Nightmare
1 Oneshot
Notas iniciais
Olho ao redor, sem realmente enxergar... Não entendo direito o que está acontecendo, mas um extinto estranho grita para que eu levante...“Lute! Lute! Levante antes que morra!”, diz uma voz em minha mente. Tento mexer meu corpo mas algo me impede, e isso dói. Meu corpo começa a se contorcer e eu fico sem entender o que está acontecendo. Foco minha visão, que está embasada por algo que não sei direito o que é.
O que é isso...? É escuro e parece úmido... Obrigo minha cabeça a girar e olhar mais ao redor. Um titan? Um titan. Estou prestes a ser devorado! Mikasa... Armin... Estão vivos ainda? Isso que borrava minha visão... Sangue? Vou morrer?
Mikasa... Armin... Heichou... Alguém... Vou ser devorado? Vou morrer assim? Mãe... Não vou poder te vingar? Não! Não posso morrer ainda... Tenho que acabar com todos, um por um... Um mar de fogo, planícies de gelo... Armin, não íamos ver tudo isso juntos?
Começo a me contorcer desesperado, sentindo o agarre cada vez mais forte. Não quero morrer! Não posso morrer ainda! Sinto minha respiração pesada e abro os olhos, forçando a vista em qualquer ponto. Olho ao redor e começo a rir baixo de mim mesmo, tentando tirar o nó da garganta e sufocar o grito que insistia em querer sair.
Tento sentar na cama para normalizar minha respiração, mas algo me impede. Observo melhor meu corpo e solto outra risada nervosa, com um leve desprezo ao notar que o agarre sufocante de antes era apenas o cobertor que havia se enrolado em meu corpo no meio da noite.
Sinto algo molhado escorrer pelo meu rosto, agora sabendo que não é sangue. Mesmo tentando controlar minha respiração, ela começa a ficar cada vez mais pesada, enquanto as lágrimas persistem... Mesmo que eu na verdade não tente detê-las. Mesmo com o passar do tempo, acho que o desespero não muda... Talvez isso seja uma das coisas que mantive da minha humanidade: a certeza da morte. Quantas vezes já não tive sonhos do tipo? Quantas vezes já não imaginei coisas parecidas? Quantas vezes já não presenciei esse tipo de cena....?
Fico parado, agora notando que meu corpo tremia e eu transpirava pela adrenalina. Não vai ser hoje... Nem amanha... Talvez nem depois, mas um dia a humanidade poderá caminhar sem as gaiolas, não? Esse dia com certeza ira chegar e eu poderei ver a água salgada, as planícies com areia... Eu, Mikasa, Armin, Hanji-san, Jean...
Sinto as lágrimas insistirem em escorrer com mais intensidade... Porque? É só esperar mais um pouco, não é...? Esse dia com certeza ira chegar... Levo a mão ao coração e aperto, abaixando a cabeça e as lágrimas escorrem, molhando o cobertor. Esse dia ira chegar... Mas então porque a agonia permanece?
De repente as memórias do dia em que Armin me mostrou pela primeira vez o livro sobre o mundo lá de fora surgem. Mesmo com as lágrimas, sorrio com nostalgia... Naquele livro estava tudo que eu sempre quis perguntar para os meus pais, mas não podia, porque sabia que eles não tinham tais respostas.
Mãe... Queria te mostrar esse mundo... Fecho os olhos com força, lembrando da promessa que fiz de um dia conhecer esse mundo que estava tão distante, mas à frente de nossos olhos. Ne Armin... Você poderá conhecer esse mundo também, não é?
Balanço a cabeça, fechando os olhos com mais força, tentando afastar tais pensamentos. Não posso pensar nisso. Não importa o futuro e quando ele chegara, só preciso ser forte o bastante para lutar por ele! Tenho que ser forte para que não aconteça de novo...
– Estamos no meio da noite, faça mais silencio.
Levanto a cabeça assustado e olho na direção da porta, com a vista ainda nublada pelas lágrimas. Mal tenho tempo de confirmar quem era e sinto uma dor repentina em minha cabeça, que começa a latejar. Em seguida, sinto a sensação macia do colchão e das cobertas, por sorte, cai sobre a cama. Se minha vista não conseguiu descobrir, meu tato pode confirmar...
– Rivaille Heichou! – Falo, quase gritando pela surpresa, tentando me recuperar do chute, massageando levemente o lugar dolorido.
