Ninelives

1 Capítulo 1


Estou despida, deitada sobre a terra de uma floresta escura e silenciosa. Não recordo como vim parar aqui, nem mesmo quem são meus amigos ou familiares. Eu apenas lembro o meu nome. Trisha.
Apoio as mãos no chão, erguendo meu corpo para que eu fique de pé. Olho em volta, apenas deparando-me com árvores e mais árvores. Alguns pássaros cantarolam não tão distante de onde estou. Não sei como os identifico, mas sei que definitivamente são pássaros.
Caminho sem rumo até chegar à beira de uma estrada. Olho para meus pés sujos de terra. Observo a ponta dos meus dedos parados em cima de uma faixa amarela, desenhada sobre o asfalto acinzentado.
De repente uma luz forte surgiu ao fim da estrada. Eu não consigo identificar o que é, então apenas coloco as mãos sobre os olhos, incomodada com a força daquela luz. Meu coração dispara, e isso me faz sorrir. Acho estranha a forma como isso pulsa dentro do meu peito, como se quisesse urgentemente libertar-se. Mesmo não sabendo o motivo, estou feliz.
E quando me dou conta, desmaio.
*
Abro os olhos lentamente. Estou deitada sobre uma cama coberta por lençóis de seda brancos. Aperto o tecido em minha mão, apoiando-me em meu cotovelo. Faço um panorama da sala, isso me deixa um pouco zonza.
Vejo uma poltrona perto da janela com um criado mudo ao lado. Revistas espalhadas pela mesinha de centro com um café recém-esquentado sob um pires.
— Você acordou, finalmente – um homem com a barba feita está de pé ao lado de minha cama. Roupa preta, cabelo penteado para trás, um pouco abaixo das orelhas. Aparenta ter uns trinta e cinco anos. – Temos de ir embora. Pegue suas coisas.
O homem joga algumas mudas de roupa em meu colo. Seguro um casaco de moletom cor cinza, em seguida transfiro o olhar ao homem. Ele me olha com o semblante preocupado.
— Eu não sei quem é você. – Murmuro. Ainda zonza, levanto-me da cama com dificuldade.
Ele deposita uma das mãos nas minhas costas ajudando-me a manter o corpo equilibrado. Eu lhe agradeço com um sorriso forçado. Pego as mudas de roupas que me foi entregue e caminho até ficar de frente a um espelho. Meus cabelos castanhos avermelhados caem sobre meu ombro, indo até um pouco abaixo de meus seios.
É a primeira vez que olho meu reflexo, ou a primeira que eu lembre. Observo minuciosamente meus lábios rosados e as sobrancelhas realçando os olhos esverdeados.
— Eu vou lhe esperar do lado de fora. – Diz o homem pegando uma mochila que está ao lado da poltrona. Ele coloca uma das alças sobre o ombro e dirige-se a porta. – Cinco minutos. – Tranca a porta atrás de si.
Volto a atenção ao meu reflexo. Deixo as alças da camisola branca que visto cair sob meus ombros, logo o tecido desliza por todo meu corpo até tocar meus pés. A imagem de meus pés sujos de terra surge em minha mente. Volto o olhar ao meu corpo. Estou nua, o corpo sem manchas ou sinais, é inexplicavelmente perfeito. Visto um sutiã preto e uma calcinha que foi entregue pelo homem, em seguida passo a calça jeans por minhas pernas, abotoando-a. O moletom cinza fica largo em meu corpo quando finalmente o visto.
— Presumo que já esteja pronta, com todo esse tempo. – O homem diz em tom alto do lado de fora. – Temos de sair logo daqui.
Abro a porta do quarto, deparando-me com algumas pessoas vestidas de branco andando para lá e para cá. O homem agarra-me pela mão e arrasta-me por um corredor longo. Sigo-o calada, ainda com a mão presa a dele.
— Aonde vamos? – Pergunto, observando as pessoas que passam por nós. – Estamos em um hospital?
— Sim, estamos.
