No Angel
1 'Cause you're no angel either, baby
Notas iniciais
Kazuya fumava um cigarro e soltava a fumaça de maneira despreocupada, enquanto Jun estava no chuveiro tomando um longo banho. O cheiro da fumaça ficaria impregnado na casa dela, e ele sabia que isso, mais tarde, a deixaria irritada. Mas por que diabos estava fazendo aquilo? Bom, Kazuya queria deixar sua marca, deixar claro que esteve ali para quem fingia não saber da relação dos dois.
O namoro, como ele dizia, ou o caso, como Jun afirmava, não tinha o apoio da família dela, os Kazamas. Para eles, era o cúmulo do absurdo aceitar um homem como Kazuya Mishima como companheiro de sua preciosa filha. Nesse ponto não os julgava, afinal, nunca na vida desejaria ter um genro como ele no lugar dos sogros.
O que mais o intrigava era como Jun Kazama conseguia ser a mulher mais cínica desse mundo, com a maior naturalidade perante sua família. Deixou a fumaça escapar de seus lábios junto ao riso seco... Como ela consegue tão bem manter a pose de anjo, de santinha inabalável?
Kazuya dizia conhecê-la muito bem, dos pés à cabeça, mas Jun era uma garota muito esperta, sempre com uma resposta na ponta da língua. E agora ele estava ali, refletindo a possibilidade de um futuro para os dois — se havia essa possibilidade. Jun não teria como se esquivar dessa vez se quisesse continuar com ele.
Ele sabia muito bem o que os dois sentiam um pelo outro, mesmo sem gritarem aos sete ventos que se amavam mais que tudo. Mas, às vezes, ele tinha a sensação de que Jun preferiria que ele fosse um objeto inanimado; por exemplo, uma máquina incapaz de decifrá-la por completo, incapaz de perceber quando mente... Que fosse incapaz de perceber seus sentimentos por ele.
A última conversa que tiveram em um encontro às escondidas martelava em sua cabeça, as palavras dela mais pareciam uma forma de perpetuar o segredo do “’relacionamento”:
“Querido, coloque os seus braços em volta de mim
Diga-me que sou o problema
Sei que não sou a garota que você pensou
Que conhecia e que você queria
Debaixo do rosto bonito há algo complicado
Vim com um lado problemático
E eu sei que é por isso que você vai ficar
Porque você também não é nenhum anjo...
...Você não é nenhum anjo, Kaz’’.
Querendo ela ou não, se não era amor o que sentiam um pelo outro, era algo tão forte quanto. Uma coisa de pele, intenso. O mísero ato de envolvê-la em seus braços fazia os corpos de ambos reagirem em êxtase, como se o cérebro mandasse uma resposta positiva e imediata pelo contato corpo a corpo. Eletrizante.
Estava tão envolvido em seus pensamentos que nem ouviu Jun desligar o chuveiro e sair do banheiro. Tentou apagar o cigarro na cômoda discretamente, mas ela percebeu.
— Nem se dê ao trabalho — ela disse, encarando-o de braços cruzados. — Pode soltar a fumaça.
Kazuya abriu a janela do quarto, baforando para fora. Ao se virar, percebeu Jun borrifar seu perfume pelo quarto.
— Você não aprende mesmo, não é? Desse jeito vai partir dessa para melhor.
— Ou para pior. — Kazuya deu uma piscadela, Jun apenas revirou os olhos.
Ao passo que ela se trocava, o Mishima permitiu-se observá-la. Os cabelos escuros molhados e acima de seus ombros que ela secava com o auxílio da toalha. Os olhos castanhos dóceis e penetrantes. O nariz delicado. Os lábios rosados e finos. Suas curvas não deixavam a desejar; Jun era uma mulher esbelta, e ele tinha a sorte de tê-la só para si.
Para que tudo estivesse perfeito, a solução era simples: que ela o escolhesse, que optasse pela verdade.
— Jun... — ele a chamou, assim que ela terminou de se vestir. — Precisamos conversar.
Kazama apenas assentiu, permitindo ser puxada pelas mãos até sua cama.
— Posso imaginar o assunto... Você se cansou de mim, não é? Cansou de me esperar, de minhas desculpas, e... — respondeu ela, em um tom de voz embargado e os olhos marejados. — E eu posso entender, não é uma situação agradável.
— Não, não é, Jun. Contudo, eu ainda não desisti de nós, estou disposto a uma última cartada. Se não der certo... é um adeus — ele respirou fundo ao dizer a frase final.
Jun abriu a boca várias vezes, mas as lágrimas falaram por ela. Antes de dizer o que queria, ele secou seu rosto com delicadeza.
— Em nosso último encontro, você afirmou que eu não deveria te julgar, pois “também não sou nenhum anjo’’. De fato, você está certa. Cometi muitos erros até aqui, mas pelo menos estou tentando seguir por um caminho melhor e tive a coragem de enfrentar esses obstáculos que me impediam de ser livre para viver a minha vida.
— Não sei se tenho forças para isso, Kazuya, tente entender! É um passo arriscado demais para mim — ela disse, categoricamente. — Não daremos certo juntos, somos de mundos muito diferentes.
— Você não acredita nisso, não há convicção nos seus olhos.
Jun não tinha mais forças para escapar das palavras duras de Kazuya. Aquilo era um ultimato, não tinha para onde correr. Quer dizer, Jun conseguia visualizar o caminho certo para ela, porém a covardia falava mais alto.
— Eu não posso virar as costas para aqueles que fizeram tudo por mim. Você mesmo me dizia que eu não deveria virar as costas para minha família, como você fez com a sua, pois isso não tem volta.
— Porque a sua situação é diferente da minha, Jun. Mesmo que eles não aceitem de primeira, o tempo irá unir vocês de novo. Eu sei disso — ele afirmou, olhando nos olhos dela. — Nunca quis lhe causar problemas com eles.
Um súbito silêncio tomou conta dos dois, até que Jun tomou a palavra:
— Eu te amo.
— E eu te amo mais do que pensei que você fosse antes... Anjo.
— Ainda não sei se é a melhor decisão, mas assumirei o que sinto por você porque essa é a única certeza que eu tenho. Não será fácil para nós, mas ninguém disse que somos anjos, certo?
Kazuya abriu um sorriso, um sorriso torto, porém vitorioso. Aproximou-se para beijá-la; Jun, no entanto, foi rápida e borrifou o perfume na boca dele.
— Jun!
— É o preço que você paga por fumar aqui dentro, Kaz — ela disse com um ar inocente. — Se quiser um beijo meu, faça por onde.
A única reação dele foi rir enquanto a observava fazer o mesmo.
O pior é que ela sabia que o deixava louco. Por ela e para ela. Sempre...
— Então, quer dar uma volta? — perguntou ela, com seu sorriso costumeiro.
Kazuya deu uma piscadela, brincando com as chaves do carro. Que assim seja.
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