Nicest Thing

3 Chapter Three


Notas iniciais
Primeiro, gostaria de agradecer aos reviews; eles sempre servem de "combustível" para a minha inspiração (: Segundo, relevem quaisquer erros. Por mais que eu revise, às vezes, ficam alguns probleminhas! E terceiro, aproveitem o capítulo!

Hey, Rachel.

Ou você está ignorando meus e-mails, ou está ocupada demais sendo “A Garota Depressiva” (palavras de Kurt), ou está ocupada demais fingindo que está ocupada demais. Então, a menos que você tenha se mudado por um curto período para o Alaska para estudar o comportamento dos ursos polares e tenha, por acidente, hibernado junto com eles, entendo perfeitamente o porquê de nunca mais termos nos falado. Só uma coisa: que se dane que o relacionamento de vocês terminou. Os amigos DEVERIAM ser para sempre. Só dizendo.

Vê se acorda do seu sono profundo e me liga ou retorna este e-mail, Srta. Insuportável.

S. E.

Ahhhh. Ótimo. Era tudo o que eu precisava. Ter um Sam enlouquecido atrás de mim também, quero dizer. Apenas verificando os outros 27 e-mails não lidos percebi que Sam está mesmo incansável; este é o décimo terceiro que ele me enviou durante todo o mês. Coisas assim só acontecem com pessoas extremamente bem-sucedidas ou importantes – e eu não me encaixo em nenhuma das opções. Ainda sou uma estudante que mal consegue se sustentar com o dinheiro do estágio na escola municipal, atuando como professora primária de música. E nem preciso mencionar que o meu grau de esnobação é o mesmo que o Nirvana no Hall da Fama do Rock – e, ao contrário da banda, talvez eu nunca alcance nenhum tipo de prestígio merecido. É a verdade, miserável e irrefutável.

Decido não olhar os outros e-mails do Sam. Apago todos, inclusive os de alerta de espetáculos da Broadway. Não terei tempo, nem disposição para conferir qualquer musical por um longo tempo. Preciso recuperar o que perdi – e não, não me refiro ao meu ex-namorado. Ele, eu quero que vá e nunca mais volte, mesmo. Quem disse que eu preciso dele? Os peixes não precisam de bicicleta, certo?

Talvez eu devesse comprar uma bicicleta. Poderia ser divertido pedalar no Central Park durante os dois segundos de intervalo obrigatórios do meu dia a dia. Poderia conhecer novas pessoas. E me apaixonar por todas elas. Ou ser apenas amiga delas. Isso pode ser um estilo de vida bastante apreciado. Talvez na Itália, onde as pessoas bebem vinho e comem pão com azeite para atingir a longevidade plena. Tanto faz. Não quero me mudar para a Itália. Posso ser uma mortal muito feliz bem aqui, em Nova York.

– Rachel? Você entrou na privada e foi parar no Ministério da Magia? – ouço a voz de Kurt do outro lado da porta. Ele parece impaciente, não sei porquê. Hoje eu acordei bem melhor e até mesmo preparei o café da manhã. Blaine mal tinha se levantado quando tudo estava pronto! Então, descarto a irritação incomum de Kurt. – Você sabe que vai precisar da meia calça preta hoje, certa? Aquela sobre a qual a Cassandra ficou infernizando todo mundo por e-mail.

Ah. O quê?

– Que negócio é esse, Mr. Cellophane? – meto a cabeça para fora do banheiro, mesmo que o ar gelado que está preso no loft me deixe arrepiada, porque ainda não decidi o que vestir. Além do mais, Kurt ainda não caçou nada “elegante” para mim. Quero dizer, de que adianta conviver com o meu melhor amigo gay, que às vezes dá uma de personal stylist para cima de todo mundo, se ele não exerce corretamente a sua função?

– Oras. Você não leu?

Você quer dizer... O e-mail que deletei juntamente com os do Sam e dos avisos de ingressos da Broadway?

