Night Changes
5 É só um encontro
Notas iniciais
Era segunda-feira e Lyra Jane sofria para abrir os olhos naquela manhã. Apesar do despertador tocando insistentemente e da bagunça que Scorpius fazia na cozinha, o sono falava mais alto, obrigando-a repensar sobre ter quebrado as regras na noite anterior e ter ficado até de madrugada rolando a tela e assistindo edits da sua boyband favorita. Se sua mãe não fosse buscá-la na escola mais tarde, ela tentaria convencer o pai de que era uma boa ideia cabular aula naquele dia.
O fim de semana havia sido tranquilo, como sempre. A garota assistiu a alguns filmes e jogou online com as amigas enquanto seu pai trabalhava um pouco na noite de sábado. No domingo, porém, ele tentou compensar todo tempo de qualidade perdido ensinando-a (ou pelo menos tentando) a preparar um ravioli caseiro de queijo e espinafre. A ruiva não se deu muito bem recheando a massa, mas obteve sucesso considerável preparando o molho de manteiga e sálvia. Seu real talento, contudo, foi melhor aproveitado preparando uma deliciosa salada com rúcula, pera, nozes e um toque de vinagre balsâmico.
A sobremesa, como sempre, foi sorvete. Era uma coisa dos dois e aproveitaram para saborear o doce enquanto brincavam de completar o desenho um do outro. Cada um iniciava desenhando algo aleatório e depois de 5 minutos, entregavam o papel para que o outro continuasse a ilustrar, até que a folha estivesse toda preenchida. No fim das contas, tiveram como resultado um dinossauro atacando um palhaço gigante com árvores incendiadas ao redor e um peixe no espaço jogando dominó com uma abelha gigante que tocava violoncelo. A criatividade estava no sangue, não havia como fugir.
Rolou pizza à noite, pois ambos estavam com preguiça e, pela primeira vez desde que Lyra se lembrava, foi ela quem mandou mensagem para a mãe perguntando se estava tudo bem, não o contrário. Ela estava realmente preocupada com o sumiço da mãe, que não entrava em contato desde a noite de sábado. Lyra Jane viu as postagens da noite das Weasley no instagram de Lily, então sabia que estava tudo bem, mas não deixava de ser uma situação estranha, ela não sabia o que fazer com tamanha liberdade. A mãe acabou respondendo somente algumas horas depois, curta e objetivamente, atitude atípica para Rose Weasley.
Percebendo que estava mais do que atrasada, Lyra Jane levantou da cama se arrastando e foi direto para a cozinha, ainda vestindo o pijama, os cabelos ruivos desgrenhados e uma expressão de puro desalento no rosto. Estava curiosa para saber se seu pai estava fazendo algo gostoso de fato ou apenas se divertindo batendo panelas. Felizmente soube, já no corredor, que a primeira opção era a correta quando sentiu o cheiro de café fresco e torradas invadindo suas narinas.
— Finalmente! Achei que teria que te carregar até a escola hoje. — brincou o Malfoy ao avistar a filha. Ele virava uma última panqueca por cima da pilha que já havia formado num prato ao lado do fogão.
— Queria ter dormido mais um pouquinho. — murmurou Lyra, sentando-se na cadeira e apoiando o rosto nas mãos. — Domingo deveria durar uns três dias.
Scorpius riu, deslizando o prato com as panquecas para a frente dela e finalizando com mel e morangos.
— Se isso não te animar, não sei o que vai. Quer chocolate quente? Posso fazer seu favorito, aquele com marshmallows. — ofereceu.
— Hoje vou ficar só no café preto, pai. Estou caindo de sono. — respondeu a jovem, enchendo a boca com um pedaço de panqueca.
— Que eu me lembre, mandei você para a cama às dez ontem, não? — ele levantou o olhar, semicerrando os olhos em fingida desconfiança, mas logo suavizou a expressão — Bom, você finge que foi dormir cedo e eu finjo que não sei que você ficou até tarde no celular.
— Me parece um ótimo acordo. — ela respondeu com a boca cheia.
Scorpius se afastou para preparar o próprio café da manhã e Lyra aproveitou para responder as mensagens das amigas Josephine e Elsie, que já pipocavam em seu celular. As três eram amigas inseparáveis desde o primeiro ano escolar, passando por alguns desentendimentos ao longo dos anos, mas nunca perdendo o vínculo de amizade que formaram.
