Robin não conseguiu dormir. Ouviu quando Regina se levantou, foi para a cozinha preparar o café e pôr tudo na mesa da copa, como fazia todas as manhãs antes de sair para o trabalho. Não teve coragem de se levantar. Deixou-se ficar, imerso em seu desespero, sem vontade de fazer nada. Ouviu quando ela saiu e só então se levantou.

As crianças ainda dormiam. Ele se lavou e foi para a cozinha. Granny estava na lavanderia colocando roupa na máquina de lavar. Encheu de café a xícara e sentou-se. Estava sem fome. Sua vida estava acabada. Mesmo que ele arranjasse um emprego, como esquecer a atitude de Regina? Ela não compreendia sua dor. Como ele poderia sorrir, ficar alegre, na situação em que se encontrava? “É na hora da necessidade que se conhecem as pessoas”, pensou ele. “Se ela me amasse, não me negaria conforto nesta hora.”

Granny entrou na cozinha, olhou para o rosto abatido de Robin. Regina dormira no quarto das crianças, por certo eles tinham brigado. Fingiu não notar nada. Não gostava de se meter na vida de ninguém.

Robin, vendo-a entrar, pensou: “Regina e Granny se dão muito bem. Elas conversam como amigas. Se Regina estiver me traindo, Granny deve saber. Pode ser até que a ajude a encobrir. As mulheres se entendem nessas coisas.” Lançou um olhar desconfiado para Granny, que lavava louça na pia.

— Você não vai trabalhar fora hoje?

— Só à tarde. Vou passar roupas na casa da D. Catherine novamente. Vou adiantar o serviço aqui, fazer almoço, deixar tudo arrumado, levar as crianças para a escola. Só não posso ir buscar. O senhor pode ir?

— Sim, pode deixar.

— Quero deixar tudo arrumado, assim D. Regina não vai precisar fazer nada quando chegar.

— Ela anda muito irritada ultimamente.

— Isso passa. Todos temos esses altos e baixos.

— Ela está muito mudada, você não acha?

— Não, senhor. Está como sempre foi. Só um pouco cansada. Quero dar um jeito de fazer ela descansar mais.

— Ela não aceita nossa situação.

— D. Regina é uma mulher muito corajosa. Está fazendo o que pode para ajudar.

— Vocês se entendem muito bem, não é? São muito amigas.

— Sim, senhor. Gosto muito de trabalhar aqui.

— Ela fala com você sobre o que acontece no escritório?

— Não, senhor. Por que me pergunta isso?

— É que eu pensei que ela pudesse contar como são as coisas lá. Afinal, vocês conversam tanto...

Granny olhou séria para ele. Por que estaria lhe fazendo aquelas perguntas? O que estava querendo saber? — D. Regina não me faz de sua confidente, se quer saber. Eu é que às vezes conto meus problemas para ela.

— Seria natural que ela contasse os dela para você.

— Mas ela não conta, não.

Ele não disse mais nada. O tom de Granny não o animava a prosseguir. Se ela soubesse de algo, ele iria precisar de toda a astúcia para descobrir. Ela era esperta e parecia disposta a não contar nada.

— Vou comprar o jornal.

— Eu trouxe quando fui comprar o pão. Está na mesa da sala.

Robin foi apanhá-lo. Tinha de arranjar alguma coisa para fazer. Não podia ficar de braços cruzados enquanto sua vida conjugal estava sendo arrasada. Depois, tinha dignidade. Não podia continuar vivendo à custa da mulher. Fora por causa disso que ela perdera o respeito e lhe dissera todas aquelas coisas. Tinha de mostrar a ela que ele era competente para sustentar a família e não precisava mendigar o dinheiro dela. Depois da cena da noite anterior, ele não iria mais aceitar um centavo dela. Teria de dar um jeito, fazer qualquer coisa para conseguir pelo menos algum dinheiro para suas despesas e não precisar lhe pedir nada. Até então estivera procurando um emprego que lhe desse condições de manter a família no mesmo padrão a que se habituara. Mas, naquela circunstância, aceitaria qualquer coisa, contanto que não precisasse pedir mais dinheiro à esposa. Tinha seu orgulho e não abria mão dele. Decidido, abriu o jornal e começou a ler todos os anúncios, sem distinção. Anotou alguns que lhe pareceram melhores. Procurou Granny:

— Vou sair agora.

— O senhor vem para o almoço?

— Acho que não.

— Mas vai buscar as crianças na escola?

