A possibilidade de enxergar era limitada mesmo com a vigorosa tocha a iluminar o terreno à volta, onde a escuridão cobria tudo como um manto espesso, e o céu não mais do que um tortuoso espectro nebuloso. Estaria talvez a pouco menos de um quilômetro da costa dentro do que havia sido o mar meses atrás e ainda estava repleto de destroços enterrado na grossa placa de gelo. O ambiente parecia um cenário típico de alguma vila siberiana esquecida pela humanidade, porém aquela havia sido uma praia tropical brasileira considerada referência para surf e atividades turísticas.

O frio intenso se fazia valer doendo até o tutano dos ossos, e apesar de despencar suaves flocos naquele vazio gelado estava longe de ser neve. Apenas cinzas em memória do caos. Mesmo tendo transcorrido há seis meses a fumaça, o insuportável ar tóxico, os pedaços de uma época aniquilada, e ainda assim permaneciam e iria permanecer até matar o último ser vivo. Das tragédias feitas pela hecatombe imaginava-se o quão próximo do inferno o mundo havia decaído.

Pelo menos três horas por dia (ou noite dada à situação) uma triagem devia ser realizada para buscar material bom a alimentar o fogo do abrigo. Nesta empreitada também aproveitava para tentar descobrir onde se achava o mercado, uma tarefa complicada devido o acúmulo de resíduo e gelo visto que o mar engoliu as construções costeiras. E nem sempre era certo ter o necessário, principalmente os perecíveis, estando na maior parte deteriorados. Marcou então cada local visitado com barras ou qualquer haste improvisada amarrando um pedaço de pano em cor berrante, a adquirir no processo uns sete sítios fracassados e só um vestígio de uma pequena padaria. Nada mais do que algumas latas de ervilha, milho, salsichas e fiambre que mal dava para sustentar uma pessoa o que diria três.

O horizonte mais era um abismo angustiante se expandindo num breu medonho impossível de distinguir o céu da terra. Antes o fogo que queimava as cidades inundava as vistas com o carmim típico, todavia só sombra, o funesto escuro interminável. Durante o dia não era tão diferente, pois o sol se rendia as densas nuvens e fazia tudo permanecer em um perpétuo crepúsculo apático. Ali no meio do nada Gabriel tremeu e não fora pelo frio. A insignificância dele perante o sucedido o deixava infeliz, pensava ao menos uma vez durante as tarefas e imaginava o porquê de ter ficado para trás. O momento de optar pelo suicídio ainda era cativante, mas seria válido? Egoísmo sumir do mundo e deixar as garotas à sorte. Preferível deixar para ver até onde chegariam naquele inferno e em algum ponto haveria a almejada libertação. Era nisto que acreditava, não, era isso o que desejava acreditar repetindo sempre como uma oração.

Para o abrigo retornou com poucos pedaços de viga cujo propósito se daria por no máximo dois dias de calor, nenhuma comida ou roupas, menos ainda um novo refúgio que não fosse às ruínas jogadas contra o pé da Serra do Mar. Aquele sobrado pela metade teria de ser suficiente por mais algum tempo. Nem se lembrava mais de como era aquela boa sensação de quando se deita em uma cama confortável, com lençol e cobertor cheirosos, ficar quente sem ter a menor vontade de levantar novamente. Mas se contentava com trapos que tinha.

As moças o fitaram adentrar no recinto e tão logo a impor as corriqueiras questões de todos os dias, tais como "por que demorou?", "encontrou o mercado?" e "algum sinal de vida?". Gabriel franzia o sobrolho e negativa com movimento de cabeça. O silêncio roubou como um bandido o pingo de ânimo que as mantinha, o rapaz fez sem perceber e nem via necessidade de se contemplar com sutilezas. Qual o motivo de pisar em ovos se sabia das dificuldades, ambas eram espertas o suficiente para entender o sofrimento que era ter de abandonar o abrigo mesmo por poucos minutos. Cristina o ajudou sentar enquanto Maria pegou as madeiras e jogou na fogueira situada no meio da decrépita sala.

Com certo trabalho retirou o coturno e os cinco pares de meias. A claridade vívida do fogo bem alimentado deu a oportunidade para avaliar o estado do pé direito e somente assim soube a razão de não sentir os dedos algum dias. Cris pôs a mão sob a boca como se abafar o murmúrio de espanto fosse diminuir o impacto do que deveria ser feito em breve.

