Levantei-me cedo e fui ver como Phillip estava.

Ele dormia profundamente; encolhido, pois o quarto dele estava frio, então joguei um cobertor por cima dele e deixei um remédio para ele tomar quando acordasse.

Tomei um café, comi alguma coisa e limpei a sujeira que Phillip havia feito no dia anterior.

Troquei de roupa e sai.

O céu estava nublado e escuro. Provavelmente iria chover novamente.

Cheguei ao casarão exatamente ao meio dia. Eleanor estava me esperando na porta.

– Pontual. – Falou ela.

– Sempre.

– Venha, eu descobri onde ele está. Mas temos que ficar em silencio, pois a cela é no quarto de Amarílis. Prepare-se física e psicologicamente para o que for visto naquele quarto. Não perca a cabeça; um deslize e morremos em menos de cinco segundos.

Entramos na casa silenciosa e com um aroma cítrico. Subimos as escadas e fomos até a ultima porta do corredor. Eleanor abriu.

Cheiro de sangue logo veio até o meu nariz, o que revoltou o meu estomago. O que diabo estava acontecendo ali?

Não acendemos a luz, o quarto estava claro e o risco de Amarílis acordar era grande.

Eleanor me guiou até o canto do quarto, no qual, tinha uma porta. Entramos.

Uma única luz iluminando o rosto de Theo ensangüentado iluminava o quarto. Corri até as grades. Theo estava pálido, a única cor que havia nele era o vermelho do sangue.

Eleanor abriu as grades e eu corri até ele e pus minhas mãos em seu rosto gélido.

– Theo, Theo, acorde. – Falei baixinho, minha voz saiu tremula. Eu estava tremendo. Ele não se mexia e respirava com dificuldade. – Por favor, Theo, acorde. Sou eu, Bella, por favor... – Olhei suplicante para Eleanor que observava tudo com a mesma frieza de Amarílis. – Ajude ele. Ajude ele igual ao que fez com Phillip.

– Não posso. – Olhei para ela descrente do que eu acabara de escutar.

– O que? Como não?

– Amarílis fez alguma coisa com ele, eu não posso sequer chegar perto dele, tem alguma coisa... Não sei o que é que, me impede.

– Theo, por favor, meu amor, acorde... – Minha voz estava tão baixa que eu mal podia escutar.

Obvio que eu levaria alguma coisa para me proteger, eu não era a tola que Amarílis pensava que eu fosse. Peguei uma faca afiada que estava no meu casaco e cortei as cordas que o prendiam naquela cela.

Theo era pesado, mas eu consegui apoiar ele no meu corpo e deitar ele no chão suavemente.

Eu queria tanto chorar, mas eu tinha que ser forte. Eu sou forte.

– Eleanor, temos que sair daqui antes que aquele ser acorde. – “Aquele ser” era Amarílis, obviamente.

– Consegue levantar ele ou arrastá-lo?

– Acho que sim. Você pode me ajudar?

– Vou tentar.

Eleanor, com aqueles saltos altos sem fazer ruído nenhum, veio até Theo e eu e me ajudou a carregá-lo.

Abrimos a porta e o escuro voltou. Estávamos tentando fazer o mínimo de barulho possível.

Conseguimos sair do quarto de Amarílis sem nenhuma intervenção.

Chegamos ao hall; e então, surgiu da sombra do canto da parede Ethan. Perfeitamente arrumado e com um sorriso sinistro.

– Saindo sem se despedir Eleanor? E ainda por cima, arrastando nosso convidado com você?

– Saia da frente Ethan. – Falou ela em uma voz baixa e ameaçadora.

– E a educação? Amarílis não educou você o bastante? – Ethan não havia saído do lugar.

– Sai da nossa frente agora. – Ela falou o mais calmamente possível.

– Você irá me tirar daqui? – Ele falou debochadamente.

Foi ai que uma coisa inacreditável aconteceu. Ethan foi jogado na parede por um tipo de mão invisível.

– Eu disse para você sair da minha frente. – Falou Eleanor animadamente e andando em direção a porta.

– Não tão rápido querida. – Então, um tiro é disparado contra Eleanor, que cai no chão com um grito. O peso de Theo cai todo sobre mim. Eleanor se contorce no chão e Ethan se aproxima com a arma direcionada para a cabeça dela.

– Já deveria ter matado você há muito tempo.

– Você... Não... Tem coragem... Você é... Fraco. – Acho que fui à única que percebi que o sangue no lado direito do corpo dela estava secando rapidamente.

– Será que não tenho? – Quando Ethan puxou o gatilho, magicamente a arma voou da mão dele para a mão estendida de Eleanor que atirou sem pensar duas vezes e Ethan caiu no chão.

Por incrível que pareça, Eleanor acertou Ethan bem próximo do coração.

Larguei Theo no chão e fui até ela.

– Eleanor você está bem? Consegue se levantar?

– Consigo sim, obrigado. Só me ajude um pouquinho aqui, é que ainda dói.

– Como você faz isso?

– Um dia você saberá, mas temos que tirar Theo daqui.

– Não posso sair daqui com ele assim, e nem deixar você aqui, nesse covil.

– Por mais que isso seja um covil, é a minha casa. E além do mais, Phillip já esta chegando.

– Como assim ‘Phillip já está chegando’?

– Eu o contatei, agora vamos, temos que tirar ele daqui.

Arrastamos Theo até a porta da frente onde Phillip acabara de estacionar um carro; supus que fosse alugado.

– Poderia muito bem ter avisado Bella! – Phillip reclamou.

– Desculpe, mas não quis acordar você do seu sono provocado por bebida alcoólica barata! Agora me ajude a botar Theo dentro do carro!

E lá foi Theo, desmaiado, pálido, ensangüentado, sem fazer a mínima idéia do que estava acontecendo e sendo jogado dentro de um carro com um médico de ressaca, uma assassina maluca com uma mulher que levou um tiro e se regenerou vestida com trajes elegantes a observar tudo pela porta de um casarão velho e aparentemente abandonado.

Mais um dia normal na minha vida.

Mas, será que Ethan está realmente morto?

Ultimamente estou desconfiando até da sombra de um copo transparente.

Mas isso não importa agora. O que importa é que Theo está de volta. Não muito bem, mas está de volta.