Night Watchers - Primeira Temporada

60 O Começo (Vol. 6) - Capítulo 3


A semana tinha chegado… O descanso acabara para começar o trabalho e outros tipos de deveres. Para Melissa tinha chegado um dos piores momentos, o início das aulas. Nos dois dias que passaram, a jovem conhecera toda a vila e até nem ficara desiludida. Cila era bem bonita e parecia ser um sítio agradável de se viver. Claro que preferia os seus amigos e a sua casa antiga, mas tinha se de costumar à ideia de que esses ficaram para trás. Mesmo assim, não podia queixar-se da sua nova casa… Gostara da sua simplicidade. Algo que adorara, foram as praias que a vila possuía, eram lindas… Onde antes vivia não tinha acesso directo ao mar, então não sabia o que era viver ao pé da praia. De tudo o que vira, houve algo que suscitou muito interesse à jovem... A grande estátua que existia em frente à camara principal, a de uma mulher muito bonita e elegante que carregava uma espada, parecendo uma guerreira. Por baixo do monumento dizia: “Cila”. Melissa perguntou a si mesma quem seria aquela mulher e se aquele seria o seu nome, o da vila… Sentiu vontade de perguntar a alguém, mas não conhecia ninguém. A jovem não era anti-social, mas não gostava de falar com estranhos… De modo a que preferiu ficar com a curiosidade para si mesma.

Por fim, acabou por visitar quase tudo excepto um único local… A universidade de Cila, a sua nova faculdade, onde não conhecia um único jovem, não tinha um único amigo. Achou que não haveria necessidade de passar por lá, uma vez que seria obrigada a passar bastante tempo naquele espaço. E de qualquer dos modos, já tinha ouvido falar dela e das suas excelentes condições.

Agora, o grande momento chegara, marcado pelo início da semana… Melissa encontrava-se parada frente à faculdade. Vários jovens encontravam-se a entrar e uma grande confusão de carros e transportes públicos estava instalada na estrada atrás de si. A jovem suspirou e devagar, avançou para também entrar…

Lá dentro, todos deslocavam-se para vários pontos numa barulheira enorme. A jovem olhava para os grandes pavilhões existentes e para o jardim bem tratado que exista à sua volta. Era bastante sofisticada como falavam… Melissa questionou-se se aquela faculdade não seria cara. Não fazia a mínima ideia, pois era o seu pai quem lhe pagava os estudos. A rapariga esperava que não, com a crise financeira que passavam, uma escola daquelas seria uma grande despesa. Depois de observar tudo, começou a entrar num dos pavilhões existentes, na esperança de encontrar a sua sala. Quando o ia a fazer, reparou numa rapariga que entregava uns folhetos à entrada… Ao chegar a sua vez, fora igualmente abordada.

Camila — Vota em mim para representante dos estudantes! Não te vais arrepender, sou muito competente!

Disse a jovem bem vestida, de uma forma muito elaborada. Melissa olhava para o folheto que Camila Duarte acabara de lhe passar.

Camila — Hum, espera… És nova aqui, não és?

Perguntou curiosa. Melissa rapidamente percebeu que aquela jovem devia conhecer muitas pessoas e isso encorajara-a. Talvez fizesse já um amigo e através dele, fazer mais…

Melissa — É assim tão óbvio?

Disse com um sorriso na cara.

Camila — Um pouco… Mas não faz mal, estás bem entregue! Chamo-me Camila!

Apresentou-se a jovem, bem-disposta.

Melissa — Eu sou a Melissa! Mudei-me no fim-de-semana para Cila!

Respondeu Melissa, já um pouco mais à vontade.

Camila — Porque é que te mudaste para cá? Isto é o fim do mundo! Estamos longe de tudo!

Queixou-se a jovem, mostrando que também ela habitava na vila.

Melissa — Fui obrigada… A minha madrasta arranjou emprego por aqui e tivemos de vir. Eu e o meu pai!