Passamos por uma mulher que tentou dizer algo ao homem, ele ignorou-a totalmente. Ele empurra uma porta de vidro com as mãos, indo em direção a um carro amarelo, estacionado perto do meio fio. Olho para trás e vejo um homem cercado por pessoas, tocando um violão, enquanto uma mulher coloca algumas moedas dentro de um pote a sua frente. Carros buzinam para outros, um homem do outro lado da rua discute com uma garota, supostamente sua namorada.
— Afinal – digo a ele quase sem voz. – Por que devo confiar em você?
— Apenas confie. – Diz ele, abrindo a porta malas do carro e jogando sua mochila lá dentro. – Você vai lembrar com o tempo quem eu sou.
— Diga-me ao menos seu nome. – Insisto. Ele abre a porta do carona e estende a mão para que eu segure-a.
— Nathan. É tudo que você deve saber.
Analiso-o homem por alguns segundos. Esse nome não me parece estranho. Talvez em algum lugar bem fundo em minha mente eu me lembre dele.
Nathan aproxima-se de mim, colocando uma mecha de cabelo atrás de minha orelha. Seus olhos encaram-me com desejo. Os lábios dele aproximam-se dos meus. Nathan sorri balançando a cabeça em negativa, e em seguida pressiona sua boca na minha. Suspiro.
— Ah, qual é. – Uma garota loira surge de trás do carro. Ela carrega uma picareta nas mãos, observando os movimentos de Nathan. – Você sempre estragando tudo.
Antes que Nathan possa ao menos se pronunciar, a garota arremessa a picareta acertando em cheio a testa dele. Deixo escapar um grunhido, caindo escorada na roda traseira do carro. Nathan está desmaiado sobre uma poça de sangue, com uma picareta cravada em sua testa. Cubro o rosto, tentando ao máximo evitar aquela cena.
A garota aproxima-se do corpo de Nathan, retirando a picareta pingando de sangue, jogando-a em sua mochila, então ela abaixa-se e fica observando-me por alguns segundos.
— Vamos embora. – Ela diz friamente. – Logo irão perceber o corpo desse idiota. – Ela cutuca a cabeça de Nathan. — Não precisa ter medo. Estou te salvando desse beijoqueiro.
— Você o matou – murmuro.
— Esse babaca vai acordar, em outro corpo, provavelmente. – A garota fica de pé. Anda até o outro lado do carro, abrindo a porta do motorista e jogando-se no banco. – Anda!
Levanto sem forças, e sem escolha. Sento-me no banco do carona, fechando a porta. Antes que a garota desse partida com o carro, olho uma última vez para o corpo de Nathan estirado no chão.

***

- Ei, bela adormecida – minha cabeça é empurrada contra o vidro. – Acorda! Você babou meu carro todo.
Passo a mão pela cabeça, jogando meu cabelo para trás. A garota batuca os dedos no volante e assobia alguma música que eu reconheço. A luz do sol atravessa o para brisas do carro, fazendo com que eu esprema os olhos para visualizar o lugar onde estamos. Há apenas uma estrada longa a frente, areia e cactos por toda parte. Talvez estejamos no México.
— Nathan é um bom amigo. Bom, quase sempre. – A garota tira um Donuts de dentro da mochila, entregando-me outro. Sem hesitar, pego-o dando uma grande mordida. Parece que estamos viajando a horas, e não lembrava quando havia sido minha última refeição. – Aliás, meu nome é Samantha. – Olho-a pela beirada dos olhos.
Poderia ignorar tudo o que ela está falando e concentrar-me em matar minha fome. Matar. Essa palavra deve estar perseguindo-me.
— E agora está morto! – Volto a morder meu Donuts. Ela solta um sorriso debochado, uma vontade de arremessar a cabeça dela várias, repito, várias vezes, contra o vidro surge em mim. – Afinal – Encaro-a, ainda mordendo meu Donuts. – Por que eu estou no carro de uma garota que nunca vi na vida, sem contar que, horas atrás ela arremessou uma picareta contra um cara? E por que ele me beijou?
— Cala essa boca. – Samantha murmura. Ela liga o rádio, aumentando até o último volume.
Tampo meus ouvidos com as duas mãos, olhando furiosa para ela. Ela dá mais um sorriso debochado, motivando eu a empurra-la contra a porta com força suficiente para que ela puxe o volante, fazendo o carro virar para a esquerda e saia da pista chocando-se com uma pedra.
