Ninguém Precisa Saber - 2 temporada
12 Martim Vaz
Uma van. Nosso meio de transporte era uma van com vidros escuros.
Ethan abriu a porta de trás e me colocou lá dentro e trancou a porta.
Ele foi para o banco do motorista.
– Não tem medo que eu te estrangule aqui atrás? – Perguntei pouco depois, quando já estávamos na estrada.
– Você não vai fazer isso. Se fizer, vou perder o controle da direção e iremos bater em alguém ou em alguma coisa. A policia irá atrás de você, e pelo o que eu sei você não iria gostar de ter os holofotes da policia focados nas coisas que você fez.
O que ele disse era verdade.
Me sentei quieta no banco de trás. Minha perna doía muito. Eu aprendi a ficar com dor, mas essa era insuportável.
– Por favor, Ethan, não tem como me matar ou algo assim?
– Você pedindo com tanto carinho... Não.
– Minha perna está em carne viva! Porque você me deu um tiro!
– Não grite! Isso foi preciso. Já vamos chegar no aeroporto, não reclame.
– Aeroporto?
– Por acaso gaguejei?
– Vamos para onde?
– Não irei falar agora. – Ele me jogou uma garrafinha d’água e um pano. – Tome, limpe o ferimento, não quero que você suje com o seu sangue a minha van novinha.
Fiz o que ele me pediu.
Foi difícil com a van se sacudindo com as estradas esburacadas e com uma bala possivelmente alojada na coxa, mas fiz.
Ethan estacionou o carro no estacionamento particular do aeroporto e me deixou trancada lá dentro.
Não tentei fugir; seria um esforço feito inutilmente.
Ethan votou pouco depois com uma maca. Uma maca.
Ele abre a porta e a deixa escancarada, confiante que eu não iria fugir; ele estava certo.
– Vamos, deite-se aqui. – Obedeci e ele me jogou um lençol por cima.
Esqueci de dizer como Ethan estava vestido. Lá vai.
Um blazer branco – agora, manchado com sangue. – meio aberto, uma camisa preta de gola V, uma calça jeans preta e um tênis branco. Os cabelos platinados jogados propositalmente para o lado. Não vou dizer que ele estava feio porque seria mentira.
Ethan havia virado o blazer ao contrario para que o sangue não aparecesse. Ainda bem que aquele blazer era reversível.
Ethan me levou até um jatinho que aguardava na pista. Minha perna ainda doía.
Um jatinho super chique estava me aguardando na pista.
Enquanto eu agonizava em cima de uma maca com uma bala alojada na minha perna, Ethan bebia champanhe sentado confortavelmente na poltrona que parecia mais uma cama de tão grande.
Pensei em relaxar, mas não tinha como. Não com um ser espetacularmente bonito sentado na minha frente bebendo champanhe e me levando para onde quer que seja, e que eu posso apostar que não irá ser muito bom para mim.
Pouco mais de duas horas e meia – eu ainda agonizando em cima daquela maca sem conseguir pregar o olho – chegamos a algum lugar que eu não consegui identificar. Acho que ainda estávamos o Brasil.
– Seja bem-vinda Bella! – Falou ele em um gesto exagerado e alegre.
– Onde estamos?
– Em uma ilha não tão secreta, e que você não irá conseguir fugir sozinha.
– Quer apostar? – Ele fechou a cara e veio na beira da minha maca e apertou o local da bala, provocando um dor lancinante que percorreu por todo o meu corpo como uma flecha flamejante. – Acho que você não irá querer apostar comigo, não é? – Não conseguia responder. – Não é? – Falou mais alto.
– Não... Por favor...
– Por favor, o que? – Ele ainda não havia retirado o dedo do local inflamado, machucado seja lá o que for que estava doendo, e muito.
– Por favor, pare. PARE! – Ele retirou o dedo e um sorriso diabólico se postou em seu rosto.
– Vamos. – Falou ele retirando os cintos de seguranças que prendiam a maca ao avião e me levando para o ar livre.
Uma brisa marítima me atingiu furiosamente.
– Onde estamos? – Repeti a pergunta.
– Martim Vaz, do arquipélago Trindade e Martim Vaz, obviamente. Já ouviu falar?
– Não.
– Melhor.
– Vão me matar, matem-me logo.
– Não vamos te matar. Não ainda. – Ele deu uma pausa me levando pela pista até a um prédio que eu estava começando a avistar. – Talvez torturar, te deixar agonizando por horas, dias, meses... Mas por enquanto fique calma, relaxe. Você vai ver o quão legal é este lugar.
Realmente eu me surpreendi com o local.
E me surpreendi mais ainda com quem veio nos receber: uma criança.
Para ser mais exata, uma menininha com longos cabelos pretos ondulados e de olhos de um verde profundamente penetrantes.
– Olá Anny. – Ethan se dirige a tal menininha, que permanece com o rosto inexpressivo.
– Quem é ela? – A voz fininha, mas com uma pontada de irritação na pergunta.
– Ela é a encomenda.
– Isso? – A petulância na fala dela me deixou com uma vontade de respondê-la, mas me controlei, pois ela é apenas uma criança.
– Sim isso. – Ele ri.
– Entrem logo antes que eu me arrependa. – Diz ela apontando para seguirmos ela adentro da mansão.
A mansão era sem duvidas o dobro do tamanho do casarão de Amarílis no Rio de Janeiro.
Decorada com vários tons de vermelho, dourado e branco, deixa tudo com um ar mais superior e elegante que qualquer aposento real na Inglaterra. Não que eu já tenho ido lá, mas se a rainha estiver lendo, adoraria conhecer, sem nenhum problema!
De tanto me deparar com a beleza daquele lugar, quase me esqueço que estou com uma bala alojada na minha coxa e dentro de um provável covil. Mas não estou com medo.
Fico me perguntando se Theo até agora não percebeu o meu desaparecimento. Ou se percebeu o que está esperando para tentar adivinhar onde estou?
Isso com certeza foi ridículo.
A menininha irritante que eu nem conheço e não faço questão nenhuma de me acostumar com ela – Anny – fez um sinal para que parássemos.
– Leve a encomenda para a enfermaria, caso você já tenha se esquecido, é no corredor à esquerda, enquanto eu falo com Vossa Senhoria. – O jeito com que ela falou me deixou com vontade rir. Desde quando uma criança tem esse vocabulário?
– Vamos lá querida, Anny está um pouco irritada hoje.
– Não me chame de querida.
Seguimos a direção em que a irritada/petulante/criança/Anny nos disse para seguirmos.
A enfermaria parecia mais um hospital de grande e belo porte, meu Deus, como aquela mansão era grande.
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