Night Watchers - Primeira Temporada
93 Um Toque de Magia (Vol. 8) - Capítulo 7
A jovem estava a suar… Há quase 20 minutos que não parara de andar sem ter um único sítio iluminado. O seu corpo estava fraco e em terríveis condições… A falta de descanso e de alimentação começavam a manifestar-se fisicamente. O demónio não andava a cuidar do corpo dela, para ele era apenas uma carcaça pra poder deslocar-se. Vanda estava estafada e perdida nas grutas de Cila. Infelizmente, o seu plano de fuga começava a fracassar. À medida que andava tinha receio de estar a afastar-se ainda mais da saída.
A certa altura, Vanda sentiu necessidade de descansar um pouco… Não podia esforçar-se demasiado, isso poderia fazer com que Abaddon emergisse novamente. No momento em que sentou-se no chão, um género de grito agudo ecoou pelos túneis… O som fazia lembrar o guincho de um morcego mas alto demais ser o mamífero. Vanda ficou arrepiada e questionou-se se existiria mais alguma coisa a viver naquelas grutas… Mais uma vez o som foi escutado, mais perto do que anteriormente. Algo aproximava-se e pela fúria que trazia na voz, a jovem soube que estava em maus lençóis. Subitamente, alguém agarra-a por trás e puxara-a contra a parede, tapando-lhe a boca. Vanda apanhou um susto de morte, mas não conseguiu gritar… Virou levemente a cabeça e conseguiu perceber que era Carlota, a metamorfo que trabalhava para Abaddon, quem a tinha agarrado. O estranho som desconhecido estava agora a poucos metros delas… No entanto, apenas a metamorfo com a sua visão nocturna conseguia ver o terceiro elemento que ali estava. Uma rajada de vento foi sentida ao mesmo tempo que algo bem volumoso fora agitado… A criatura possuía asas, cabelo bastante comprido e o seu corpo fazia lembrar o de um humano, mas de tonalidade cinza. As suas garras e presas eram afiadas e fatais. Curiosamente, quem quer que fosse ainda não as tinha visto. Ambas conseguiam ouvi-la a farejar o local e perceberam que o escuro era um problema para a mesma. Quando Carlota fixou o seu olhar no rosto do hediondo monstro, verificou que os seus olhos não abriam e que este era cego.
Os seus passos pesados começaram a aproximar-se devagar… E no momento em que estava prestes a alcançá-las, ao longe, o som de uma gota a cair rompeu o silêncio existente. Carlota e Vanda tiveram noção de que a atenção da criatura fora desviada e quase instantaneamente, a uma velocidade incrível, o desconhecido ser afastou-se daquele local… Possivelmente dirigira-se à origem do som, para averiguar se encontrava lá algo… Devagar, Carlota largou Vanda e ambas respiraram fundo.
Vanda — O que era aquilo?
Perguntou em baixo tom.
Carlota — Não sei… Nunca vi nada assim! Mas posso garantir que estava esfomeado! Livramo-nos de boa…
E em seguida olhou para Vanda e pela primeira vez sentiu pena da jovem… Mas não havia nada que pudesse fazer, senão o seu disfarce seria revelado.
Carlota — Desculpa!
Lamentou e em seguida deu uma pancada na cabeça da jovem, deixando-a inconsciente. Contrariada, agarrou em Vanda e começou a dirigir-se ao esconderijo de Abaddon. Quando ele acordasse já lá estaria novamente…
*
Por muito que a jovem tentasse entender, não havia meio de o conseguir… Não compreendia como é que os seus amigos enfrentavam o perigo como se as suas vidas fossem insignificantes e não valessem nada. Camila Duarte acabava sempre por envolver-se nos problemas da Night Watcher, por muito que tentasse afastar-se ou rejeitar aquele assunto. Começava a achar que não era coincidência aquilo acontecer… Talvez a vida estivesse a mostrar-lhe algo importante. Mas mesmo se fosse esse o caso, não aceitava aquele destino. Tinha medo de perder tudo a que estava habituada, tinha receio de morrer nas mãos de algum monstro diabólico… Por muita coragem que demonstrasse ter em algumas situações, sabia que até agora nada de mal acontecera-lhe por pura sorte. Todos os outros que estavam envolvidos possuíam algum tipo de dom, habilidade ou conhecimento sobre defesa pessoal… Excluía Leonardo, mas dava-lhe crédito pelo desempenho que ele mostrava ter no tema.
Camila sabia que só a coragem não era o suficiente para aguentar aquela pressão, principalmente agora que estavam a um passo de um confronto mortal com o demónio Abaddon. Na realidade, já estava habituada à ideia de que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde… O problema foi a notícia que Érica tinha dado, a possível existência de uma criatura poderosíssima e praticamente indestrutível a viver nas grutas de Cila. Para os Night Watchers terem-na aprisionado há milhares de anos era porque o problema era sério… Sério demais para andar à solta pelo mundo.