– Hm... Acho que não – respondo com cuidado. Prevejo uma onda de irritabilidade ainda mais intensa emanando dele. Tenho medo desses rompantes esquisitos do Kurt, de verdade.

Ele suspira contido.

– O que vou fazer com você, Rachel Berry? – ele me pergunta, parecendo frustrado.

– Continuar a me avisar sobre tudo o que acontece nas aulas da Cassandra? – sugiro com um tom carinhoso. Kurt suspira de novo e assente. – Então... Meia calça preta? Não vamos ter de começar as sessões de piruetas mais uma vez, não é?

Mas algo na expressão dele me confirma que, sim, mais sessões de piruetas por duas horas enquanto ouço os gritos depreciativos de Cassandra ressoar pela sala de dança.

Genial.

Gemo por dentro, porque estou repentinamente desmotivada a sair do banheiro. E do loft.

– Ok. Mais dez minutos – digo, fechando a porta atrás de mim.

Miro meu celular. Malditos e-mails. Por que SEMPRE deleto os e-mails referentes aos assuntos de Juilliard? Eu nem mesmo registrei o da Cassandra dentre todos os outros. Tenho certeza de que esse tipo de coisa ocorre porque a minha mente tira uma folga, logo depois de ficar enlouquecida para evitar quaisquer palavras daquela megera loira. Daí é inevitável: raramente leio tudo o que Kurt lê na caixa de e-mail dele. É por isso que Kurt é o meu mensageiro oficial das notícias da faculdade – especialmente se tratando de Cassandra, porque, apesar de todo o sofrimento, ele é atento a tudo o que ela diz e recomenda.

Ele, sim, é um aluno exemplar. Deverá atingir a importância estudantil quando menos esperar. Eu, por outro lado, permanecerei resmungando sobre tudo e apenas escutando os berros furiosos dos professores. Ficarei no fundo do poço pelo resto da minha vida, reconheço.

Digito rapidamente (antes que minha coragem se esvaia e eu tenha um ataque matinal):

Sam!
Tive um longo e prazeroso relacionamento com a minha cama esses dias, e ela me impediu completamente de deixá-la por mais de quinze minutos, portanto me perdoe por não responder seus e-mails (aliás, muito obrigada por eles! Você é um amor!), ou lhe telefonar, ou lhe visitar (mas você sabe que esta alternativa está FORA DE COGITAÇÃO, uma vez que correria o risco de me encontrar com você-sabe-quem). Gostaria de dizer que poderíamos almoçar juntos hoje, porém estaremos apresentando outra candidata a nova moradora ao Loft do Paraíso. Por quê, então, você não vem aqui na sexta à noite? Como Kurt e Blaine estarão fora, podemos fazer nossa própria festa decadente: assistir a remakes bregas enquanto você fica repetindo tudo o que os personagens dizem!

Quem disse que eu não sei dar festas???

R.B.

– Kurt? Você viu minhas roupas?

Ele demora para responder e marchar em minha direção, porque está procurando as peças das quais precisa. Praticamente jogando-as em cima de mim, pergunta:

– O que aconteceu com a sua emoção tradicional de misturar visuais esquisitos para sair?

– Morreu logo depois de você insistir que tudo o que eu usava me deixava parecendo uma criança do jardim de infância.

– Isso me lembra que vai ter de se livrar de algumas pilhas não mais usadas para ceder lugar no armário para Lucy – Kurt pontua, tirando fiapos incômodos da minha malha preta antes que eu possa vesti-la.

– Ela não pode ter tantas roupas assim – respondo, cética.

– Bem. Não é como se ela fosse uma sem teto – Kurt diz, analisando a situação de maneira sarcástica –, considerando que aqueles sapatos devem ter custado metade do que ganho na Skylight Shoope.

– Ela deve saber que nosso loft não é, exatamente, imponente e amplo, certo?

