Night Visions
6 Working Man
Notas iniciais

Uma semana se passou. Sam voltou a estudar para o seu mestrado em física. Ela disse que eu a influenciei a isso. Não sei se era verdade ou era uma forma de ela me fazer sentir importante, mas preferi acreditar. Viver com Samantha no fundo se tratava de crer. Crer que o que ela me contava era verdade, crer em quem eu fui um dia, crer que tudo aquilo era real e não apenas uma ilusão. Confesso que eu acordei com medo algumas vezes durante a noite. Tinha medo de que tudo fosse um sonho e que eu acordaria na beira do rio. Felizmente nunca aconteceu.
Durante a semana nós visitamos alguns pontos seguros da cidade. Eu e Samantha chamamos de “Pontos Seguros” lugares em que não iríamos atrair jornalistas ou pessoas que lembrassem do meu desaparecimento. Só visitamos amigos mais íntimos, pelo menos os que para Samantha eram íntimos. Eu não fazia ideia de quem eram. Também decidimos resolver tudo em cidades próximas para não encontrar conhecidos.
Havia uma moça baixa, loira e gordinha, muito simpática também. Samantha e eu a visitamos para comprar vegetais, não me lembro de seu nome, mesmo que Samantha tenha repetido incessantemente durante o caminho. Pedi que Samantha só preparasse isso. Ela me perguntou a respeito, mas pedi que aceitasse. Ela prontamente atendeu e acredito que isso me aproximava dela. Sam atendia o que eu pedia, não me pressionava a contar sobre meu passado e isso me fazia sentir seguro ao seu lado.
Sempre que Samantha saía para suas aulas ou trabalho eu ficava em casa. Tentei pegar um livro para ler. Samantha me indicou “O Pequeno Príncipe”, disse que seria fácil, mas nenhum daqueles símbolos fazia sentido. Era isso, nem mesmo lembrava como ler um livro. Me irritei após alguns minutos de esforço. Joguei o livro para o lado e fiquei pensando no que poderia fazer para me distrair. Combinamos que eu não sairia sozinho, não apenas por medo dos olhares, mas eu só pensava que poderia me perder e entrar em colapso.
Colapso.
Isso não acontecia já tinha algum tempo... Fazia tempo que a energia dentro de mim não se comunicava. A última vez que senti o calor fora no jantar com Sam, mas desde então nem mesmo isso. Por mais que eu quisesse ser alguém normal era impossível me desapegar dela. Não faz sentido para alguém que já voou se contentar em viver no chão. Eu precisava fazer aquilo funcionar novamente, achei então o que fazer durante o dia.
Logo depois olhei à minha volta. Estava na pequena sala do loft e para onde olhasse só via o pouco espaço que existia ali. Precisava sair. Andei de um lado para o outro. Minha cabeça me dizia para permanecer no apartamento, mas meu coração me dizia que eu deveria sair e tentar invocar meus poderes.
Para lá.
Para cá.
Minha mente continuava turva.
Quando me dou por mim estou do lado de fora do apartamento de frente para a escada de acesso à porta da rua. Era agora ou nunca. Desço as escadas confiante, abro a porta e piso na calçada. Uma mistura de desconforto e vida brota no meu peito. Estava com muito medo, mas confiante. É assim que quebrar regras se parece? Melhor não me acostumar.
Fiz um caminho que já conhecíamos. Decidi ir até a o bosque que dava acesso à praia. A mesma que visitamos no meu primeiro dia com Sam. Lá parecia ser um local vazio e se encaixava com meus planos.
***
Por mais que minha memória estivesse danificada por conta do que eu havia passado, viver na floresta realmente aprimorou meu senso de direção. Consegui chegar à praia sem grandes dificuldades, me perdi algumas vezes, claro, mas nada que me desviasse completamente da rota. O vento gelado batia no meu rosto, parecia ser sempre assim naquele lugar... Sempre frio e cinzento. Entrei no parque e caminhei em direção à praia e como eu havia imaginado, estava vazia.
Olhei ao meu redor diversas vezes pra me certificar que não havia ninguém ali e quando estive pronto direcionei uma de minhas mãos para o mar. Como um canhão a energia saltou de meus pulsos em direção ao mar fazendo com que um enorme jato de água subisse aos céus; e céus! Como aquilo era bom! Me sentia vivo novamente! Um jato, outro jato! Apenas deixava a energia fluir pelos meus dedos.
