Ninguém Precisa Saber
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Apesar dos dois corpos não estaremcolados, o beijo seguia fervorosamente em meio aquele ambiente que estava num completo breu. O toque de lábios e línguas era quase que mágico; despertava um desejo ardente de aprofundar cada toque e eternizar aquele momento. A velocidade em que a excitação crescia em cada um, era equivalente a velocidade de um incêndio se alastrando num armazém com materiais inflamáveis. Ambos se sentiam iluminados, seus corpos estavam em uma espécie de combustão.
Quando os refletores foram acesos, Marcão e Zé abriram seus olhos, e a com a iluminação, veio a surpresa: estavam se beijando.
Logo um empurrou o outro para se afastarem, e olharam em volta; por sorte, ninguém pareceu notar que eles estavam se beijando, e ambos agradeceram mentalmente a Deus por isso.
– Você... Me beijou? – Zé perguntou, deixando transparecer em sua voz toda a confusão que sentia. – Que nojo, cara! – ele tentava pensar nisso como uma coisa ruim, afinal, beijara um cara... E ele até poderia enganar os outros falando o que quisesse sobre aquele momento, mas a verdade era uma só e isso não teria como mudar: Havia sido bom. Muito bom.
– N-não, tá maluco? – Marcão gaguejou. – Você foi quem me beijou.
– Você veio pra cima de mim – disse Zé, limpando a boca com a mão.
– Mas você bem que retribuiu – Marcão provocou.
– Estava escuro – Zé disse para explicar. Obviamente ele não beijaria Marcão se as luzes estivessem acesas.
– Mas aí... Eu beijo bem? – Marcão brincou.
– Foda-se – Zé bufou e se afastou rapidamente de Marcão, que logo o perdeu de vista em meio à multidão.
Zé foi até o banheiro e se trancou em uma das cabines, tudo o que ele precisava era ficar sozinho e poder refletir.
Sua mente era uma tremenda confusão.
Zé queria esquecer essa noite e apagar da memória esse beijo – e ele tentou; tentou demais –, mas certas coisas são impossíveis de controlar.
"E se alguém viu esse beijo? E se espalharem pela academia de luta?", essas perguntas se fixaram em sua mente durante os 10 minutos que permaneceu ali no banheiro em silêncio. Silêncio esse que despareceu quando alguém entrou no banheiro.
– Zé? – Marcão chamou. – Eu sei que você tá aqui, o Duca te viu entrar.
Zé continuou em silêncio, desejando que Marcão fosse embora porque ele realmente não estava querendo conversar naquele momento, mas Marcão insistiu.
– Ah, Zé... Qual é?!
Marcão começou a abrir cabine por cabine do banheiro – que por sorte estava vazio – até encontrar a cabine que Zé estava.
– Vai embora – disse Zé.
Zé empurrou a porta para não deixar Marcão entrar na cabine, porque dois homens numa cabine de banheiro, juntos, seria muito estranho.
Marcão empurrou a porta de volta e Zé bufou, irritado por não tê-la trancado antes.
– Nós vamos conversar – Marcão disse com convicção e, decidido, conseguiu entrar na cabine.
A cabine já não era espaçosa pra uma só pessoa, pra duas – dois fortes lutadores – então, era quase sufocante.
– Então... – Marcão começou sem saber ao certo como conduzir essa conversa. Ele não tinha nada em mente e nem tinha certeza do que ele queria e iria dizer para o amigo, ele só sabia que essa conversa tinha que acontecer. De maneira alguma Marcão fingiria que o beijo não aconteceu.
– Sai daqui, Marcão, você imagina o quão estranho dois homens numa cabine de banheiro parece? – perguntou Zé, um pouco desconfortável com a proximidade dos dois.
– Mas lá fora...
– Aquilo não devia ter acontecido, Marcão. Foi um erro, um mal entendido..
– Não!
A palavra saiu da boca de Marcão antes mesmo que ele pudesse se dar conta.
Ele não planejava exatamente expor seus sentimentos pelo amigo – até porque nem ele mesmo os compreendia direito. Algumas vezes Marcão já se sentira atraído por Zé, mas ele sempre tentava deixar isso de lado, porque Zé era hetero. Ele mesmo também era hetero, nunca sentira atração por outra pessoa do mesmo sexo, exceto por Zé. Mas essa vontade de tocar e de ficar próximo do amigo não era sinal de que Marcão era apaixonado por Zé. Claro que não, ele mesmo saberia se aquilo fosse paixão... Já se apaixonou por algumas garotas e aquilo definitivamente não era paixão, era algo diferente.