Toda a tensão que sentia fez com que tivesse vontade de andar… Então deixara o carro perto de casa da Érica e dirigira-se a pé para a escola. Optou por ir pelas ruas menos movimentadas, de modo a não sentir-se atraída a entrar numa loja com a intenção de distrair-se dos problemas. No entanto, a meio caminho, arrependera-se da sua escolha… Nem sequer lembrou-se que quando as aulas acabassem, teria de fazer todo o percurso de volta.
Camila — Fantástico! Quem me mandou a mim ir a casa da Érica?
Repreendeu-se e parou. Em seguida fechou os olhos e inspirou fundo… Não valia a pena estar enervada. Porém, nem teve tempo para acalmar-se… O som de algo a estalar, seguido de passos a aproximavam-se, despertaram Camila. Instintivamente, esta olhou para trás e quando o fez deparou-se com nada… A rua estava vazia atrás de si.
Camila- Quem está aí? Se isto for uma brincadeira…
Ameaçou… Mas ninguém respondera. Camila achou que tinha sido a sua mente a pregar-lhe uma partida e no momento em que voltou a virar-se pra seguir caminho, apanhou um grande susto e gritou. À sua frente estava um homem de meia-idade, de cabelo louro e olhos azuis…
Camila — Desculpe, assustei-me…
Admitiu um pouco envergonhada, mas aliviada.
Lezard — Não há motivo para teres ficado assustada!
O feiticeiro negro tinha alcançado a jovem. Esta, por nunca o ter visto, não conhecia a sua identidade. No entanto, reconheceu que existia algo frio nos seus olhos e sentiu um breve arrepio de medo enquanto ele a encarava. Desconfortável e intimidada, desviou o olhar dele.
Camila — Ainda bem! Com licença…
Despachou a conversa o mais rápido que pôde e quando ia a contorná-lo pra seguir o seu caminho, ele colocou-se novamente à sua frente. E nesse momento, Camila teve consciência que algo não estava certo…
Lezard — Qual é a pressa? Ainda agora estamos a começar…
Camila franziu a testa face às palavras do estranho homem. Lezard não esperou e com força, agarrara a jovem pelo pescoço de forma a sufocá-la.
Lezard — Percebes o que eu queria dizer?
Perguntou enquanto apertava com mais força. Camila largara a sua mala e tentava soltar-se, mas em vão… O seu rosto começou a ficar vermelho e a falta de ar estava prestes a acabar com ela.
Lezard — É uma pena este ser o fim de uma rapariga tão bonita!
Exclamou com um sorriso perverso, enquanto via o brilho dos olhos da jovem a desaparecer, a perderem vida. Camila tentou dizer algo, mas não conseguiu…
Lezard — Xiiiiiiiiiu…
Mandou-a calar-se com uma calma perturbadora e apertou ao máximo as mãos à volta do seu pescoço dela. Desta vez a força fora tanta que foram ouvidos dois ou três estalos. No último segundo de vida, o instinto animal de Camila viera à superfície e com o resto de força que sobrara, pontapeou o feiticeiro nos testículos. Este largou-a de imediato e ambos foram ao chão… Camila tossia e agarrada à garganta tentava recuperar o máximo de ar que conseguia. Lezard estava de joelhos e em grande sofrimento enquanto mantinha as mãos à volta da sua zona genital. A jovem levantou-se com esforço e começara a tentar correr… Mas o seu corpo tremia numa mistura de medo e adrenalina. As suas pernas fraquejavam à medida que tentava salvar-se. O feiticeiro topou a jogada da rapariga e mesmo numa má posição, teletransportou-se e apareceu novamente à frente dela…
Lezard — E estava eu a ser simpático…
Com força, empurrou-a e atirou-a ao chão…
Lezard — Mas afinal mereces o mesmo que os restantes dos teus amigos… Uma morte lenta e dolorosa!
Camila soube que aquele era o seu limite… Tentou fugir e salvar-se mas fracassou. Não havia mais nada que pudesse fazer. Desesperada, começou a chorar…
Lezard — Diz adeus à tua vida!
No momento em que ia matar Camila, alguém atraiu as atenções dos dois…
Ísis — CAMILA?
Por sorte, Ísis entrara na rua no momento certo e vinha acompanhada de Mahala. Ambas dirigiam-se a casa da Night Watcher pra contar as novidades. A sua expressão ficara aterrorizada ao ver Camila prestes a ser assassinada por aquele homem bizarro. Também ela não o reconhecia.
Lezard — Óptimo, mais para juntarem-se à festa! Tencionava apanhar um a um, mas assim despacho o serviço mais rápido!
Exclamou com satisfação e já livre de qualquer dor. A raposa, Mahala, rosnou de forma ameaçadora para Lezard.
Ísis — Não sei quem és, mas afasta-te da minha amiga!
Avisou com firmeza. Ísis estava diferente… Sentia-se completa, com coragem, sem medo…
Lezard — Não te preocupes… Há o suficiente para ti e para o teu animal de estimação!
