Night Watchers - Primeira Temporada
4 Destinos Traçados (Vol. 1) - Capítulo 3
O dia estava lindo, o céu azul sem uma única nuvem e um calor tão abrasador que fazia os habitantes de Cila terem vontade de largarem as suas responsabilidades e dirigirem-se a uma das praias ara usufruir de uns bons momentos. Como tal, não era de todo possível para alguns largarem as suas tarefas para desfrutarem momentos de lazer, principalmente se isso interferisse com a segurança dos cidadãos. Então, com as janelas de casa abertas, Érica Rodrigues decidiu que podia perfeitamente aproveitar aquele dia maravilhoso sem ter de sair de casa. Enquanto esperava por Melissa e Ísis, tentava arrumar a mesa da sua sala de estar que se encontrava apilhada de livros e relatos de todo o tipo de situações paranormais. Ao agarrar num dos livros algo lhe chamou à atenção… Um pequeno envelope caiu de dentro deste e Érica apanha-o e lê o que dizia na parte de fora: “Ordem Secreta NW”. Rapidamente se lembrou da sua infância, quando o seu pai contou-lhe pela 1ª vez que, quando crescesse, iria fazer parte de algo grande e muito bom como ele e a mãe faziam e já antes deles os avós também. E assim foi… Érica tinha muito orgulho em ser uma Night Watcher e pertencer àquela Ordem Secreta que visava eliminar o mal da face da terra. Os Night Watchers eram um grupo de indivíduos, devidamente treinados, enviados para
várias Vilas diferentes onde se registam acidentes sobrenaturais para deste modo, tentarem aniquilar a causa desses mesmos acidentes. Vilas que, por norma, têm algum nome mítico como é o caso de Cila e tantas outras… A lenda conta que, em tempos remotos antecedentes ao ser humano, todos os seres sobrenaturais e míticos andavam pela terra num género de harmonia ou equilíbrio, uns entre os outros. O bem e o mal habitavam o mesmo espaço sem se atacarem… Inevitavelmente, o facto de habitarem juntos levou a que se relacionassem e foi aí que a raça
humana passou a existir… Uma outra espécie, uma nova, que era o misto das duas polaridades. A vertente do bem aceitou a nova raça, mas do outro lado rejeitaram e abominaram a espécie que nem era uma coisa nem outra. Rapidamente se revoltaram uns contra os outros e entraram numa batalha que durou séculos. Deixaram a raça humana de parte enquanto esta evoluía e crescia em número e com o passar do tempo esta já os tinha ultrapassado e dominava o planeta. Os do lado do bem a pouco foram ficando reduzidos e hoje poucos descendentes existem e o paradeiro deles é desconhecido. Os do mal, muitos foram banidos, mas também muitos ficaram até aos dias de hoje e alguns podem voltar... Hoje, a batalha entre os dois lados continua, mas desta vez são os próprios humanos que lutam contra estas forças, mais concretamente, os Night Watchers. Nunca na sua vida, Érica se arrependera de ser uma Night Watcher e com 42 anos, ali se encontrava ela sempre muito simples, com umas calças de ganga e uma camisa preta, com os seus cabelos castanhos amarrados e da mesma cor que os seus olhos, rodeada de
livros e à espera de duas adolescentes que sabiam o seu segredo e que começaram recentemente a ajudá-la no seu trabalho. Na verdade, nunca esteve sozinha, quando tinha 28 anos salvou um rapaz que estava a ser perseguido por um lobisomem e desde então ficaram amigos. Os anos passaram e ele sempre a acompanhou e suportou em tudo e ela gostava de o ter por perto pois o trabalho que exercia era muito solitário. Eventualmente apaixonaram-se um pelo outro e ao final de 3 anos de se terem conhecido, casaram-se. Com o avanço do tempo, Rodrigo Rodrigues veio a descobrir que cada vez menos gostava do trabalho que a sua mulher realizava, muitas vezes pelo simples facto de ela se encontrar em perigo quando ia investigar e tentar parar todo o tipo de casos bizarros. Mesmo assim e com muita vontade, nunca lhe pediu para o largar pois sabia que este é muito importante para ela e que fazia parte
de quem ela era. Érica sabia como ele se sentia mas não podia fazer nada em relação a isso a não ser dar-lhe algum conforto… Ela não podia deixar a Ordem, pois além de não querer, seria um desrespeito ao nome da família que já pertencia à mesma há algumas gerações. Todos estes pensamentos desapareceram-lhe da mente quando alguém bateu à porta duas vezes com uma força exagerada fazendo com que um dos quadros da sua sala de estar caísse ao chão com o impacto do som.
