Nihil Obstat - Caminhos Fortuitos
2 Capítulo 2 - Caleidoscópio
Notas iniciais
Montpellier,
Terça, 14 de novembro de 1996 — 08:15am
Pleno outono francês.
A brisa cortante do inverno subsequente já dava as caras timidamente. O céu mantinha um semblante pouco sombrio, com a presença de algumas nuvens e sem qualquer indício do Sol. O arrastar das folhas sob o chão contrastava uma possível ameaça de neve. As crianças e jovens estudantes de Montpellier ficaram em suas casas. Os cidadãos franceses já estariam em boa parte em seus postos de trabalho. Entre indústrias, empresas e negócios próprios, ao contrário desta situação, muitos locais paralisaram suas atividades. A circulação de oficiais de polícia e soldados franceses era incomum. O tráfego logo se expandia entorno da metrópole e rodovias, com fluxos crescentes para *Provence, Sète e Marseille. Logo se percebia um certo receio dos poucos pedestres, apesar do movimento intenso de carros e motocicletas.
Afinal, o que estaria ocasionando aquele clima mórbido?
Numa ruela situada de Rue de l’Aiguillerie, estreita e acidentada, a força militar americana instalou uma de suas dezenas de bases sob custódia do governo e forças militares francesas para uma missão confidencial à infiltração de terroristas sírios na França. Tal convocação foi necessária após o início de uma estranha série de atentados consecutivos no centro montpellieriens, onde foram registrados ao total cinco ataques em cinco dias. Nestes ataques, somou-se mais de 50 pessoas feridas e 11 mortes, sendo o ataque de maior gravidade no shopping Polygone, na Rue des Pertuisanes: contabilizou-se 6 mortes e 21 feridos numa explosão na praça de alimentação. A população absorveu uma espécie de terror, onde automaticamente todos passaram a se assegurar dentro de suas casas.
Local com alta concentração de comércios, mercearias e sapatarias, foram capturados dados das forças militares francesas de que o alvo principal não era único, e sim se expandiu em alguns dos locais menos previsíveis da cidade. O propósito desta ação terrorista se mostrava desconhecido. Muitas foram as hipóteses e especulações de que seria um conflito político onde foi recusado um acordo migratório entre os países há poucos meses atrás, mas nada era concreto. Por sua vez, a Síria não demonstrou ressentimentos ou repreensões à França, e Hafez al-Assad (presidente da Síria) se manteve amistoso a Jacques Chirac (presidente da França). Mais tarde, os atentados apareceram e o terror se instaurou. O governo sírio negou qualquer envolvimento, mesmo com a citação de Abdullah al-Nasser, militante e artilheiro sírio da Al-Qaeda, como um dos envolvidos nesta série. A imprensa europeia já espreitava dados e informações afinco, apontando falhas da segurança francesa e o suposto rigor vingativo do presidente sírio. Todas as autoridades francesas tiveram de redobrar sua patrulha em todo o território nacional contra futuros atentados.
E na base da Rue de l’Aiguillerie, estava Kayden Halley. Franco-atirador do Exército Americano (US Army), um rapaz frígido e acuado de 25 anos. Sua precisão ao rifle era uma das melhores da infantaria, sendo convocado em operações no Kuwait e Iraque durante a Guerra do Golfo. Seus companheiros classificam seu rifle, uma finlandesa Sako TRG-42 .338 Lapua, como um de seus braços. Seus cálculos de distância e velocidade do vento eram impressionantes, registrados em um modesto bloco de notas. Seus alvos foram cruciais diante sua mira. Simplesmente nada impedia Kayden. Seu porte atlético, antes magérrimo, não transparecia jamais que seria capaz de levantar aquele rifle, muito menos quanto aguentasse o recoil após o disparo. Seu domínio sobre a arma era indiscutivelmente um ato divino. Além de mostrar perícia com rifles de alta precisão, possuía em manejo uma pistola Bren Ten .45 ACP herdada de seu pai. Em confrontos de curta e média distância, Kayden demonstra um saque rápido, em questão de menos de segundo. Ela está em seu coldre desde os testes balísticos do exército, onde passou com a maior precisão do pelotão. General Phillips, o comandante de sua tropa na França, o considera um “prodígio” por sua pouca idade e tamanha destreza.
Adentro da base, a infantaria americana de 15 soldados residia em um habitáculo de reboco desgastado, empoeirado e com o mínimo de conforto possível. O local se distinguia em dois cômodos de mesma medida e um único corredor que os interligava. Não haviam móveis, apenas uma mesa central de madeira barata com uma única cadeira de marfim escura, que ficava no cômodo do fundo. Os cantos se preenchiam com diversas bolsas e mochilas camufladas munidos de armas, uniformes, roupas e kits de primeiros-socorros. A janela dos fundos era a única abertura de ventilação, e era ali onde Kayden estava desde que a equipe havia chegado.
– Kayden... – se aproximava Thibaut Leonhardt, o soldado de primeira-classe da infantaria – ... o que faz aí tão quieto? Não abriu diálogo conosco desde que saímos de Raven Rock. Está tudo bem com o senhor?
– Está... está sim. – disse Kayden pausadamente, desviando seu olhar ao chão – Só não estou de bom humor hoje. Pareço o reflexo do dia lá fora: nublado e carregado.
– Então você deve estar de mau humor todos os dias, oficial Halley. – concluía Thibaut num tom de afago e bem humorado, desferindo um leve tapa no ombro de Kayden – Vamos, saia daí. Estão aprontando um café agora, venha se recompor.
Kayden olhava para os olhos negros de Thibaut, acenando positivamente ao pedido com sua típica expressão fechada.
