Night Time, My Time

1 A última madrugada no bairro


Notas iniciais
Escrevi há dois anos atrás, faz parte de um projeto meu de oneshots que visa trabalhar questões sociais, afetivas e psicológicas (e que eu pretendo continuar). Espero que vocês gostem.

Já passava da meia noite e ela havia saído do apartamento depois de desligar o telefone. Havia novamente discutido com seu namorado. Sempre faziam isso, já estava se tornando comum, mas ela não suportava mais ser a inútil da história, segundo ele.

Andou pela rua cheia de lojas e lanchonetes, a maioria estava fechada já que era tarde. Entrou em uma lanchonete de paredes claras que ficava na esquina e olhou em volta antes de se sentar, havia poucos clientes, um cara um pouco velho usando uma jaqueta, um casal que conversava e dois amigos que riam enquanto mexiam em seus celulares. Sentou-se perto da enorme janela de vidro e logo uma garçonete se aproximou.

— O que vai querer?

Perguntou com cansaço.

— Só um café, por favor!

Ela respondeu passando a mão no cabelo e sem dirigir o olhar pra garçonete que nem precisou anotar o pedido e voltou à cozinha. Ela olhou pela janela de vidro e observou os poucos carros que passavam por ali, ficou pensando no que ele havia dito.

“Você não liga para o que pensa, você é uma inútil”.

— Acontece que eu penso em você.

Sussurrou para si mesma e logo a Garçonete chegou com seu café.

— Aqui está.

Disse bocejando no final, o pai a colocava para trabalhar até tarde aquele dia pois perdeu sua ajudante após uma briga sobre dinheiro.

— Obrigada.

Ela tentou deixar de lado o que havia acontecido por um momento e tomou um pouco de seu café, olhou em volta e percebeu que o cara usando jaqueta a fitava de modo malicioso o que a fez ficar enojada. O cara deu um sorriso e ela lhe mostrou o dedo do meio sem nem ligar para os outros clientes presentes.

Depois daquela situação ela saiu da lanchonete e deixou o dinheiro preso em baixo da xícara de café. Em vez de voltar para o apartamento seguiu para um caminho oposto e felizmente o cara da lanchonete não foi atrás dela, o que ela teve medo de acontecer. As ruas ficavam mais escuras por aquele lado do bairro, havia muitos caras vendendo drogas pelos becos imundos e estreitos daquele lugar. Mas isso nem chamava mais a atenção dela e nem dava preocupação passar por ali, ainda mais com os pensamentos que corriam por sua mente e atrapalhavam seu raciocínio, mal sabia para onde estava indo, só andava.

O olhar foi atraído pela luz de uma lojinha no fim da rua que estava aberta, ela caminhou até lá com as mãos dentro dos bolsos e a cabeça baixa enquanto ouvia vozes que vinham dos becos e das calçadas, caras conversando sobre dinheiro, dívidas e drogas. Atravessou a rua e chegando ao outro lado da calçada viu um mendigo dormindo no chão em cima de camadas de papelão e coberto com um tecido grosso felpudo que não parecia ser um cobertor. Seguiu em frente e antes de entrar na loja olhou pelo vidro da porta.

Na porta havia uma plaquinha vermelha com o nome "aberto", ela entrou olhando em volta e caminhou lentamente pela loja até um homem que ficava no caixa aparecer.

— Boa noite.

O homem não teria dito isso nunca para um marmanjo que entrasse na loja, pois o medo de ser assaltado naquele horário era grande, mas era uma mulher e ele achava que não tinha problema, então foi educado.

— Boa noite, eu quero um maço de cigarros.

Após pagar ela saiu da loja e lá fora havia começado uma briga na entrada de um dos becos, provavelmente um usuário de drogas estava com alguma dívida ou havia perturbado um dos caras que vendiam a droga. Ela decidiu ir andando e sair de perto, essas coisas nunca acabavam muito bem na maioria das vezes e ela não podia ajudar.

Apesar de tudo que acontecia naquela hora, naquele bairro, a noite era o melhor momento para caminhar e refletir. Ela voltou a pensar no seu problema, em como ele a afetava. Ela nunca terminaria com seu namorado, ela o amava, apesar de todas as brigas sem sentido. Avistou a praça e foi em sua direção, sentou-se em um banco e pegou o maço de cigarros. Olhou em volta e viu as prostitutas que ali ficavam conversando com os caras carentes e imundos que por ali residiam, às vezes tinha nojo de morar ali, mas mudar para onde? Com que dinheiro iria para um bairro melhor?

Abriu o maço e retirou um isqueiro do bolso interno do casaco, acendeu um dos cigarros e o levou a boca. Procurou relaxar e esquecer-se de tudo, deixar tudo de lado, resolveu não se afundar nas dúvidas e pensamentos que a deixavam atormentada.

Lembrou-se de quando era mais jovem e havia encontrado com ele pela primeira vez, em um bar de outro bairro. Ele estava sozinho e ela com as amigas que um dia teve e que agora estavam longe. Pensava se poderia estar melhor se não tivesse ido para aquele bar naquele exato dia.

A fumaça saia da sua boca como se até ela tentasse fugir da tormenta de pensamentos e lembranças que se passavam em sua mente. A madrugada para ela sempre terminava em perguntas como o que iria fazer? O que dizer? O que estava fazendo? Porque nada mudava? E porque não fazia nada a respeito? Ela apenas sempre voltava ao apartamento do bairro sujo e repleto de grupos de pessoas dos quais não pertencia e nunca pertenceu.

Mas naquele dia ela ficou ali, sentada na praça fumando seus cigarros até o sol nascer, pensando em uma solução para acabar com as caminhadas noturnas que tanto a incomodavam. Sua decisão seria como deixar uma vida para trás, mas também como deixar coisas que ela nunca quis ter passado em toda a sua vida, chegou a se perguntar por onde andaria e como estava seu irmão que havia ido embora há muito tempo da cidade. Olhou para seu cigarro com desprezo e o jogou no chão antes de apagá-lo com o pé, já era dia e algumas lojas já iam ser abertas, ela havia passado a madrugada com seus pensamentos e era hora de ir. Fechou seu casaco, olhou em volta analisando tudo que se passava em sua mente e caminhou de volta ao seu apartamento.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!