_ Já era. Perdi três dedos. _ falou sem dar muita insistência ao caso. Os dedos do pé não eram mais importantes que a própria vida. O problema era decepá-los e Cristina sabia bem o procedimento por ter passado pelo mesmo cerca de um mês.

Isso ocorreu quando saiam da cidade de São Sebastião a rumar ao bairro de Maresias onde morava Gabriel e sua família. Antes se optou por ir à casa de cada uma das mulheres pelo simples fato de proximidade. A cidade era praticamente uma refinaria de petróleo o que a fez arder em um incêndio fora de controle e a única chance deles foi a sorte de encontrarem uma pequena lancha. Assim primeiro alcançaram a residência de Maria Lúcia, cujo fogo engoliu tudo com voracidade. Ela ainda fez exigir de si ver os dois corpos na varanda da qual disse ser do irmão e pai, todavia Gabriel e Cris imaginaram se era possível conseguir reconhecer alguém naquela condição. De qualquer modo Maria entrou em desespero, só faltando explodir de tanto gritar pela mãe, e enfim murchou em profunda torpeza. Aquilo preparou os outros a não esperar nada diferente.

No espelho do que havia restado do banheiro da moradia Cris fitava o reflexo. O rosto redondo lhe destacava bem os olhos de tom caramelo dourado, e as madeixas louras não tinham mais o brilho de antigamente. Os olhos encheram de lágrimas. Maria observava em segredo, aproximou-se sorrateira e a abraçou por trás. As duas choraram juntas.

_ Você não precisa fazer.

_ Se não fizer vai infeccionar e ele vai acabar morrendo.

Uma bolsa suja e com furos puxou do armário embutido perto da banheira quebrada ao meio. Nela estavam itens úteis coletados tais como cordas, velas, isqueiros, bandagem e o cutelo. O mesmo usado para cortar o dedão do pé esmagado pela porta do elevador. A alternativa não foi imediata, o caso foi que depois de quatro dias a febre quase a matou. A gangrena tomou o pé esquerdo. Se o rapaz não tivesse agido, mesmo contra vontade, contra o sentimento de racionalidade de ferir outrem, a garota não teria se despedido do marido. O choro veio da lembrança amarga, do análogo senso sentido por Gabriel e pelo ato jamais pensado realizar.

Para a sala da fogueira voltaram sob o fitar soturno do rapaz. O jovem homem nem estava tão abalado pelo destino dos dedos, não dava a mínima senão afinal a própria vida significava bem mais valiosa. Pensava mais no choque que aquelas moças teriam de enfrentar, não era uma tarefa fácil a lidar, tampouco banal a ponto de se esquecer, pois uma vez tendo infligido dano físico em um semelhante as coisas tornam-se aceitáveis, logo necessárias e conforme essa urgência aumenta um véu de ignorância caí sobre a racionalidade. Mesmo havendo necessidade. Não podia se dar ao luxo de pensar nelas.

_ Aposto que nem se lembra como faz. _ disse com um tom rouco, engasgado. Cris apenas concordou em silêncio. Ele pigarreou, pegou uma cadeira de madeira muito descascada e um cabo de ferramenta mais parecido com um bastão, lá no meio dos escombros da cozinha e sentou a explicar didático:

_ Você vai esquentar o cutelo até ficar vermelho como brasa e com o porrete aqui deve golpear forte bem na articulação... Vou ficar sentado na cadeira pra ficar mais fácil de cortar, e Marilu, você vai sentar em cima da minha coxa no caso de eu hesitar sem quer.

_ Caramba, cê pensou em tudo... _ disse Maria em complacente lástima. Não conseguia esconder o pavor agonizante do seu íntimo, expressava no tremor dos finos lábios rosados e no constante piscar dos olhos. Gabriel fingiu nem perceber.

_ É claro. O interessado sou eu. Vou apoiar o pé em uma tábua. Cris cê têm que ser firme, fazer com bastante força e de uma vez.

_ Eu sei disso! Tá achando que sou alguma idiota?

_ Nem de perto... _ sorriu a comentar em voz branda.