– Não...? – Zé lhe lançou um olhar desconfiado.
– Ok – Marcão fechou os olhos por um breve momento e suspirou. – O que você sentiu?
– C-como assim?
– O que você sentiu quando... Você sabe... – apontou para os dois. – Eu e você nos... Beijamos.
– Sh! – Zé colocou um dedo sobre os lábios do outro. – Alguém pode ouvir, e ninguém precisa saber disso.
– É sério, Zé. Como foi?
– Dá pra parar? – pediu Zé e com a maior dificuldade do mundo, saiu da cabine.
Marcão o seguiu, mas Zé não tinha saído do banheiro. Ele só estava se sentindo um pouco sufocado naquela pequena cabine – além do tamanho, tinha o cheiro que não era dos melhores também – e ficou ali parado em frente à pia e o espelho.
– Você gostou – disse Marcão, se aproximando do menor.
– O quê? Olha, eu não sei o que você tomou, mas você está completamente...
– Eu sei que você gostou – Marcão o interrompeu, se aproximando ainda mais de Zé; segurou sua mão direita e assumiu, quase num sussurro: – Não tem problema, eu também gostei.
Zé tinha gostado do beijo, é óbvio, mas isso não queria dizer que ele teria que assumir isso em voz alta. Ainda mais no banheiro, no meio de festa, onde alguém poderia entrar a qualquer momento. E também, foi um beijo no escuro e eles estavam querendo beijar alguém... Foi carência e confusão, não desejo.
– Eu não... – Zé soltou sua mão das mãos de Marcão e teve a impressão de tê-lo visto suspirar.
– Não negue, Zé. Você pode enganar qualquer pessoa lá fora, mas eu não. Eu sei o que você sentiu, porque eu senti o mesmo. Pode ter sido um erro, uma confusão ou qualquer outra coisa, mas foi bom.
– Se alguém entrar por aquela porta eu juro que acabo com a sua raça – disse Zé, tentando usar um tom ameaçador e uma expressão rude, mas falhou gravemente.
– Tá vendo? – Marcão riu. – Desde que eu entrei aqui você só quer saber se alguém viu ou ouviu alguma coisa. Você só se questiona se alguém vai saber de algo e não reflete sobre o beijo. Sabe por quê? Porque você sabe que gostou, e é por isso que você não questiona. Você tem certeza do que sentiu.
Zé sentiu seu coração apertar, porque era a verdade e nem ele mesmo tinha pensado nisso dessa forma. Ele se perguntou se Marcão realmente é meio lesado em outros momentos ou se ele só se faz, porque naquele momento ele soube reparar e observar muito bem.
– Foi bom, ok? Era isso que você queria ouvir?
– Como nós dois gostamos, eu acho que nós podemos repetir e..
– Peraí, Marcão... Aquilo que aconteceu não nos transforma em namorados. Não vamos sair por aí de mãos dadas e nem nada do tipo... Deus, nós não somos nem gays!
– Ei, relaxa. Eu te pedi isso? – Zé negou e Marcão continuou: – Você se lembra quando nós éramos pequenos e os garotos da escola tiravam sarro de nós porque a gente já lutava de brincadeira, mas eles falavam que nós éramos namorados e estávamos nos agarrando? – Zé assentiu. – Você se lembra o que sua mãe falou quando nós contamos pra ela?
– Sempre façam o que lhes faz bem e não liguem para a opinião alheia – respondeu Zé, exatamente como sua mãe dissera anos atrás.
– Então façamos o que nos faz bem.
Marcão se aproximou ainda mais de Zé e lhe puxou pela nuca para um beijo rápido, porém intenso, que Zé não hesitou em retribuir. Inconscientemente, Zé colocou a mão na cintura de Marcão, mas o mesmo afastou seus lábios do outro.
– E ninguém precisa saber – disse Marcão, deixando Zé ali e se dirigindo de volta para a festa.
Marcão teve a impressão de que eles ainda reviveriam esses momentos muitas vezes e ele finalmente compreendeu os sentimentos que tem para com Zé. Não se tratava de paixão – paixão é algo mais carnal, como o que ele sentia pelas garotas que namorara. O que ele sentia por Zé era algo mais puro e genuíno. Era amor.
Por isso ele sempre quis ficar perto do outro, em todas as ocasiões – piores ou melhores. Por isso ele não se incomodava quando as pessoas diziam que eles pareciam um casal. Por isso ele valorizava tanto essa ligação forte que eles tinham. Definitivamente era amor. Sempre foi, desde quando eram crianças, e sempre será.
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