– Eu o descrevi com a maior verossimilhança possível no anúncio, tenho certeza. E não acho que Lucy seja do tipo deslumbrada. Quer dizer, por favor, estamos em Nova York. E mal temos um emprego decente.

– Disse tudo. Trabalhar na Party City não deve suprir a necessidade dela de comprar toneladas de sapatos Scarpim e casacos de tricot da Mandi & Co.

– Qual é o seu problema com o guarda-roupa dela? Você deu uma checada para sair falando isso? – ele sai perguntando, irritado. Como não respondo, diz: – Imaginei que não. Então por que você não espera conhecê-la de verdade antes de julgá-la? Quer dizer, não foi isso que aprendemos no McKinley com o Sr. Schue. Cadê a Rachel com estampas de bichinhos, afogou-se no meio de tanto veneno barato da Cassandra?

– Ah, cale a boca. Ande logo, acabou com isso? – aponto para minha malha que ainda está presa em seus dedos.

– E você, acabou de fingir que conhece as pessoas só de olhar para elas? – ele revida, passando a peça para mim.

– Ótimo começo de manhã. Obrigada por carregá-lo um pouquinho mais. E ainda não o ouvi agradecer pela mesa que preparei especialmente para vocês.

– Ohhh, muito obrigado pelas torradas – Kurt diz em um tom afetado – Satisfeita agora? Pode sair daí para eu terminar de me arrumar, então?

Saio da frente dele, porque estou irritada.

Respiro profundamente. Preciso de forças para suportar até sexta à noite sem que eu surte aqui dentro.

~*~

Quando fui conhecer o apartamento da Santana e da Britt, há um pouco mais de oito meses, eu estava encantada e animada. Brittany não parava de descrever todas as suas manias irritantes – tais como ser sonâmbula e nunca, nunca mesmo, ser capaz de parar de falar sobre gatos –, e Santana compartilhava a mesma excitação que eu. Ela também estava muito feliz por estar recebendo mais alguém ali. Eu estava sorridente e pronta para recomeçar minha vida ao lado de duas pessoas maravilhosas e amigas.

Com certeza, eu não estava enjoada ou distraída como acontece agora, enquanto estou subindo os seis lances de escada do prédio de Kurt, Blaine e Rachel. Já do lado de fora pude perceber que o espaço interno é moderado, mas aconchegante. O aspecto envelhecido de tudo o que registro me deixa mais à vontade, porque adoro arquiteturas/acessórios/filmes/músicas antigas. Não me aderi ao estilo vintage fashionista apenas por uma questão prática: ir atrás de peças assim requer tempo e disposição, e não é como se eu soubesse exatamente onde ficam todos os brechós da redondeza.

– Por compactar poucos lofts é compreensível a ausência de um elevador – Kurt está dizendo, e suas palavras enfim chegam aos meus ouvidos. Decido prestar atenção nelas para que não me perca em meio a meus pensamentos sobre meu repentino nervosismo que gerou o meu enjoo –, no entanto seria um ótimo ganho de tempo. Sexto andar não é para todo mundo.

– É o último andar, certo? – prefiro averiguar simplesmente para ter algo a perguntar.

– Infelizmente – Blaine solta uma risadinha azeda.

Rachel, ao meu lado, está carregando no rosto uma expressão de alguém que não consegue conter seus pensamentos. Por isso, é previsível quando ela começa a diz numa voz animada de esquilinho maluco:

– É ótimo para fazer exercício, já não temos tempo entre a NYADA e nossos respectivos empregos para nos associar a uma academia, ou mesmo dar uma caminhada pelo bairro. Além de, obviamente, esta última opção ser um tanto quanto perigosa. Quer dizer, Nova York não é Lima. Não dá para, exatamente, sair a qualquer hora sem medo de ser assaltado ou abordado por vendedores de drogas.