Melissa — Somos nós!
Érica — Está aberta!
Melissa e Ísis entram na casa de Érica, já acompanhadas por Leonardo que as tinha encontrado a meio caminho.
Ísis — Desculpa o barulho, a Melissa não mediu a força.
Érica — Eu ouvi! Acho que à terceira ela tinha arrebentado a porta!
Melissa — Hey! Ainda estou a treinar nisto. Não sabem como é difícil!
Leonardo — Difícil? Ter super-força?
Melissa — Não, comandá-la! Seria mais fácil se soubéssemos algo acerca disto!
E olha para Érica com um ar acusador…
Érica — Tenho trabalhado nisso! Mas como já te disse não vai ser fácil… Não há registo de ninguém a quem tivesse ocorrido o mesmo. O Rodrigo pôs a hipótese de ser algo novo sem antecedentes, mas de alguma maneira há algo que continua a parecer familiar em relação à tua condição… Só não sei ainda o quê!
Melissa — Há meses que dizes isso! Eu sei que não é culpa tua, mas é frustrante não saber o que se passa comigo. E se me tiver a tornar nalgum monstro como aqueles que temos visto por aqui?
Érica — Tenho a certeza que não… Possivelmente tem a ver com esta Vila, já que estes dons só se manifestaram quando te mudaste para cá!
Ísis — Sim e além disso acho que estamos mesmo a fazer tudo o que pudemos…
Ísis olhou compreensivamente para a amiga e esta percebeu que ela a entendia.
Melissa — Eu sei… Apenas ando impaciente por estarmos completamente às escuras. Se calhar até preciso mesmo de um trabalho para distrair-me!
Leonardo baixou-se para apanhar o quadro que estava no chão. Ao pegar nele, observou o retracto de Érica e Rodrigo que este continha e voltou a coloca-lo no devido local.
Leonardo — Falando em trabalho, como é que está a correr o do Rodrigo?
Érica — Ele sempre quis algo relacionado com marketing e publicidade, portanto está no sítio certo. Esta nova empresa parece funcionar muito bem!
Melissa — Ele está a trabalhar na nova empresa?
Érica — Sim!
Melissa — Então por esta altura já deve ter conhecido a minha madrasta…
Érica — Ele já me tinha contado que tinha conhecido a Sra. Monserrate, mas não estávamos todos aqui para debater outro assunto?
Érica chama todos à razão e estes rapidamente se sentaram nas cadeiras espalhadas à volta da mesa e ficaram atentos enquanto ela puxava o jornal que tinha em cima de um pequeno sofá que havia na sala.
Leonardo — Outro ataque não foi?
Érica — Outro assassinato! Muito semelhante aos últimos dois!
Érica passa o jornal a Melissa e num segundo Ísis e Leonardo, um de cada lado, chegam-se para perto da mesma para também poderem ler a notícia.
Leonardo — Então o corpo apareceu outra vez com partes devoradas e as sobras completamente podres?
Érica olhou admirada para Leonardo… Ele não tinha problemas em expor as coisas pelo nome delas. Se tudo tem um nome, este acreditava que os devíamos usar. Isto não fazia Leonardo Almeida uma pessoa arrogante ou mal-educada, apenas mostrava o quanto realista, honesto e resistente ele era. Tal como Melissa e Ísis, também ele tinha passado por uns maus momentos estes últimos tempos… O facto de descobrirem que tudo o que eles pensavam serem mitos e lendas, na verdade, serem histórias verídicas e reais, afectou-lhes a vida de todas as maneiras possíveis. Leonardo ainda se lembrava muito bem do 1º dia em que ele, Melissa e Ísis tinham feito tal descoberta. Tinham sido poucos dias depois de Melissa ter chegado e ainda não tinham criado laços muito fortes, numa noite em que tinham saído os três para irem ao cinema. No regresso a casa, foram intersectados por uma criatura selvagem, um Wendigo e quase tinham morrido naquele ataque se não fosse Érica. Esta já andava atrás do monstro há alguns dias e finalmente naquela noite conseguiu eliminá-lo e salvar os três adolescentes. No entanto, ela e Rodrigo tiveram de acalmar os jovens e tentar explicar-lhes tudo de maneira a que eles
pudessem facilmente compreender sem enlouquecerem de vez. Érica sempre achou que Leonardo foi o que aceitou melhor esta descoberta. Talvez por este ter uma educação diferente das amigas... Depois de os seus pais terem falecido num acidente de carro, quando apenas tinha 7 anos, Leonardo foi enviado para o parente mais próximo, uma avó que morava em Cila. Até hoje, foi educado pela mesma, a qual o fez muito bem. Leonardo é extremamente responsável e um companheiro leal para se ter por perto.