— Vou. Pode deixar. Ele saiu e colocou a mão no bolso. Tinha apenas alguns trocados. Mordeu os lábios com raiva. Tinha de dar pelo menos para a condução. Era uma vergonha. Ele que sempre fora honesto, trabalhador, esforçado, ficar reduzido àquela miséria. A vida era perversa, injusta. Enquanto ele, que sempre fora esforçado,correto, estava passando necessidade, Gold, o ladrão, com certeza estava levando uma vida boa. A polícia não valia nada, uma vez que não tomara nenhuma providência para encontrá-lo. Cada vez que ia à delegacia, ouvia sempre a mesma coisa: eles estavam procurando, mas o engenheiro havia desaparecido. Suspeitavam até que ele havia saído do Brasil. Robin passou a mão pelos cabelos como para afastar os pensamentos desagradáveis. Por que a vida o tinha castigado tanto? Nem a mulher o respeitava mais. Claro, ele estava por baixo. Ela tinha de sustentá-lo. Como Regina iria amá-lo vendo-o como incompetente, incapaz de manter a família? O amor vem com a admiração, pensava ele. As mulheres só amam o homem que podem admirar. E ele estava a zero. Até na cama ele havia fracassado na última semana. Isso nunca lhe acontecera. Fora a humilhação máxima. Quanto mais Regina tentava justificar dizendo que ele estava muito tenso, preocupado e que nessas circunstâncias era normal acontecer, mais ele se sentia arrasado. Ela estava diferente. Talvez não o amasse mais. E se estivesse apaixonada por outro?

No escritório em que ela trabalhava apesar da chefe dela ser uma mulher, havia muitos executivos, elegantes, de bem com a vida, com belo carro, boas roupas, podendo oferecer a ela uma vida melhor. Ela fizera bastantes horas extras naquele mês. Ganhara bom dinheiro, inclusive um prêmio, com o qual pagara a escola das crianças. Teria feito horas extras mesmo ou teria saído com alguém? Ela sempre fora uma mulher séria, mas agora, na situação em que se encontravam, bem poderia ser tentada. Apesar de tudo, andava bem arrumada, perfumada, vestia-se bem. O dinheiro do trabalho daria para tudo? Enquanto esperava no saguão de uma fábrica, Robin não conseguia desviar o pensamento de Regina. Havia preenchido uma ficha e quando foi chamado informaram-lhe que o único cargo que seria possível para ele era o de faxineiro. Robin achava que tinha capacidade para fazer algo melhor, mas engoliu o orgulho e prontificou-se a aceitar. Mas disseram-lhe que sua ficha ficaria à espera de uma vaga no setor, porque naquele momento o cargo já estava preenchido. Desanimado, ele saiu e foi aos outros endereços, mas era sempre a mesma coisa. Mesmo aceitando qualquer serviço, ele não conseguiu nada. Estava esperando a vez de ser atendido pelo gerente em um depósito de construção. Ele conhecia o ramo, estava esperançoso. Consultou o relógio e percebeu que não podia esperar mais. Tinha de buscar as crianças na escola. Olhou o número de pessoas que aguardavam e resolveu ir embora. Não ia dar para esperar. Tanta gente para uma vaga. Com a sorte que ele estava, não iria dar certo mesmo. Saiu dali e foi para o ponto de ônibus.

Não iria contar a ninguém que nem para faxineiro conseguira emprego. Ele, que fora dono do próprio negócio! Se Regina soubesse, seria vergonhoso. Sentia o estômago enjoado e a cabeça doía fortemente. De repente, sentiu-se tonto e segurou-se no poste para não cair. Lembrou que não havia almoçado. O dinheiro não dava nem para um sanduíche. Respirou fundo. Tinha de pegar as crianças. Felizmente o ônibus chegou Logo e ele subiu, deixando-se cair em um banco tentando conter o mal-estar. Subitamente teve sua atenção voltada para um carro de luxo que passava. Dentro havia duas pessoas, e Robin reconheceu Regina. Seu coração descompassou e ele sentiu sua vista nublar.

O carro parou no farol, o ônibus também, e ele imediatamente desceu, tentando aproximar-se do carro. Queria surpreender os traidores. Porém, antes que ele conseguisse seu intento, o farol abriu e o carro seguiu adiante.

— Parem, eu estou vendo vocês! Parem! — gritou ele. Sem poder conter a emoção, sentiu tudo girar à sua volta e perdeu os sentidos, ficando estirado no asfalto.

Notas finais
Eita! Será que era a Regina? O que vocês acham que vai rolar? Eu realmente queria que vocês falassem comigo. Até o próximo.