Camila — Lamento por isso! Mas já que estás por aqui, que tal tentarmos integrar-te um bocadinho? Posso mostrar-te a faculdade e apresentar-te a algumas pessoas!

Propôs Camila. Melissa sorriu descansada… Era exactamente aquilo que precisava.

Melissa — Agradeço-te imenso… Não conheço nada nem ninguém!

As duas jovens começaram a avançar…

Camila — Então? Que curso estás a tirar?

Melissa — O de psicologia! E tu?

Camila — Eu também! Deixa-me ver o teu horário…

Pediu a jovem… Melissa passou-lhe a folha correspondente.

Camila — Somos da mesma turma! Que giro, já viste?

Perguntou entusiasmada. A meio caminho uma voz distraiu e interrompeu a conversa das jovens.

Leonardo — Camila? Também estás a concorrer para representante dos estudantes?

Perguntava o jovem enquanto aproximava-se com mais duas pessoas. Camila revirou os olhos.

Camila — Oh não…

Disse para Melissa, baixinho. Depois olhou para Leonardo.

Camila - É claro que estou a concorrer! Eles precisam de alguém responsável e firme!

Respondeu, referindo-se a ela própria.

Leonardo — Exacto! Por alguma razão candidatei-me! Disseste que não o ias fazer…

O jovem também parecia estar certo das suas capacidades.

Camila — Bem, mudei de ideias! Achei que seria óptimo se eu desempenhasse essa função… Sejamos sinceros, era o ideal para mim, serei uma representante muito melhor!

Melissa fora completamente esquecida… A conversa desinteressante estava a tomar proporções alargadas. A jovem olhou para os outros dois que estavam com Leonardo, um rapaz e uma rapariga, e estes fizeram o mesmo. Ambos encolheram os ombros para Melissa e esta sorriu em resposta…

Leonardo — O que é sabes fazer? Dar dicas de como devem vir vestidos para a faculdade?

Perguntou com ironia e em provocação.

Camila — Nem te vou responder! Não vale a pena estares preocupado! Eu conheço tanta gente… De certeza que já está ganho!

Respondeu convencida. Uma discussão estava prestes a aquecer ainda mais, mas alguém interveio… A rapariga que vinha com Leonardo.

Ísis — Por favor… Não se vão chatear por causa disto, pois não?

Perguntou com um ar cansado… Como se aquele tipo de situações acontecesse com frequência.

Camila — Ninguém se está a chatear! O Leonardo é que parece incomodado por eu estar a concorrer também!

Disse com ar acusador. Leonardo ia a preparar-se para responder mas Ísis fez sinal para que não o fizesse.

Camila — Enfim… Vou aproveitar para vos apresentar a minha nova amiga, a Melissa! Mudou-se este fim-de-semana para Cila e é a nossa nova colega de turma!

Exclamou, apresentando Melissa aos jovens.

Melissa — Olá a todos!

Cumprimentou, um pouco envergonhada.

Ísis — Olá Melissa, eu sou a Ísis! Muito prazer!

Apresentou-se bastante simpática e alegre.

Ísis — E este é o Leonardo…

Apontando para o rapaz que discutira com Camila.

Ísis — E este o Filipe!

Indicando o jovem que sobrava. Ambos riram-se para Melissa.

Camila — A Ísis e o Leonardo também moram em Cila… O Filipe só cá está na época de aulas, mora na vila Medeia, numa pequena ilha a sul daqui!

Finalizou Camila.

Filipe — Já pensei arranjar uma casa por aqui... Passo cá tanto tempo!

Afirmou Filipe Mendes entusiasmado… Pelas roupas que trazia e pelo modo como falava dava para perceber que, tanto ele como Camila deviam ter uma boa vida e uma boa posse financeira.

Leonardo — Melissa, já foste conhecer Cila?

Perguntou Leonardo Almeida, de modo a fazer conversa com a jovem.

