Night Watchers - Primeira Temporada

72 O Começo (Vol. 6) - Capítulo 15


Ainda era muito cedo quando os primeiros raios solares iluminavam o edifício da polícia de Cila. Eram horas como aquela que o agente Pedro Dias apreciava no seu local de trabalho. A barulheira habitual do dia-a-dia ainda não se tinha instalado e isso facilitava a sua capacidade de raciocínio.

O detective encontrava-se sentado no seu escritório enquanto olhava para uma folha e para uma pequena amostra do líquido verde que encontrara na noite anterior.

Pedro — O que é que me está a escapar?

Perguntava a si mesmo, pensativo. A sua concentração foi interrompida quando a porta do seu escritório foi aberta e o seu amigo de longa data Henrique Gomes entrara…

Henrique — Pedro? Ou é minha impressão ou ainda estás com a roupa de ontem?

Pedro apenas limitou-se a olhar para o amigo.

Henrique — Não me digas… Ainda não foste a casa! Não acredito que ficaste aqui a noite inteira!

Afirmou cheio de certezas.

Pedro — O que é que querias que eu fizesse? Aconteceu algo estranho a noite passada, tenho de descobrir o quê! E assim foi da maneira que consegui os resultados da evidência mais cedo!

Henrique sentou-se e frente ao amigo e abanou a cabeça em desaprovação, mas prosseguiu…

Henrique — E então? Conseguiram identificar que líquido é esse?

Pedro — Conseguiram… É uma mistura de clorofila, ácido bórico e metanol! Uma mistura estranha que não dá em nada… Não tem qualquer tipo de uso!

Henrique ficou confuso e franziu o sobrolho.

Henrique — Alguém deve ter feito esta mistura… Porque é que alguém haveria de fazer algo tão insignificante? Os especialistas deram alguma justificação?

Perguntou enquanto analisava o frasco com o estranho líquido verde, que na verdade, era o sangue complexo do Wendigo.

Pedro — Eles disseram que alguém deve ter tentado iniciar uma experiência de algum tipo… Mas que pelos vistos, não deu em nada! Não faz sentido pois não? Porque é que alguém haveria de tentar fazer uma experiência em via pública?

Pedro não acreditava muito naquela teoria. Mas não havia outra…

Henrique — Pois, não sei… Parece que este é mais um daqueles casos que vai ficar por resolver! A não ser que alguém volte a tentar fazer outra experiencia… No meio da rua!

Exclamou enquanto levantava-se.

Pedro — Não entendo como é que estas coisas acontecem e não damos por nada... Ou chegamos sempre tarde!

Queixava-se, atirando a folha para cima da mesa, com desprezo.

Henrique — A quem o dizes… Mas esquece isso por agora. Tenta pegar em outro caso! Queres ajudar-me a recolher informação acerca da jovem desaparecida? Vanda Soares?

Convidou o amigo.

Pedro — Sempre é mais importante que estar à procura de experiencias científicas! Vamos!

Cheio de vigor, Pedro levantou-se e seguiu com Henrique para fora do escritório.

*

Até ao momento, o dia estava cinzento… Desde cedo que as nuvens cobriram o sol e fortes aguaceiros limpavam as ruas de Cila. Sempre que a chuva parava de cair, os jovens saiam dos edifícios da faculdade para virem até ao exterior apanhar ar. Independentemente do clima turbulento, as temperaturas estavam altas, como quase todos os outros dias.

A primeira coisa que Melissa, Ísis e Leonardo fizeram quando se viram, foi o facto de referirem o quanto estavam prontos para a nossa etapa que tinham à sua frente. Depois disso não voltaram a tocar no assunto, pois Filipe Mendes juntara-se a eles e este não sabia de nada… Os jovens preferiram deixá-lo as escuras acerca do assunto, nunca iriam saber a reacção dele e as perguntas a que teriam de responder não estariam à altura deles. Também durante toda a manhã, repararam que Camila evitara qualquer tipo de contacto visual ou físico com os eles. Mas era como Érica os tinha avisado… Tinham de dar tempo ao tempo.

Agora, Melissa, Ísis, Leonardo e Filipe encontravam-se à porta de um dos edifícios e o humor de todos não estava nas melhores condições. As aulas tinham acabado e a eleição do representante dos estudantes já tinha ocorrido… Dos cinco candidatos, Leonardo fora o primeiro a ser excluído. O jovem estava um pouco desanimado por ter perdido e os amigos tentavam animá-lo…

Leonardo — Gostava mesmo de ter ganho! Estava confiante que ia conseguir…

Exclamava aborrecido.