Me deitei na areia por um momento e com os olhos em direção às nuvens. Quando vi minhas mãos elas estavam emitindo um intenso brilho vermelho. Era disso que sentia falta. O brilho, o calor, o poder. Não poderia viver sem. Meus ossos estavam fervendo, mas a dor já não era perceptível, era agora um mero detalhe, afinal, humanos são ótimos em se adaptar aos eventos que os cercam e eu não era diferente.
Me lembrei da vez em que me adaptei ao vento que me empurrava de volta para o chão enquanto voava e apenas um pensamento me veio: Eu precisava voar novamente. Caminhei um pouco na tentativa de achar um morro, um tronco caído, qualquer coisa que me deixasse mais alto. Achei um tronco caído a poucos metros de onde eu estava. Subi nele e direcionei minha visão para onde queria ir. Era esquisito pensar nisso novamente, já tinha tanto tempo que eu não praticava livremente meu voo.
Estendi os braços a minha frente e firmei os pés para ganhar impulso. Cerrei meus punhos. Senti o calor passando pelos meus ossos mais uma vez. Fechei os olhos. Precisava sentir o momento certo em que aquela energia passaria dos meus ossos para todo o meu corpo e me lançasse em direção ao meu alvo. Com um salto me lancei para a frente e lá estava eu, mais uma vez no ar. Se qualquer um puder voar assim um dia eu aconselho que rejeite, pois é uma sensação que vicia. Voar é como uma droga, quanto mais se voa, mais se deseja. Pousei em um ponto longe dali e já me preparava para voltar a voar quando a chuva interrompeu meus planos.
A natureza não havia me abandonado, nem mesmo na selva de pedra da cidade.
***
Voltei para casa e mais uma vez ensopado. Acho que esse é o destino de todos os moradores de Seattle: viver encharcados, com frio e possivelmente resfriados. Praticamente me esgueirei pelo portão na tentativa falha de não molhar o corredor. Subi as escadas e para minha surpresa, infeliz surpresa, Samantha estava me esperando.
— VOCÊ FICOU LOUCO?! — ela gritou, era a primeira vez que eu a via brava — Eu passo os dias tentando evitar a sua exposição e você sai sem mim?! Eu achei que você tinha sumido de novo! Onde você foi?!
Abri minha boca para falar.
— Eu não acredito que você saiu assim! Por que você saiu?! Você quer que eu enfarte?! É emoção demais pra mim David! Eu já estava ligando pra polícia!
Ela simplesmente não conseguia parar de falar.
— Me diz. Por que você saiu?! Me dá um bom motivo pra você ter saído! Você deve ter ficado umas 4 horas longe... — O que são horas? — Imagina se algum repórter te viu?! Meu Deus, eu preciso ligar pra Barbara! Ela vai me dizer o que fazer...
Samantha colocou o celular na orelha e foi correndo até a mesa de centro procurar o telefone de Barbara. Não sabia se ia adiantar, mas falei “eu estava entediado” enquanto estava de pé na porta. Sam me olhou, colocou o celular na mesinha e se ajoelhou no chão.
— E os livros que eu deixei?
— Eu... Não entendo...
Sam coçou a cabeça e me olhou com uma mão na boca. Parecia estar pensando.
— Eu não posso te culpar... Deus, como eu estou irritada! Mas eu teria feito a mesma coisa! Que droga.
— Desculpe.
— Ta tudo bem David. Eu só estou uma pilha de nervos, some isso a um dia estressante e bem... Já viu... Você não conseguiu mesmo ler?
Me envergonhei um pouco. O tom que ela havia usado me fez sentir um idiota.
— Não... É como se eu lembrasse de tudo que tem aí, menos o que significam...
Sam balançou a cabeça.
— Por que você não vai tomar um banho, tira essas roupas molhadas e depois disso eu posso te ajudar a ler...
Afirmei com a cabeça e passei pela sala em direção ao banheiro. “Use a toalha dessa vez!”, gritou Sam da sala, toda vez que eu entrava no banheiro para tomar banho ela fazia isso e eu podia ouvi-la rindo.
***
Na semana seguinte Sam decidiu que era hora de me ajudar a vencer o tédio. Ela conhecia um homem que construía móveis. Ela me disse que eu poderia trabalhar com eles até eu me recuperar e decidir o que fazer com a minha vida. Achei a ideia bem interessante, eu gostava da ideia de criar coisas. Parecia ser divertido.
Chegamos à loja do senhor Martinez. Ele era um homem de estatura mediana, chegava ao meu ombro. Tinha os cabelos pretos, a pele amarronzada, portava um largo sorriso bem como uma larga barriga. Era um homem muito alegre e dinâmico. Sam correu para abraçá-lo. Ele era um amigo da família que sempre havia fabricado os móveis por um preço justo para seus pais. Quando Sam se mudou para o loft ele cedeu toda a mobília para ela sem cobrar.