Melissa — Sim… Ontem dei uma volta pela vila! Só não conheci a faculdade…

Leonardo — Pudera… É o sítio menos interessante e onde temos de passar mais tempo!

Pelas suas palavras, Melissa compreendeu que Leonardo gostava tanto de estudar como ela, então, riu-se para o jovem.

Ísis — Então e gostaste da nossa vila Melissa?

Perguntou Ísis Rocha, animada.

Melissa — Bastante! A ideia de viver ao pé do mar é interessante!

Leonardo — Tens de experimentar as praias…

Informou com rapidez.

Melissa — Tenciono! Já ouvi dizer que o clima aqui é excelente! Ainda não tive muita sorte desde que cheguei…

Referindo-se ao tempo. Desde que Melissa chegara que o clima estava muito incerto… Estava calor, mas os aguaceiros que por vezes caiam, eram muito fortes.

Filipe — Cila tem um clima tropical… É normal presenciarmos vários fenómenos da natureza aqui na vila.

Respondeu com o seu ar descontraído, porém intelectual.

Camila — Sim, todos sabemos isso! Que tal acabarmos com a conversa chata e mostrarmos a faculdade à Melissa? Não tarda é hora de irmos para a aula!

Interrompeu abruptamente. Todos calaram-se e olharam para a jovem… Melissa tinha acabado de perceber que Camila tinha um feitio um pouco complicado.

Leonardo — Queres mesmo que eu diga quem é chata aqui?

Perguntou a Camila. Ísis rapidamente interrompeu e suavizou o momento…

Ísis — Eu acho que é uma boa ideia… Vamos mostrar a faculdade à Melissa! Não vamos querer que ela se sinta desconfortável não é?

Melissa riu-se perante a abordagem de Ísis. Parecia ser uma excelente pessoa…

Filipe — É melhor… A faculdade ainda é grande!

Melissa — Agradeço!

Ísis — Vamos…

Indicou Ísis, muito prestável. Os cinco jovens avançaram para conhecer a faculdade, envolvidos em conversas…

*

Por aquela hora, já quase todos em Cila tinham ouvido falar do macabro assassinato do dia anterior. O departamento da polícia estava num grande alvoroço… O detective Pedro Dias tinha acabado entrar e todos os polícias falavam do mesmo: dos dois jovens que tinham sido brutalmente assassinados. O Agente tinha acabado de vir da morgue, fora ver os corpos… Ou o que sobrara deles. Ao que parecia, ambos tinham sido literalmente devorados por algum animal. O estranho era o facto de não existirem animais por aquela zona que fossem capazes de fazer aquilo. Pra lá de Cila existia uma grande floresta, vasta e densa. Existia lá muita vida, mas nunca nenhum animal descera até à vila para cometer tamanha fatalidade. O detective sentia-se confuso… Cila tinha muitos casos estranhos, para os quais não existiam resposta. Pedro estudara o historial da vila e ficara impressionado com a quantidade de ocorrências sem resposta que existiam. Enquanto caminhava até ao seu escritório, algo chamou-o à atenção… Alguém.

Henrique — Então Pedro? Novo caso?

Era o seu amigo de longa data e também detective, Henrique Gomes.

Pedro — Sim… Mais um daqueles!

Respondeu, enquanto ambos entravam no escritório e fechavam a porta.

Henrique — É mesmo verdade? Foram… devorados?

Perguntou, incrédulo.

Pedro — Quase por completo… Acabei de vir da morgue e vi o que sobrou deles!

Henrique — Dizem que foi um animal… Que animal faria isto?

Pedro — Não sei! Parece-me que este é mais um daqueles que não terá solução… Algo não está certo Henrique!

Concluiu o detective.