Fico pensando se ela não se lembra sobre a conversa de ontem. Especialmente sobre a parte que eu disse estar morando aqui há mais de um ano. É de se esperar que, tendo isso em vista, eu esteja habituada com os perigos de Nova York. Realmente, eu sou abordada por vendedores de drogas todos os dias, porque eles devem achar que, já que pareço ser da classe alta, preciso de algum tipo de estimulante ou relaxante. Tento não ser muito grossa com essa gente, mas às vezes é impossível. Eles não se contentam com um “Não, obrigada”. Eles enfiam os pacotinhos no seu nariz e ficam dizendo: “Moça, essa erva tem ótima procedência! Vai querer mesmo desperdiçar a chance de experimentá-la? Olha que eu não vou oferecer outra vez!”. Mas eles sempre oferecem outra vez. É meio que uma regra.

É muito irritante estar atrasada e ser acompanhada por uma dessas pessoas, assim, tão explicitamente. Porque eles não têm vergonha ou medo de se mostrar à luz do dia. Eles praticamente pulam em cima de qualquer um que passe perto de seus pontos de venda.

– Hm, eu sei – é tudo o que digo. Quer dizer, o que poderia dizer? Ela é meio burrinha, ou o quê? Não é evidente que eu SAIBA sobre essas coisas, mesmo sendo de Lima? Além do mais, há tantos livros e seriados e filmes ambientados nesta cidade que é um pouco impossível não absorver qualquer tipo de informação sobre a violência ou sobre as drogas. E sobre as outras coisas também.

Isso serve para que Rachel guarde sua animação para si mesma por alguns segundos. Ela me olha de um modo que expressa claramente o quanto ficou ofendida por eu não tê-la respondido com pompons brilhantes e gritos de alegria.

Não me sinto culpada, porque acho que alguém precisa cortar toda a energia fingida dela. Não suportava mesmo mais conferir seu sorriso maluco – cujo todo o esforço mais parece uma imitação barata do Coringa. E isso, com certeza, estava me aterrorizando. Acho muito estranho essas pessoas que conseguem sorrir por qualquer coisa. Como se nunca passassem por dias ou momentos ruins. Mas acho que esse não é o caso dessa garota. Porque, pelo que soube, ela passou por muitos dias ruins nos últimos tempos – e não tem medo de fingir que está tudo bem. O que é infantil e ridículo.

Ao menos, se ela mostrasse o que seu interior reflete, eu poderia dar um voto de confiança a ela. Mas assim? Sendo uma fingidora a todo instante? É difícil apreciar a sua real personalidade ou o que ela tem verdadeiramente a oferecer.

Assim que atingimos o sexto andar, noto que há duas portas – uma à direita e outra à esquerda, cada uma localizada em um lado do corredor estreito. Kurt se adianta para a da direita e saca sua chave personalizada de dentro de um de seus bolsos do casaco pesado. Admiro suas vestimentas; elas são elegantes. Fico pensando que, se Santana o visse, não poderia afirmar com certeza que ele é gay. Olho para Blaine, que está um pouquinho mais atrás de Kurt, e percebo que ele aparenta ser bem menos. Se não tivessem me avisado sobre suas sexualidades, eu não seria capaz de discernir as diferenças, francamente.

Claro, Blaine usa gel no cabelo. E as gravatas brilhantes ficam por conta de Kurt. Mas afora isso, nada. Nadinha mesmo.

Gosto disso. De ser inserida nesse ambiente tão cheio de aceitação. Tanto quanto era o de Santana e Brittany. Suspiro, porque, apesar das diferenças que sei que enfrentarei, quase me sinto em casa aqui. No mesmo instante, sei que estou fazendo a coisa certa. Estou conhecendo novas pessoas e aceitando o que vejo.

Não pessoas desequilibradas – muito embora não possa afirmar isso sobre Rachel; esses sorrisos me parecem tipicamente doentios –, mas pessoas que provocam certo alívio em mim por estarem me proporcionando esta nova experiência. E, mesmo que isso perpasse pelo meu cérebro por apenas um segundo, por estarem me fazendo encontrar uma casa. Um lar de verdade.