— Espero que você fique bem David, acho que você vai gostar de trabalhar com o senhor Martinez e se precisar de algo peça a ele que me ligue.
Sam me deu um beijo na bochecha e saiu afoita, estava atrasada para a aula.
— Então, David, a Sam me disse que você não tem experiência alguma, mas tem vontade de aprender.
— Sim, senhor.
— Isso é bom, eu tenho vontade de ensinar, venha comigo.
Andamos até um setor da fábrica em que haviam várias tábuas de madeira empilhadas. Martinez pegou uma delas e disse que precisávamos fazer uma mesa com quatro cadeiras. Resmungou mais algumas palavras, parecia não gostar das pessoas que haviam encomendado, mas não consegui ouvir mais do que isso. Pegou o lápis que carregava em seu macacão e do bolso tirou um desenho de uma cadeira, muito parecida com uma das que Sam tinha em casa.
— Acha que conseguiremos fazer uma dessas? — disse ele.
— Eu nunca fiz uma antes, mas você sim...
— Sim, já fiz várias. Sozinho. Juntos podemos fazer várias e mais rápido. Agora vá ali e me traga o serrote.
Serrote... Olhei na direção em que ele apontou e só conseguia olhar várias ferramentas espalhadas. Acredito que Martinez percebeu que eu não sabia o que era, pois enquanto eu observava, tomou a frente e pegou o serrote.
— Garoto, Sam me disse que você não entendia nada de marcenaria, mas eu não imaginei que seria realmente nada... — disse ele rindo... E um pouco indignado, suponho... Pela expressão.
Martinez desenhou a peça na madeira de acordo com as medidas do desenho e logo depois posicionou o serrote.
— Agora é sua vez garoto... Você deve ter uns 25, eu já tenho 40, acho que você é mais forte que eu. Pra cima e pra baixo e corte na linha desenhada.
Martinez saiu e eu segurei a tábua e o serrote. Não queria decepcioná-lo ainda mais após a gafe com a escolha do serrote e estar ali parecia importante para Samantha, ela já havia se esforçado tanto por mim, não queria ser um peso para ela. Contei até três e forcei o serrote para baixo. Uma coisa que ainda não havia percebido era o quanto era forte. O serrote atravessou a madeira no primeiro movimento e a quebrou imediatamente. A parte que usaríamos para fazer a cadeira felizmente não foi prejudicada, mas o restante da madeira... Em seguida eu pude ver os olhos arregalados de Martinez olhando para a madeira e de volta para as minhas mãos.
— Agora eu sei por que ela te mandou... O que você não sabe de carpintaria compensa em força! — Ele riu me dando alguns tapinhas nas costas.
Voltamos ao trabalho após algumas risadas.
***
As semanas se passavam. Sam me ensinava a cada dia coisas sobre a nossa cultura. Eu já estava lendo sozinho após as aulas que ela me dava após seu estágio. Meu livro preferido era “O Pequeno Príncipe”, o primeiro que ela havia me indicado. Eu o lia completamente. Também havia começado a sair sozinho pelas ruas após o primeiro mês, poucas vezes. Ia até a carpintaria de Martinez e voltava para casa. Um caminho curto, mas era um começo.
Sam e eu já conversávamos melhor sobre nosso cotidiano. Agora eu tinha um dia no trabalho para ser tópico de conversa. Ela me falava sobre as entediantes aulas de física e eu falava sobre a nova mesa que eu havia construído para nós com a madeira que Martinez não usaria. Sam ficava feliz, pois toda vez eu trazia algum enfeite novo de madeira que eu havia feito. Eu percebia que ela se orgulhava de tudo que eu fazia e era o mínimo que eu poderia fazer por ela depois de todo esse tempo.
Ainda que minha vida ainda fosse bastante confusa, eu acordava às noites com alguns pesadelos do passado e ainda tinha dificuldades em entender algumas palavras ou conceitos, eu acreditava que estava indo bem e cada peça que eu fazia me provava isso. Cada vez que eu esculpia alguma coisa eu me sentia novamente no controle da minha vida, sabia que podia fazer algo sozinho e que fosse útil.
Martinez também me desafiava bastante a isso. Sempre que eu errava, costumava ficar com raiva, não o suficiente para explodir o lugar, mas me sentia frustrado. Muitas vezes eram erros simplórios e aquilo me fazia achar que eu não dava conta do trabalho, então Martinez aparecia e dizia para sacudir a poeira e tentar novamente. Ele dizia que ainda havia tempo para trabalhar e que quando a recompensa fosse alta começaria a gastar e então veríamos o valor de nosso trabalho. Não que o dinheiro fosse tudo, mas com o tempo eu entendi seu valor.