Lezard reparou que aquela rapariga não estava presente na casa da Night Watcher, mas devia ter alguma relação directa com o grupo. Mesmo assim, isso não o ia impedir… Decidido e ignorando Ísis, debruçou-se sob Camila para acabar a sua tarefa. A jovem bruxa não tinha nada a perder e com rapidez, deu um passo em frente e apertou com força o cristal ametista que encontrara a partir de Jedthro.
Ísis — AVERSIO!
Exclamou bem alto e com garra. O encantamento que proferiu resultou na hora… Lezard foi empurrado com força pelo ar e caiu alguns metros longe de Camila. A própria Ísis ficara espantada com o que acabar de fazer, mas não mostrou sinais disso… Continuou com a mesma postura. Camila observava tudo boquiaberta, todos os outros sentimentos foram interrompidos.
Lezard levantou-se com alguma dificuldade, mas a rir-se cheio de ironia… Afinal de contas existia uma bruxa no grupo. Assim que voltara a ficar de pé, olhou para Ísis de uma forma sinistra…
Lezard — Isto vai ser divertido!
Foram as suas últimas palavras antes de teletransportar-se e desaparecer do local… Por alguns segundos o silêncio completou o cenário e o alívio por aquilo ter acabado foi sentido pelas duas jovens e pelo animal. Por fim, Camila começou novamente a chorar…
Ísis — Camila… Já passou… Já passou…
E aproximou-se da amiga, ajudando-a e consolando-a num abraço… Nunca pensou que alguma vez iria ver Camila naquele estado.
*
Hugo Zodiev batia incessantemente na porta de casa de Ísis Rocha, enquanto Melissa Monserrate continuava a tentar ligar à jovem… Mas em nenhuma das hipóteses era obtida uma resposta.
Hugo — Escusamos de continuar a tentar, ela também não está em casa!
Desistiu.
Melissa — Então onde é que ela está? Será que já soube o que aconteceu e foi para casa da Érica?
Melissa começava a ficar nervosa… Não encontrava a sua melhor amiga em lado nenhum e por muito que não quisesse pensar naquilo, receava que algo pudesse ter acontecido.
Hugo — Se isso tivesse acontecido a Érica já nos tinha ligado! E se aconteceu alguma coisa?
Melissa olhou para ele, indignada…
Melissa — Como namorado devias estar a ser positivo e a dar-me força!
Respondeu distraída, enquanto tentava espreitar por uma das janelas o interior da casa.
Melissa — ÍSIS? ÍSIS?
Gritava, na esperança que a amiga estivesse lá dentro e a ouvisse.
Hugo — Só estou a tentar ser realista… Se calhar devíamos começar a procurar em outros sítios! Ela não está em casa Melissa, aqui só vamos perder tempo!
A expressão de Melissa mudara por completo e assumira uma postura desistente.
Melissa — Eu sei… Só queria que ela estivesse aqui!
Em seguida bateu com o pé no chão, revoltada… Com a força que exercera, rachara um pedaço da pedra que constituía a entrada da casa de Ísis.
Melissa — Que raiva… Este dia está a ser caótico! Primeiro, a Ísis desaparece… Depois, os Goblins andam à solta pela vila… Agora, a Érica diz-nos que um monstro indestrutível pode estar a viver nas grutas, além de Abaddon. Ah, e isto sem contar com o jantar que vamos ter com o meu pai e com a minha madrasta! Conclusão, se sobreviver a este dia, prometo apanhar uma bebedeira tão grande que irei esquecer-me onde moro!
Desabafou com o namorado, de uma forma um pouco exagerada. No entanto, a ideia era aquela…
Hugo — Um jantar? Um jantar com o teu pai? Hoje? Porque é que eu não sabia disso?
Hugo não podia ter ficado mais nervoso e só aí é que Melissa apercebeu-se do que tinha dito. Com aquela confusão toda, esquecera-se completamente de falar acerca do jantar…
Melissa — Eu não tinha contado?
Perguntou com ingenuidade, farta de saber a resposta.
Hugo — O teu pai vai querer saber tudo acerca de mim… O que é que é suposto eu dizer? Ele vai pensar que eu sou um marginal ou algo do género! Não tenho amigos, nunca fui à escola… Os meus pais são os estranhos da vila... Queres que continue?
Perguntava alarmado.
Melissa — Não, obrigado!
Respondeu com sarcasmo.
Melissa — Ele desconfiou que algo andava a acontecer… E eu acabei por contar! Mas não tens de te preocupar, ele é bem fixe! O problema aqui é a minha madrasta, acredita…
Avisou-o.
Hugo — Essa dica foi para eu acalmar-me?
Hugo ficara ainda mais nervoso.
Melissa — Hugo, vai correr tudo bem! Uma coisa de cada vez… Agora temos de encontrar a Ísis!
Hugo tentou não pensar mais no assunto, Melissa tinha razão… Existia uma prioridade: Ísis.
Hugo — Ya, tenho tempo para sofrer mais logo… Vamos encontrá-la!
Sem uma única pista e sem saberem ao certo para onde iam, Melissa e Hugo afastaram-se do local para procurarem Ísis.
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