Notas iniciais
Oi vidinhas, hoje trago conteúdo pra alimentar ês hinny stans. Sofrimento, sofrimento, e mais sofrimento. Espero que gostem.

O escuro.

Um escuro mais escuro que fechar os olhos, mais escuro que estar em um quarto com a luz desligada, mais escuro que qualquer coisa que você possa imaginar.

É tudo que Ginny consegue enxergar. Um breu tão desesperador que é como se afetasse todos seus sentidos. Como se, além de não conseguir enxergar literalmente nada, ela também não conseguisse ouvir ou falar. Então ela faz um teste.

Abre a boca, respirando fundo. E tenta falar alguma coisa, qualquer coisa. Mas nada sai, é como se ela não tivesse força suficiente para empurras as palavras para fora do seu corpo. E ela tem palavras dentro de si, ah, como tem.

Ginny tem palavras sobre desespero, sobre uma angústia tão profunda que penetra em suas entranhas e te mata lentamente, não de fora para dentro, mas de dentro para fora. Ginny tem palavras sobre sonhos como aquele, sobre noites sem dormir, sobre medos irracionais e crises de pânico que, mesmo anos após a guerra, ainda a atormentam.

O breu parece não apenas estar do lado de fora, mas entrar em seu corpo, a cada vez que ela inspira, por cada um dos seus poros e cada pedacinho de pele exposta.

Ela já sabe o que vai acontecer em seguida. Já decorou o roteiro de cada um de seus sonhos, e mesmo assim, sente tanto pânico quanto sentiu da primeira vez que ouviu aquela voz estridente e irritantemente alegre.

— Harry Potter está morto! Entenderam agora, seus iludidos? Ele não era nada, jamais foi, era apenas um garoto, confiante de que os outros se sacrificariam por ele!

E então o solo se abre sobre seus pés. Literalmente. Ginny se sente tonta enquanto cai em uma espécie de túnel, como se fosse Alice no País das Maravilhas, só que sem as maravilhas. Seu corpo gira e se torce em cambalhotas, e ela não consegue evitar lembrar da passagem que, há muitos anos atrás, a conduziu até a Câmara Secreta. O enjoo se mistura à tontura e à sensação de pânico por não ver o final da passagem.

Ela pode pressentir o baque vindo, seu corpo batendo com força no chão irregular e cheio de pedras, cada um de seus músculos ardendo em uma dor latejante e agoniante.

Iria cair.

Em três.

Dois.

Ginny ofegou com força, arqueando seu corpo, no exato momento do final da queda. Sua respiração era ofegante como se tivesse corrido uma maratona, sua pele estava suada e grudenta, seus olhos estavam cheios d’ água como se estivesse prestes a cair no choro. Ela já tinha se acostumado bastante aos sonhos, mas daquela vez havia sido realmente intenso.

Esse era um dos mais comuns, na realidade. Esse, aquele em que Harry estava desacordado no chão e ela não conseguia gritar por ajuda, aquele em que Fred era apagado de sua memória e ela não conseguia mais lembrar de nenhum momento que tivesse tido com ele, aquele em que os gêmeos se fundiam em um só e ninguém mais percebia que havia apenas um onde sempre houveram dois, apenas ela.
Harry abriu os olhos, sonolento. Ele costumava acordar quando Ginny tinha pesadelos, não por ela se revirar demais na cama ou fazer barulho, mas porque ele sentia que algo estava errado.

Harry não tinha pesadelos. Ás vezes, tinha momentos de uma tristeza extrema e profunda que chegavam por meio de alguma lembrança com Sirius, Remus, Fred, Dumbledore... Mas não tinha pesadelos. Ele se sentou na cama ao lado de Ginny.

— Qual foi dessa vez? – Perguntou, a voz arrastada de sono e a testa franzida de preocupação.

Ginny se virou para ele, com um sorriso afetuoso em meio as poucas lágrimas que insistiam em cair. Ela sempre acharia adorável a preocupação de Harry.

— Aquele que Voldemort anuncia sua morte.

— Qual? – Ele perguntou, a lerdeza do sono ainda dominando sua mente.

— O que eu caio em um túnel.

— Ah.

Ginny estava um pouco desapontada por ter sonhado de novo. O último pesadelo tinha sido há um bom tempo, e apesar de saber que não deveria fazer isso, ela havia nutrido esperanças de que fosse o fim.

Se não agora, quando seria? Já haviam se passado mais de dois anos. Mas talvez os pesadelos nunca irão embora – ela pensou – talvez apenas se tornem mais espaçados e menos traumáticos, talvez eu me acostume e Harry também e eu não precisarei deixar um copo de água ao lado da cama todas as noites antes de dormir porque sei que talvez acorde de um pesadelo horrível e vou precisar me acalmar antes de conseguir pegar no sono novamente.

Harry podia sentir os pensamentos ruins passando pela mente da ruiva. Ela passou as mãos pelos cabelos, tentando afastá-los do rosto, e então massageou as têmporas. As vezes, ele sentia que deveria cuidar melhor dela. Ele nunca sabia exatamente o que fazer, o que dizer, como cuidar dela sem parecer paranoico demais ou preocupado demais. E se ele parecesse preocupado, Ginny também ficaria.

Mas ele sabia abraçá-la. Ele sabia muito bem como puxá-la para perto e passar um braço pela cintura dela enquanto a outra mão alcançava seus longos cabelos ruivos. Ele sabia muito bem como fazer cafuné nela enquanto sussurrava sonolentas e sinceras palavras de conforto. Mas ele também sabia que aquela noite... havia sido algo mais intenso.

Então ele abraçou Ginny com força, levantando da cama e a trazendo em seu colo. A levou para um banho, enchendo a banheira com água morna enquanto a ajudava a se despir.
Sua pele estava pálida, suas mãos tremiam um pouco. Se estivesse com qualquer outra pessoa, ela ficaria na defensiva. Insistiria que estava bem, que não precisava daquilo, que podia simplesmente voltar a dormir. Mas não com Harry.

Porque Harry era o único que podia ver todas as suas camadas, todas suas inseguranças, todas suas fraquezas, e ainda assim ela não se importaria.

Então ela apenas permite. Permite que Harry tire sua roupa com todo o cuidado do mundo, como se estivesse encostando em uma boneca de porcelana. Permite que ele encha a banheira com um mix de sais e poções relaxantes que compraram juntos há algumas semanas. Permite que ele a ajude a sentar na banheira e sente ao seu lado.

E então eles conversam. Ginny não fala muito, na realidade, fala bem pouco. Mas ainda assim, ela fala um pouco sobre os sonhos. Ou melhor dizendo, os pesadelos. Fala que dessa vez foi realmente intenso, fala que ela teve esperanças de ter chegado ao final disso. Fala que se sente culpada por acordar Harry toda vez que isso acontece.

Harry fala que não se importa. Ele passaria todas as noites acordado se fosse ao lado dela.

Depois de um tempo, Ginny levanta. Se veste, e diz que quer voltar para a cama. As vezes ela gosta de ficar acordada, arrumar a casa, cozinhar algo mais elaborado para o café da manhã, cuidar das suas plantinhas no jardim. Mas dessa vez, ela quer voltar para a cama.

Quer sentir o calor da pele de Harry a abraçando, sua mão acariciando seu cabelo, sua respiração próxima. Ela segura sua mão e o leva até o quarto, e Harry já sabe o que fazer. Ele sempre sabe como cuidar dela.

Para Ginny, a coisa mais tranquilizante do mundo é encostar a cabeça no peito de Harry e ouvir seu coração batendo. O som sempre a acalma e a ajuda a dormir.

Talvez seja só mais uma consequência de seus traumas. Ela lembra como, nos primeiros dias após a batalha, precisava de confirmações constantes de que Harry estava vivo, estava bem, estava respirando. Talvez por isso sentir o coração dele batendo a tranquilize tanto.

Mas agora, isso não importa. Ela enrosca sua perna no corpo de Harry, puxando-o para mais perto e sentindo o sono chegando.

Naquela madrugada, Ginny pegou no sono com um sorriso esboçado no rosto. Por saber que ela sempre teria Harry para cuidar dela. Por saber que ela nunca acordaria de um pesadelo sozinha. Por saber que o coração de Harry batia forte bem ao seu lado.

Ele, no entanto, demora um pouco mais. Fica esperando Ginny pegar no sono, passando a mão pelos seus cabelos, a admirando em silêncio. Harry odeia que ela ainda tenha esses pesadelos, que ela ainda seja perseguida pelos fantasmas da guerra. Tudo que ela merece é ser feliz.

Mas ele também sabe que nada é para sempre, nem mesmo a dor. Sabe que os traumas vão ficando no passado pouco a pouco, e que um dia Ginny perceberá que passou um mês sem ter pesadelos. Dois. Três. Talvez mais.

Sabe que no dia seguinte, quando acordar, vai pensar na sorte que tem de ter aquela mulher incrível ao seu lado.

Vai passar a tarde preenchendo convites e escolhendo flores para o casamento, já que está de folga, e mais tarde, Rony e Hermione chegarão para ajudar. Vai ajudar Ginny a preparar o jantar, e todos se sentarão a mesa e comerão juntos. Como uma família.

Sabe que logo estará caminhando até o altar e formalizando a decisão que já tomou há muito tempo, de passar o resto da sua vida com Ginny. Sabe que um dia, vão decidir expandir a família. E outra vez. E talvez mais uma.

Sabe que vai passar o resto dos seus dias com a garota dos olhos cor de jabuticaba e cabelos ruivos chamativos que roubou seu coração desde que tinha dezesseis anos.

E isso não poderia o fazer mais feliz.

Notas finais
Quem amou o Harry preocupado com a amada dele? Af, eles são tudinho.

Comentem o que acharam sobre a história, isso me motiva muito a continuar escrevendo.

Me sigam no tt e vamos amigar (@ginnysculture)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!