Nii-san...
1 Capítulo 1:Lembranças
Notas iniciais
-Nii-san... -me chamou.
Os olhos negros fixos no brinquedo em suas mãos, o robô vermelho imitava uma luta contra um dinossauro verde de borracha, igual ao filme que acriança assistiu no final da tarde.
-O que foi?-perguntei passando o perfume masculino enquanto me olhava no espelho.
-Aonde você vai, nii-san?-vi o reflexo do menino, seus olhos que miravam o brinquedo, agora encaravam=me pelo espelho.
Suspirei.
Já havia dito varias vezes aonde iria, mas no fundo eu sabia que ele queria ouvir, que eu estava me arrumando somente para ficar ao seu lado.
-Eu vou trabalhar.
-Você já trabalhou muito hoje.
-Não foi o suficiente.
-Vai me deixar sozinho?!
-Sasuke, me entenda preciso ir trabalhar, preciso de dinheiro para ter o que comer no final do mês!-guardei o frasco sobre a cômoda velha e empoeirada, ajeitei meus cabelos compridos em um rabo baixo-Eu volto logo.
Ele se agarrou a barra da minha calça e eu senti uma leve umidade em minha perna.
-Eu sei que você só vai voltar depois, quando eu estiver dormindo. -fungou baixinho-Papai e mamãe não iam gostar que você me deixasse sozinho todas às noites!
Meu irmão caçula tinha razão, eles não iriam gostar, mas era preciso, eu precisava cuidar de mim e de Sasuke a qualquer custo, mesmo que eu tenha abandonado a escola, que eu tenha três trabalhos diferentes todos os dias, mesmo que eu tivesse que sair todas as noites e só voltar de madrugada, mesmo que eu tivesse que deixar meu amado irmão e único parente vivo sozinho à noite, sofrendo, ele não fez nada para merecer nada disso, nenhum de nós fez.
Encarei o teto, meus pensamentos pesavam sempre que eu me lembrava da morte de meus pais, das dificuldades que ando enfrentando.
-Agora as coisas são diferentes... -me abaixei e abracei o pequeno corpo, o carreguei ate a cama, onde o coloquei virado para mim, me encarando — papai e mamãe não estão aqui, não temos dinheiro e você é só uma criança.
-Não sou uma criança, eu posso ajudar...
O interrompi.
-Uma criança que tem apenas oito anos de idade e que ajuda bastante cuidando da casa e estudando!
-Mas eu não preciso estudar. Você não estuda Itachi!
-Não estudo porque não tenho tempo, mas se você estudar um dia vai se tornar um homem de negócios e vai poder morar em uma casa enorme, vai ter muito dinheiro...
-Nii-san vai morar comigo na nossa casa gigantesca, vai poder ficar comigo a noite!
-Você já vai ser um homem muito velho pra querer passar a noite comigo, vai arrumar uma bela esposa.
O pequeno se emburrou, cruzou os bracinhos em frente a peito e abaixou o rosto.
-O que foi Sasuke?
-Eu não vou casar com uma esposa, vou casar com você nii-san!Casa-se comigo!
Afaguei seus cabelos curtos e sorri, o deitei no colchão mofado, o único que havia na casa e que dividíamos entre nós, cobriu seu corpo com o fino pano. Beijei seus cabelos.
-Boa noite, Sasuke.
-Boa noite, esposo Itachi. -ele riu infantil e eu o acompanhei.
Levantei-me e sai da casa, pronto para meu ultimo trabalho da noite, me exibir para alguém que queiram uma noite de diversão, algo tão sujo, porém era o único jeito.
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O cheiro forte de álcool preenchia o estabelecimento, a música agitada acompanhava o danar dos corpos sobre a luz psicodélica. Um homem alto, de idade avançada, remexia o líquido incolor no pequeno copo olhos pareciam tediosos, mas tinham um brilho de pura maldade.
-Quanto você cobra?-perguntou com a voz levemente alta, para que eu pudesse escutar em meio aos sons.
-70 à hora... -respondi.
Usei meu tom mais repugnante, aquele que eu usava apenas para essas ocasiões. Era preso a luxuria e atiçava os mais diferentes tipos de clientes, sim, eu era um garoto de programa.
Um garoto de programa. Por quê?Eu precisava sustentar a mim e o meu irmão de alguma maneira. Meus pais haviam falecido em um acidente de carro, nos nunca fomos ricos, sempre vivendo do possível, na miséria, e com a morte deles tudo piorou. Fiquei órfão aos 16 anos,precisei trabalhar cedo e agora estava ali.
-Que tal... Irmos para um local mais apropriado-sugeriu o homem que eu não conhecia e preferia nunca conhecer.
-Claro...
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Sequei as lágrimas que caiam de meus olhos antes que o menor percebesse. Hoje era o pior dia de todos, não podia fraquejar agora.
-Nii-san!Eu não quero ir... Deixe-me ficar com você!-ele estendia os braços tentando me alcançar. -Nii-san...