Ísis — Oh, Leonardo… A culpa não é tua!

Leonardo — Pois não, foi dos votos… O que significa que poucas pessoas votaram em mim!

Melissa — Tenta ver pelo lado positivo… Daqui para a frente vais ter muito trabalho! Será que ias conseguir gerir tudo?

Melissa falou de modo a que desse a entender que referia-se aos estudos, mas Leonardo compreendeu perfeitamente onde ela queria chegar. Tinham de falar por código, de modo a que Filipe não desconfiasse de nada.

Filipe — É isso mesmo! Pensa também que se tivesses ganho, não ias ter tanto tempo para ir à praia, sair, etc. Tinhas de passar muito mais tempo na faculdade!

Leonardo ficou a pensar e no fundo, sabia que os amigos estavam certos.

Leonardo — Ya, eu sei! Só não gosto de perder…

Melissa riu-se.

Melissa — Acho que ninguém gosta!

Entre este espaço, Ísis começou a observar Camila, que se encontrava alguns metros à frente deles e conversava com um grupo de estudantes. Teve pena dela ao recordar-se de cenas da noite anterior. Nostálgica, interrompeu a conversa entre Leonardo, Melissa e Filipe.

Ísis — Acho que devíamos ir até lá…

Todos olharam para onde a jovem estava focada… Camila.

Melissa — Já tinha pensado nisso!

Leonardo — Não sei se é boa ideia…

Filipe olhou para eles, indignado.

Filipe — Porque é que não haveríamos de lá ir? É só a Camila…

Os três jovens perceberam que quase se iam descaindo… Filipe não sabia que Camila tinha cortado relações com eles. Então, para disfarce, sorriram para o amigo e juntamente com ele seguiram na direcção de Camila, receosos...

Filipe — Camila, parabéns!

Felicitou a amiga. Esta virou-se a sorrir, mas assim que os viu rapidamente aquele brilho desvaneceu-se.

Camila — Hum… São vocês! Obrigado pelo gesto, mas eu sabia que ia ganhar a eleição!

Exclamou com alguma rispidez, revelando quem tinha sido eleito como representante dos estudantes. Camila tinha ganho.

Melissa — A sério Camila… Estamos contentes que tenhas ganho!

Afirmou com sinceridade e Ísis apressou-se a fazer o mesmo.

Ísis — Sim, sabemos que serás uma boa representante!

Leonardo — Parabéns!

Também Leonardo felicitou-a, se bem que contra vontade.

Camila — Eu sei que serei boa! Não foi à toa que as pessoas votaram em mim… É porque gostam de mim! E eu pensava que tinha feito um aviso…

Ísis interrompeu-a com o olhar e esta entendeu o que se passava… Melissa, Ísis e Leonardo não queriam que ela falasse daquele assunto em frente a Filipe.

Camila — Seja como for, já falamos tudo por hoje!

Concluiu enquanto virava as costas para sair da faculdade. Mas Ísis tentou insistir…

Ísis — Mas Camila…

Camila parou e voltou atrás, chateada…

Camila — Ainda não perceberam? Não tenho tempo para vocês, ABERRAÇÕES!

E voltou a virar as costas, deixando-os com um ar perplexo.

Filipe — O que é que está errado com ela?

Perguntou surpreendido. Nenhum dos amigos respondeu e todos ficaram a observar Camila à medida que ela aproximava-se da saída da faculdade. A jovem ia tão chateada que nem reparou no caminho que estava a tomar… Uma poça de lama encontrava-se junto aos portões de entrada e foi exactamente onde Camila, nos seus sapatos altos, escorregou e caiu. Todos os que estavam ali perto pararam para ver a rapariga esticada no meio da terra molhada. Alguns risos começaram a ser escutados e muito envergonhada, a nova representante dos estudantes levantou-se sozinha e saiu daquele espaço. Melissa, Ísis e Filipe continuavam a olhar… Leonardo também começara a rir-se, em tom baixo.

Filipe — Vá… Não se riam!

Pediu atenciosamente.

Leonardo — É mais forte que eu!

Ísis — Mas é errado… Não devíamos rir. Nem sequer pensar em fazê-lo!

Exclamou com um leve sorriso nos lábios. A jovem tinha razão e estava a controlar-se para não o fazer. O momento tinha sido hilariante.

Melissa — Talvez tenha sido castigo… Pelo que ela nos chamou!

Disse, também contendo o riso.

Leonardo — Pois… Não podemos ter tudo! E ela já ganhou a eleição, por isso acho que este foi o pagamento dela!