A lâmina do cutelo era antiga ou de fabricação artesanal ao ser melhor observada. O metal demorou em torno de quinze minutos para atingir o carmim vivo desejado, o que supostamente deveria ter sido algo bem mais rápido pelo vigor do fogo. O aço era de boa qualidade. E desde amputação do dedo de Cris, Gabriel amolava o objeto a tornar o fio como o de uma navalha. Na teoria seria igual talhar manteiga, um suave deslizar e pronto. Mas em teoria o imaginado sempre está sob controle, no ambiente tranqüilo, inócuo das crueldades possíveis da realidade. Não há dor no imaginado, só consciência de existir ela.

Do bolso o rapaz retirou um pedaço de madeira enrolado em borracha. Pôs na boca a deixar fixa entre os molares, e assentiu no breve menear da cabeça. Sobre a perna Maria se sentou e por um segundo Gabriel pensou não ter sido uma boa idéia. Sob duas óticas: ela era magra, ossuda, e apesar de ser leve o peso machucava bastante; e noutro extremo havia o fato dela ser muito bonita e aquela se consumar como uma cena atípica um tanto constrangedora. "Instinto é uma merda." _ Refletiu mentalmente.

De forma sistêmica a ponderar cada movimento, Cris atou a larga tira de pano grosso arrancada de um vestido abandonado na mão direita, e a segurar a lâmina inabalável por cerca de três centímetros das juntas. A garota pôs a respiração lenta, em ritmo compassado. O calor incomodou o homem, queimava antes mesmo de tocar na pele, e se ela não tivesse golpeado logo certamente iria desistir. Sem dúvidas não foi nada parecido com talhar manteiga.

O golpe foi seco. Até bem aplicado, de fato. Mas uma garota de dezenove anos com quase um metro e meio de altura jamais teria capacidade suficiente para atorar os membros em uma única vez. A carne separou sem complicação destruindo de imediato os nervos evidentes e ali parou no osso. Se voltasse o cutelo puxaria junto pele e nacos, fragmentos fibrosos e cartilagem. O rosto de Gabriel se esculpiu em uma carranca horrenda num misto de dor e inconsciência. A cada pulso do coração a excruciante ruptura enchia-o de fúria, o abatido corpo não respondia senão somente em urros animalescos. Incerta e chocada, Cristina ameaçou parar e no ato ele berrou autoritário:

_ Continue! Dá-lhe outra!

A respiração arrastada e a boca árida. De cenho torpe, corroído pelo aperto duro no coração, a garota sentia no abdômen como se insetos alados vibrassem as asas loucas para alcançar liberdade. Tinha ânsia. Elevou o porrete e desceu resoluta.

TREC! Ela sentiu o trincar das falanges e na espessa textura encouraçada da sola do pé parou. Elevou novamente e bateu, e os poucos filamentos ainda restantes enfim soltaram-se da parte pútrida. Não houve tanto sangue, o ferro quente cauterizou instantaneamente o ferimento impedindo chance de hemorragia. Entretanto Gabriel desfalecera antes mesmo de perceber o sucesso cirúrgico pela qual passou. Só não caiu da cadeira pelo amparo despreparado de Maria, que no susto quase deslocou o braço para segurá-lo.

_ Acabou... _ Cris suspirou tensa a jogar o despojo gangrenado no ardente braseiro. Ajeitaram o jovem homem na cama da melhor maneira que conseguiram e ambas não resistiram excessiva pressão psíquica. Logo também adormeceram.

Dentre as nuvens negras reverberava sons fantasmagóricos em nada a assemelhar-se com efeitos climáticos. Pelo menos nada conhecido. Aos ouvidos chegava como um oceano agitado onde ondas estouravam violentas contra uma obscura costa rochosa. Um oceano incapaz de permitir a audácia do mais experiente dos marinheiros. Todavia, não era o mar, pois esse estava a quilômetros de lonjura do litoral, cuja água não houvera congelado pelo frio extremo. O ruído provinha do céu, na mixórdia emaranhada de fumaça e detritos a dançar uma alucinada valsa desprendida de vida. Talvez fosse o eco retumbante do evento, ou a atmosfera sofrida gemendo pelos danos, ou apenas o som do fim derradeiro. O som da erosão planetária. O que fosse era de dar arrepios na espinha.

