Newdreams
8 Tensão! Bruce versus Lilith.
O exército da morte havia parado, ao menos do lado de fora da locomotiva, para assistir as ações do homem loiro e também pareciam aguardar por ordens de sua rainha. Tanto ele quanto Lilith continuavam a se encarar e somente isso parecia trazer uma tensão ao ambiente àqueles que conseguiam assistir, mesmo entre batalhas no interior dos vagões.
–Não posso acreditar nisso! – exclamou um espadachim humano que estava trocando golpes de espada contra um soldado gnomo zumbi, por sua vez era bem rápido para o pouco tamanho e não estava a fim de assistir o que acontecia lá fora – Mas que droga! Você está atrapalhando, eu quero ver aquilo! – desferiu uma sequência veloz contra o gnomo que acabou todo retalhado.
Alex já estava completamente consciente, mas era inevitável que sofresse de tontura e fraqueza devido à quantidade de sangue que perdeu. O gnomo tinha cessado seu poder sobre o peito do garoto e agora olhava para Yuri, sorridente.
–Ele já está melhor, apenas não poderá lutar enquanto não recuperar o sangue que perdeu. Mas eu sinto duas presenças poderosas lá fora, não acho que será fácil evitar mais confrontos. – ele pulou para alcançar a janela uma vez, duas vezes... Até que Yuri se dispôs a ajuda-lo, tentando segurá-lo, porém o gnomo bateu na mão do garoto e cerrou o olhar – Não preciso da sua ajuda!
–Você é bem orgulhoso, né?
–E daí? Isso não é problema seu, imagino.
Yuri cerrou o olhar e depois empinou o nariz.
–Deveria ser mais respeitoso perante o rei.
–Não considero você como um rei. Nem ao menos travou uma batalha decente! – vociferou o gnomo.
–É porque eu acabei de assumir o trono e... – dizia o garoto todo sem jeito, até se tocar, balançar a cabeça e fuzilar o pequenino com seu olhar – Isso não é da sua conta! E aquele tiozinho conselheiro mentiu, disse que gnomos eram adoráveis, mas você é um porre!
–Parem vocês dois. – disse Alex, fazendo esforço para se levantar.
–Não vou te ajudar. – comentou o amigo com um bico enorme, revoltado por conta da última tentativa falha de ajudar alguém.
–Não quero sua ajuda! – retrucou com uma voz fraca e finalmente conseguiu ficar de pé.
Dessa vez o gnomo havia escalado a janela e quando seus olhos pequenos encontraram as entidades que lá fora estavam, ficou perplexo e paralisado, como se tivesse se transformado em uma estátua de decoração natalina.
–O que foi com você, anão? – questionou um Yuri desinteressado – A essa altura do campeonato, nada mais me surpreenderia – se aproximou lentamente da janela e ao ver aquela pessoa, seus olhos se arregalaram – PAAAAAAAAAI! – engasgou e começou a tossir, batendo no peito na tentativa de se recompor.
–O que? – indagou Alex, cambaleando até a janela e estreitando o olhar para conseguir ver melhor – Quem é aquela? E aquele?
–Não é possível! Você não conhece a rainha do exército de Hades? – surpreendeu-se o gnomo.
–Então aquela é a Lilith? – perguntaram os garotos em uníssono e por causa disso se entreolharam ferozes um com o outro.
–Sim, aquela é Lilith, A Predadora. Não permite que nenhuma presa escape, é tão malvada quanto se pode ser. – explicou o gnomo – Mas aquele homem não é qualquer um. Bruce de Ares, que uma vez foi rei do trono da guerra e muitas vezes declarado como o mais poderoso abaixo do próprio Ares. Apesar, é claro, de ter perdido em uma batalha contra o já falecido Kairos.
–É, eu soube dessa história. Meu pai perdeu em uma batalha pela disputa do trono, foi o que o tiozinho disse. Depois disso, ele abandonou esse mundo. Não posso acreditar que está mesmo ali, mas – Yuri olhou pela janela, engolindo em seco – Espero que fique tudo bem. Quer saber?! Eu vou até lá!
–Você vai o que? Fica quieto aqui! – Alex agarrou com força o braço do amigo, olhando-o completamente sério – Aquela é a rainha dessas coisas que nós acabamos de enfrentar aqui, entende? Seu pai está sozinho e lá está Elizabeth. Não acha que já tem problemas demais? Se nós formos até lá, não seremos nada além de peso morto.
–E o que quer que eu faça? Veja meu pai morrer? Olha o que ela fez com a diretora maluca. Você não sente raiva? – revoltou-se.