Henrique — Passas a vida a dizer isso… Não se passa nada Pedro! Apenas acidentes em que os responsáveis escaparam! Sabes muito bem que assim que alguém foge para a floresta, dificilmente conseguimos alcançar ou sequer rastrear a pessoa! Temos quilómetros de mato denso, para todas as direcções! Nem sei como é que não consideram isto como um pulmão do planeta!

Pedro olhou para ele indignado.

Pedro — Esta floresta nem chega aos calcanhares da Amazónia!

Henrique — Eu sei, estava a brincar sim? Acho que tens pensado muito acerca disto… Se eu fosse a ti focava-me no presente! Os casos que já passaram, não há nada a fazer!

Aconselhou o amigo.

Pedro — Talvez… Devo estar a enlouquecer! Tens razão… Tenho de focar-me no presente!

Rendeu-se… Henrique tinha razão, Pedro passava muito tempo há volta de casos que já tinham sido arquivados, por falta de evidências.

Henrique — É isso mesmo! Andar para a frente!

Pedro — Sempre! E agora mesmo, temos algo onde nos concentrar! Tentar descobrir e abater este… animal, que andava a devorar pessoas pela vila!

Disse com convicção.

Henrique — Conta comigo!

Afirmou o amigo, da mesma forma…

*

Aos fins de tarde, o céu assumia uma cor dourada à medida que o sol se escondia no oceano… Era uma paisagem única. O mar brilhava intensamente e as gaivotas desciam até à areia enquanto outras pairavam sob a água. Várias nuvens indicavam que mais tarde ou mais cedo, ia chover. Mesmo assim, Cila continuava a ter encanto… Era esta a opinião de Hugo Zodiev, que todos os dias ao entardecer, dirigia-se até a uma das praias para contemplar as maravilhas da natureza. Sempre que o fazia, começava a sonhar sobre a sua vida, sobre o que poderia ter tido… O jovem sempre vivera em Cila, mas nunca estudara, nem trabalhara, nem sequer tinha ninguém a quem contar os seus pensamentos e opiniões. Hugo não tinha amigos. Sempre fora muito solitário… Em parte, por causa dos seus pais, que nunca permitiram que este fosse para a escola, ou alguma vez fizesse algo da vida. Eram muito conservadores. Claro que aprendera certo tipo de coisas, como ler e escrever. Todo o resto de educação que possuía, provinha de si próprio e do árduo trabalho que tivera para a adquirir. Mas a razão principal da distância que mantinha das pessoas era outra bem diferente… Desde bem cedo que o jovem apercebera-se de que não era normal… Em momentos críticos, algo acontecia-lhe… Algo invadia-lhe o corpo e tornava-o diferente. Algo que não parecia ser humano. Hugo Zodiev tentara falar com os seus pais, mas a resposta destes era sempre a mesma... Em primeiro lugar, afirmavam ser demónios. E era verdade… Fizeram questão de o mostrar, mas o rapaz preferia não pensar nesse dia. Em relação a ele, apenas chamavam-no de aberração. Hugo aparentava ter alguma relação com demónios, pela postura que assumia quando sentia-se me perigo, mas a sua atitude e personalidade provavam o contrário. Tudo isto deixava-o muito confuso e em branco, pois continuava sem saber nada acerca dele próprio. Daí, preferir não estar com ninguém… E claro, os seus pais estritamente proibiam-no.

Para Hugo, a vida tinha um significado muito mais profundo do que maioria das pessoas davam… Se bem que para o jovem, muitas pessoas eram totalmente ocas… Via-se pelo seu dia-a-dia, que tanto ele observava, por não ter nada para fazer. Ao ter conhecimento das ocorrências estranhas e da existência de mais seres além dos humanos, o rapaz tinha noção de que haviam coisas muito mais importante do que as futilidades a que todos recorriam. Hugo via a sua vida a fazer parte de algo maior… E assim o desejava.

Mais uma tarde acabara de passar e como todos os outros dias, o jovem ficou a assistir ao sol a desaparecer, envolvido em pensamentos importantes…