Sam me disse que colocaria o dinheiro no banco para o meu futuro. Quando ela me falou sobre o futuro e que eu deveria pensar em abrir um negócio, ir para a faculdade ou qualquer coisa do tipo foi tão engraçado. Cada vez ela me ensinava coisas novas, mas dessa vez foi tão interessante. Me dei conta de que minha vida podia ser mais do que era no trabalho. Pela primeira vez eu idealizava meu futuro que antes pensava estar ligado à carpintaria.
Sempre que pensava no futuro, porém, eu me lembrava dos poderes que eu tinha. O que eu faria a respeito? Os manteria em segredo para sempre? Isso era quase impossível. Depois que eu aprendi o que era uma bateria, consegui entender melhor como meus poderes funcionavam. Meu corpo era uma grande bateria que acumulava essa energia. Sempre que eu passava por um stress maior meu corpo me dizia que era hora de usar meus poderes, talvez a hora biológica, pois eu não queria explodir um quarteirão por ter martelado o dedo. De qualquer forma a energia estava ali. Eu precisava descarregá-la ou algum incidente não planejado poderia ocorrer.
O único lugar que eu lembrava ser vazio o suficiente e aberto para que pudesse usar meus poderes era a praia deserta onde eu e Sam fomos aquela vez e onde eu fui sozinho antes da bronca de Sam. Não havia outro jeito de continuar pensando no futuro ou sonhando e planejando a nova vida que viria pela frente se não houvesse um meio de “jogar fora” a energia que eu acumulava. Era preciso ir até lá.
Acordei de repente durante uma noite e meu pulso fervendo me avisava que era hora de liberar meus poderes. Pensei sobre como Samantha reagiria se acordasse e não me visse, mas era melhor que ela sentisse o medo e a raiva do que não sentisse nada e eu acabasse com seu corpo nas mãos. Saí pela noite pelo caminho até a praia deserta. A partir desse dia, todas as noite eu saía até a praia para espairecer e gastar a energia que meu corpo guardava.
***
Era um fim de tarde, já estava escurecendo e chovia em Seattle. Martinez pediu para me avisar que Sam se atrasaria para chegar a casa. Era a oportunidade perfeita para ir até a praia e voar um pouco mais. Enquanto eu caminhava, pensava em quão estranho era o fato de Sam se atrasar. Ela nunca se atrasava.
Quando cheguei à praia o vento bateu em meu rosto como sempre. Como estava escuro não me preocupei em olhar ao redor, a praia estava sempre deserta. Fui até a beira da água e senti o mar molhando meus pés. Sentia o calor pulsando pelos meus ossos e apenas deixei a energia se esvair. Os raios tocaram o mar e gotículas da água gelada vieram em minha direção. Eu continuaria meu ritual, mas tive o pressentimento de que alguém me observava e ao me virar lá estava Sam.
Seus olhos arregalados. As mãos tocando levemente os lábios. As pernas fracas. Ela acabara me ver lançando raios de energia em direção a água. Eu fiquei de pé na frente dela ainda sem saber o que dizer. O que eu poderia dizer? Ela também ficou parada na minha frente tentando achar palavras possivelmente.
— Eu... Sabia que você não estava bem... Te segui... Meu Deus, o que foi isso?!
— Calma, Sam, eu posso explicar...
— Eu não sei o que dizer...
— Por favor, sente, eu vou explicar tudo...
— David... Isso é muita loucura, desculpa... — disse gesticulando bastante com os braços.
Sam deu alguns passos para trás e antes que ela pudesse ir embora eu dei um de meus saltos e parei ao seu lado.
— Calma, me deixa explicar — disse segurando suas mãos geladas.
— Como você fez isso?! — gritou a menina assustada.
— Existem coisas do meu passado que ainda não te contei.
— Eu notei, mas... Meu Deus David...
Nos sentamos na areia.
— Eu não me lembro de nada Sam... Só me lembro de acordar em um laboratório. Era tudo escuro e tinha um cheiro forte e insuportável por todo o lado... Não sei como, mas eu estava assim... Eu só sabia que podia sentir isso.
— Sentir o que?
— A energia... Meus ossos queimavam. Eu sentia a minha pele fervendo, como se eu estivesse com febre.
— Ainda sente assim?
— Sim, mas já me acostumei com a dor.
— Você acordou em um laboratório? Quem fez isso com você? — exclamou Sam preocupada.