Quando Kurt abre a porta e posso entrever com precariedade o que está além dele, não deixo de sorrir. Porque posso sentir a energia boa se espiralando por entre nós quatro, nos unindo e nos cumprimentando de um modo que me deixa nostálgica ao me fazer lembrar que apenas provava essa sensação quando estava em paz, na casa de Belleville. Faz quatro anos, mas a sensação persiste. Às vezes a sinto quando menos espero. Por conta de uma música. Ou por conta de algo que alguém me diz.

– Entre, entre. Sinta-se em casa – Kurt se apressa a dizer, direcionando seus dedos para o espaço que agora enxergo totalmente.

E, automaticamente, me sinto em casa. Estou em casa com todos esses objetos espalhados pelos balcões, com a enorme estante que abriga variados CDS e DVDS, com as cortinas rosa bebê com pintinhas vermelhas, com o enorme pôster da Amélie Poulain, com o seu guarda chuva, me olhando de uma das paredes.

Mal consigo respirar de felicidade. Estou plena e sossegada. Estou me sentindo a menina que eu era, boba e feliz. Sem seus problemas que a compeliram a mudar de cidade duas vezes. Sou mais uma vez a garota que não corre por causa de coisas ínfimas e que não aguarda o inesperado acontecer; ela o faz acontecer, porque não consegue ser obediente demais.

Estou encantada, básica e literalmente.

– Uau – é o que escapa de meus lábios enquanto meus olhos examinar cada pedacinho do local.

Há uma cama de casal perto do pôster da Amélie. A outra está afastada desta de forma proposital – seu lugar é do outro lado da cozinha, que serve como uma espécie de separação dos dois ambientes –, levando em conta tudo o que há em torno dela; papéis coloridos anunciando personagens excêntricos e bizarros, além de cartazes sobre óperas.

O banheiro fica localizado após o cartaz de Nicole Kidman e Ewan McGregor se beijando em Moulin Rouge. Quero conferi-lo de perto, para que não haja surpresas desagradáveis caso minha mudança acontecer de fato.

– Posso? – inquiro apontando para o banheiro.

– Ah, querida, sinta-se à vontade – Blaine diz com um gesto de descaso.

Cruzo o espaço – que, impressionantemente, é bastante amplo para um loft neste bairro de casas e apartamentos apertadíssimos – e logo chego onde quero. Rachel, por algum motivo, me seguiu, e a encontro disposta ao meu lado. Ela parece satisfeita.

O recinto tem tamanho médio – o suficiente para que acomode uma banheira de pezinhos realmente encantadora – e é bastante organizado. Há potes e embalagens de muitos cremes de variados tipos e para variadas finalidades, xampus, condicionadores e perfumes para tudo que é lado. Eles se acumulam até mesmo em torno da banheira. Fico impressionada com a quantidade, porque logo me sinto preocupada quando notarem a bagagem que irei trazer desse tipo de coisa que vai precisar ser alojada ali também.

Mas tudo bem. Certo? Nada é perfeito. Tenho certeza de que ninguém vai me expulsar apenas porque sou obcecada por cremes corporais e afins. Quer dizer, não é como se eu estivesse trazendo junto comigo um Dog Alemão. Além do mais, posso concordar totalmente em manter minhas embalagens dentro de alguma caixa, se eles preferirem.

– Como você pode ver, nós mantemos tudo muito organizado – Rachel diz, e noto um que de alerta e repreensão. Implicitamente, está falando: “Se você quer morar conosco vai ter de aprender a ser organizada também. Não toleramos nada fora do lugar”. Ignoro seu tom, porque ele não é necessário. Na verdade, também sou organizada. Certo, não sou maníaca por organização como Rachel dá a impressão de ser. Mas não deixo tudo espalhado. Não muita coisa, ao menos. É sempre a Britt que faz isso, o que me deixa louca com ela.