– Seque essas lágrimas, é nojento. – Murmura indiferente, apoiando-se na parede e cruzando os braços.
– H-hai. – Sento-me novamente na beirada da cama, tentando não perder o equilíbrio por estar ainda atordoado, e limpo meu rosto, disfarçando o leve rubor em meu rosto. – O que faz aqui?
– Meu trabalho. – Sua resposta é objetiva, como se fosse algo óbvio. – Você fez muito barulho enquanto dormia então resolvi verificar.
Sinto um leve calafrio percorrer meu corpo, que estremeceu ao escutar a ultima palavra. Não importa quanto tempo passe, ainda sou considerado uma possível ameaça a humanidade, e o responsável para me deter caso seja necessário seria a pessoa a minha frente... Qualquer movimento errado ou ação suspeita, e serei executado.
– Sinto muito. – Falo automaticamente e olho para baixo, tentando conter meu nervosismo, não fazendo contato visual. – Não acontecera de novo.
– Sei que não. – Retruca com um leve tom de sarcasmo.
– Hai! – Digo de imediato, ainda um pouco tenso.
Observo-o desencostar da parede e com passos calmos, dirigir-se a porta por onde havia entrado poucos segundos atrás. Suspiro aliviado, sentindo a tensão aos poucos ir embora e o sangue voltar a circular por meu corpo, concentrando-se em meu rosto, que sinto corar levemente.
Não sei dizer porque, mas sempre quando o vejo é assim. Talvez seja a surpresa misturada com a admiração, não sei direito. É quase inacreditável o fato de que eu seja capaz de conviver com ele... O admirado Cabo Rivaille, a pessoa que carrega toda a esperança da humanidade... A pessoa que eu sempre admirei com devoção.
– Ah, e Eren. – Chama, olho em sua direção surpreso. Ainda esta lá...?
– H-hai! – De novo sinto meu nervosismo voltar e meu rosto ficando levemente mais corado do que já estava.
– Porque estava chorando? – Pergunta com o mesmo tom de voz serio de sempre, me deixando mais nervoso. São raras às vezes em que sua atenção está assim, tão voltada para mim... Talvez até mesmo a primeira vez que tenho sua atenção sem ser para planejar algo ou para ser quase morto.
– P-por nada... – Murmuro, me amaldiçoando internamente por ter gaguejado, de novo.
Não ouço uma resposta, apenas um “tch”. Sempre quando está presente minha reação é a mesma... Mesmo quando quero tentar mudar a imagem que ele tem sobre mim, não consigo... Não tem como ele me ver como um adulto se continuo agindo assim, como um garoto que mal consegue suportar a pressão de falar com alguém de uma patente bem mais elevada.
Permaneço alguns segundos olhando para baixo, tentando me acalmar. Hanji-san e principalmente Irwin também estão em posições bem distantes da minha. Talvez seja também por causa da sua aura um pouco ameaçadora... Mas tambem pelo peso que seu nome carrega: o soldado mais forte que a humanidade já conheceu.
– Rivaille Heichou... – Chamo, quase num sussurro, fazendo o maximo para não gaguejar ou me perder em minhas palavras. – Pelo que você luta...?
Fica alguns segundos me encarado com um olhar levemente mais irritado, tentando compreender melhor minhas palavras, até que solta uma leve e baixa risada de desprezo.
– De onde vem essa pergunta ridícula? – Creio que voltei a perguntar o óbvio sem querer, novamente...
– Não, é que... Heichou... – Murmuro, tentando voltar minha linha de raciocínio, vendo que montei a pergunta de forma errada. – Tudo bem lutar, mesmo se não pudermos aproveitar desse futuro que estamos tentando criar...?
De repente sinto minha cabeça voltar a latejar e escuto um baque seco. Uma dor quase insuportável na lateral de minha cabeça me impede de raciocinar direito... Massageio o lugar por alguns segundos até que abro os olhos e vejo o cabo a alguns passos de distancia. Olho melhor e, meio atordoado, noto que estava no chão, ao lado da cama. Tento me levantar com calma, apoiando-me na pequena mesa ao meu lado. Já senti essa dor vezes o bastante para saber que levei outro chute que fez minha cabeça bater contra a cabeceira da cama, provavelmente de propósito.
– Eren, será que você bateu a cabeça enquanto dormia e isso acabou com seu cérebro? – Sua voz estava controlada, enquanto seu ódio emanava de cada parte de seu corpo. Fico me xingando internamente, pelo visto falei algum tabu da tropa de exploração...
