasse fraco aos meus ouvidos, e eu tombar para o lado caindo em uma posição fetal. Na esperança que tudo se vá com as lagrimas, quem sabe?