Confusão, buzinas, Logo Robin foi cercado por curiosos que queriam descobrir o que estava acontecendo com ele. Finalmente apareceu um policial que, ajudado por algumas pessoas, colocou-o na calçada.

— Melhor chamar uma ambulância sugeriu um homem.

— Ele está pálido, parece morto.

— Vai ver que está bêbado disse uma mulher.

— Não. Bêbado não está. Não cheira a álcool disse outra. Um homem apareceu com um copo de água, dizendo ao policial:

— Vamos ver se ele consegue beber. Alguém levantou a cabeça dele enquanto outra pessoa aproximava o copo de seus lábios. Chegou um moço que imediatamente tomou o pulso de Robin e disse ao policial:

— Sou médico. Abra espaço, ele precisa de ar. Está desmaiado. Enquanto falava, foi tirando a gravata e abrindo o colarinho da camisa. Imediatamente as pessoas abriram o círculo, olhando para o moço com respeito. Ele friccionou os pulsos de Robin, fez com que se sentasse, pediu para um dos presentes segurar suas costas. Alguém trouxe uma cadeira e conseguiram fazê-lo sentar. De repente ele respirou fundo e abriu os olhos, olhando assustado para as pessoas à sua volta.

— Respire fundo. — disse o médico.

— Estou tonto, enjoado.

— Vai passar. Baixe a cabeça assim.

Aos poucos, Robin foi se recuperando. Ficou envergonhado.

— Sente-se melhor? — indagou o médico.

— Sim. Obrigado. Preciso ir pegar meus filhos na escola. Acho que não vai dar tempo. Tentou levantar-se, mas não conseguiu manter-se em pé.

— Não pode sair desse jeito.

— Tenho que ir.

— Onde é essa escola? — indagou uma mulher. Robin informou o endereço. Ficava distante.

— Minha mulher está trabalhando e é minha vez de pegar as crianças. Tenho que ir de qualquer jeito.

— Eu vou por aqueles lados, posso deixá-lo na escola. Sei onde é. — disse o médico. — Vamos. Meu carro está no estacionamento em frente.

— Obrigado, doutor. Não sei como agradecer.

Sentado no carro ao lado do médico, ele não se conteve: — O senhor está me prestando um grande favor. Ele sorriu.

— Não custa nada. Vou para lá mesmo.

— Estou com vergonha. Foi a primeira vez que desmaiei.

— Não se envergonhe. Acontece a qualquer um.

— Quando vi minha mulher naquele carro, ao lado de outro pessoa no carro, não suportei — disse, fechando os punhos e tentando segurar as lágrimas.

— As vezes a gente se engana. Tem certeza de que era ela?

— Estava com um vestido novo, mas eu sei que era ela. Desde que perdi tudo, ela ficou diferente. O que eu temia aconteceu. Ela arranjou outro.

— O ciúme é mau conselheiro. Não se deixe levar por ele.

— Como não ter ciúme? Regina é linda, exuberante, sensual. Eu estou desempregado, sem dinheiro.

— Vai ver que está sem comer.

— Sim, estou. Mas não podia pedir dinheiro para ela. Chega de humilhação.

O médico deu ligeira olhada para Robin e tornou: — Ela não aceitou seu dinheiro desde que se casaram?

— Isso é diferente. O papel do homem é esse.

— A responsabilidade da família é dos dois. Quando um precisa, o outro ajuda. Não é nenhuma humilhação aceitar o dinheiro de sua mulher.

— Não depois do que eu vi hoje. Se não fosse pelos meus filhos, eu nem voltava para casa.

— Você não está bem. É provável que tenha se enganado. Não era sua esposa que estava naquele carro, mas uma mulher parecida com ela.

— Era ela. Eu vi. Depois, ela tem feito muita hora extra, voltado para casa mais tarde, tem trazido mais dinheiro.

— Está se esforçando para ajudar a família. Estão casados há quanto tempo?

— Oito anos.

— É bastante tempo. Ela alguma vez lhe deu motivo para desconfiar do seu procedimento?

— Até agora, não. Mas naquele tempo as coisas eram diferentes. Eu tinha um negócio próprio, dinheiro para tudo. Insistia para que ela não trabalhasse mais. Eu não queria que ela trabalhasse fora. Mas ela não concordou.

— Ela gosta de sentir-se independente, ter seu próprio dinheiro.

— Era isso que ela dizia. Mas agora ela mudou, tem estado diferente, impaciente, não me olha mais como antes. As vezes tenho impressão de que ela está me evitando.

— Vocês estão atravessando uma situação ruim. Ela pode estar cansada, preocupada.

— E eu, será que ela não pensa em como eu estou me sentindo? Nunca precisei pedir dinheiro a ninguém, e agora estou sendo sustentado pela mulher.

— Essa é uma fase passageira. Logo encontrará emprego, tudo voltará a ser como antes.

— Depois do que vi hoje?

— Não se precipite. Não tome nenhuma decisão no estado de depressão em que se encontra.

— Não sei se poderei suportar.

— Você pode estar cometendo uma grande injustiça. Não agrave uma situação que já está difícil.

— Acha que devo passar por cima de uma traição? O que julga que eu sou?

— Você nem sabe ao certo se era ela quem estava naquele carro. E depois, o que você viu? Duas pessoas sentadas, cada um no seu lugar. Entrar em um carro com alguém não significa que essa pessoa seja sua amante. Esfrie a cabeça e não faça nada sem confirmar sua versão. A escola deve ser por aqui.

— É naquela casa amarela. Puxa, chegamos cedo. As crianças ainda não saíram. Obrigado. Nem sei como agradecer.

— Não precisa. Olhe, fique com meu cartão. Meu consultório é perto daqui. Você está precisando de cuidados. Vá até lá e vamos cuidar da sua saúde.

— Não tenho me sentido bem mesmo. Não durmo à noite, tenho falta de ar, angústia. Quando arranjar emprego, irei.

— Nada disso. Vá o quanto antes. Terei prazer em recebê-lo e não vou lhe cobrar nada. Sinto que é um homem de bem e gostaria de ajudá-lo. Não se acanhe. Precisa estar bem, com disposição, para conseguir arranjar trabalho. Com a energia que está, não vai conseguir. Precisa melhorar. Vá até lá amanhã à tarde e conversaremos.

— Está bem, doutor. Irei. Nem sei como agradecer.

— Não se incomode. Olhe, as crianças começaram a sair. Até amanhã.

— Até amanhã.

Robin desceu do carro, fechou a porta e acenou um adeus. Depois olhou o cartão e leu: Dr. Leopold Dutra, médico psiquiatra. Meneou a cabeça. Era bem o que ele estava precisando: um médico de loucos. Ele estava enlouquecendo. A rua ficava poucos quarteirões adiante e ele resolveu que iria mesmo no dia seguinte. As crianças estavam saindo e ele imediatamente foi ao encontro delas.