New York Tales
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Obrigada desde sempre, deixe seu comentário ^^
New York Tales
Prólogo
Nova Iorque, dia 24 de dezembro de 2013, 18:30 – Rockefeller Center
O frio que fazia na região do complexo de Rockefeller Center era cortante, as pessoas passavam na rua apressadas, como sempre, entrando e saindo de grandes lojas departamentais com embrulhos de natal cor vermelha e verde — um clichê.
A neve caia determinada, e logo os que perambulavam pelas ruas de concreto brilhante subiam seus cachecóis até a boca. Era mais um dia normal na Grande Maçã. E é na cidade que nunca dorme que se inicia o nosso conto.
Lá estava ela, as botas peludas da Uggs cobrindo o tornozelo ossudo, um sobretudo preto manchado pela neve fria, bochechas queimadas pela temperatura e mãos descobertas tentando buscar calor nos bolsos do casaco. Alguns observavam a menina, e se perguntavam o que uma garotinha com aparentes 13 anos fazia parada na frente do Empire State Building com um embrulho vermelho na mão? Só as batidas violentas de seu coração e a falta tremenda de ar sabiam a resposta.
— Já devem fazer uns 30 minutos. – Ela observou em voz alta enquanto admirava a fumaça que saia de sua boca distraída, e tentando acalmar a ansiedade, passava os olhos pela maré de pessoas que preenchiam a região.
E lá estava ele, — um borrão no horizonte — apesar de não tê-la avistado ainda, ela havia o avistado a muito tempo, tentou conter um sorriso enrolando as madeixas do cabelo dourado com o dedo indicador.
Lá estava ele — todos os barulhos daquela cidade se extinguiram, o frio já não penetrava mais, as pessoas já não expeliam nenhum som, e a única coisa que importava era o rapazinho que se aproximava da garota do embrulho vermelho. Era a hora da verdade, pelo menos era o que ela acreditava, antes de seu mini paraíso ser destruído pelo som de uma buzina, seguida de um grito, e o borrão no horizonte se tonar um misto de pavor e uma cor vermelha — uma cena inesquecível.
Foi assim que começou a véspera de natal na cidade das oportunidades, um coração partido por um golpe da morte e da culpa.
Porque no fim das contas, nunca é hora da verdade.
Capítulo 1
Quase dois anos depois...
Canadá, Toronto, dia 23 de setembro de 2015 16:15
— Não aguento mais treinar, cara. – Luke Frattari tirava seu capacete pesado, seus cabelos castanhos bagunçados tinham os fios espalhados pela testa devido às gotas de suor espalhadas em seu rosto, deu um sorriso bobo junto à uma expressão de dor, que sem duvida se tornou uma cena de tirar o fôlego de qualquer líder de torcida que havia a presenciado.
— Eu que não aguento essa sua cara feia, Xuxu. – Caspar — o melhor amigo — argumentou enquanto arremessava a bola de futebol americano no ar — A cada dia que passa você vai se tornando mais um idoso. Não era para você estar ansioso com seu intercâmbio para Terra do tio sam, ou coisa do gênero?
— Eu tô ansioso. – Luke o corrigiu enquanto alongava seu ombro dolorido — Só estou meio cansado de fazer a mala e consolar minha mãe o dia inteiro. – Verdadeiramente estava cansado, tão cansado de sua cidade natal que era quase impossível se sentir ansioso até ter colocado os pés dentro do avião que o levaria para bem longe dali.
— Sabe o quê ia te ajudar a relaxar? – O amigo abriu um sorriso enviesado que só não era pervertido pela grande dose de ousadia que o garoto carregava na personalidade.
— Não fale sair com a Lindsay...
— Sair com a Lindsay! – O futuro intercambista revirou os olhos.
— Já te falei que eu não tenho tempo, muito menos para a Lindsay, Caspar. – Ele respondeu irritado.
— Está ocupado demais chorando pela sua ex-namorada, Xuxu? Aquela lá que te traiu? – O loiro provocou sem piedade.
— Claro que não. – Claro que sim. Apesar de incrivelmente bonito, Luke Frattari era sim só mais uma vítima do amor, mas no fundo, não somos todos? – Eu superei essa história.
— Se você está dizendo... – Caspar continuou rodopiando a bola de futebol em suas mãos, enquanto Frattari tentava se livrar das ombreiras — Pode deixar, eu saio com a Lindsay para honrar seu nome! – Os dois atravessaram o gramado seco à gargalhadas.
Caspar e Luke se conhecem desde que nasceram, já que seus pais eram amigos de adolescência. Apesar de personalidades opostas, os dois se davam bem como irmãos, ou como o próprio Caspar costumava dizer, eles eram como parceiros do zigoto, não fazia muito sentido, como metade das coisas que ele dizia, mais biologia não era seu forte — preferia mulheres.
Dirigindo à caminho de casa, navegando em seus pensamentos ia nosso mais novo herói, pensando no seu intercâmbio para os Estados Unidos proposto pela sua mãe depois do divórcio de seus pais, e como ele realmente acreditava que seria uma boa experiência — ao menos Luke esperava que sim.
— Mãe, para de chorar, não é como se eu tivesse indo embora agora –Tentava, em vão, acalmar a mãe, que apertava o cashmere de algodão que vestia contra o corpo vendo a mala do filho escancarada em cima da cama.
— Ai meu filho, você só tem 16 anos! Como eu vou ter certeza de que você está bem!? Se você quiser ficar ainda dá tempo – Ela relutava contra a tremedeira e as lágrimas que desciam suas bochechas enrugadas — E se te tratarem mal? Você vai me ligar todos os dias, todos! E ai de você se não me ligar – Ela procedeu a bater nas costas do filho como se estivesse o repreendendo antes do ato.
