No
1 Capítulo 1
Talvez fosse a bebida ou talvez fosse as pessoas gritando e esbarrando em mim, não importava. Eu estava ficando tonta, não conseguia mais distinguir sons ou cores, tudo rodava e de repente, escuridão plena.
Me avisaram que as festas da faculdade eram diferentes e mais maçantes, mas eu não esperava cair de cabeça tão fácil. No ensino médio posso contar nos dedos de uma só mão as festas as quais compareci. Porém,decidi que essa nova fase da minha vida seria diferente. Começou meio confuso, mas prometi a mim que não teria medo de arriscar um pouco mais.
Quando meus olhos finalmente cederam à minha vontade, consegui enxergar ao meu redor o desastre da noite passada. Todos caídos ao chão, dormindo. Um odor de vômito, sangue e álcool se misturava pelo cômodo e comecei a me sentir nauseada. Comecei a me levantar com dificuldade e por sorte todos estavam bem. O cheiro de sangue vinha de um corte no braço de um menino e havia uma garrafa de vodka quebrada perto dele.
A coisa mais estúpida que fiz foi vir desacompanhada. Eu não lembrava o endereço onde estava e não tinha ideia de como voltar para o campus da universidade. Comecei a andar pela casa para tentar encontrar alguém acordado mas não obtive sucesso. O problemático era que, quanto mais eu andava pela residência, mais as memórias dos cômodos surgiam na minha cabeça e mais o odor de sangue exalava.
Quando estava para abrir a porta da frente alguém agarrou meu pé e puxou. Não conseguiu puxar forte mas chamou minha atenção. Dou meia volta e um rapaz levemente loiro olha para mim pedindo ajuda. Havia uma garota em cima dele e havia sangue para todos os lados.Com certa dificuldade consegui empurrá-la para o lado e ele foi levantando-se aos poucos. Ele tinha o terror nos olhos. Foi quando eu me dei conta que a maioria das pessoas estavam mortas naquela casa. Algo havia acontecido e eu estava bêbada e entorpecida demais para lembrar. Ele agarrou meu punho e me puxou para perto dele e sussurrou com dificuldade:
—Temos...q-que cham-mar a...polícia.- Ele estava péssimo, com hematomas no pescoço e a roupa rasgada. Balancei a cabeça em concordância.
—Mas antes precisamos ver se há mais alguém vivo.- Eu disse por fim. Ele apenas concordou e andamos pela casa novamente.
Não. Quando eu andei pela casa na primeira vez eu não olhei para o chão. Evitei olhar para qualquer lugar. Os odores estavam exalando tão fortemente que não tive coragem de olhar. Mas agora que estávamos procurando por outros ''sobreviventes'' eu precisava checar tudo.Pessoas abraçadas, nuas e semi-nuas, com um cigarro na boca...todas deitadas e mortas. Havia muito sangue seco pelos cômodos e resolvemos andar com cuidado. Subimos as escadas e voltamos. Não encontramos ninguém. Por último fomos ao banheiro perto da cozinha e foi quando encontramos uma menina na banheira. Ele começou a murmurar algo e a levantamos.
Ela estava bem. Sem nenhum arranhão e com ressaca. Igual a mim. Depois de reanimá-la resolvemos ir até o centro policial do campus. Não darei muitos detalhes, pois eu mesma não sei bem o que aconteceu. Foi o rapaz levemente loiro que falou tudo. Mas pelo que consegui ouvi ele disse o seguinte:
''Estavam todos dançando e bebendo quando dois caras altos e de bandanas entraram. Pareciam motoqueiros de alguma gangue. Eles adentraram a casa e depois de 20 minutos ouvi tiros e uma gritaria infernal. Todos começaram a cair ao chão e eu permaneci parado. Quando tudo se acalmou eu tentei fugir e um deles me ouviu e me engasgou. Só lembro de uma dor na garganta e na cabeça e tudo ficou escuro''.
Os policiais nos interrogaram mais um pouco e nos liberaram. Eu não sabia quem era o dono da festa mas ele provavelmente foi o primeiro a morrer. Era para ter sido algo exclusivo mas houve alguns penetras, inclusive eu, e acho que os reais convidados talvez estivessem envolvidos na questão.
A menina parecia tão confusa quanto eu, mas o rapaz parecia saber de algo mais. Ele com certeza não era um penetra naquela festa. Mas depois de tudo isso, ele apenas evitou meu olhar.
Como eu disse, nos liberaram e eu e a outra garota resolvemos voltar para o campus, enquanto o rapaz levemente loiro apenas deu um sorriso de canto de boca e foi para a direção oposta à nossa.
—Ele não é uma boa companhia- A garota resmungou.
—Não, não é.
O nome dela era Mara e acabamos ficando amigas depois de toda essa situação. Foi dificultoso levar os dias seguintes com normalidade. As pessoas sempre vinham até nós perguntar sobre aquela noite. Mas nossas respostas sempre eram insatisfatórias, pois ambas estávamos dormindo quando tudo aconteceu.
Mara sobreviveu pois estava na banheira. E eu, bem, eu já estava caída ao chão quando os outros resolveram juntar-se à mim.
Fale com o autor