Josephine Fawley (ou só Fawley, para aqueles que não queriam perder um olho), era a mais antiga amiga de Lyra Jane. Ela era bolsista em Beauxbatons, assim como Rose Weasley fora um dia, e se esforçava muito para manter boas notas, apesar de fingir que não e se esconder sob uma capa de rebeldia. Talvez pelas pontas do cabelo castanho repicado da garota estarem a cada mês de uma cor diferente ou por suas jaquetas de couro que praticamente andavam sozinhas, a Sra. Fawley temia que o temperamento da filha a fizesse perder oportunidades, mas Josie sabia muito bem o que queria e estava sempre pronta para correr atrás de seus objetivos.
Elsie Le Rouge, por sua vez, era mais retraída. Foi puxada para o grupo de amigas por insistência da Fawley, que sempre via a garota loira de cabelos lisos sozinha e aparentemente atarefada. Seus pais eram jovens, não tanto quanto os de Lyra Jane, mas eram muito ricos e viviam viajando a trabalho, motivo pelo qual as garotas nunca podiam dormir na casa da amiga. Elsie aprendeu a se virar melhor no isolamento e no silêncio, o que a fez estranhar a amizade com Malfoy e Fawley no início, mas acabou se acostumando e se afeiçoando à bagunça das garotas.
Fawley: Sério, se eu tivesse que ouvir mais um sermão da minha mãe sobre 'responsabilidade', eu saía correndo.
Elsie: Pelo menos você tinha alguém em casa. Os meus pais só chegaram ontem à noite e nem perguntaram como foi meu fim de semana.
Fawley: Clássico.
LJ: Tô me arrastando aqui. Papai fez panqueca. Acho que vou sobreviver.
Elsie: Claro que ele fez… Scorpius Malfoy é o padrão. Pergunta se ele quer me adotar.
Lyra sorriu de canto e digitou rapidamente uma resposta antes de engolir o resto do café amargo e correr para se trocar. Escovou os dentes rapidamente e passou mais tempo do que poderia tentando diminuir o volume do cabelo que caía em ondas sobre seus ombros. Ela sabia que tinha o cabelo parecido com o da sua avó Hermione, mas na avó ficava estiloso, nela era apenas… difícil. Por fim, fez um rabo de cavalo bem alto e finalizou com o lenço azul do uniforme escolar, que deveria estar em seu pescoço, mas Lyra gostava de quebrar certas regras às vezes.
O pai já havia batido em sua porta duas vezes e estava pronto para a terceira quando ela finalmente terminou de se arrumar. Já no carro, a caminho de Beauxbatons, Lyra Jane recordou da lição de inglês que precisava terminar antes da segunda aula e que tinha jurado para a mãe que havia terminado há três dias.
Dentro da escola, Lyra foi recebida pelo caos habitual dos corredores: estudantes conversando, livros caindo das mãos de alguns, e a usual correria para as primeiras aulas. Ela avistou Josephine encostada em um dos armários, mexendo no celular, enquanto Elsie estava ao lado, folheando uma revista.
— Bom dia, atrasada! — Josie comentou assim que viu Lyra se aproximar.
— Nem começa, Fawley. — Lyra suspirou. — Ainda estou processando como estou de pé. E Elsie, preciso da sua lição de inglês, não fiz da questão sete para frente.
Elsie levantou os olhos da revista.
— Não teve tempo?
— Ah, não. Ela estava ocupada demais pensando nos lábios carnudos do Thomas-Finnigan. — Josie respondeu, sorrindo maliciosamente, antes que LJ pudesse se manifestar.
— Você está muito piadista para uma segunda de manhã, Josephine.
— Não. Me. Chame. De. Josephine. — respondeu a morena, entredentes.
— Você parece ótima para alguém que provavelmente ficou acordada vendo dorama até tarde. — Elsie comentou, ignorando as provocações entre as duas.
— E eu estou ótima mesmo! — Lyra respondeu, rindo. — Ou pelo menos é isso que vou fingir até o final do dia.
Ouviram o sinal sonoro que indicava o início das aulas e se apressaram para ir para a sala de aula.
— Você pode copiar minha tarefa, mas a questão nove acho melhor copiar da Fawles. Não entendi nadinha. — confessou Elsie, enquanto caminhavam.
