Somente observei quando Theo e Phillip lutavam contra Ethan e os outros cinco caras que apareceram – tão brancos quanto folhas de papel – estavam com ele. Ethan acabou vencendo.

Theo e Phillip haviam sido praticamente espancados e arrastados para uma das jaulas que continham no casarão.

E eu só observei sem sentir nada.

“Agora é a sua vez Bella.” – Olhei para ela assustada. –“Não se assuste. Você não vai levar uma surra, não fisicamente, é claro.”

“Vá até a jaula de Phillip.” – Andei até lá e havia posta uma mesinha pequena com algumas facas, tesouras, pregos enferrujados e um martelo. – “Escolha.” – Sem querer, peguei uma faca média e afiada. – “Leve a faca até o rosto dele, e o corte. Sem dó.” – Com um movimento involuntário, me movi na direção de Phillip, amarrado e indefeso, peguei ele pelos cabelos para levantar sua cabeça, e fui fazendo pequenos rasgos na pele branca dele.

Algo dentro de mim estava enfurecido e pronto para atacar qualquer pessoa, mas eu não conseguia dizer não. Apenas continuei a rasgar a pele de Phillip com a faca.

O sangue escorria do rosto dele e fazia pequenos poços de sangue perto dos meus pés; Amarílis ria, observando de longe. Percebi que Ethan não estava ali.

Quando não havia mais espaços para serem cortados, larguei a faca no chão.

“Agora, pegue uma das tesouras.” – Tudo que Amarílis falava, na minha mente eu achava a coisa mais sensata que existia. – “O faça acordar Bella.” – Dei alguns tapas em Phillip, deixando minha mão ensopada de sangue. Phillip acordou.

– Bella... Ajude-me... – Foi então que ele percebeu a faca no chão e a minha mão cheia de sangue. – Bella, você nos enganou. – Ele olhou com aqueles olhos cheios de magoa. – Você me cortou... A mando dela... – Phillip estava arrasado, qualquer pessoa que o visse naquele estado poderia dizer que ele não estava nem um pouco preocupado com os cortes.

“Bella, o faça calar a boca. Não suporto gente que faz drama. Mate-o logo!” – Aquele algo que estava dentro de mim se libertou e me jogou na cara o que eu estava fazendo. Minha mente foi rápida. Não larguei a tesoura e pisquei para Philip, torcendo que ele tivesse entendido. Só que ele não olhava para mim. Eu não sabia o que iria fazer para me livrar daquela enrascada.

Fiz a coisa mais rápida que eu podia fazer antes que Ethan e os outros logo aparecessem. Cortei as cordas que prendiam Phillip; a tesoura era mesmo afiada.

Ele, obviamente caiu no chão.

Virei-me ainda com a tesoura na mão e vi que Amarílis ria.

– Tola. Achou que eu colocaria você para realizar essa tarefa sendo que você poderia despertar de uma hora para outra?

– O que você está fazendo sua desgraçada? – Falei irritadiça.

– É feio e burro ofender as pessoas quando se está em desvantagem Bella. Será que ainda não aprendeu? – Realmente não tinha sido muito inteligente da minha parte, pois logo que ela disse isso, a porta da cela, magicamente, se fechou, deixando eu e o desmaiado Phillip presos no lado de dentro. – Até mais querida, e não se esqueça: sou eu que estou com o seu querido namorado, que por acaso, parece ser mais tolo que você. – Amarílis virou as costas para nós com um sorriso no rosto.

Voltando para mim, olhei para Phillip com o rosto amassado contra o chão, provocando uma poça de sangue no contorno de sua cabeça.

Fui até as cordas que eu não havia cortado – as que amarravam os pés de Phillip – e as desamarrei. Virei Phillip de barriga para cima, deixando a cabeça dele escorada em meu colo, de modo que ele pudesse respirar.

Limpei todo o sangue que pude dos cortes que eu mesma havia feito no rosto dele. Chorei.

Como pude me deixar ser ‘hipnotizada’ por aquela desgraçada? Como pude machucar meu amigo? O melhor amigo de Theo? E ainda por cima, deixar Theo sozinho em outra cela? Com Amarílis! Fui burra. Fui e sou muito burra!

Eu tinha vontade de gritar, chorar, bater em mim mesma, bater nas pessoas, bater com a cabeça na parede e gritar ainda mais!

Respirei fundo, encostei-me à parede – ainda com a cabeça ensangüentada de Phillip no meu colo –, fechei os olhos e tentei pegar no sono.

“Bella acorde.” – uma voz que eu não conhecia me chamava, invadindo a minha mente. – “Bella. Acorde.” – Abri os olhos e vi a parede cinza e gélida na minha frente; meus olhos ardiam. – “Olhe para mim!” – Virei à cabeça para o lado e vi o rosto de uma mulher que eu realmente não conhecia, mas que me parecia confiável.

– Quem é você? – Minha voz estava rouca.

– Meu nome é Eleanor. Por enquanto a única coisa que você precisa saber é que eu posso ajudar vocês. Traga ele até aqui. – O rosto daquela mulher me parecia tão agradável que eu a obedeci – parece que obedecer virou minha rotina.

Arrastei Phillip até as grades da cela deixando ele apoiado de costas nas mesmas.

A mulher – Eleanor – estendeu a mão fina com dedos compridos e unhas igualmente compridas e a colocou sob a cabeça de Phillip.

E então, do nada, um clarão começava a sair da mão dela, fazendo os cabelos escuros do Phillip parecer brancos. Logo, o semblante dele se tornou mais, como posso dizer, saudável.

Os cortes desapareceram, se tornaram meros riscos que pareciam serem feitos com caneta vermelha. Olhei para Eleanor, a mulher cuja aparência antes era de longos cabelos ruivos – parecidíssimos com os de Amarílis -, olhos verdes escuros, baixa, mas usava uma bota de couro preta, uma saia justa até o joelho, também preta e uma camisa branca de botões. Usava rímel e um delineado que eu adoraria aprender a fazer, mas que a minha coordenação motora não me deixava deixar os dois lados iguais – ou sequer parecidos – e um batom coral. Eleanor era sim, muito bonita, e parecia ter saído de um desfile e ido direto para ali nos socorrer. Parecia ser uma pessoa calma, inteligente e muito persuasiva.

– Bem... Obrigada. – Falei.

– De nada. Mas nos veremos em breve. – e então ela parou de se comunicar comigo fisicamente e me olhou nos olhos. – “Lembre-se que da próxima vez que me ver, não demonstre que me conhece. Você pode botar tudo a perder. Voltarei aqui depois com alimentos. Ele irá ficar bem.”

“Mas é Theo? O outro homem da outra cela?” – Perguntei.

“Não sei informações sobre ele. Amarílis tem mantido ele em uma cela particular em seus aposentos. Ninguém entra lá a não ser Ethan.” – Falou; ela parecia um pouco desapontada.

“Como você sabe disso tudo? E como consegue se comunicar comigo? Como as pessoas conseguem se comunicar comigo assim? Pela mente, digo?” – Aquela conversa pela mente me deixava com dor de cabeça.

“Não posso te falar agora. Ela está vindo. Prepare-se. Finja que está dormindo e o arraste para o canto da cela. Como já disse, volto depois.” – Dizendo isso, saiu praticamente desfilando pelo corredor.

Arrastei Phillip até o canto da sala e o deixei lá; fui para o canto oposto.