Érica — Sim, tem um perfil muito idêntico aos últimos dois assassinatos.
Melissa — Então podemos presumir que anda aí algo novo?
Érica — Tenho quase a certeza que sim! Estas mortes ocorreram três noites seguidas!
Melissa — Achas que esta noite atacará de novo?
Érica — Possivelmente…
Leonardo — Lobisomens?
Érica — Não! Já tinha pensado nisso, mas além de não ser lua cheia, os Lobisomens não têm como deixar os restos no estado de putrefacção em que têm sido achados. Tenho feito algumas pesquisas e penso que esteja lá quase a chegar, preciso de mais tempo…
Érica ao dizer isto, repara que Ísis ainda estava a olhar para o jornal com uma expressão triste… Melissa, preocupada, coloca a mão no braço da amiga.
Melissa — Está tudo bem?
Ísis — Era o Sr. Ferreira… Esta coisa matou o Sr. Ferreira…
Melissa não sabia quem era o Sr. Ferreira e quando olhou para Érica, percebeu que esta também não fazia a menor ideia de quem era aquele senhor.
Leonardo — A sério? Acho que me lembro dele… Era aquele que andava sempre bêbado?
Leonardo parecia descontraído e Melissa finalmente compreendera… Era um habitante de longa data lá da Vila. Ísis conhecia quase todos, portanto, era normal ficar em baixo sempre que acontecesse um ataque brutal como este.
Ísis — Sim, era… Pobre homem!
Érica criou uma forte afeição por aqueles jovens que eram bem diferentes dos restantes adolescentes e não suportava vê-los sofrer. Desde que se conheceram, estiveram sempre dispostos a ajudá-la mesmo sem ela alguma vez o ter pedido e por vezes, mostravam-se bem úteis naquilo que faziam. Melissa tornara-se muito forte e resistente, mais do que algum outro jovem que alguma vez conhecera, Ísis era entendida em misticismo o que proporciona uma ajuda vital em situações repentinas, Leonardo era o corajoso, o educado, o que chama todos à razão quando já não há esperança. Érica era muito agradecida por tudo o que eles faziam, mas não gostava de os ver em perigo e se pudesse, fazia tudo para o evitar.
Érica — Ísis, prometo que farei tudo ao meu alcance para apanhar o responsável por estes crimes hediondos!
Melissa — Queremos ajudar! O que é que podemos fazer?
Érica — Prefiro que não se envolvam mais, por favor! Está visto que este atacante é altamente perigoso e não quero que arrisquem!
Leonardo — Tarde demais…
Érica — Estou a falar a sério! Não quero ser responsável por alguma coisa que vos aconteça!
Melissa — Acho que conseguimos tomar conta de nós próprios! Ao menos esta força serve para alguma coisa!
Ísis — E eu quero encontrar o monstro que fez isto!
Leonardo — Então hoje pareceque temos a noite feita!
Érica também aprendera uma coisa… Independentemente daquilo que ela deseja, os 3 jovens só fazem o que querem e agem sempre por conta própria, nunca houve nada que ela pudesse fazer e desta vez seria igual como sempre…
Érica — Que teimosos…
E de repente, sem ninguém estar a contar, a porta de entrada de casa de Érica é aberta e apanham todos um susto. À porta, encontrava-se a mesma jovem que há pouco tinha saído de uma papelaria e ajudado uma senhora a levantar-se do chão depois de esta ter sido empurrada.
Camila – Estava tão esperançosa que aqui estivessem… Vocês nem sabem o que me aconteceu!
Leonardo — Normal, ainda não nos contaste!
Érica — Estás familiarizada com a expressão “propriedade privada”?
Ísis — Ou “bater à porta antes de entrar”?
Camila — Depois de ouvirem vão dar-me razão!