O tempo se perdera no caos. Uma sensação esquisita de exclusão, de não mais se incluir no fluxo. Não havia uma noção exata de ordem cronológica, onde começava e terminava o dia, ou horas, mesmo o mês. Ia do escuro para o claro e só. Eletrônicos não funcionavam e até as bússolas giravam o ponteiro para lugar algum. A inexistência devia ser algo bem similar, uma confluência díspar dos componentes da essência a se aniquilar um sob o outro deixando o nada para trás. Sem tempo, destino e futuro.

Cristina pensava nestas possibilidades de maneira não tão rebuscada. Era uma moça simples e se orgulhava dessas raízes interioranas. Tinha acordado, mas não estava certa se havia dormido. Pela debilidade do fogareiro deduziu a passagem de um momento a outro. O fogo iria morrer em breve e adiantando-se pôs a vestir outro agasalho já com um local em mente onde buscar lenha. Marilu despertou no instante em que a loirinha ia saindo.

_ Aonde vai?

_ Buscar madeira. Fica de olho no Gabriel. Vou tentar não demorar. _ Nem se quisesse obteria tal êxito imaginou para si mesma Cris.

A se conservar na cama improvisada Maria fitou passiva as costas da amiga abandonando o abrigo. Amiga. Até algum período atrás nem passavam de ilustres estranhos perdidos nos corredores da empresa e ali eram como uma família desesperada, carente. Suspirou observando a face abatida do rapaz entregue ao sono. Ele era um jovem homem na faixa dos 25 anos, pele parda, um pouco mais clara que a casca de kiwi. Cabelos castanhos escuros, tão curtos quanto os de um militar. Via beleza nele da qual recusara em inúmeros pretendentes e agora nem podia se dar o privilégio de escolha. Sempre optou a esperar um partido a altura por conselho da mãe, algo camuflado em uma ordem implícita óbvio. Mas naqueles dias os grilhões maternos derreteram assim como tudo havia virado pó. Magoou-se por pensar tão futilmente e chorou.

A grande onda de impacto havia empurrado tudo ao pé da serra e sabendo que o rapaz não ousava ir além do abrigo por um temor subentendido, Cris tinha bons pressentimentos em realizar a triagem naquela área. Para lá fora decidida em passadas firmes no chão gelado. Por mais protegida que estivesse o frio a deixava como despida, apesar das roupas serem de material espesso não eram adequadas para o bizarro clima. Pôs-se mais rápida na caminhada. Uma hora seria o máximo longe do abrigo, ultrapassado essa contagem era provável ter de usar o cutelo em si mesma, visto que Marilu não tinha aptidão para a coisa. Sorriu irônica.

A uns duzentos metros se notava o conglomerado de tranqueira como um enorme muro edificado ao prazer da natureza. Além de restos de casas havia muitas árvores e uma quantidade incontável de lixo imprestável. Estavam sobrepostas em camadas verticais sólidas iguais a paredes de um labirinto. Algumas beiravam aos quatro metros de altura a dobrar em si tal quais ondas em arrebentação transformando-se em túneis de tralha. Um escorregão para dentro de uma dessas galerias seria pedir a ter o corpo retalhado pelos sem números de objetos pontiagudos e cortantes. Uma obra prima funesta, mas ainda assim fascinante.

Quanto mais entrava nos tortuosos corredores naturais ia a notar qualquer coisa menos o que ali fora buscar. Madeira apenas as fixadas nos muros e túneis. Depois de passar pelo terceiro corredor teve a opção de escolher outro caminho a esquerda, porém a seguir o oposto deu de frente a um buraco escuro e curiosamente morno. Uma brisa quente se projetava acolhedora de suas entranhas. Por mais que se espremesse, as vistas nem a um palmo era possível enxergar o interior. A repudiar o mistério puxou do bolso o isqueiro e riscou uma, duas, três vezes até o fogo brotar das fagulhas vãs e ao que os olhos acostumaram a parca claridade o âmago quase se partiu em pavor. Pessoas mortas. Não só mortas, destroçadas, com partes faltando e as tripas espalhadas.

