Ninguém é de Ninguém.
3 Capítulo 3.
— Santo Deus! É o que dá querer ser mais do que é! Por que tanta ambição? Você não estava bem com o que ganhava? – Cora soltou sem nem se importar com os sentimentos do filho.
— Acho que errei vindo buscar sua orientação. Eu preciso de ajuda, não de crítica. Se eu soubesse com quem estava me metendo, nunca teria feito esse negócio. Ele é um engenheiro! Nunca pensei que fosse querer me passar a perna desse jeito. Robin levantou-se nervoso e finalizou:
— Vou embora. Foi um erro vir aqui.
Sua mãe bem que tentou impedir, mas ele foi assim mesmo. Robin saiu sentindo aumentar seu desespero. Parou em uma banca e comprou um jornal. Na seção de classificados, procurou atentamente por escritórios de advocacia. Teria de ver os anúncios e arriscar. Ele não estava em condições de perder tempo. Depois de escolher um escritório no centro da cidade, dirigiu-se para lá.
Havia uma pessoa dentro da sala do advogado e outra na sala de espera. Ele teria de aguardar. Seus olhos percorreram a sala. O ambiente era sóbrio, sem luxo, porém bem cuidado. Ele nunca iria a um escritório de luxo. Não estava em condições de pagar muito pela consulta. Mas, por outro lado, um advogado pobre não lhe inspiraria confiança. Era sinal de que ele não tinha muitos clientes e por isso não deveria ser eficiente.
Remexeu-se na cadeira tentando acomodar-se melhor. Parecia-lhe haver escolhido bem. Uma hora e meia depois, quando entrou na sala do advogado, já não suportava mais esperar. O Dr. Killian era um homem dos seus trinta e cinco anos, alto, rosto forte de traços bem pronunciados e olhos castanho-escuros.
Convidado a sentar-se, Robin respirou fundo e contou-lhe tudo quanto lhe havia acontecido. O advogado ouviu-o com atenção, o que fez Robin sentir-se confortado e compreendido.
— Hoje o meu mundo desmoronou — finalizou. — Estou me sentindo perdido. Não sei como proceder. Estou arrependido de haver confiado tanto nele, sinto-me um tolo, um idiota de boa-fé que foi passado para trás sem nenhuma cerimônia. O pior é que minha mulher ainda não sabe de nada. Contar-lhe será um horror. Ela sempre desconfiou dele.
— Avalio como se sente. Entretanto, agora, precisa controlar as emoções e procurar uma saída. A lei oferece-lhe algumas alternativas. Já deu queixa à polícia?
— Queixa à polícia? Claro que não. Será um escândalo. Não quero passar essa vergonha.
— O orgulho é inimigo do bom senso. Você precisa documentar o desfalque. Embora isso não lhe anule a dívida, poderá melhorar suas condições diante do juiz. Precisa provar que foi ludibriado e não agiu de má-fé.
— Claro que não agi. Eu fui enganado, terminei como o maior prejudicado! Você poderia ter combinado com seu sócio para lesar essas pessoas e depois dividir o dinheiro.
— Eu sou um homem honesto! Nunca faria isso!
— Eu acredito, mas o juiz pode duvidar. Ele não o conhece e precisa de informações para julgar com justiça. Seu advogado vai precisar de documentos para entrar com recurso, e o mais importante deles é a queixa na polícia para registrar o roubo.
— Entendo. Terei que fazer isso?
— É o primeiro passo. Depois, pode visitar os credores, um a um, contar-lhes a verdade e pedir-lhes um tempo para devolver o dinheiro, o que poderá ser feito de forma parcelada, de acordo com suas posses.
— Se eu tiver que vender o depósito de materiais, não terei como ganhar dinheiro para lhes pagar.
— Esse será um bom argumento para usar com seus credores. Eles desejam receber. Você precisa mostrar boa vontade e o desejo de lhes pagar. Um acordo bem feito poderá beneficiar ambas as partes.
— O senhor acha que podemos conseguir isso?
— Seu advogado poderá tentar.
— Não tenho advogado, ou melhor, o que eu tinha foi-me indicado pelo meu sócio. Não me sinto encorajado em dar-lhe a causa. Vim procurá-lo através do seu anúncio no jornal. Gostei. Estou sentindo que o senhor poderá me ajudar e gostaria de contratá-lo. Estou preocupado com o preço, porque no momento minha situação é crítica. Se esperar um pouco até que as coisas melhorem, pagarei tudo que puder. Killian sorriu ao responder:
— Você poderá pagar os meus honorários no final.
— Sendo assim, fico-lhe muito grato.
— Vamos fazer o seguinte: vou mandar preparar uma procuração, como de praxe, e depois iremos à delegacia mais próxima da sua empresa fazer oficialmente a queixa. Tem as informações sobre seu sócio?
— Eu não sei onde ele está.
— Não é isso. Refiro-me ao nome completo, idade, número de documentos, etc.
— Devo ter tudo isso na empresa. Além do contrato social, há os documentos de compra e venda dos apartamentos. Não será difícil conseguir.
— Tem consigo seus documentos?
—Tenho.
O advogado chamou a secretária e deu-lhe as instruções e os documentos de Robin. Enquanto esperavam, mandou servir um café. Robin sentia-se apoiado e agradecido. Retirou uma foto da carteira e mostrou-a ao advogado.
— Estes são meus filhos. Esta é minha esposa. É por eles que eu trabalho e vivo. Nem sei como dar essa notícia a Regina.
— Quanto menos dramatizar, melhor será.
— Como assim?
— Se deseja que eles aceitem a verdade com calma, você precisa apresentar os fatos com naturalidade, contar o que aconteceu e não se lamentar.
— Como não lamentar um caso desses?
— Você já sofreu com o fato em si. Mas aumentar o sofrimento de sua família não vai melhorar em nada a questão. As coisas vão continuar do jeito que estão. Se deseja poupar sua esposa, o melhor é conservar a serenidade, mostrar que tomou as providências cabíveis e que está fazendo o que pode para solucionar tudo. Isso é o mais importante. Para que alarmar sua família inutilmente?
Robin não respondeu e ficou pensativo. Para o advogado, que estava de fora e nada tinha a ver com o caso, isso poderia ser fácil. Mas ele, que fora a vítima, não se sentia calmo o bastante para falar no assunto com serenidade. Sua vida se desmoronara, como se manter calmo?
Depois de haver assinado a procuração, Robin, em companhia de Killian, passou na empresa, apanhou os dados de que precisava e foram até a delegacia dar queixa.
Fale com o autor