Se tornara sargento major de comando recentemente. Thibaut, tido como a voz da experiência pela infantaria Black Hawk (pelotão pelo qual liderava em Montpellier), é um rapaz de 44 anos, ectomorfo e 1,95m de altura. Ás das metralhadoras e rifles automáticos. Seu reflexo e táticas de posicionamento eram os diferenciais que o faziam superior a qualquer oficial naquele círculo. Sua bravura indômita somada ao carisma pessoal o transformava como um dos principais patronos do Exército Americano. Apesar de ter um espírito acolhedor e proveitoso, sua índole não permite piedade tampouco moleza. A última temporada do teste de resistência foi promovida por Thibaut, sendo a sexta que participou como integrante do comitê organizador. Em sua primeira experiência, Thibaut foi quem selecionou Kayden para integrar aos Black Hawks, mesmo sendo um dos mais fracos dali. Um ano de treinamento, testes físicos, balísticos e psicológicos, foram suficientes para que o garoto franzino de Fort Lauderdale se tornasse um atleta e atirador nato do exército. Sua evolução foi próspera. Não foi à toa também que o jovem fora convocado para a artilharia de elite em missões no Kuwait e Iraque durante a Guerra do Golfo, com apenas 20 anos de idade na época. Sua mobilidade e precisão monstruosas impressionavam Thibaut inexplicavelmente, sendo considerado um dom intangível para a capacidade humana.
Kayden, em tom inexpressivo, surgiu na sala repleto de infantes onde todos apreciavam um café fresco. Logo o recepcionaram com um copo de plástico branco cheio de café. Pelo cheiro puro e pouco suave, estava com pouco açúcar.
– Olhe só quem apareceu! – exclamava o General Phillips – Se não é o nosso monge atirador eremita, que estava levitando sob a janela.
O grupo de soldados soltava risadas suprimidas, olhando para Kayden que sorria timidamente com o copo na mão. Dava uma lenta golada, como de praxe.
– Sim, senhor. General Phillips... não estou nos meus melhores dias. Meu humor anda muito abaixo do esperado.
– Isto é excelente para nós. Assim você poderá executar sua missão com maior sucesso. Sua aura ruim depositada em alvos ameaçadores serão tua fonte de alívio.
– Pois bem, General Phillips. Creio que o senhor esteja enganado. Preciso me concentrar para este mau humor não me afetar em serviço. Em minha posição, não posso cometer erros ou inocentes serão mortos e isto não irei permitir. Antes o sangue sujo de um assassino, do que o sangue puro e honesto de um inocente. Se trata de honra ao povo americano e a defesa ao povo francês.
A sala de repente se calou.
– Perdão se lhe fui muito rude, General. – Kayden referia desculpas ao General Phillips.
– Tudo bem, oficial Halley. – amenizava o clima General Phillips – Sem mais delongas, não posso discordar de suas palavras. Me expressei de uma forma bem grotesca, e eu que peço perdão a você e aos soldados aqui presentes nesta missão. E espero que vocês, soldados, tenham a mesma postura do oficial Halley. Sigamos adiante com a patrulha pelas ruas para segurança daqui 15 minutos.
Os soldados erguiam seus copos sob urros e celebrações para Kayden, que se deslocava timidamente à janela timidamente. A postura do General foi um tanto inesperada, causando espanto em Thibaut. E muito mais com a réplica que viera a seguir.
Clint Phillips. 68 anos, com o físico em potencial, e 1,75m de altura. Um verdadeiro veterano de guerra que rejeitou se aposentar da carreira. Se tornou General do Exército Americano desde 1975, após o fim da Guerra do Vietnã. Foi um dos sobreviventes da Guerra do Vietnã, onde a tropa americana e aliados tiveram sua derrota massacrante decretada diante do Vietnã do Norte. Um livro aberto, cheio de histórias para contar. Antes de todas as missões, Phillips se posiciona com o grupo de soldados para narrar uma de suas missões mais memoráveis na Guerra da Coréia e Vietnã. Tais narrativas são consideradas como válvulas de escape e motivacionais para os confrontos em guerra. Embora seja orgulhoso e empenhado, o experiente general tem uma característica um tanto imatura, deixando escapar comentários impulsionados inintencionalmente. Isto já foi motivo de alguns poucos conflitos. Agora sob comando da tropa dos Black Hawks, juntamente ao sargento Thibaut, Phillips teria mais uma missão em seus 46 anos de serviços prestados ao Exército Americano.
Kayden voltava ao seu canto, a observar da janela a ruela que não havia movimentação. Pouquíssimas pessoas passavam por ali. As portas de metal fechadas e sem nenhuma placa de aviso. Seus goles se tornavam mais prolongados, e o copo se esvaziava em poucos instantes.
– Estou me sentindo mais pressionado do que a minha missão no Oriente Médio. É um tanto estranho ver uma cidade de um país tão amistoso, abraçador e histórico como a França viver neste terror. Por que fariam isto? Qual a necessidade de aterrorizar as pessoas que saem para estudar e trabalhar? Qual o sentido?
Um suspiro embaçava a janela após a frase proferida por Kayden.
A base tremulou levemente, caindo alguns grãos de areia do reboco.
Uma súbita explosão é ouvida em um raio quilométrico pequeno.
De imediato, o pelotão todo se levantou desprevenido. As pessoas afora se abaixavam ou corriam sem pensar.
“Mas o que foi isso?”,
“Um ataque!”,
“Já estão agindo!”;
Entre outras frases foram ditas.
Gritos agudos e desesperados eram ouvidos.
Kayden logo mudou sua posição, e avistou uma nuvem de fumaça se formando há alguns metros num feixe de vista aérea. Seus olhos arregalaram, apertando o copo em sequência. Era o sexto ataque em seis dias. Uma ação deveria ser tomada o quanto antes ou mais vidas seriam colocadas em risco.
A missão estava prestes à começar.
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