Melissa — Ela pode ser irritante… Mas não nos podemos esquecer que é nossa amiga!

Leonardo — Somos? Ela deixou bem claro que não quer nada connosco!

Discordou da amiga.

Ísis — É só uma fase… Espero eu!

Afirmou, esperançosa.

Filipe — Gostava de saber porque é que ela está assim…

Os jovens olharam para Filipe e encolhêramos ombros, desentendidos. Nesse instante, a chuva começa a cair novamente…

Filipe — Mais chuva?

Perguntou com ar saturado.

Filipe — É melhor voltarmos para dentro… Parece que vamos ter de esperar que este aguaceiro passe!

Mudou de assunto, para alívio dos restantes.

Melissa — Mas mesmo assim, não deixa de estar um dia bonito… Não acham?

Perguntou sorridente. Ísis e Leonardo entenderam o que ela quis dizer, apenas Filipe levou à letra e também concordou. Satisfeitos, os jovens começaram a caminhar para um dos edifícios, enquanto conversavam alegremente…

10 Meses depois:

Melissa, Ísis, Leonardo, Érica e Rodrigo riam às gargalhadas ao recordarem-se dos primeiros dias em que os jovens tinham descoberto o mundo da Night Watcher. Claro que a lembrança de Camila a cair numa poça de lama também foi o motivo da algazarra que estavam a fazer… Sabia bem poderem olhar para trás e verem o quanto cada um deles tinha evoluído.

Melissa — Tenho de admitir… Que seca que a minha vida seria se eu nunca tivesse pisado Cila! Parece que tudo passou a fazer muito mais sentido…

Conclui a jovem.

Ísis — Concordo… Mas é triste dizermos isto! Estamos felizes por estas coisas terríveis acontecerem? Não soa bem!

Exclamou com um ar confuso.

Leonardo — Não é bem assim! Eu acho que o que nos deixa realmente bem é o facto de pudermos ajudar… E é aí que tudo parece fazer sentido! É como se fosse nossa obrigação… Como um pagamento pela informação que adquirimos!

Ísis — Eu sei… Acho que todas estas recordações já me estavam a deixar novamente confusa!

Melissa — Não sei até que ponto é bom relembrarmos algo que já ultrapassamos! Se for a pensar assim, já dez meses passaram e em certos pontos, continuamos na mesma! Ainda não descobrimos nada do que era suposto…

Melissa referia-se à origem dos seus espantosos atributos, à identidade do Grimório que Ísis encontrara e ao plano de salvamento da jovem Vanda Soares. Todos perceberam o que ela queria dizer.

Érica — Não é preciso serem tão duros com vocês mesmos! As respostas que procuramos podem estar a demorar, mas eventualmente daremos com elas… Não é algo que se faça que se encontre de um dia para o outro!

Leonardo — Ya, e não nos podemos esquecer de tudo o resto que se passa à nossa volta! Até agora temos feito um bom trabalho… Muitas coisas podem não estar melhores, mas também não pioraram.

Concordou com a Night Watcher. Melissa e Ísis acabaram por dar-lhes razão.

Melissa — E a faculdade…

Adicionou à lista de tarefas que os jovens realizam.

Melissa — Não seria muito mais fácil se não tivéssemos de estudar? No fundo nem sei para que é que precisamos… Lutamos com monstros! Isso não é mais importante?

Leonardo riu-se para a amiga. Esta gostava tanto de estudar como ele.

Ísis — Eu gosto do curso que estamos a tirar!

Defendeu-se com rapidez.

Érica — Vocês devem viver as vossas vidas… Não podem privatizar-vos disso, apenas porque estão a ajudar-me no meu trabalho!

Avisou-os.

Melissa — Eu sei, estava só a ver se pegava!

Respondeu na brincadeira. Entretanto, Rodrigo olhou para o relógio…

Rodrigo — Não sei se já repararam, mas ainda não fizemos nada! Estamos há horas na conversa! O tempo passou a voar…

Todos olharam para as horas… Érica foi a primeira a levantar-se. Os cinco elementos estavam confortavelmente sentados no sofá e já nem se lembravam que tinham pesquisas e novos planos para elaborarem.

Érica — Passou mesmo… Nem dei por nada!

De seguida olhou para os jovens…

Érica — Está na hora de nos organizarmos… Temos muito trabalho pela frente!

Melissa, Ísis e Leonardo concordaram. Já chegava de recordações, o que interessava era o momento presente… Levantaram-se e juntamente com a Night Watcher e o seu marido, começaram o trabalho que tinham ido ali realizar. Não havia nada mais importante que isso…

Fim