Robin sentia-se arrasado. Logo ele, sempre tão sério, tão honesto, ter de se submeter àquela situação. Parecia-lhe que o policial que datilografava suas declarações assumira um ar de deboche quando ele narrava os fatos. Sentia vontade de sair dali correndo, desistir de tudo. Entretanto, a presença ereta e séria do advogado infundia-lhe coragem.

Ao deixarem a delegacia, Robin apanhou o lenço e enxugou o suor do rosto. Fora-lhe muito penoso dar queixa. Na porta, foram abordados por um repórter que desejava mais informações sobre o caso. Robin queria ir embora, não dizer nada, porém Killian o impediu.

Prestou os esclarecimentos enquanto o jornalista anotava tudo. Quando saíram, Robin considerou:

— Por que parou para falar com eles? Vai sair no jornal, será uma vergonha! Eu não queria que ninguém soubesse.

— Ao contrário. É melhor que saibam a verdade. Não há como encobrir. Os credores vão falar, as notícias vão correr de qualquer forma. Não se esqueça de que você não fez nada. Não roubou ninguém. Não tem do que se envergonhar. Você foi enganado. Está pagando pela ingenuidade. Errar é humano. Depois, quanto mais propagarmos o desfalque e a fuga do seu sócio, mais estaremos tirando sua responsabilidade. Você foi a maior vítima. Todo mundo vai ficar com pena de você, até os seus credores. Isso é fundamental para negociarmos com eles.

Apesar de sentir-se humilhado, Robin foi forçado a concordar. Ele era o advogado, sabia o que estava fazendo. Despediram-se combinando um encontro no dia seguinte. Havia anoitecido quando Robin chegou em casa. Pelo caminho foi se esforçando para controlar a emoção, preparando-se para dar a notícia a Regina conforme Killian recomendara. Ele estava certo. Assustar a família não iria melhorar a situação. Mas logo que entrou em casa percebeu que isso não seria possível. Cora estava lá e, assim que o viu, correu para ele dizendo:

— Graças a Deus que voltou! É tarde, pensei que tivesse feito alguma besteira, que houvesse acontecido alguma desgraça! Ainda bem que voltou para casa!

Regina vinha atrás dela, com as crianças agarradas à sua saia com ar assustado.

— Eu não disse que a senhora estava exagerando? Não há nada. Vamos nos acalmar. Robin arrependeu-se amargamente de ter ido à procura da mãe. Foi dizendo logo:

— Não houve nada mesmo. Por que estão tão assustadas? Está tudo bem. Tudo sobre controle.

— Mas, filho, você não disse que seu sócio fugiu com todo o dinheiro e que você terá que pagar os compradores dos apartamentos?

— Mãe, deixemos esse assunto para mais tarde. Estou cansado. Não precisava falar disso agora.

— Quer dizer que eu me preocupei à toa? Você vai à minha casa desesperado, me deixa preocupada e agora diz que está tudo bem, que não precisava falar nisso? Como não? Acha que sou de ferro? Eu me preocupo com o que acontece com minha família. Ou acha que não?

— Eu sei que você se preocupa que nos quer bem. Mas veja: as crianças estão nervosas. Parece até que aconteceu uma desgraça. Vamos nos acalmar. Depois conversaremos.

Regina olhou para eles com raiva. Por que o marido fora à procura da mãe para se queixar ao invés de falar com ela, a esposa? Se ele tivesse feito isso, não teria de aguentar a sogra, que a fizera sair do emprego mais cedo, afirmando que Robin estava arruinado e à beira do suicídio. A morena sentia ímpetos de expulsar a sogra, e fez um grande esforço para se controlar, já que seria pior se as crianças presenciassem mais uma cena. Estava pálida e nervosa. Voltou à cozinha para mexer nas panelas, colocando o jantar para esquentar.

Robin percebeu que Regina estava no auge da irritação. Conhecia-lhe aquele ar controlado, aquela palidez que sempre prenunciava tempestade. O que ele precisava fazer era afastar a mãe dali. Por isso, a fez sentar-se na sala e procurou falar-lhe com calma, embora estivesse no limite da exaustão.

—Mãe arranjei um excelente advogado e tomamos algumas providências. É melhor se acalmar. Estou muito cansado e agradeceria se nos deixasse descansar. Quero tomar um banho, jantar e dormir. Amanhã irei à sua casa e conversaremos. Cora tinha lágrimas nos olhos ao responder:

— Você sabe que estou do seu lado! Sou sua mãe, e tudo quanto lhe acontece é como se fosse comigo.

— Eu sei, mãe. Lamento ter lhe dado preocupação. Vá para casa, descanse. Amanhã vou até lá e conto tudo nos mínimos detalhes.

— Você não vai fazer nenhuma besteira? Senti tanto medo!

— Não, eu juro. Estou calmo, está vendo? Pode ir sossegada. — Está bem. Então eu vou. Ela foi até a cozinha, despediu-se da nora e das crianças e saiu.

Quando a porta se fechou, Robin deixou-se cair em uma cadeira, exausto. Ainda lhe restava falar com Regina. Foi à cozinha, onde ela remexia as panelas.

— Sinto muito, Regina. Deu tudo errado. De repente, toda a sua tensão desmanchou-se em uma catadupa de lágrimas que lhe desciam pelas faces e ele não conseguia conter.

Regina olhou diretamente em seus olhos e disse com voz firme: — Sei de tudo. Não precisa dizer nada. Vá para o quarto e controle-se. As crianças já foram muito traumatizadas hoje. Não agrave mais esta situação tão desagradável.

Robin ficou indignado. Esperava que ela o confortasse. Vendo que as crianças reapareciam na cozinha, ele correu para o quarto, onde, a portas fechadas, deu vazão à sua frustração, à sua raiva, ao seu desencanto, chorando copiosamente. Depois, quando se acalmou, olhou-se no espelho e sentiu vergonha. Estava com os olhos vermelhos, inchados. Não podia aparecer assim diante das crianças. Tomou um banho, depois apagou a luz e deitou-se.

Regina entrou e informou que as crianças já haviam jantado e se recolhido. — Você quer jantar?

— Obrigado, mas estou sem fome.

— Quer conversar?

— Só quero dizer que sinto muito o que nos aconteceu hoje. Estou arrasado, envergonhado. Você tinha razão. Por que não percebi nada?

— Vou buscar um calmante. Você precisa dormir e descansar.

— Não vai querer saber tudo que aconteceu?

— O principal eu já sei. Respondeu ela taxativa.

— Eu procurei um advogado. Ele me orientou e assumiu o caso. Vamos ver o que podemos conseguir. Espero não ter que vender o depósito. Pode ter certeza de que farei tudo para sair desta encrenca.

— Está bem.

— Você não está zangada? Não me culpa?

— Melhor não falarmos nisso agora. Regina não estava com paciência para Robin, ainda mais depois da visita da sogra.

— Mas você está zangada. Eu sei que está.

— Estou me controlando. Chega de confusão. Outra hora, quando estivermos mais calmos, conversaremos.

— Eu quero que você me perdoe. Eu errei, fui ingênuo. Coloquei tudo a perder.

— Agora está tentando consertar. Está bem. Chega. Depois falaremos. Estou cansada e quero dormir.

Robin ainda tentou conversar, mas ela não quis ouvir. Deu-lhe o calmante e, graças a isso, ele logo adormeceu. Contudo, ela, deitada de costas a seu lado, sentia dentro do peito um desânimo e um vazio que, embora tentasse afastar, não ia embora e a impedia de relaxar e dormir.