Newdreams

2 Portal das Dimensões.


O dia ensolarado na capital goiana não foi o maior problema de Alex em casa, nem sua mãe questionando sobre quando o sistema educacional iria melhorar, mas sim o relógio. O ponteiro menor parecia, aos olhos do garoto, ainda mais lento do que o normal, estava ansioso e se condenava por isso. Deve ser uma brincadeira, pensou ele, ou talvez ela seja uma sequestradora, mas não vou deixar que faça o que bem entende.

Três horas da tarde. Quatro horas da tarde. Cinco, seis... O garoto ainda não havia se decidido sobre o que diria a mãe. E se fosse verdade? E se ele fosse para outro mundo e ela ficasse aqui, preocupada? Não seria nada bom desaparecer assim, muita irresponsabilidade.

–Mãe, eu vou comprar um refrigerante. – gritou da cozinha ao finalmente achar uma desculpa enquanto olhava a geladeira.

–O dinheiro está dentro do pote em cima da mesa. Vá com cuidado.

–Pode deixar.

O garoto saiu de casa, usando um boné laranja da New Era, Denver, que cobria seus lisos cabelos pretos, de aba para frente, camisa preta e uma bermuda cinza, sem falar que exclusivamente nessa noite estava usando um par de tênis brancos, como se fosse a uma festa adolescente. Levou consigo o dinheiro e traria o refrigerante na volta, mas primeiro foi até o colégio.

O coração de Alex batia aceleradamente, sua consciência questionando-o o tempo inteiro sobre a razão pela qual estava ali. Mas outra parte de si queria acreditar nesse mistério todo, sobre esse tal outro mundo e isso de rei Hermes. Hermes é um deus da mitologia grega, pensou, por que chama-lo de rei? Melhor eu não pensar nisso agora.

–Alex! – era Yuri, se aproximando cada vez mais, usando uma bermuda preta, tênis pretos e uma diferente camisa do Iron Maiden, agora era The Trooper – E aí! Falta cinco pras sete. Eu pensei nessa maldita hora o dia todo.

–Eu também. – retrucou sorrindo – Disse para a minha mãe que ia ao supermercado.

–Eu deixei minha irmã na casa da minha prima. Moramos só ela e eu. Meu pai manda pensão e minha tia passa algumas horas lá em casa. Se o conselho tutelar souber... Mas não dou à mínima, vivemos muito bem assim.

–Olha, aquela ali é...

Yuri se virou para olhar na direção onde Alex indicava e viu se aproximar a diretora, que só tinha como diferente a cor do mesmo tipo de roupa que usava, ao invés de vermelhas, agora eram pretas.

–Vocês vieram. – ela disse com um sorriso, parando bem próximo deles e falando mais baixo – Faltam dois minutos. Está na hora de ativar o Ilusório.

Os garotos estavam para falar alguma coisa, mas com um gesto de indicador ela os silenciou, enquanto tateava o bolso na perna com a outra mão.

–Responderei tudo que quiserem, mas primeiro...

Finalmente havia encontrado, então trouxe a mão fechada e diante deles, abriu e revelou uma pedra que mais parecia um diamante, do tamanho de um morango.

–Ative-se, Ilusório. Por mim, por Yuri Souza de Ares e por Alex Ribeiro de Hermes. Esconda-nos, Ilusório!

Os garotos se entreolhavam várias vezes e Yuri arqueou sua sobrancelha, parando seu olhar na diretora que sequer sabia se era mesmo diretora.

–É... Acho que essa mulher aí, além de pedófila, não bate muito bem. — sussurrou e com o dedo indicador ele fez um gesto circular perto da orelha, olhando para Alex, que suspirou decepcionado.

–Teria sido melhor ter comprado o refrigerante.

–Quietos! — retrucou a diretora maluca e logo viu-se que a pedra chamativa estava brilhando intensamente, seu brilho era tão intenso que quase poderia ser comparado ao de raios solares batendo nos rostos dos garotos, portanto eles tiveram que cobrir seus olhos.

–Que coisa é essa? — perguntou Alex, que recebeu logo em seguida uma cotovelada de Yuri por isso.

–Pergunta não cara, essa mulher aí é birutinha, não deu para notar ainda? — a mulher revirou os olhos, inconformada por eles ainda não conseguirem entender que estava ouvindo tudo, mesmo que Yuri falasse em sussurros.

–É a maneira de evitar que os terráqueos presentes nas proximidades saibam sobre nós, descendente de Ares, Yuri.

–Então vai dizer que agora estamos escondidos? — Yuri novamente fez circulos com o dedo indicador perto de seu ouvido, sussurrando extramemente baixo um "ela é doida" para Alex, o que fez a mulher pensar que realmente teria muito trabalho com esses dois.

–Sim, descendente de Hermes, Alex. Enquanto o Ilusório brilhar, ninguém poderá nos ver.

No início os garotos não acreditaram e acharam que aquela pedra era algo tecnológico – Yuri chegou a pensar que poderia encontra-la na feira. Mas foi quando um casal de adolescentes atravessaram seus corpos como se fossem fantasmas, que ambos começaram acreditar, apesar de estarem completamente atônitos e confusos, Yuri segurava-se para não gritar apavorado.

–Ela me matou! O que será do mundo sem um cara com um corpinho desses? — ele passou a mão pelo corpo, gabando-se e nesse instante, estranhamente um vento bateu e fez com que os seus cabelos se bagunçassem, deixando-o um tanto quanto atraente, o que fez Alex revirar os olhos.