— Você ficou louca? – Ela sai do carro, parando perto da pedra e analisando o estrago que foi feito em seu carro.
Algo dentro de mim diz que não devo confiar em Samantha. Abro a porta do carona, colocando apenas minhas pernas para o lado de fora. Minha vista embaça, e uma ânsia de vomito toma conta do meu corpo.
— Eu vou matar você! – A garota vem em minha direção.
Antes que ela chegue perto de mim, saio correndo em disparada na direção da estrada. Não olhando para trás, apenas correndo. Minhas pernas doem e minha cabeça lateja, mas sei que se eu parar ela me pegará e, logo, estarei morta.
Mais à frente, avisto algumas motos vindas em minha direção. Balanço os braços, gritando e ainda correndo. Quase tropeço em uma pedra, meu corpo cambaleia para frente. Mas logo me recomponho, equilibrando-me. Um líquido vermelho escorre pela minha testa, apenas limpo com as mangas do moletom, ignorando.
Viro a cabeça para trás rapidamente, Samantha está escorada em seu carro com os braços cruzados e rindo. Por que essa garota ri tanto? Volto o olhar aos motoqueiros, todos eles com roupas idênticas as de Samantha. Jaquetas preta, calças da mesma cor e botas.
— Acha mesmo que vai fugir? – Grita Samantha.
No mesmo instante, paro. Meu corpo treme, sinto um arrepio percorrer minha espinha e meus olhos transbordarem em lágrimas. Os motoqueiros estacionam suas motos próximas a mim. Há três deles. Um homem careca, de aparência mais velha que todos eles. Mas ainda assim, com uma boa forma física. Um garoto de cabelos negros, totalmente bagunçados. E por fim, uma garota ruiva com um rosto angelical.
— Samantha o que você fez? – Pergunta o homem mais velho, observando-me minuciosamente, enquanto sai de cima da moto.
Samantha para ao meu lado, empurrando meus braços com o cotovelo. Essa garota só pode estar querendo me irritar. Eu queria tanto soca-la, ou até mesmo chutá-la, depois arremessa-la de um penhasco. Mas não antes de carbonizar o corpo dela.
— Essa garotinha dá um problema danado. – Samantha sorri enquanto diz. O homem lança um olhar severo a ela.
— Samantha com dificuldades? – O garoto de cabelo bagunçado encara-me. Ele tem os olhos negros, assim como os cabelos, a pele branca, o corpo alto e esguio. – Por isso gosto de você! – Ele aponta para mim, dando uma piscadela.
— Eu não sei quem são vocês! – Todos parecem atenciosos com as minhas palavras. – Por que devo confiar em vocês? Ninguém me conta nada! E essa outra aqui – aponto para Samantha que está ao meu lado. – Matou um homem! Logo depois de ele ter me beijado. Digam-me o que querem de mim!
— Você matou o Nathan? – Furioso, pergunta o homem mais velho.
— Ele te beijou? – O sorriso do garoto vai de orelha a orelha. – Eu sou Matthew – ele estende a mão para que a aperte. Mas não o faço. – Essa é a Luzzy – continua ele, apontando para a garota ruiva ao seu lado. – E esse careca aí, é o Brutus.
Samantha é empurrada para frente com tamanha força que ela choca-se com o homem mais velho. Meus olhos encontram-se com os de um garoto de cabelos claros, olhos azuis e um corpo malhado. Samantha recompõe-se, acertando um soco em cheio no rosto do garoto. Ele devolve outro nela, logo os dois caem no chão reversando chutes e socos.
— Basta!– Brutus tira Samantha de cima do garoto, empurrando-a para o meio da estrada. Ela levanta-se, ajeitando sua jaqueta quase rasgada.
O garoto levanta parando centímetros a minha frente, os olhos dele intimidam-me, fazendo com que eu transfira o olhar até seu peito. Ele deposita sua mão em meu queixo, levantando meu olhar até encontrar o dele.
— Ela te machucou? – Ele pergunta, com a respiração ofegante.
— Nathan. – sussurro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.