O impulso primitivo a lançou para trás caindo com o traseiro no chão. A mão apoiou-se acidentalmente em algo macio, mole, mas de odor desagradável. O estômago nem embrulhou mesmo ao entender ser merda ainda fresca. Só na luz viu o amontoado de ossos, roupas e excremento antigos na borda da pequena caverna. A mente associou logo aquilo a obra de algum bicho selvagem e não podia permanecer mais um minuto naquele lugar. Mesmo com a possibilidade de ser cadáveres, o animal não iria perder a oportunidade de experimentar a versão viçosa.

Em passos largos inseriu-se pelo primeiro corredor e cruzou a direita numa passagem um tanto estreita da qual não tinha percorrido. Nem deu importância, pois a trilhar ao norte certamente sairia no campo gelado. Entrou para direita, virou para esquerda, foi em frente, de novo para a direita e parou. Contornou para trás e imaginou se ali era exatamente o valo anterior. Já não estava tão certa se estava indo na direção norte. O vento carregado de nódoa tóxica também trazia um lânguido rumor acústico, algo lamurioso, solitário, remoendo sobre a fome e dor. Indistinto ecoava em cada fenda ou abertura onde o ar vazava livre, às vezes longínquo noutros instantes ao lado da orelha da moça.

No corredor da esquerda avançava em um trote limitado sem tomar cuidado com os afiados materiais grudados nas paredes. O som afunilou a dar convicção de que acontecia uma perseguição. Não eram mais murmúrios perdidos no vento, uma expiração gutural acompanhada de rosnados enraivecidos ia como uma sombra no encalço de Cris. O bicho pisava austero ao ponto de ser audível. Era um quadrúpede ágil e robusto o que fez a garota se espremer em corredor com pouco mais de cinqüenta centímetros de largura. A criatura parou. A se contorcer as roupas grudavam nos materiais, por sorte as roupas eram suficientes para resistir, todavia farpas riscavam no nariz e testa. Quase ficou entalada no fim da fenda, mas afinal saiu.

Ao tomar noção percebeu não estar no campo gelado, era parecido com uma espécie de clareira cercada pelas estruturas, mas de verdade não importava, pois a frente se achava aquilo que poderia salvar a vida dos amigos e a de si própria. Um navio. Tão distante da costa que se não visse nem daria para acreditar. Não era muito grande devido ser de pesca ou do tipo, porém num lampejo de idéias imaginou a ter ali um estoque de mantimentos. De um modo ou de outro não iria embora sem averiguar a embarcação, além disso, lá do alto podia encontrar a saída do labirinto sem topar com a fera.

"St. Lazarus" era o nome da embarcação. Pela aparência cremada podia se dizer que havia atravessado o inferno ardente e sobrevivido para dar testemunho dos horrores presenciado. O pouco da pintura dava uma noção de dourado, todavia o laranja ferrugem predominava como uma doença terminal. Onde situava a ponte de comando tinha branco ainda que repleto de bolhas, feridas tal como o leproso bíblico da qual herdara o nome. Uma escada muito maltratada levou a moça a bordo. O deck de madeira mais assemelhava um queijo suíço de tantos buracos, uma necessária presteza deveria ter para andar a que cada passo um rangido anunciava o perigo. Não seria nada bom pisar em uma tábua podre e desabar no meio das ferragens.

Cabine por cabine apurou. Havia roupas bem interessantes, para resistir a invernos rigorosos. Só e mais nada. Na sala de comando achou o indesejável, cerrou os punhos como se contivesse o ímpeto sair correndo; respirou fundo a arrancar da alma controle suficiente para examinar os corpos que jaziam ali inertes. Os falecidos eram três e Cris não soube identificar quem seriam. A analisar melhor os corpos percebeu o ótimo estado de conservação, como múmias de documentários só que tostadas, pensou ela. O que tinha dois dentes de ouro estava com um rombo entre as sobrancelhas, os outros dois espalhado pelo dorso. A abrir melhor a visão pôde perceber indícios de uma batalha. Cápsulas de bala vazias, a vidraça quebrada com cacos pelo pavimento e na face do terceiro cadáver alguns pedaços de vidro grudados. Mas nenhum deles possuía arma.