–Faltam quinze segundos. O portal surgirá e ficará aberto por trinta segundos. Descendentes dos reis, espero que estejam prontos.

–E minha mãe? Ela vai ficar preocupada. Eu não posso ir!

–Descendente de Hermes, Alex, talvez tranquilize-se com a ideia de que ela sabe exatamente para onde você está indo.

–E minha irmã? Eu preciso cuidar dela. Ela com certeza não...

–Sim, ela não sabe, descendente de Ares, Yuri. Mas a sua tia sabe. Deixemos as explicações para depois, o momento chegou...

Algo inacreditável aconteceu diante dos olhos dos garotos. No ar sobre a rua, surgiu uma espécie de portal, que possuía as extremidades como se fossem feitas de metal muito bem polido e o centro que parecia cheio de várias estrelas se movendo lentamente em rotação.

–Vamos, descendentes. – disse a mulher que andou calmamente até bem próximo do portal e ao ouvir o silêncio atrás de si, parou e completou – A menos que queiram deixar passar a oportunidade de obter respostas sobre suas origens.

Alex engoliu a seco, receoso, já Yuri deu de ombros e andou três passos a frente, como sempre deixando o outro atônito, como ele pode ser tão tranquilo em situações como essa? Pensava, então Yuri o olhou, com um sorriso de canto no rosto.

–Ah, qual é?! — deu uma palmada no braço de Alex -Já estamos aqui mesmo, se ela for ou não uma maníaca, não tem como fugirmos. — Alex ficou boquiaberto e a mulher, após dar mais uma breve revirada de olhos, apressou-os e o primeiro a atravessar o portal foi Yuri, logo em seguida, respirando fundo e estufando o peito, Alex foi e por último, a mulher.

A sensação era como se eles estivessem indo para frente em alta velocidade e sentissem o vento tão, mas tão forte que tiveram que fazer dos braços, seus escudos. Os olhos deles se arregalaram ao verem tantos locais surgirem diante de seus olhares, foi aí que sentiram como se seus estômagos fossem pular a qualquer momento e por fim, estavam ajoelhados no chão.

–Ora, levantem-se! Não sejam tão moles.

–Sinto um peso no meu corpo inteiro. – disse Alex.

–Parece que eu estou caindo sem parar. – dessa vez, Yuri.

–A estrada das dimensões causa essas sensações. Se ficarmos parados, a tendência é piorar. Devemos atravessar até o outro lado imediatamente.

Yuri ergueu a cabeça com dificuldade e se esforçando bastante, conseguiu ficar de pé. Quando olhou ao redor, ficou incrivelmente surpreso, pois só havia escuridão salpicada por o que talvez fossem estrelas. Olhou para baixo e viu que estava em cima de uma estrada que lembrava a extremidade do portal de antes, também parecendo ser feita de metal bem polido e com um bem baixinho rodapé em ambas as extremidades – se caíssem, ele cogitou, estariam perdidos.

–Alex, tá tudo bem aí? – estendeu a mão para o colega, ajudando-o a se levantar.

–Cara, isso é insano.

–Vamos logo! Não ouviram o que eu disse? – reclamou a mulher.

–Você está esse tempo todo nos dizendo o que fazer e tem também todas essas coisas estranhas, só que nem ao menos nos disse o seu nome. – retrucou Alex, com a voz um tanto fraca.

–Se vão andar logo caso eu lhes diga, então tudo bem. Meu nome é Elizabeth de Atena. Descendente da rainha Atena. — ela ergueu seu queixo e Yuri a encarou melhor.

–Atena né? Deusa do sabedoria... Gatinha, se você não parecesse tão velha eu deixaria você me ensinar o que sabe... — se gabou, como se ele deixar algo assim fosse muito raro — E se não tivesse esse cabelo branco, blé! — completou, virando a cara e fazendo careta, tão logo recebendo uma cotovelada de Alex. -O que? — perguntou, confuso.

–Cara, você paquera até a descendente de deusa, fala sério! — Alex se afastou, inconformado, balançando a cabeça em negativa.

–Mas ela deveria se sentir honrada, não é sempre que deixo as garotas fazerem isso. — deu uma piscadinha para Elizabeth, que cruzou os braços e revirou os olhos -Ah, qual é... — ele se aproximou de Alex e de Elizabeth, esta última já andava a passos apressados, parando apenas para fuzilá-los com os olhos verdes e penetrantes. -Andem logo!

Durante o trajeto, os garotos olhavam tudo ao seu redor e só enxergavam a mesma coisa – escuridão, estrelas e estrada que talvez fosse feita de metal. Não dava para ver o fim daquela estrada e Yuri desejou ter ao menos uma bicicleta para que chegassem logo. No entanto, enquanto olhavam distraídos para os lados, atravessaram uma espécie de camada que dava sensação gelatinosa e uma luz solar trouxe um certo incômodo aos seus olhos adaptados a noite, sem falar no som de ondas d’água se movimentando.

–Cara! O que é isso? Onde estamos? – disse Yuri, colocando a mão como se fosse a aba de um boné sobre a testa.

–Não faço ideia. – Alex retrucou, acertando melhor o boné laranja – Mas... Espera um pouco. – começou a analisar o lugar e a surpresa invadiu sua cabeça mais uma vez naquele estranho dia – Estamos em uma praia?

–Estamos. – respondeu Elizabeth – Perto daqui fica a Capital dos Doze Reis. E antes que perguntem, vou lhes apresentar esse mundo... Bem vindos a Newdreams. — ela abriu os braços e deixou que um sorriso tomasse conta de seu rosto.

Notas finais
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