– Sim – eu digo, assentindo – Isso é ótimo. Organização é a chave para uma boa convivência. Assim ninguém se sente invadido.

Ela ergue as sobrancelhas como se estivesse desdenhando de mim, mas não diz nada. Anda até a cozinha e me deixa sozinha ali, de frente para o banheiro. Noto o vácuo – toda a frieza diante desta ação – e começo a ter problemas para me sentir calma. Agora, o enjoo se faz novamente presente como se eu estivesse aguardando o Julgamento Final.

Eu quero que eles me aceitem. Quero que eles se sintam maravilhados comigo para que eu faça parte do mundo deles também. Não há nada que eu mais queira, nesse minuto. Por isso, me distancio de onde estou e encaro os três.

– É um lugar incrível, de verdade – há muita sinceridade na minha entonação. Por mais que a atitude inexplicável de Rachel me incomode um pouco, ainda me sinto feliz. Sinto-me encontrada e resgatada – Posso me imaginar vivendo aqui com a maior facilidade.

– É – Rachel diz da cozinha com a voz contida –, apenas temos de sanar um problema. As camas.

Olho as duas camas de casal. Uma, claramente, é de Rachel. Fico me perguntando por que precisaria de uma cama dessas – tão grande e desproporcional – para si própria. Mas aí chego à conclusão de que, talvez, ela seja sua antiga cama, trazida de Lima. Quando eu era adolescente também tinha uma enorme cama – no entanto decidi não trazê-la comigo, por conta dos gastos excessivos com a mudança. E como eu moraria no alojamento da NYU não fazia mesmo sentido.

– Ah. Não se preocupe. Eu tenho uma cama de solteiro no apartamento onde vivo, tive de comprar para esse propósito – afirmo no mesmo instante, esperando tranquilizar a mente de Rachel que, não é difícil de notar, está em conflito por conta deste “problema” – Vocês podem ficar onde dormem mesmo. Não quero provocar nenhum tipo de incômodo ou modificação no ambiente.

– Ótimo – Rachel assente, sendo muito polida. Acho que ela gostaria de dizer mais coisas, mas se sente limitada. Talvez por causa dos meninos – Isso é ótimo.

Sorrio para ela, mesmo que, no fundo, não tenha essa intenção. Quero me livrar dela o mais rápido possível, na verdade. Quem sabe, poderíamos fazer uma votação para expulsá-la por sempre carregar esse ar fingidamente confiante e todos esses sorrisos psicóticos. Isso seria o suficiente para Santana decretar sua saída, se ela morasse no meu atual apartamento.

Rachel, de um modo que me pega totalmente desprevenida, também me sorri. É um sorriso diferente agora – não parece maluco ou fingido; ele é caloroso e um pouco tímido. É o mais próximo que ela chega da verdade que sente.

Não que isso me atinja de forma diferente. Quer dizer, sim, é legal vê-la reagir sem amarras, mas isso não detona com a minha primeira impressão sobre ela. Rachel ainda é uma incógnita para mim – daquele tipo irritante e nem um pouco instigante. Tenho certeza de que não quero conhecê-la. Ela não deve ter muito para se conhecer, de qualquer modo. Claro que ela tem um ego gigante e uma alma pobre. Isso é incontestável e notável. É pouco vivida e se contenta com as migalhas, apenas porque não pode conseguir coisa melhor. É fácil enxergar através dessas roupas esquisitas: ela ainda vive no prisma do colegial, seja lá quem ela tenha sido. Alguém não muito popular, arrisco.

– Agora precisamos da sua ficha criminal e de uma amostra de sangue – Kurt diz tão sério que torno a olhar para Rachel, que parece ser a pessoa mais severa dentre os três – Estou brincando.

– Ele quer dizer “Bem vinda ao caos” – Rachel me esclarece, dando de ombros. Ela não parece nem um pouquinho atingida pela piadinha do amigo. Permaneço mirando-a, até que ela descruza os braços e prossegue, com uma voz de quem trata de doentes mentais – Você passou no teste, está apta a dividir o loft conosco. Entendeu?