–É claro que sinto raiva! – retrucou Alex, soltando bruscamente o braço de Yuri – Mas o que nós podemos fazer? É como Elizabeth disse, não sabemos de nada. Agora a pouco usamos habilidades que até então não sabíamos que tínhamos, foi pura sorte e eu quase fui dessa pra melhor. Ele – referiu-se ao gnomo – Já nos disse quem foi o seu pai para esse mundo. Não acha que é melhor confiarmos nele?
Yuri engoliu em seco todas aquelas palavras. O ódio que consumia seu coração praticamente o obrigava a procurar encrenca com a própria Lilith, mas conseguia perceber com facilidade – por sinal se frustrando – de que não tinha a mais remota chance de sair vivo em um confronto contra aquela que havia matado metade dos reis. O amigo também estava com raiva, mas preferiu acreditar nas pequenas chances de saírem vivos daquilo e se conseguisse, treinaria ao máximo até ser capaz de evitar que mais seres se tornassem escravos daquela mulher. Não tinha certeza se era mesmo esse o caso, mas aquele sentimento de angústia o obrigava a pensar assim.
–Não fiquem parados aí. – disse com uma voz firme, ainda sim cordial, um homem que usava uma batina branca – Imaginei mesmo que estariam aqui depois que o gnomo druida deixou o nosso grupo. Aliás, pode me dizer o seu nome? Não quero ser rude chamando-o dessa maneira.
–Línio. – respondeu o gnomo, descendo da janela – E o seu, sacerdote?
–Baltasar. Os três, por favor, acompanhem-me para o grande vagão vazio. Todos os sobreviventes já está lá, protegidos dos soldados... Só um instante, sim?! – o homem virou para trás e toda a simpatia do seu rosto se esvaiu, dando lugar a um olhar acusador que recaiu sobre um soldado elfo zumbi que se aproximava sorrateiramente para ataca-lo. Baltasar ergueu a mão direita sobre o soldado e uma luz envolveu a criatura, que começou a berrar e se contorcer, claramente aparentando a mais angustiante das dores – Pereça diante do sagrado poder! – ordenou com imponência o sacerdote e a criatura simplesmente foi incinerada, restando apenas cinzas e as expressões atônitas dos garotos. Como se não tivesse acontecido nada, o homem virou-se para eles e sorriu – Vamos, sim?!
–Uau! – impressionou-se Yuri – Enquanto nós nos acabamos para matar esses bichos, ele só estende a mão e acende a luzinha. Saudades dos tempos de igualdade! – ironizou e o amigo suspirou, concordando com a cabeça.
Os três acompanharam o sacerdote até o vagão vazio, que mais parecia um abrigo de tempos de guerra, com feridos espalhados pelos cantos e sendo atendidos, outros sacerdotes cuidado da proteção – que por sinal deixou Alex intrigado, pois eles entraram através da barreira luminosa sem nenhum problema – e também estava ali Iris, a elfa arqueira, de prontidão para acertar qualquer inimigo que por acaso viesse a invadir.
–Senhor Baltasar – chamou Alex e o homem virou-se para ele com um ar de pura gentileza – Desculpe por perguntar isso, mas por que essa barreira não funcionou contra nós? Digo, aquilo brilhando nas entradas são barreiras, não é?
–É eficaz apenas contra mortos-vivos. Todos aqueles que estão irregularmente no mundo dos vivos não podem sobreviver à luz sagrada.
–Isso é incrível.
O homem sentiu-se lisonjeado e passou a mão sobre os cabelos de Alex com fraternidade.
–Atena, Deméter, Apolo, Dionísio, Hera e Hermes. Mal posso acreditar que esses seis tronos caíram pelas suas mãos, Lilith. – disse Bruce com um leve tom de desprezo – O restante, seus aliados trataram de aniquilar, não é mesmo?
–Eu os teria aniquilado. Não passavam de lixos. – retrucou com a mais absoluta frieza a mulher que apertava impacientemente o punho da sua espada.
–Não faço ideia de como conseguiram derrotar Kairos, mas isso já não interessa mais. Ainda não me respondeu, Lilith. Vai partir ou não? Pensa bem, porque o velhote tá chegando aí.
–Como se eu temesse aquele maldito. Preste bem atenção, Bruce, vergonha do trono de Ares – o homem cerrou o olhar nesse instante, se sentindo claramente desafiado – Eu sou aquela que irá governar não só o reino dos doze grandes, como também todo o mundo. E atualmente, sou A Predadora, o que significa que ninguém escapa... De mim! – seus olhos claros saltaram em uma expressão diabólica e com um rápido movimento de espada, partiu para decepar de vez a cabeça de Elizabeth.