— E a Fawles entendeu? — questionou LJ em tom provocativo. Sabia que a amiga era inteligente, mas adorava vê-la irritada.
A morena abriu a boca para revidar, mas chegaram à sala de aula e se depararam com a Srta. Clarke organizando a classe para iniciar os ensinamentos sobre os relevos europeus, então a conversa ficaria para mais tarde. Era hora de Geografia.
A semana passou como um raio, talvez mais rápido do que Lyra gostaria, e a cada dia que se passava, aumentava a ansiedade para o encontro com Zach Thomas-Finnigan no sábado. Ela o avistou durante a aula de francês na segunda-feira e até chegaram a se cumprimentar na natação na quarta-feira, mas a Malfoy evitava contatos maiores. Admitia, era uma bundona.
Inclusive, não respondia as mensagens dele desde quinta-feira a noite e encarava com temor a notificação que acabara de chegar em seu celular:
Zach: Tudo certo para amanhã, né?
Na cabeça da ruiva, parecia que aquelas palavras estavam sendo berradas, mas ela sabia exatamente qual era o tom da mensagem: completamente descontraído, como Zach era. Se conheceram na equipe de natação, sempre conversavam entre um exercício e outro e se divertiam competindo entre si, foi o motivo do encantamento de Lyra. O que o motivou a procurá-la ao fim da aula, algumas semanas atrás, para chamá-la para sair, bem, isso era um mistério.
Ele era um gato, alto, pele negra, lábios carnudos, e um ano mais velho que ela. Zach era filho de Dino Thomas e Simas Finnigan, um contador e um engenheiro que estavam juntos há muitos anos. Scorpius, quando recebeu a ficha completa do garoto, conforme solicitado por Rose, comentou que chegou a trabalhar com Simas e que ele era uma ótima pessoa. Isso foi primordial para que os ânimos dos pais de Lyra Jane se acalmassem e que eles autorizassem o encontro sem que precisasse ser realizada uma sabatina com o coitado do garoto.
Não, Zach não era o problema e também não era apenas o encontro em si que a preocupava, mas o fato de que ela nunca tinha beijado ninguém.
A Malfoy até tentou pedir conselhos às amigas, mas Fawles vivia no modo espanta-homem e Elsie até tentou explicar, mas sua experiência de dois encontros não era vasta o suficiente para que conseguisse passar o conhecimento adiante. Além disso, mesmo sabendo que não era o mais saudável a se fazer, Lyra não pôde deixar de se influenciar pelos filmes e doramas que assistia e queria que tudo fosse, apesar dos pesares, romântico.
Ela não poderia pedir ajuda para a mãe. Lyra sabia que Rose era bem intencionada, mas acabava levando qualquer assunto para o lado didático e com certeza tentaria explicar o beijo de forma científica. Além disso, a Weasley parecia tão dispersa durante a semana que Lyra preferiu não aprofundar as coisas. Scorpius já havia ficado nervoso o suficiente quando Lyra contou que teria um encontro e LJ percebeu, nos últimos dias, que ele gostava de falar o mínimo possível sobre esse assunto. Assim, ao final da última aula de sexta-feira, enquanto as amigas discutiam sobre uma atividade, Lyra Jane pegou o celular de maneira discreta e começou a digitar uma mensagem para a única pessoa que sabia que não a julgaria: seu padrinho Albus.
LJ: Tio Al, preciso de ajuda. E rápido. Você tá ocupado?
Ela esperou alguns segundos, que pareceram uma eternidade, antes de ver as três bolinhas de digitação surgirem.
Albus: Sempre tenho tempo pra você, estrelinha. O que foi? Quer falar por mensagem ou vídeo?
LJ: Por mensagem mesmo. É meio constrangedor, mas preciso muito da sua sabedoria.
Lyra Jane não era boba e sabia da fama de mulherengo do seu padrinho. A maior parte das mulheres que conheceu durante a infância eram “amigas do tio Al”, portanto, se alguém tinha experiência com beijos, esse alguém era Albus Potter.
Albus: "Ok, manda aí. Sem julgamentos, prometo."
Lyra respirou fundo antes de digitar, as mãos um pouco trêmulas:
LJ: "Então, lembra que eu te falei que tinha um encontro amanhã?
Albus: Aquele que você disse que estava super preparada e confiante?