Entendi. Claro que entendi. Não sou burra. Ou surda.

Mas não consigo proferir nada. Fico parada olhando para eles como quem acabou de encontrar o poste inicial de Nárnia. Por um lado, quero gritar de felicidade – mas retrocedo na ideia, porque não sei como Rachel reagiria a isso; provavelmente ficaria ofendida mais uma vez. Por outro, quero abraçá-los ao invés de dizer algo.

E é o que faço.

Ser amiga de Santana e Brittany lhe dá isso: cara de pau. Não que eu saia abraçando todo mundo que eu vejo – isso seria visto como uma atitude insana demais até mesmo para os padrões nova-iorquinos –, mas aprendi a ser muito mais sociável e não ter vergonha do que quero fazer – seja abraçar três quase completos estranhos que serão meus novos amigos, ou pedir o telefone de algum cara no bar.

Os meninos parecem felizes pelo meu gesto. Kurt dá alguns pulinhos, pega minhas mãos e diz:

– Já adoro você!

Nós dois rimos e, ainda cética, avanço contra o corpo retraído de Rachel, que permanece afastada de Kurt e Blaine. Parece precisar de espaço. Como se eu tivesse invadido sua tranquilidade, e agora ela precise se recompor.

Mas Rachel me abraça mesmo também estando em dúvida quanto a minha ação inesperada. Os cabelos dela tem um cheiro muito diferente dos de Santana – quem eu vivo abraçando mais vezes. É uma mistura de castanhas com quinoa. É um odor bom, do tipo que me remete mais uma vez ao meu verdadeiro lar.

– Obrigada por isso – eu digo para ela. Não estou me referindo a sua permissão de eu abraçá-la, mas ao fato de ter consentido me ter ali também.

– Tudo bem – ela respira baixo. Parece que não sabe como proceder adiante a isso por muito tempo, portanto se afasta de mim sem que eu possa prever. Ela me olha por um segundo, então seus olhos recaem em Kurt – Seria uma boa ideia voltarmos agora. Eu disse que ajudaria a Mercedes em uma partitura para uma aula dela.

O sentimento de paz que borbulhou em meu estômago enquanto estávamos, por breves segundos, abraçadas se desvanece rapidamente. Noto que ela está tentando colocar um muro entre nós – uma distância da qual tem certeza que me repelirá. Comprimo os lábios, porque não gosto disso. Não gosto do modo como ela finge ser personagens completamente diferentes a todo momento. Quem é essa garota, afinal? Por que ela não pode deixar sua REAL personalidade emergir?

Mas coloco na cabeça que, se ela quer esse distanciamento, eu também o quero. Afasto-me dela, indo para perto de Kurt e Blaine. Ela fica sozinha na zona fria como um cachorrinho rejeitado.

Experimente isso, Rachel. Gostou?

Em todo caso, ela não deixa transparecer se gostou ou não. Simplesmente dá as costas para nós e anda até a porta, para abri-la. Em seguida, Blaine faz um gesto cavalheiro para mim, indicando que eu devo sair antes dele do loft. Sorrio para ele, porque, ao contrário de todo o gelo de Rachel, Blaine me cativa ainda mais.

Rachel já está descendo as escadas quando Kurt tranca a porta da minha nova casa e, então, desaparece. Balanço a cabeça de um lado para o outro, imperceptivelmente, tendo a certeza de que conviver com ela não será uma das coisas mais agradáveis do mundo. Sei que já enfrentei situações bem piores do que ser esnobada levemente por uma garota aparentemente um pouco arrogante demais, mas isso me deixa um pouco abalada.

Notas finais
Mereço reviews? Como vocês podem notar, a Quinn/Lucy narrou um pouco mais dessa vez, finalmente, HAHA. O que estão achando até agora? Beijos e até a próxima atualização (provavelmente no domingo)! (: