Night Watchers - Primeira Temporada
42 Medos (Vol. 4) - Capítulo 8
Notas iniciais
Durante o tempo de espera, Melissa contou tudo a Hugo e rapidamente o jovem começou a interiorizar a ideia… O que surpreendeu um pouco Melissa, que achava aquela fácil adaptação um pouco estranha.
Hugo — É incrível como um único demónio consegue causar tantos estragos!
Melissa - Também acho! Prefiro nem pensar nos outros que existem… Não passam de criaturas hediondas! Quem me dera que estivessem extintos!
Sempre que falavam sobre demónios Hugo ficava incomodado. Havia algo que só ele sabia… E que tencionava não contar a ninguém. Os seus pais eram demónios…
Hugo — Às vezes também desejava…
Disse o jovem, bastante pensativo.
Melissa — Falas como se tivesses muita experiencia com eles!
Exclamou Melissa de sobrolho franzido.
Hugo — Tu percebes… Estou um pouco assustado com isto tudo!
Disfarçou Hugo. Infelizmente tinha de mentir… Não podia contar nada a ninguém sem saber mais acerca dele próprio e de quem era. Além disso, não queria pôr ninguém em perigo, os seus pais eram demónios e como tal, eram frios e maliciosos. Sempre tentaram educar o jovem sob a perspectiva de vida deles, mas nunca conseguiram… Daí manterem um relacionamento péssimo. Mesmo afastados da ordem demoníaca, os seus pais continuavam a exercer as suas actividades, aquela vida era só um disfarce. O motivo pelo qual estavam fora dos assuntos da ordem, era pelo simples facto de que, desde que se conheceram, os seus pais apaixonaram-se e tornaram-se rebeldes, trabalhando apenas em função deles próprios.
Melissa — Pois… Tens razão!
Exclamou a jovem, compreensiva… Hugo sorriu desconfortavelmente e não respondeu. Depois de alguns segundos de silêncio entre ambos, pois o som de gritos ao longe era constante, Melissa decidiu falar de novo…
Melissa — Falando em sustos… O que é que te aconteceu há pouco? Quando fugiste de mim… Parecia que não querias olhar para mim!
Hugo pensou que no meio de tanta confusão, Melissa tinha-se esquecido daquele momento…
Hugo — Ah… Não me lembro muito bem. Acho que estava indisposto… Sentia tanto medo que tive uma branca…
Hugo mentiu o melhor que pôde e Melissa acreditou… Ambos estavam encostados ao carro, lado a lado.
Melissa — É normal… Estou para aqui a falar mas também estou assustada! Estamos em perigo e não sabemos o que fazer… É uma situação que não desejo a ninguém!
Hugo — Pois, mas acho que sentem-se todos assim! Ao menos ainda estamos um com o outro…
Disse o jovem de uma forma carinhosa. Melissa olhou para ele e sorriu… De alguma maneira não estava envergonhada, talvez o medo conseguisse tapar a timidez.
Melissa — Bem, acho que desde que estejamos juntos ficamos bem!
Hugo — Quando estou perto de ti estou sempre bem!
O jovem olhava nos olhos de Melissa…
Melissa — Então é melhor continuarmos juntos…
Responde a jovem, também concentrada nos olhos de Hugo.
Hugo — Ya, acho que podemos…
E devagar aproxima-se de Melissa… Esta responde da mesma forma. Ia acontecer… Estavam prestes a beijar-se. Finalmente Melissa ficara a ter a certeza que o interesse que senta pelo jovem era correspondido.
No momento tão aguardado, quando já estavam praticamente encostados um ao outro de olhos fechados e prontos a sentirem os seus lábios a tocarem-se, uma voz foi escutada e o momento interrompido.
Cristina — O que vem a ser isto Hugo?
Atrapalhados, Melissa e Hugo afastaram-se um do outro e levantaram-se. O jovem olhou para as duas pessoas que estavam à frente deles… Cristina e Frank Zodiev, os seus pais.
Hugo — Mãe… Estava a falar com a minha amiga… O que é que fazem aqui?
O jovem estava atrapalhado e Melissa percebeu… Pela primeira vez estava a conhecer os pais do rapaz. Com toda a naturalidade, tentou acalmar Hugo.
Melissa — Olá, eu sou a Melissa… Amiga do Hugo! Muito prazer!
Melissa estica a mão pra cumprimentar o casal Zodiev… Estes ficaram imóveis e olharam para a jovem com algum desprezo, como se ela fosse inferior. Melissa compreendeu aquele olhar e aquela atitude… Envergonhada, recuou e olhou para Hugo…
Frank — Ouviste o que a tua mãe disse? O que vem a ser isto?
Voltou a perguntar o pai, com um tom mais áspero e agressivo.
Hugo — Desculpem… Estava só a falar com ela!