TINCLET! Um objeto metálico caiu fora do alcance da garota, o que a deixou eriçada igual a um gato. No fundo da sala havia uma porta de ferro entreaberta de onde o som repercutiu e continuava a ser produzido em ritmo desafinado. _ Tinclet, tim, tim.. Tinclet... Tim, tim, tim... _ Na mente de Cris evocou um menininho endiabrado que ao sair do colégio passava a mão num pedaço de cano e batia contra o gradil de uma casa. Só de lembrar se irritava. Que nada! O medo como um ladrão lhe roubava a profunda coragem cultivada na tenra idade, ocasião em que abandonada pelos pais fora. Ali era sozinha. Seus temores se traduziriam numa pilha de infantis mentiras, contos tolos e verdades de outrem. Não, ela jamais abdicaria os velhos hábitos. Ser teimosa poderia às vezes qualificar melhor do que outros predicados. O isqueiro riscou e na minguada luz furou as trevas palpáveis.

Na penumbra precariamente perceptível era o recinto. Uma sala de reuniões ou coisa do gênero com mesa em carvão e cadeiras numa situação nada menos deplorável. Outros móveis, quadros na parede e quinquilharias mesmo a ser um punhado de porcarias tinham lá um requinte obscuro. Nada de aproveitável, no entanto. Havia duas portas, uma em cada lado da sala; sendo a mais chamativa a não possuidora de maçaneta, pois somente mais carvão continha naquela sem atrativo. Jamais seria aberta convencionalmente porque se encontrava trancada pelo interior, deste modo teve que usar o mínimo de imaginação exigida pelo momento: arrombar a porta.

O tio-avô de Cris não era o que podia se dizer de exemplo. O irmão da avó sempre fora um homem de palavras curtas e olhar perdido. Bem, não vinha a ser de expressão estúpida ou assim entendida; o negócio partia da compenetração. Na verdade o sujeito possuía uma mente privilegiada, inteligência e raciocínio fora do comum. Desde criança exibia os dons para os coleguinhas com competência admirável em qualquer tarefa, estudo ou trato social. Mas como adulto entendeu que tanto conhecimento era inútil se não fosse direcionado ao ponto chave: dinheiro. E assim virou bandido... A garota pegou uma perna de cadeira, lixou no chão áspero até chanfrar a borda chata. Socou onde imaginou situar a tranca e pôs força jogando o corpo lateralmente a desenvolver uma alavanca básica. CLANC! A porta se escancarou a liberar um nauseante cheiro fétido. Por um minuto pensou em agradecer o tio em tê-la ensinado a façanha, mas após inalar a mácula reconsiderou.

Qual não seria a surpresa ao se revelar um quarto muito bem preservado. Nem era tão grande diga lá, mas podia abrigar três pessoas daquele gelo de fora. Nos moldes do anterior dava a sensação de sofisticação pelo papel de parede, as estatuetas de bronze e pormenores. A contemplação da moça parou no fitar da cama rústica em dos cantos onde um falecido desafortunado jazia no perpétuo sono. A vontade de entregar os pontos já nem importunava, pois a curiosidade agarrara a mão dela. Era um homem cujo corpo fora queimado pelo menos em oitenta porcento, a estar só intacto o braço direito com uma parte do tronco. De resto eram cicatrizes e fístulas purentas.

Já havia lido em um artigo científico sobre aquele tipo de mumificação. Não se lembrava o nome, tinha algo a ver com sabão; porque o corpo virava isto causado por reações químicas do ambiente. O cadáver parecia fresco, no sentido biológico. As profundas queimaduras deveriam ter doído tanto que o levou a uma morte rápida, pelo menos era nisto que preferia acreditar. Ao redor do leito latas de sopa importada fazia um festim às baratas, talvez a única praga remanescente do evento; uma piada divina para fóbicos como Cris.

E as engrenagens do cérebro meio que se ligaram imediatamente. A comida não podia estar ali, não por todo aquele tempo. Ninguém poderia ter entrado ali, e mesmo o morto feito à refeição fora há meses atrás. Observou mais de perto o homem. A mão boa segurava firme uma colher. Despercebido passaria uma marca estranha manchada na testa, uma tatuagem de uma estrela ou sol borrada. O arrepio lhe cortou em duas ao sentir calor provindo do corpo, sem esperar os olhos abriu e com a mão boa a segurou pelo braço feroz:

_ Perkrut-mi..._

Cris somente gritou em todos os pulmões.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.