Lyra fez uma careta ao ler a mensagem. Quando o tipo perguntou, na terça-feira, como ela estava se sentindo, a garota achou de bom tom manter a postura. Queria o respeito de seu padrinho, mas claramente não adiantou muito.
LJ: É… eu menti.
Albus: Não me diga!
LJ: Foco, tio Al! Ele é fofo e tudo mais, mas… eu nunca beijei ninguém. Tipo, nunca. E tô com medo de estragar tudo se ele tentar alguma coisa. O que eu faço?
Ela quase jogou o celular longe depois de enviar a mensagem, o rosto fervendo de vergonha, pelo menos a resposta veio rápido.
Albus: Primeiro de tudo: relaxa. Todo mundo passa por isso um dia e ninguém nasce sabendo. Segundo: não tem nada de errado em ser honesta sobre como você se sente, se o momento chegar. Garanto que ele vai respeitar você. Terceiro: se você não se sentir pronta, tá tudo bem. Um beijo é sobre estar no momento certo, não sobre cumprir expectativas.
LJ: Mas e se eu parecer uma idiota? E se ele nunca mais quiser falar comigo?
Albus: Se ele for um garoto legal, isso não vai acontecer. Se ele não for, então você merece coisa melhor. Você só precisa ser você mesma, Jane. Ele já gosta de você assim, certo? Confia no que te faz especial.
A resposta aqueceu o coração de Lyra e, mesmo que o nervosismo ainda estivesse lá, sentiu-se um pouco mais preparada para encarar o dia seguinte.
LJ: Obrigada, tio Al. Você é o melhor.
Albus: Pra você, sempre. Vai arrasar, estrelinha. Me manda mensagem depois contando tudo.
Lyra guardou o celular com um sorriso discreto nos lábios. Naquele momento, ela pensou que talvez o fim de semana não fosse tão assustador quanto parecia. Ledo engano.
A paz durou pouco. Lyra mal dormiu durante a noite de sexta para sábado, contando as horas para o encontro. A sua roupa já estava lavada, passada e pendurada no guarda-roupa, ela já sabia como se maquiar — apesar de que, depois dessa noite de privação de sono, teria de caprichar mais no corretivo — e repassou todo o cronograma em sua mente, da mesma forma que informou aos pais que, por mais incrível que parecesse, estavam se comunicando de maneira funcional e eficaz. Apesar de ser um pouco chato, ela estava aliviada por nenhum dos dois estar invadindo seu espaço e por solicitarem somente as informações de fato relevantes, como horários e locais onde iriam.
Lyra havia sugerido irem ao cinema, mas Zach preferiu um programa em que os dois pudessem conversar mais. Como era exigência dos pais de LJ que o encontro acontecesse durante o dia, os adolescentes resolveram aproveitar o clima ameno realizando um piquenique perto do condomínio onde Zach morava. Poderiam passar a tarde juntos, mas deveriam voltar para casa antes de anoitecer, ordens dos pais de Zach.
Quando criança, algumas crianças da escola chamavam Lyra Jane de cabeça de fósforo, um apelido que ela sempre abominou, mas riu sozinha ao se lembrar quando sentiu a cabeça queimando em razão de tantos pensamentos. Como pode sua própria mente não te permitir dormir?
Na manhã de sábado, o quarto de Lyra Jane estava banhado pela luz suave do sol que escapava pelas frestas das cortinas. Apesar disso, a adolescente continuava profundamente adormecida, depois de uma noite praticamente em claro. Do outro lado da porta, Rose hesitou antes de bater levemente. Ela sabia que a filha estava ansiosa, e por isso decidiu deixá-la descansar um pouco mais. A ruiva abriu a porta devagar e se aproximou com cuidado da filha, que estava espalhada na cama, coberta até a cabeça. Rose tocou em seu ombro de leve e Lyra acordou com o som suave de sua mãe chamando:
— Bom dia, minha estrela matutina.
A ruiva abriu os olhos devagar, ainda meio sonolenta, mas sorriu com o jeito de falar da mãe. Lyra sentou-se na cama, os cabelos desgrenhados.
— Que horas são?
— Dez e meia. — Respondeu Rose, após verificar no seu relógio de pulso.
— Achei que você fosse me deixar dormir até mais tarde. — Jane resmungou.
— E eu deixei, sabia? Quase te acordei às nove — Rose respondeu, sorrindo — Achei que você podia precisar de um empurrãozinho hoje, então tem torradas com geleia de morango e chocolate quente para você na cozinha. — A mais velha puxou a cadeira da escrivaninha e sentou-se de frente para a filha. — Como está se sentindo?
Lyra Jane pensou um pouco antes de responder, tentando compreender os próprios sentimentos. Ainda não estava certa de que queria ter aquela conversa com a mãe.
— Estou bem, só... nervosa.
— Eu entendo. Primeiro encontro é um grande marco. — A Weasley deu um sorriso que Lyra interpretou como um pouco saudosista — Mas Jane, você não precisa se pressionar tanto.
— Eu sei, mãe, mas é difícil. Parece que tudo tem que ser perfeito.
Rose inclinou a cabeça, pensativa.
— Não tem que ser perfeito. Tem que ser genuíno. Você gosta do Zach, certo?
Lyra assentiu.
— Bem, ele é legal e engraçado e, sei lá, eu me sinto à vontade com ele. — foi sincera.
— Então já começou bem. Você não precisa saber todas as respostas ou ser alguém diferente. Só seja você mesma. — aconselhou.
Lyra soltou um suspiro pensando se tocaria mesmo no assunto que estava pensando. Tudo bem que ela já havia falado sobre isso com o tio Al e que realmente estava mais calma a respeito, mas, parando para pensar, sua mãe estava bem ali na sua frente, aberta e carinhosa, preocupada, mas gentil. Talvez fazer essa pergunta fosse importante para LJ, mas seria ainda mais importante para Rose respondê-la.
— E se ele tentar me beijar? — disse de uma vez.
Rose sorriu, um sorriso acolhedor e de alívio. Ela estava com medo de que a filha não se abrisse com ela sobre o primeiro beijo. Albus havia lhe dado um toque, o que a deixou, de certa forma, enciumada. Ela pensava que havia dado abertura o suficiente para que a filha abordasse qualquer tema, mas se decepcionou consigo mesma ao se deparar com a realidade de que ela preferiu questionar o Potter. Por isso, tentou ser o mais delicada possível ao responder.
— Se acontecer, só siga o seu coração. Você vai saber se é o momento certo. E, se não for, está tudo bem dizer isso. Um encontro não é uma prova, é uma oportunidade de se conhecerem melhor.
Lyra pareceu refletir sobre as palavras da mãe.
— Você acha que eu consigo?
— Se você consegue? — Rose riu, incrédula — Você é corajosa, Lyra Jane. Sempre foi. É claro que consegue conduzir esse encontro com maestria e, se for o caso, também se dará muito bem no seu primeiro beijo.
Elas trocaram um sorriso cúmplice antes de Lyra se espreguiçar para sair da cama. Enquanto a garota se levantava, Rose deixou o quarto com uma última observação:
— Aconteça o que acontecer, saiba que você vai continuar sendo a minha menininha, ok?
— Tá bom, mãe. — respondeu tediosamente.
Rose fechou a porta suavemente, deixando Lyra sozinha com seus pensamentos ao passo que ela mesma enxugava uma lágrima que insistiu em escorrer enquanto atravessava o corredor.
Por volta das duas da tarde, Lyra Jane estava no quarto, se encarando no espelho e verificando se tudo estava em ordem para o tão esperado encontro. Agora que o horário se aproximava, ela estava não apenas nervosa e ansiosa, mas também incrédula de que aquele momento era real. Tinha de confessar que as mensagens idiotas de suas amigas aliviaram um pouco a tensão, mas ainda assim era complicado aceitar que era ela, Lyra Jane Malfoy, vivenciando aquela situação na vida real.
Ela havia optado por um macaquinho florido leve, em tons pastel, que caía suavemente sobre o corpo, acompanhado de um tênis branco que combinava conforto com estilo, afinal de contas, iriam passar a tarde sentados no chão. O cabelo estava solto e bonito, graças à ajuda de Rose para controlá-lo. A maquiagem era discreta, mas suficiente para realçar os olhos e disfarçar as olheiras da noite mal dormida. Ela gostou do resultado, principalmente por conseguir reconhecer-se com clareza naquele visual, fazendo com que lembrasse os conselhos de Albus e sua mãe para que agisse como ela mesma.