Respondeu o rapaz, de cabeça baixa.
Cristina — Devias ter vergonha e mostrar mais respeito por nós! Imbecil… Criei eu um filho para isto!
Melissa estava espantada com a crueldade daqueles pais…
Melissa — Desculpe lá, mas ele também não estava a fazer nada de mal… Qual é o problema?
Disse a jovem em defesa de Hugo. Este ficou ainda mais stressado ao ouvi-la a falar.
Hugo — Melissa, deixa estar…
Respondeu Hugo, mas já era tarde… Os seus pais encaravam Melissa, furiosos.
Cristina — E quem é que pensas que és pra estares a meter? Reduz-te à tua insignificância e fica calada!
Melissa ficou boquiaberta e olhou para Hugo à espera que este a defendesse, mas nada aconteceu…
Frank — Nós à tua procura e tu aqui, agarrado a esta… pessoa…
Frank teve vontade de dizer “humana” em vez de “pessoa”, mas achou que talvez soasse estranho.
Hugo — Eu não estava agarrado…
O jovem continuava a tentar desculpar-se. Melissa reparou que Hugo tinha medo deles…
Cristina — Já chega! Vamos embora… Com o caos que está aí, não queremos que estejas na rua! Se fosses como nós não serias atingido!
Naquele preciso instante, Melissa sentiu o batimento do seu coração acelerar descontroladamente… “O que é que eles querem dizer com isto? Não são atingidos? Mas eles sabem o que é que se passa?”. A jovem ficou desesperadamente confusa…
Hugo — Desculpa Melissa, tenho de ir…
E sem olhar parta ela, colocou-se à frente dos pais.
Melissa — Não, espera…
E com rapidez, tentou alcançar Hugo, mas Cristina Zodiev colocou-se à frente…
Cristina — Que seja a primeira e última vez que te aviso para te afastares do meu filho… Espero ter sido clara!
Exclamou baixinho e num tom ameaçador para Melissa. Esta ficou arrepiada e não respondeu… O casal Zodiev virou-lhe costas e seguiram caminho com Hugo entre eles. Metros à frente Frank Zodiev, o pai, voltou a olhar para trás, a rir-se… Melissa teve de pestanejar para ter a certeza do que tinha visto… No momento em que olhara, os olhos de Frank estavam completamente pretos. A jovem teve vontade se sentar com o nervosismo que sentia… “Serão os pais dele demónios? O que foi isto que acabou de acontecer? Afinal, quem é Hugo?”. Melissa estava extremamente confusa e sentia-se desiludida… Hugo estava a esconder-lhe algo e isso era mau. Principalmente porque cada vez mais gostava e estava interessada nele. Não sabia o que pensar… Aquele tinha sido o maior choque do dia… E o pior, aquele não era ilusão… Era pura realidade.
Felizmente, ainda estava consciente o suficiente para saber que a situação em Cila era bem mais importante que aquilo que acabara de acontecer. Com algum esforço para não pensar no assunto, decidiu manter-se firme e esperar por Érica…
*
Ali estava uma coisa que não se assistia todos os dias… A cor do céu mudava, passava por várias tonalidades e as nuvens deslocavam-se a uma velocidade espantosa… A jovem Ísis Rocha não conhecia nenhum fenómeno natural que pudesse causar aquilo. E isso assustava-a… Talvez fosse melhor sair da rua e abrigar-se por uns minutos. Também já não faltava muito tempo para voltar a encontrar-se com Leonardo.
Ao verificar que era a melhor solução, abrigada não estaria em perigo, decidiu entrar num café que havia perto de si. Já conhecia bem o espaço, logo iria sentir-se mais à vontade… Quando abriu a porta, em vez de ir parar ao estabelecimento, foi sair numa das praias de Cila. A jovem só deu por isso quando já tinha passado a entrada… Rapidamente teve vontade de voltar pra trás, mas quando virou-se, apenas deparou-se com uma simples porta situada no meio do nada, a desaparecer por completo… O que a impediu de sair dali.
Estava frio e curiosamente, a noite tinha caído… Ou melhor, aparecido do nada. A jovem estava sozinha na maior praia da vila e desconhecia a razão de lá ter ido parar.
A única coisa que já tinha conseguido reparar era que, a realidade estava a ser alterada constantemente… Algo que pensava não ser possível de fazer. Mesmo tendo o conhecimento de todos os seres existentes e das atrocidades que alguns são capazes de cometer, Ísis continuava a ser um pouco ingénua, a ponto de ainda ficar admirada com certas coisas que aconteciam.