A situação estava cada dia mais difícil. Eu já não conseguia sustentar nos dois e as despesas haviam aumentado assim que descobri que estava doente, entrei em depressão e os remédios não eram baratos, com toda a certeza.
Não queria ter que fazer o que fiz, mas foi o melhor.
Em uma das noites em que estava trabalhando no clube, uma mulher de aparência muito boa, usava muitas jóias, maquiagens, tinhas os cabelos vermelhos. Achei que fosse mais uma rica solteirona, porem me enganei, ela sabia das minhas condições de vida, sabia quem eu era, toda a minha vida, sabia da doença e sabia que eu não tinha dinheiro, ofereceu-se para pagar todas as despesas, todo o tratamento, desde que eu permitisse que ela tivesse a guarda de Sasuke.
Eu recusei, nunca abandonaria meu irmão, isso nunca.
Mas de um tempo depois, a comida começou a faltar, cortaram a conta de água...
Ver Sasuke reclamando de fome, de que não tomava banhos há dias, as roupas estavam pequenas e rasgadas... Foi à única opção.
E lá estava à mulher levando meu irmão para uma nova vida, eu sabia que ele viveria melhor, que teria tudo que nunca tivemos.
Meu coração doía tanto. As lágrimas queimavam meus olhos.
-Nii-san, eu estou de atrapalhando tanto que você vai me jogar fora... Por favor, deixa-me eu ficar com você, não quero ir, não quero!-ele se debatia no colo da ruiva. -Eu te amo, Itachi, não faz isso comigo!
-É melhor assim... -sussurrei quando eles se foram.
Chorei como não chorava há anos, nem mesmo havia chorado tanto quando meus pais morreram.
A pequena casa se tornou sem vida, eu morria aos poucos, todos os dias eu me deitava no colchão, ele estava tão vazio, não havia mais o pequeno calor em meus braços. Não ouvia a voz infantil de manha cedo me acordando para trabalhar, ou os lábios pequenos em meu rosto, nem as palavras eu te amo eu ouvia mais.
Mas o tempo passou, eu envelheci, porém não perdi o contato com a aquela mulher, eu sempre perguntava como ele estava, ela respondia calmamente, me visitava uma vez por ano para ver como andava a minha recuperação.
Sempre conversávamos no final da tarde, quando ela me visitava.
-Como ele está?
-Muito bem. -respondeu bebendo o chá na xícara rachada. -As vezes ele pergunta de você...
-Ele não deve se lembra mais de mim... -murmurei.
-Ele não te esqueceu, mas a imagem que ele tem de você se torna cada dia mais fraca. Sasuke continua achando que você o abandonou, não perguntou em momento algum o que você fazia, porque o deixou...
-É melhor que ele não tenha noticias minhas, assim ele não se desapontara... A única coisa que não quero é que ele se decepcione com o que sou e me rejeite...
Ela suspirou.
-Não quero que ele fique andando com você, pelo bem de minha imagem e de minha família, não ache que estou separando vocês por ser de meu agrado!
-Longe disso... Eu quero o melhor para ele, mesmo que ele me esqueça eu não vou esquecê-lo, quero o seu bem, somente o seu bem...
O silencio se tornou cômodo, a fumaça saia das xícaras, era um dia frio, o inverno batia em nossas portas docemente. O frio é uma das coisas que mais amo, ele se torno meu melhor companheiro, tão solitário.
-O aniversário de Sasuke está chegando. Gostaria que o visse, ele está fazendo 15 anos já é um homem para entender tudo o que está acontecendo em sua vida!Conversei com meu marido que prometeu arrumar-lhe um emprego, Itachi, não precisa morar conosco, apenas queremos que mude de vida. -ela sorriu, certamente havia se tornado uma grande amiga, companheira de toda hora. -O que acha?
-Eu aceitaria, mas sou velho e inexperiente, nem terminei meus estudos...
-Você é inteligente aprende depressa, colocaríamos você na mesma escola que Sasuke... Seria muito interessante, talvez até voltassem a se torna amigos, conhecê-lo melhor, ele mudou tanto!
-Não acho que seja uma boa idéia, não conseguiria me passar por um colegial já tenho 25 anos!-respondi desacreditado — Não pense bobagens, Kushina.
A ruiva pegou minhas mãos entre as suas e encararam meus olhos, seus orbes brilhavam, eu via o olhar protetor de uma mãe coruja, tão puro.
-Tudo bem, mas se não der certo o que vai acontecer?Tudo pode dar errado!
-Do mesmo jeito que pode dar certo, vamos Itachi, seja mais ousado.
Me desculpe
Só mais um pouco, deixe-me dormir em seu nome
O passar dos dias, nos deixaram mais perto
A dor... E acompanhada de alegria
Nas mãos... Refletem
Eu choro quando penso em você
Lá, chove a tristeza
É bom não saber sobre isso
No descanso, lembrei-me dos calafrios
O que são esses olhos observando insuficientes?
Guren-The Gazette
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