Camila entra na sala e fecha a porta. Parecia agitada, pelo menos mais do que o costume… E Melissa reparou.
Melissa — Porque é que estás tão agitada?
Camila — Tive de ir à papelaria do Sr. António, sabem, aquela que faz esquina com a avenida principal… Tinham-me dito que a Lindsey Lohan já não estava em reabilitação e que ela tinha dado uma entrevista para a revista acerca do assunto! O Sr. António tem todo o tipo de revistas e …
Leonardo era muito educado mas não tinha muita paciência para Camila e as suas histórias desinteressantes, então, interrompeu-a abruptamente…
Leonardo — E onde é que queres chegar?
Camila fez uma pausa e decidiu desprezar o comportamento de Leonardo.
Camila — Seguindo… Quando estava a sair da loja vi um homem a chocar contra uma velhinha e atirou-a ao chão! Conseguem acreditar nisto?
Ísis — É só isso?
Camila — Não, ainda não acabei! Parem de me interromper! Nisto, fui ajudar a senhora a levantar-se e perguntei ao homem quem é que ele pensava que era! E foi aí que apanhei o maior susto da minha vida… Ele parou, não me respondeu e apenas me encarou com aqueles horríveis olhos de gato ou cobra, não sei bem…
Melissa — O homem tinha olhos de serpente?
Camila, ainda espantada, acenou que sim!
Érica — Tens a certeza?
Camila — Eu sei o que vejo!
Quando queria e sentia que tinha razão, Camila Duarte era insistente. Nada nem ninguém passava por cima dela. Tal como Ísis, Camila sempre vivera em Cila. Levou sempre uma vida de qualidade e tudo o que quer ela tem, graças ao seu pai que possui dinheiro suficiente para a família toda e também para as gerações futuras. Claro que ter tanto dinheiro é fácil quando se é proprietário de uma vasta e bem-sucedida zona industrial. Sempre que tinha hipótese gabava-se destas coisas pois se a vida lhe tinha dado estas prendas, não havia outro remédio senão
afirmá-las e mostrar aos outros quem ela era. Muitas vezes nem conseguia reparar nas coisas que diz e geralmente ofende os que se encontram à volta dela. Camila já conhecia Ísis e Leonardo e a sua relação com estes nunca foi muito boa, essencialmente porque ela achava que não pertencia ao mesmo mundo que eles. Durante as férias, encontrava-se algumas vezes com eles pois eram poucos os jovens que lá ficavam nessa altura e as opções de amizade de Camila tornavam-se apertadas, então por vezes, preferia andar com eles do que estar completamente sozinha. Finalmente, desde que conheceu Melissa e Érica, a sua vida ficou transformada. As coisas horríveis a que teve acesso e conhecimento tornaram-na ainda mais arrogante do que era antes e agora, passa a vida um pouco assustada e sempre atenta ao que se passa à volta dela. Camila descobriu que afinal de contas Cila, a vila adorada onde mora e tem uma vida espectacular, é na verdade uma zona que de noite desperta todo o tipo de abominações e perigos que se possam imaginar e depois do que vira há alguns minutos atrás, começou a achar que se calhar de dia esta vila também não era assim tão segura. Ela
podia agir como uma rapariga pouco inteligente e que apenas dá atenção ao que é fútil e desnecessário, no entanto, não era burra nenhuma.
Camila sabia que às vezes exagerava e que ultimamente, a sua tendência pra falar do que era “menos importante”, tinha aumentado e ela perguntava a si mesma se não seria um género de refúgio derivado aos acontecimentos que se deram. Muitas vezes ela pensava que se calhar seria melhor se nunca tivesse tido conhecimento do que se passava na vila, pelo menos agora não sentia que poderia estar a começar a enlouquecer como aqueles que se encontravam na sala naquele preciso
momento. Camila não conseguia ter a mesma coragem que aqueles 4 indivíduos que se encontravam frente a ela, muito menos gostava de se arriscar nas aventuras que eles se metiam e além disso, se Érica era responsável por tratar destes assuntos, não havia necessidade de mais ninguém se envolver. Ela sabia que esta era uma atitude um pouco fria e egoísta, mas era a pura verdade. No fundo, até se achava uma boa pessoa e cidadã… Afinal de contas, acabara de ajudar uma senhora idosa, certo?
Melissa — Ele veio atrás de ti?