Um vento fresco corria à beira-mar e estava escuro, aquela era uma das praias que tinha menos iluminação e uma das mais afastadas do centro da vila. Ísis não tinha a certeza do que fazer… Se tentava ir para casa, ou se ia até à câmara municipal, como tinha combinado com Leonardo. O único problema é que a jovem, dadas as circunstâncias, nem sequer sabia ou tinha a certeza se estaria na mesma linha de tempo que ele… Se isso fosse possível. Depois de ver que a realidade estava a ser alterada, já não se espantava com nada.
Nisto, houve algo que atraiu a atenção da jovem… Um forte cheiro a incenso foi sentido no ar e Ísis olhou à sua volta pra tentar perceber de onde vinha. Ao longe, conseguir ver uma pequena luz, parecia uma fogueira… Havia mais alguém na praia e por exclusão de partes, o cheiro só podia vir de lá.
Mesmo assustada, a jovem era curiosa… Com alguma cautela, caminhou na direcção da iluminação. A praia ainda era extensa…
*
Mesmo depois de já ter assistido a quase tudo, algumas coisas continuavam a fazer-lhe impressão… Uma delas era o facto de as ruas de Cila estarem vazias, aos seus olhos. Uma vila que tem tanta vida, cor e beleza, estava gora triste, fria e vazia.
Leonardo Almeida, enquanto caminhava pelas ruas à procura da Night Watcher, era invadido por vários pensamentos… O principal era acerca do que a sua avó lhe tinha dito, antes de sair de casa. Tinha quase a certeza que o que ela dissera era mentira… E que nem sequer tinha sido com Emília que tinha falado, mas sim com alguma cópia alternativa. No entanto, agora que pensava nisso, havia algo que era realmente uma grande incógnita… De onde vinha o poder e a resistência de Melissa? Ainda ninguém tinha informações sobre a condição da amiga. Leonardo não acreditava que a jovem fosse um demónio mas já lhe tinha passado isso pela cabeça… O seu ódio por estas criaturas era tão grande e secreto que sentia receio em relação a tudo que viesse derivado deles. Claro que as suas razões também eram secretas e bastante pessoais…
Ao chegar ao final da rua onde estava, chegou à conclusão de que estava a perder tempo. Érica não estava em lado nenhum. Era hora de voltar para a câmara municipal e esperar por Ísis… A jovem tinha razão, não deviam ter seguido caminhos diferentes.
Todo este tempo, alguém tinha-o seguido sem ele dar por isso… E agora estava na altura de fazer-se aparecer perante o rapaz.
Quando ia a dar meia volta para regressar, pela primeira vez desde que estava sozinho, Leonardo viu alguém… Parecia uma rapariga e vinha a andar normalmente na sua direcção… À medida que se aproximava o jovem reconheceu quem era e sorriu com bastante ânimo.
Leonardo — Melissa!
Exclamou o jovem, alegre. Era a sua amiga que aí vinha… Esta não sorriu e parou poucos metros à frente do jovem. Algo estava diferente nela e quando Leonardo reparou o que era, todo o nervosismo e ansiedade regressaram. Melissa tinha os olhos negros, sem vida… Como um demónio.
Leonardo apenas pensou uma coisa… “Será mesmo a Melissa?”.
*
Era impossível não estar triste nem desiludida com que tinha acabado de acontecer… O facto de estar ali parada, sem fazer nada, à espera da Night Watcher também não ajudava. “Talvez o casal Zodiev não sejam demónios…” Pensava a jovem. Mas a verdade era que, algo não estava certo com aquela família… A maneira como eles tratavam Hugo era, simplesmente, horrível. A única coisa que não compreendia era o porquê de Hugo lhe ter mentido, qual seria a razão para esconder algo assim… Não havia explicação… Sabia que aquilo dava muito que pensar e ainda não tinha ouvido a versão do rapaz, nem tinha a certeza se queria. Claramente confiou a sua vida a Hugo, mas este não fez o mesmo com ela. Sentia-se como se não o conhecesse… Estava desapontada com ele, Melissa detestava mentiras.
Tentou manter a calma e ficar sossegada… Mas estava chateada. Não conseguia evitar. O som das pessoas aos gritos ainda piorava mais o seu estado… Tinha de sair dali, não aguentava mais…
Quando saiu detrás do carro, não tinha a certeza para onde ia, mas não estava preocupada… Encontraria o seu caminho.
Farta de tudo aquilo, preparou-se para avançar mas foi subitamente surpreendida… Um grupo de pessoas começava a aproximar-se e rapidamente formaram um círculo à volta da jovem. Esta parou… Com atenção, observava aquele comportamento pouco usual. Perguntava a si mesma o que queriam aqueles indivíduos mas não precisou de uma resposta audível para perceber… Ao mesmo tempo, os olhos de todos mudaram e ficaram totalmente pretos. Pareciam demónios…
Melissa respirou fundo, ansiosa. Mesmo que aquilo fosse uma ilusão, estava metida em grandes problemas…
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