— Eu não sei, só sei que consegui fugir e vivi na floresta. Usava meus poderes para sobreviver, por favor, não vá embora. Você é tudo que eu tenho até agora. — disse desesperado.
— David, calma. Não vou a lugar algum. Eu estou aqui com você — disse Sam tocando minha mão e meu rosto — Só quero saber quem fez isso, isso é muita loucura! Eles te torturaram?
— Não sei, eu só acordei assim... Estava preso, talvez tenham me torturado, mas já não lembrava de nada.
— Precisamos fazer alguma coisa David! Você precisa contar isso pra polícia, você...
— Não! — gritei — Eu não quero! Você não sabe o quanto eu lutei pra chegar aqui!
— Como assim David?! Pessoas te torturaram, você precisa fazer algo!
— Não, eu agora sou normal Sam... Finalmente sou um ser humano! Finalmente consegui voltar! Enquanto eu estava na floresta só pensava em voltar aqui, em viver o que eu havia perdido mesmo sem lembrar de coisa alguma. Eu finalmente voltei! Finalmente tenho lembranças, não do meu passado ou infância, mas do nosso último jantar, do meu dia de trabalho... — Sam me olhava com um olhar piedoso — e graças a você eu tenho vida. Falar disso, revelar às pessoas... Isso acabaria com tudo! Eu voltaria a ser um monstro. Perderia tudo.
— Ah David... — Sam passou as mãos nos cabelos, preocupada — tudo bem...
— Tudo bem?
— Sim, não vou contar pra ninguém, e pelo menos agora eu te entendo um pouco mais... Ainda que eu não entenda nada sobre seus... Poderes?
— Eu chamo de dons às vezes.
— O que você faz?
— Acho que são raios de energia. Eu só os sinto queimar e deixo que saiam. Às vezes saem pelas mãos, mas eu posso direcioná-los para baixo e me empurrar para onde eu quiser.
— Tipo o que você fez agora pouco e que fez meu coração pular? Sério, eu tomei o maior susto da minha vida!
Rimos.
— Tem certeza de que prefere manter isso em segredo? — perguntou mais uma vez Samantha.
— Toda a certeza. Eu não trocaria minha vida atual por nada.
Samantha suspirou.
— Eu também não... Sabe, eu sempre achei que durante esse tempo todo você quisesse ser como eu, achei que você pensava “nossa, a Samantha conseguiu viver o que eu não vivi”, mas cada vez mais eu percebo que eu queria ser um pouco mais como você... Você é forte David.
— Não diga isso Sam... Você não sabe o que eu enfrentei para chegar aqui.
— Eu imagino, mas mesmo depois de tudo você teve força pra impor o que quer. Você continua desejando uma vida ao invés da justiça, muitos acham isso uma bobagem, eu acho um grande passo.
— Nós só valorizamos o que temos quando é tirado de nós Sam...
Continuamos sentados, mas agora olhávamos o mar.
— O que você estava fazendo aqui Sam?
— Eu venho aqui pra espairecer lembra? Tive um dia difícil na faculdade.
— O que houve?
— Não sei David... Estou cansada de teorias, livros, as mesmas mesas de sempre. Eu não sei se devo continuar o mestrado. É o primeiro mês e eu já quero desistir, eu nem mesmo sei se quero continuar com física. Eu comecei o curso porque meus pais queriam que eu me tornasse acadêmica, mas eu não sei se é o que eu quero pra minha vida. Por isso eu disse que queria ser mais como você... Você sempre parece resistir quando o mundo desmorona.
— Martinez sempre me diz que eu devo sacudir a poeira e fazer tudo de novo. Não sei se isso diz algo pra você, mas funciona comigo.
— Eu sei que preciso continuar, mas é tão... Frustrante. É como se tudo que você construiu fosse varrido pra debaixo do tapete; como se tudo fosse apagado.
— Talvez você saiba como eu me sinto...
— Em menor proporção, mas sim.
— Mas nós temos algo em comum, não desistimos facilmente. Nem você, nem eu. Eu sobrevivi à floresta, você vai sobreviver à mudança — disse olhando o rosto cansado de Sam.
— Colocando dessa maneira até me sinto mais confiante!
Eu ri.
— Obrigado Sam.
— Pelo que?
— Por se esforçar e me trazer de volta, por me dar sonhos mais uma vez.
— Não fala assim ou eu vou chorar — Sam riu — não foi nada, amigos servem pra isso. Eu também agradeço por ter você comigo.
A noite continuou passando e nós continuamos ali conversando sobre o futuro e o que ele poderia reservar para cada um de nós.
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