Em meio segundo, Bruce havia acertado com a palma da mão a região da barriga da mulher que foi arremessada longe e usou a espada para se frear depois de tamanho impacto, riscando com a ponta dela no solo rochoso. Seu manto havia caído, revelando completamente seu quimono que tinha atrás o mesmo desenho, uma caveira clara com uma coroa negra. Após segundos cabisbaixa, ela olhou desafiadora para o homem que já não se mantinha mais com as mãos nos bolsos e também a encarava, tendo nos lábios um sorriso cínico.
–Matem-no! – ordenou Lilith e os soldados imediatamente partiram para cima do homem, incluindo os dois esqueletos gigantes que restaram.
–Arte da guerra! – Bruce bateu o punho esquerdo na palma da mão direita, com o semblante sério – Lanças da aniquilação!
Nos corpos de todos os inimigos que se aproximavam a um raio de cinco metros do homem, lanças eram cravadas de dentro para fora e uma onda de berros e quedas teve início. Nem mesmo os esqueletos gigantes haviam sido poupados, tendo em seus crânios várias lanças perfurando até chegarem ao ponto de parti-los violentamente. No fim, todos os soldados haviam sido aniquilados completamente, restando apenas os destroços que não se moviam, nem se regeneravam. Satisfeito, Bruce olhou de canto Lilith que se aproximava calmamente, sem o menor vestígio de ter sido machucada, nem ao menos havia levado a mão na barriga em momento algum após o golpe recebido.
–Elizabeth. – ele abaixou-se perante a mulher em estado de choque que tinha o sangue coagulando no ferimento da mão – Aguente só mais um pouco, ok? – sorriu levemente e depois se levantou, andando na direção de Lilith no mesmo ritmo que ela fazia.
–Desista, vergonha do trono de Ares!
–Você é uma gracinha. Se não fosse tão problemática, te convidaria para sair.
A mulher virou o rosto e cuspiu, em um claro tom de ínfimo desprezo. Bruce não se ofendeu, ao contrário, abriu um sorriso que demonstrava a mais absoluta satisfação e no segundo seguinte, estavam frente a frente, com um espaçamento menor que um metro entre eles. Seus olhares desafiadores pareciam faiscar, o clima parecia não poder ficar mais tenso e o silêncio era absoluto, tendo encerrado no trem as batalhas, ainda que com algumas perdas de passageiros.
–Lilith, eles não estão prontos, são tão fracos ainda. Por outro lado, o velhote ainda restou em um dos tronos da antiga geração. Fazer o que é mais fácil? Essa é a sua estratégia? Bem nota-se que não aprendeu nada com Sophia.
–A rainha de Atena está morta e quer saber?! Foi muito fácil matá-la. Agora, só falta a irmã, então não atrapalhe.
Bruce a olhou com desdém, não estava satisfeito em ouvir aquelas palavras, isso havia ficado claro para quem quer que notasse.
–Se o velhote chegar aqui, o clima vai esquentar. – disse na tentativa de voltar ao seu humor cínico – Literalmente, eu sei que me entende. Você está tão cega pelo poder que vai ignorar suas limitações? Ou vai me dizer que seus aliados estão vindo para cá? Seria um espetáculo e tanto.
–Você fala demais, maldito...
–Que amável. Nós crescemos juntos, mas confesso que está cada dia melhor. – não só seu tom, como também seu olhar deixaram expostos o mais absoluto sarcasmo – Por que, Lilith? Por que está fazendo essa loucura? Você não é assim! – disse, agora mais sério e repreensivo.
Sem qualquer expressão que não fosse a de indiferença, a rainha de Hades embainhou sua espada ao lado da cintura e respondeu:
–Um trono, foi tudo o que pedi, mas vocês, malditos, me negaram o que era meu por direito. Ignoraram-me e também ao meu ancestral. Falaram tanto que o poder da morte só poderia trazer o mal, não é mesmo? Pois agora devem estar muito satisfeitos com os resultados. Newdreams se transformará no reino que eu quero, que governarei, porque ninguém mais sabe fazer isso com justiça!
–Justiça? – indignou-se Bruce – Como fala de justiça, matando e fazendo tudo o que está fazendo?
–Não venha me julgar, você nunca foi o melhor para pensar e sabe disso. – nesse momento ele engoliu em seco, porém não desviou por muito o olhar – O que fiz, está feito! Saia da frente, Bruce... Ou não terei piedade e acabarei com isso eu mesma.