– S-sinto muito, Heichou... – Faço uma leve reverencia, me fazendo perder o equilíbrio e volto a sentar no canto da cama.
– Ei, Eren... – Fala baixo, com seu habitual tom serio, mas mais ameaçador. – Se iria pensar nessas inutilidades, então teria sido melhor se tivesse ficado nos campos vivendo sua vida feliz e sem dor.
– He-heichou... – Gaguejo, sem saber ao certo o que dizer, sentindo uma pontada de culpa por minhas palavras que saíram sem pensar... Tudo fruto desses pesadelos ridículos...
– Infelizmente, agora que sabemos que você é um titan, não podemos te deixar sair por ai e voltar para sua vida de antes.
Aproxima-se um pouco mais, com passos lentos. Um calafrio percorre meu corpo, fazendo o nervosismo secar minha garganta. Seu olhar estava fixo em mim, olhando com aquele misto de raiva e superioridade tão óbvia que sou quase capaz de tocar.
– Então a escolha é sua: ou você fica com a tropa de exploração e atua como um soldado que está disposto a morrer pela humanidade. – Faz uma pausa, mantendo a expressão seria, mas ameaçadora. Para de andar e fica a poucos centímetros de meu corpo, ainda com seu olhar fixo. – Ou é dissecado e fica conhecido na historia da humanidade como um monstro, além de aumentar a popularidade da policia militar, assim eles vão poder continuar sendo corruptos sem que a população faça nada a respeito.
O ar deixa meus pulmões e não sinto mais o sangue circular. Permaneço imóvel, com a garganta seca. Nossos olhares continuam conectados, sem nenhum dos dois quebrar o contato, com ele esperando minha resposta, aparentemente pronto para reagir a qualquer palavra que eu diga.
– Irei ficar na tropa de exploração... – Murmuro sem pensar, mesmo sabendo que essa é a resposta certa. Recupero o fôlego, e mudo meu olhar. É a decisão correta, sem duvida. – Irei ficar na tropa de exploração e acabarei com todos os titans. Um por um, ate que não sobre nenhum deles!
– Então não fale mais coisas sem sentido.
Sua aura assassina se intensifica e começo a suar frio, mas sem voltar atrás com minhas palavras. Em poucos segundos, vejo-o se acalmar, voltando a sua habitual aura de menosprezo e caminhando em direção a porta para finalmente deixar o cômodo.
Observo-o atentamente, sem a usual tensão que sinto. Permaneço em silencio, sem ousar falar qualquer coisa de novo e causar mais uma situação desagradável onde eu provavelmente vá morrer.
Suspiro aliviado quando vejo que ele finalmente chegou a porta, sentindo o cansaço de acordar no meio de madrugada e das noites mal dormidas nos últimos dias, além da leve dor de cabeça que o cabo proporcionou.
– Ne, Eren. – Chama novamente e uma sensação desagradável de deja vu surge. Fecho meus olhos com força, respiro fundo, soltando um pesado suspiro e volto a encara-lo.
– Hai, Heichou.
– Se tiver tanto medo de morrer, então não morra. – Fala, de costas para mim e finalmente deixando o quarto. – E está tudo bem se chorar, o que não pode é ficar se lamentando.
Fico pensando em suas palavras, tentando compreende-las melhor enquanto ouço seus passos ecoarem calmamente pelo corredor e subir as escadas do porão. Por algum motivo que não sei como explicar, meu rosto cora subitamente e ao invés de sentir meu coração pulsar de novo, sinto-o bater em um nível acelerado demais para ser considerado normal.
Sem querer pensar mais no assunto, me jogo na cama e deito confortavelmente para poder voltar a dormir. Fecho os olhos com força, envergonhado comigo mesmo... Porque reajo assim a cada simples gesto? Talvez seja pela admiração... Mas creio que não importa. Por alguns momentos, ao menos tive um pouco da atenção dele... Alguns meses atrás, acho que nunca acreditaria que esse sonho que tive desde criança se tornaria realidade.
Arrumo melhor minha posição na cama e fecho os olhos com mais suavidade, provavelmente iria conseguir dormir melhor. Acho que não deveria me preocupar tanto com a morte enquanto ainda estou vivo... Mais do que as muralhas, acredito que ele que tem a salvação da humanidade...
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