Enquanto terminava de passar um gloss nos lábios, ouviu vozes na sala. Provavelmente era Scorpius que acabara de chegar. Ele e Rose tinham combinado que iriam juntos levar Lyra ao encontro, tanto para mostrar apoio quanto para garantir que tudo estivesse sob controle.
— Jane, querida, seu pai chegou! — Rose anunciou do corredor, a voz levemente animada.
— Já vou descer! — respondeu a adolescente, respirando fundo para se preparar.
Quando Lyra apareceu na sala, Scorpius estava ao lado de Rose, ambos conversando enquanto tomavam um café rápido. Assim que a viram, o diálogo cessou, e dois pares de olhos se voltaram para ela. Por um breve momento, o silêncio reinou.
— Uau, minha filha, você está maravilhosa! — exclamou Scorpius, o tom genuinamente impressionado.
Rose concordou imediatamente, sorrindo de maneira calorosa.
— Linda, meu amor! — ela bateu palminhas — Você arrasou em todas as escolhas. Está perfeita.
O rosto de Lyra ficou instantaneamente vermelho.
— Mãe, pai, por favor... é só um encontro.
— Só um encontro? — brincou Scorpius, cruzando os braços, mas com um sorriso orgulhoso no rosto. — Espero que esse garoto saiba reconhecer o quanto é sortudo.
Rose tentou conter o riso para não provocar ainda mais a filha.
— Vamos, Scorpius, não intimide a garota. — a ruiva cessou o divertimento do pai da garota, mesmo sabendo que Scorpius estava fingindo toda essa tranquilidade. Sabia disso pois esperava estar fingindo tão bem quanto ele — Jane, querida, você não precisa ficar nervosa. Tenho certeza de que tudo vai dar certo. E aliás, — ela se virou para pegar um pote médio que estava sobre aparador da entrada— sei que que o Zach disse que não precisava levar nada, mas achamos de bom tom preparar algo, então seu pai trouxe algumas fatias da cheesecake de morango que sua avó Astoria preparou especialmente para hoje.
— A vovó Astoria está sabendo disso? — LJ perguntou, como se o constrangimento não pudesse ser maior. — Pai, por que contou? — inquiriu, um pouco indignada.
— Bom, em minha defesa, eu só falei porque a sua mãe disse que sua avó Hermione também sabia. — Malfoy se justificou — Não quis deixar a minha mãe em desvantagem.
Lyra Jane se virou para a mãe, boquiaberta.
— Você disse que não contou para ninguém!
— E não contei. — Rose afirmou categoricamente, mas titubeou para continuar — Só para seu tio Hugo — praticamente murmurou, mas logo aumentou o tom de voz para se explicar — A culpa não é minha se ele não sabe segurar a língua.
Lyra respirou fundo e revirou os olhos.
— Tudo bem, eu finjo que acredito que vocês não espalharam para toda a família, principalmente você, mamãe. — Jane apontou o dedo acusadoramente para Rose — Vamos deixar combinado que a cada parente que me perguntar sobre o encontro, eu pego de volta uma libra do pote de xingamentos.
Scorpius e Rose se entreolharam, como numa negociação.
— Justo. — responderam juntos.
Scorpius pegou as chaves do carro, acenando para ambas.
— Bom, se já terminamos de brigar, já está na hora de ir. Vamos nessa antes que a gente acabe se atrasando.
As duas concordaram e Lyra pegou sua bolsa para seguir o pai até o carro, ao passo que sua mãe ficou para trancar a porta. Entrou no banco de trás agradecendo mentalmente aos seus pais pela pequena discussão, pois, ainda que de uma forma inusitada, fez com que seu coração acalmasse as batidas e tornou aquele momento de expectativa um pouco mais leve. Não poderia negar também que os elogios recebidos lhe fizeram muito bem.
— Jane, não se esqueça de mandar mensagem assim que acharem um lugar para estender a toalha, está bem? E nos fale a localização aproximada. — lembrou Rose, enquanto entrava no carro.
— Está bem, mãe, eu já sei.
— E não se esqueça de... — começou Scorpius, mas Lyra o cortou.
— Pai, por favor, só dirige. — pediu, cansada.
Os dois riram, mas decidiram dar uma trégua. Scorpius ligou o carro, e o trio partiu para o encontro de Lyra, cada um com pensamentos diferentes, mas com a mesma expectativa: que aquele dia fosse memorável de uma forma especial.
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