–Se atreva... – sorriu desafiador e recebeu em troca um olhar que o fuzilou, repleto de raiva – Você ainda não quis sequer me causar um arranhão. Estou esperando que faça direito.
–Odeio você! É um maldito! Mas tudo bem. Já que terei de ir embora... – Lilith lançou um olhar furtivo que foi facilmente percebido por Bruce, na direção do trem e quando o homem constatou, ficou incrivelmente surpreso e atordoado.
Baltasar, o sacerdote, estava com Alex inconsciente sobre o ombro e tinha um sorriso incrivelmente suspeito. Sem pensar duas vezes, Bruce fez menção de partir para cima deles, porém foi contido por Lilith que apontou em seu pescoço a espada.
–É melhor não. Você conhece Baltasar, sabe que não hesitaria em matar aquele garoto.
–Planejou isso muito bem. – disse ele com desprezo – Usando esse maldito sacerdote traidor. Saia ou eu não terei piedade!
–Se atreva... – dessa vez Lilith, parecia estar bem próxima de sorrir e seu tom de voz era bem suave.
Bruce cerrou os dentes e olhou em direção a cabine onde estavam todos, mas não havia ninguém nas janelas e isso só o deixava mais aflito.
–Nos encontraremos em breve. A menos que fuja novamente... Covarde. – zombou a mulher que em seguida pulou sobre um dragão cadavérico em um voo rasante, junto ao traidor Baltasar e Alex, em direção ao leste.
Bruce nada fez além de observar a retirada deles por alguns momentos e só então, com Elizabeth no ombro, foi em direção ao trem, no vagão onde estavam todos inconscientes assim como Alex. Seu filho Yuri estava bem próximo da porta, talvez um gesto de que tivesse tentado evitar o sequestro do amigo.
Os sinais da batalha estava tanto dentro, quanto fora da locomotiva que misteriosamente voltou a funcionar, levando todos até o próximo destino, a cidade dos elfos, Raymoon.
–ALEEEEEEEEEEX! AAAAAAAH, ME SOLTAAAAAAA! – gritava um Yuri furioso momentos mais tarde, tentando se livrar daqueles que tanto o seguravam.
–Ele já foi levado, Yuri. – disse Bruce, segurando nos ombros do filho e o encarando implacavelmente sério.
–Então vamos atrás dele! Não podemos deixá-lo com aquela maldita, vai matá-lo! Qual é, pai? Por que deixou isso acontecer?
O homem engoliu em seco, pois sabia que o filho tinha razão, havia sido pego de jeito pelo plano da rainha de Hades.
–Seu pai com certeza fez o melhor que pôde nessa situação. – interrompeu o gnomo Línio, enquanto tratava de Elizabeth que já estava consciente, apesar de fraca.
–Eu vou matar aquela desgraçada! Ela vai ver só uma coisa. – o garoto estava inquieto, andando de um lado ao outro e esse mesmo movimento faziam as cabeças de todos, o acompanhando, perplexos – Vou para essa tal cidade dos elfos onde mora a gostosa da Iris – a elfa desviou o olhar, constrangida – E me tornarei forte de alguma forma.
–Não é tão simples, Yuri. Mas está no caminho certo com tanta determinação, está sim. – disse Bruce, que espiava pela janela.
–Ainda não entendi, vossa majesta... Quero dizer, senhor Bruce. – aproximou-se o gnomo cuidadosamente – Como foi que chegou até aqui?
–Caramba! O barco alugado! – pulou Bruce, meio desesperado – Os gnomos do porto de Esmeralda vão querer minha cabeça por esquecê-lo ali. Enfim, estava andando de barco, relembrando algumas coisas, sabe?
–Entendo perfeitamente.
–Pai, não pretende ir embora, né?
O homem se aproximou do filho e esfregou a palma grande da mão sobre seus cabelos loiros, bagunçando-os.
–Não, mesmo que não devesse estar aqui. Preciso estar ao lado de vocês, afinal é um assunto que também me envolve. Só espero que Margareth não fique sabendo sobre o que acaba de acontecer, ela surtaria.
O garoto, ainda que se sentisse confortável com a presença do pai, tinha o olhar perdido na paisagem externa que mostrava a janela da cabine. Seu amigo havia sido levado tão rápido quanto o havia conhecido. E ao pensar nisso, notou que não dormiu por dois dias inteiros e com a notícia que a viagem demoraria um pouco mais, procurou um banco que não estivesse sujo de sangue ou destruído para então repousar um pouco até chegarem em Raymoon.
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