Camila — Não. Apenas olhou para mim, riu-se e seguiu o seu caminho…
Ísis — Será que era aquele perigoso metamorfo? Carlota, não era?
Camila — Foi o que pensei! Olhou para mim como se me conhecesse!
Leonardo — O que faria ela ali?
Camila — Se calhar estava atrás de mim! Estou segura?
Todos olharam para Camila quando ela falou, não havia razão para ela ser perseguida, mas mais uma vez, pensava que era o centro das atenções.
Melissa — Desculpa tirar-te a fama, mas acho ela estava atras de mim e da Ísis. É possível que tenha ouvido a nossa conversa no café!
Érica — Temos de ter cuidado. Ela pode estar em qualquer sítio e nós não sabemos! Abbadon deve querer saber o que se passa contigo e mandou-a seguir-te!
Abbadon chegara a Cila praticamente na mesma altura que Melissa e numa noite, todos ficaram a conhecer este temível ser e a sua equipa. Sabiam que Abaddon tinha ficado preso àquele corpo juntamente com a sua proprietária. Era óbvio que este teve de se esconder pois, além de ter receio de Érica e da Ordem Secreta dos NW, não estava na sua melhor condição física. Desde então, Érica e os 3 jovens têm tentado descobrir mais acerca do demónio e dos seus planos maquiavélicos. Até agora, o sucesso foi pouco e ainda nem sequer descobriram onde o mesmo se
encontra escondido. Depois do confronto que tiveram, chegaram à conclusão que seria melhor manter uma boa distância deste ser e agir devagar e de maneira calma uma vez que o demónio tinha dois poderosos aliados com ele, uma metamorfo extremamente perigosa e um outro ser ou criatura que nada sabiam acerca mas que era bastante assustadora e fatal. Apenas tinham conhecimento que possuía uma máscara tribal que lhe ocultava a cara.
Leonardo — Então isso quer dizer que estaremos sempre em desvantagem!
Érica — Um pouco! Com um metamorfo temos de usar a nossa inteligência mais do que nunca…
Melissa — Há alguma maneira de a conseguirmos identificar sem que ele perceba? Ísis?
Ísis — Talvez um feitiço para desmascarar quem realmente uma pessoa é… Mas não sei se traria o que nós desejamos. Nunca sabemos em concreto onde é que ela está e quando é que ela nos está a espiar…
Érica — Acho que não é a nossa melhor opção. Eu já devia ter eliminado essa metamorfo, mas ela é tão esquiva…
Ísis — Então o que vamos fazer?
Érica — Por agora não temos outro remédio senão esperar… Enquanto não soubermos nada que seja útil para Abaddon, o metamorfo também não atacará. Muito menos em plena luz do dia, com pessoas a assistir!
Melissa — E ainda temos algo aí à solta… Disseste que estavas em pesquisa. Achas que pela noite já teremos algumas respostas de quem será este novo assassino?
Érica — Espero que esta noite já consiga inclusive aniquilá-lo!
Camila — O que é foi agora? Outra monstruosidade?
Érica — Sim… E já três infelizes pessoas perderam a vida…
Ísis — Um deles foi Sr. Ferreira!
Camila — O bêbedo? Não admira…
Ao dizer isto, Camila percebeu o quanto soou mal. Nem sempre era esta a intenção dela, mas não conseguia fazer nada para o evitar pois falava sempre o que lhe vinha à mente.
Ísis — Sim, mas não merecia este destino… Como podes dizer isso?
Camila — Eu só estava a tentar dizer que deve ter sido complicado para fugir… Ele estava constantemente embriagado!
Melissa volta a olhar para o jornal…
Melissa — Talvez ele nem tenha tido hipótese…
Érica — É tarde para pensarmos como terá sido… Devemos focar as nossas atenções para hoje à noite!
Leonardo — Onde nos encontramos? Aqui?
Érica — Pode ser! Vamos ter uma noite longa. Têm a certeza que querem vir?
Melissa — Porque é que nos perguntas sempre isso? Claro que queremos, gostamos de ajudar e além disso podemos ser úteis! Camila, queres vir?
Camila — São loucos? Já me chega saber o que sei!
Leonardo — Ok, se precisarmos de alguém com capacidade para ofender o assassino, chamamos-te!
Camila — Basta olhar para a tua cara e ele ficará ofendido!
Por momentos, todos presenciaram a raiva nos olhos castanhos de Leonardo. Camila realmente tinha também um dom: a capacidade de ferir os outros com palavras… Um dom muito forte.
Leonardo — Sabes o que é que eu acho de ti?
Rapidamente, todos perceberam que estava uma discussão prestes a explodir e Melissa foi mais inteligente e deu fim à conversa.
Melissa — Comportem-se pá! Pessoas estão a morrer e nós temos trabalho a fazer!
Érica — E não quero este tipo de comportamento aqui. Isto não é a escola, é uma zona de trabalho sério.
Leonardo — Desculpem a minha atitude… Não sou de ferro!
Camila — Eu não peço desculpa, ainda vos fiz um favor em contar o que vi!
Como já era de esperar, Camila não deu o braço a torcer e todos os que ali estavam sabiam que era escusado esperarem por tal acto. Mais uma vez, decidiram desprezá-la.
Ísis — Então fica combinado vir aqui ter. Érica, precisas que traga alguma coisa? Um amuleto de protecção ou algo do género?
Érica — É melhor não, pelo menos até termos a certeza do que se passa!
Melissa olhou para o relógio que trazia ao pulso e levantou-se…
Melissa — Opsss! Então fica combinado. O ponto de encontro é aqui.
Ísis — Vais já embora?
Melissa — Tem de ser. Tenho de reportar a minha aventura por Cila à minha madrasta!
Camila — Ainda continuas a partir a casa toda?
Pergunta Camila em gozo. Melissa não ligou e pouco se importava.
Melissa — Antes fosse… Vejo-vos à noite!
Melissa pega na sua mala e sai apressadamente.
Érica — O que é que ela queria dizer com “reportar a sua aventura por Cila”?
Ísis — Ela está à procura de um emprego. As coisas não estão fáceis…
Érica — Não sabia… Ela precisa de ajuda?
Leonardo — O problema não é ela precisar… É aceitar!
Camila — Tenho a solução ideal para ela!
Todos olharam para Camila surpresos mas esperançosos… Esta raramente oferecia ajuda a algum deles e agora parecia realmente ter uma solução para resolver o problema de Melissa em arranjar um trabalho.
Camila – Ela podia ser minha assistente pessoal... Ou algo parecido! Preciso mesmo de alguém que me organize a agenda
e eu podia-lhe pagar bem!
E nesse mesmo instante, voltaram todos a perder a credibilidade em Camila…
*
No caminho até casa, Melissa pensou muito bem nas palavras que escolhera para que quando chegasse, fosse capaz de ter uma conversa civilizada com a sua madrasta. Agora que já se encontrava à porta, pensava na sua vida desde que aquela mulher entrara na dela e na do seu pai. Nunca conhecera a sua mãe porque esta morreu quando a deu à luz, o que por vezes a colocava em baixo… Talvez tudo fosse diferente se a sua mãe estivesse viva. Mas Melissa não se podia agarrar a ilusões, nem era uma rapariga que o costumasse fazer. Até aos 20 anos de idade, tivera uma vida relativamente boa, apenas ela e o seu pai. Criaram laços muito fortes pois este dedicara toda a sua vida à filha e ela sempre reconheceu este acto. Portanto, Melissa nem se podia queixar… Pelo menos até recentemente, mais especificamente, dois anos. Ela sempre imaginou que o seu pai, mais tarde ou mais cedo, fosse arranjar uma
companhia. E sempre achou que devia, estava na altura de se dedicar um pouco a ele e além disso Melissa já crescera, não precisava que olhasse tanto por ela. Claro que como pai, Vasco Monserrate, nunca deixará de cuidar da filha, apenas lhe dará liberdade, pois estará sempre presente quando ela precisar. Então, quando arranjou uma namorada, Melissa ficara muito contente por ele. No entanto, quando a conheceu, o cenário foi outro. Aquela mulher, além de ser bem diferente do seu pai, era rígida, uma pessoa séria e por vezes um pouco fria. Mas o seu pai estava apaixonado por ela e no fundo, a decisão era só dele. Então, em poucos meses, casaram-se e ela foi viver com eles. Melissa não gostava de ordens e desde que Clara Monserrate se mudara para a mesma casa em que ela habitava, as coisas haviam mudado. Clara está sempre a pedir a Melissa para realizar tarefas e cumprir deveres. E o pior, Vasco concorda sempre, pois pensa que a mulher faz estas coisas pelo bem da enteada, neste caso, sua filha. Melissa pensa o contrário… Sempre achou que aquela mulher mesquinha só lhe pedia tais favores para a irritar e ver se esta saía de casa. Três fazem mais despesas do que dois. O seu pai está tão apaixonado por Clara que mudou de emprego e de casa só por esta ter recebido uma nova proposta de trabalho em Cila que lhes daria mais dinheiro. Como estavam em crise financeira, nem pensaram duas vezes. Agora, como se não bastasse, já se tinham mudado mas a situação ainda estava preta, daí Clara pedir a Melissa para arranjar um trabalho…
Melissa abana a cabeça para estes pensamentos rapidamente se perderem e respira fundo… Coloca as chaves na fechadura, abre a porta de casa e entra.
A sua casa era pequena, possuía um hall de entrada, uma porta que dava a outra divisão, correspondente à sala de estar que até era espaçosa, uma segunda porta que conduzia a um corredor que dava a
outras 3 divisões, uma casa de banho e dois quartos e uma última porta onde se encontrava a cozinha. Ao entrar Melissa atira a mala para cima de uma das cadeiras que se encontrava no hall de entrada e dirige-se à sala onde já se encontrava a sua madrasta, sentada num dos pequenos sofás que o espaço possuía, a ler o jornal…
Melissa — Oi Clara! O meu pai está por cá?
Clara - Não Melissa! Está a trabalhar.
Responde Clara Monserrate sem tirar os olhos do jornal e Melissa por segundos pensou que talvez esta se tivera esquecido que lhe tinha pedido para encontrar em emprego.
Clara — Não devias estar a fazer o mesmo? Calculo que já tenhas arranjado um!
E finalmente retira os olhos do jornal e olha para Melissa por cima dos óculos que estava a usar para ler. Como era óbvio, não se tinha esquecido.
Melissa — Ainda estou à procura… Pode ser que entretanto me liguem de algum dos sítios onde já fui!
Clara — É normal que não tenhas conseguido, principalmente se continuares com essa vontade… Procuras-te algo dentro da tua área?
Clara coloca o jornal de lado sem olhar para a enteada. Melissa sabia que a sua madrasta não tinha credibilidade nenhuma nela, portanto nem ligou à provocação da mesma.
Melissa — Não, pra quê? Pra ser assistente de psicólogo? Obrigado, mas dispenso!
Clara — Na posição em que estamos acho incrível dares-te ao luxo de escolher!
Melissa — Na posição em que estamos? Não foi opção minha procurar um emprego!
No entanto, Melissa nem sempre conseguia resistir em ficar calada e tinha de ripostar…
Clara — Tudo o que estou a fazer é para teu bem! Precisas de crescer e evoluir!
Melissa — O que te faz pensar que ainda não cresci? Eu estou a fazer o que posso! Eu nem vos peço dinheiro!
Clara — Quem está a pagar os teus estudos?
Melissa — O meu pai!
Clara — O teu pai viveu sempre para ti! Não achas que está mais que na altura de fazeres algo por ti?
Melissa — Eu faço algo por mim! Não me conheces! E de qualquer dos modos ele nunca aceitaria que eu pagasse os meus próprios estudos!
Clara — Eu sei, ele é teimoso demais para voltar atrás com algo que já tenha prometido… Fazes algo por ti, eu gostava de saber o quê… A sair à noite todos os dias, até a altas horas da noite e sabe lá Deus a fazer o quê! Ouviste que houve outra morte?
Melissa fervia em raiva mas teve a capacidade de se lembrar que tinha de ter muito cuidado e não tocar em nada, da maneira que estava certamente não se controlaria e com facilidade poderia partir algo o que não a ia favorecer frente à madrasta.
Melissa — Sim, ouvi dizer…
Clara — E mesmo assim vais sair esta noite?
Melissa — Vou. Eu e a Ísis temos uma festa da faculdade!
Clara — Festas… Talvez o teu pai consiga colocar-te algum juízo na cabeça!
Melissa — Logo veremos! Vou para o meu quarto!
Melissa vira costas e sai da sala. Era impossível manter uma conversa muito longa com aquela mulher. Quando chegou ao quarto atirou-se para cima da cama e ficou a contemplar as suas paredes brancas e vazias. O seu quarto era muito simples, apenas com uma cama, uma mesa-de-cabeceira e um armário. E foi aí que ela chegou a uma conclusão… Ela não precisa de grandes coisas para viver, pouco precisa de dinheiro. Podia levar uma vida bem simples e saudável… Não tinha de
se preocupar em agradar a sua madrasta, afinal de contas, ela não lhe era nada. E com um longo suspiro, Melissa conseguiu sorrir.
*
Érica ainda se encontrava sentada na mesma cadeira desde que os jovens saíram para irem às suas casas. O sol já se estava a pôr e Érica passara a tarde toda a analisar livros da Ordem para ver se encontrava algo que explicasse aquelas mortes. A pesquisa não estava a ser fácil e ela receava que até à noite, talvez não conseguisse ter uma conclusão
definitiva… No momento em que se levantou para ir buscar um copo de água, a porta de casa abriu-se e Rodrigo, o seu marido, entrou…
Rodrigo — Cheguei!
Érica — Estou na cozinha!
Com um grande sorriso, Érica vem à sala e Rodrigo já estava a desapertar a gravata para se pôr à vontade. Como todos os dias, vinha de fato e gravata e com o seu cabelo escuro devidamente penteado. O trabalho exigia-o e ele até gostava de andar assim vestido. Finalmente aos 40 anos, Rodrigo Rodrigues estava a fazer algo que realmente gostava, trabalhar em marketing e publicidade. Toda a sua vida teve vários trabalhos e nunca os apreciou muito. Facilmente os conseguia arranjar pelo seu ar jovial, o qual não acusava a idade que realmente tinha. Os
seus traços ainda não foram marcados pela idade e os seus olhos verdes
favoreciam-lhe bastante.
Érica aproximou-se e deu-lhe um beijo de boas vindas e este sorriu.
Érica — Como foi o dia?
Rodrigo — Agitado… Tive quase a tarde toda em reuniões!
Érica — Tu adoras… Admite!
Rodrigo — Cada minuto!
Érica conhecia muito bem o seu companheiro e ambos riram-se face às afirmações.
Rodrigo — E o teu? O que fizeste? Esteve um dia espectacular!
Érica — Andei a pesquisar umas coisas… A tarde toda!
Rodrigo aproximou-se da mesa e olhou para a confusão de livros… No topo, encontrava-se o jornal na página do assassinato…
Rodrigo — Mais um? Já é o terceiro…
Érica — Sim… A Melissa e os amigos estiveram cá hoje. Definitivamente anda aí algo novo a cometer estes crimes!
Rodrigo — Já descobriram o quê?
Érica — Tenho algumas suspeitas, mas só terei mesmo a certeza quando dermos de caras com a abominação.
Rodrigo — Vais procurar esta noite?
Érica — Tem de ser. Não posso permitir que haja mais mortes… E ambos sabemos que a polícia nada conseguirá.
Como qualquer outra vila, Cila tinha polícia, mas face a estes perigos nada podia fazer… E na verdade, até aos dias de hoje, Érica sempre se certificou de achar as abominações primeiro que os próprios… Mesmo assim, sempre ficou curiosa acerca do que explicariam eles se alguma vez acontecesse o contrário.
Rodrigo — Eu vou contigo! Este ser parece muito perigoso!
Érica — Não podes… Precisas de descansar, entras sempre muito cedo. Além disso, eles vão comigo! E só a Melissa vale por dois! Ou mais…
Rodrigo — Eles são muito corajosos. Fico contente que eles te ajudem!
Érica — Eu nem tanto… O facto de terem a vida em risco dá cabo de mim.
Rodrigo — Tens de entender que o caminho deles trouxe-os até aqui! Não foi por acaso. Eles só querem ajudar…
Rodrigo aproxima-se de Érica e coloca os braços em volta da cintura dela para a confortar.
Érica — Talvez tenhas razão. Se calhar é suposto ser assim! E eles até são muito prestáveis. Excepto a Camila.
Rodrigo – É filha de rico, não podemos esperar muito…
Ambos riram-se e Érica mete os braços apoiados nos ombros de Rodrigo.
Rodrigo – Estavas a dizer que ias sair à noite… Ainda te vejo hoje?
Érica – Devo chegar tarde… Acho que não!
Rodrigo – Então porque não aproveitamos o tempo que temos agora?
Érica ri-se, começa a beijar Rodrigo e devagar, ambos deixam-se cair para o sofá…
Fale com o autor