— AH, com o controle da TV não, mãe! Eu vou te ligar todo dia, eu juro – Luke prometeu fazendo-a se acalmar.
— E se essa sua 'Host Family' for psicopata, te fazer algum mal? — Ela interrompeu os tapas com uma expressão apavorada.
— Que? Esse tipo de coisa não acontece, mãe.
— Claro que acontece! Vou ligar na empresa de turismo e cancelar essa viagem agora! – A mãe não decidia se ria ou continuava chorando com a expressão assustada que o filho fez. Como iria sentir falta do seu menino, mas por maior que fossem seus medos sabia que ele era um rapaz responsável.
— Não, me dá esse telefone aqui. Não inventa história, Dona Claire – Foi aí que ela decidiu rir e chorar ao mesmo tempo.
A temperatura começava a cair naquela noite de Toronto, o céu apesar de um pouco nublado, ainda tinha a presença de algumas estrelas. O garoto ia sentir saudade da cidade em que nasceu e cresceu, mas seu maior sonho era explorar o mundo, esse intercâmbio pra ele seria só o começo, ou melhor, Nova Iorque seria seu recomeço.
Nova Iorque, 23 de setembro de 2015, 20:00
Gabriella
Mais uma vez o toque irritante mas viciante do meu celular expandiu seu som pelo meu quarto, fazendo com que Mackenzie e eu fossemos desesperadas — mais uma vez ver o que a telinha de notificações anunciava, e mais uma vez não era o Max, e o sim o grupo de mensagens que minha família em Louisiana tinha inventado para ficar mandando correntes, que horas esse garoto ia resolver me mandar uma mensagem?
— Calma flor, ele deve estar ocupado com alguma coisa... – Mackenzie observou enquanto esticava as pernas bronzeadas no tapete persa cor areia que cobria o chão de meu quarto. Havia pintado cada unha do pé de uma cor enquanto jogávamos conversa fora desde as quatro da tarde.
— Ocupado com o que Mackenzie? Não precisa de muita disposição pra mandar um oi – Reclamei sacudindo o celular como se fosse fazer o maldito Max agilizar um pouco.
— Às vezes ele está envergonhado Gabi – Ela argumentava enquanto lixava as unhas afiadas, que por sua vez tinham um esmalte azul-marinho borrado na cutícula.
Mackenzie era a típica diva nova-iorquina no sentido completo da palavra; Do tipo que passaria uma vida fazendo compras na Saks em dias chuvosos, usando luvas até o cotovelo, viajando para Montpellier nos verões quando a cidade ficava quente demais para desfilar pela Fifth Avenue, e acabar se casando com um Lorde inglês que fumaria charuto e ter dois filhos que falariam latim e francês fluente — mas ela morreria em Nova Iorque.
Pelo menos era o que ela me dizia.
— Mackenzie, à quantos anos eu e você conhecemos o Max Chadwick para você me falar um absurdo desses? – O garoto não era tímido, de forma alguma.
— Me responda você, querida, que conhece ele faz todo esse tempo e só agora foi provar o mel – Ela provocou atirando a lixa em minha direção.
Nós duas caímos na risada, mas rapidamente nossa atenção voltou pro celular irritantemente imóvel jogado no colchão.
— Às vezes vocês ainda não passaram da fase um – Ela retorceu os lábios contornados e torceu a cabeça. Era tão expressiva que chegava a ser engraçado.
— Fase um? – Perguntei.
— Sim, na fase dois de um namoro é quando o garoto passa à mandar mensagens todos os dias e perguntar como você está mesmo sem querer saber – Mackenzie ergueu o dedo indicador como se estivesse me dando uma aula.
— Não sei dizer se estamos realmente namorando... – Namorar era uma palavra um pouco forte para dois melhores amigos de infância que resolveram que tem muito em comum há um mês atrás só porque um deles passou um ano sabático em Londres e voltou três vezes e meia mais bonito, com um resquício adorável de um sotaque anglicano e um sorriso que eu já não via à um tempo, principalmente depois do que aconteceu— Mas quando aconteceu, sorrir era uma tarefa realmente difícil.
Nosso silêncio teatralmente trágico foi interrompido por dois toques na porta do meu quarto.
— Filha, será que a Mackenzie não se importaria de eu te pegar emprestada uns minutinhos? Preciso conversar com você lá na sala – Minha mãe sorria sem dentes esperando minha resposta enquanto eu e Mack trocamos um olhar rápido e levemente aturdido, quase um mal pressentimento compartilhado. Minha mãe nunca pedia licença a Mackenzie.
À segui pelo corredor até a sala, onde permanecemos em silêncio.
Meu pai se ergueu da poltrona de vime quando me viu e abriu em seguida um sorriso quase Monalisa. Não dava pra saber se ele queria me esfolar ou talvez me dar um abraço. Minha irmã — Elizabeth, também conhecida como Lizzie — Estava sentada sorrindo de orelha em orelha, mas como ela sempre ri de meu infortúnio, aquilo não significa nada.
Mas a única parte que realmente me apavorou foi quando eu vi o jogo de xícaras de chá Oxford, que minha mãe havia comprado em Florença em uma viagens de negócio e havia à denominado-as ''para ocasiões especiais''. Mas não ocasiões especiais como anúncios de casamentos ou viagens surpresa de trem para Saratoga — E sim ocasiões como '' A gripe suína chegou na cidade, se algum colega de classe tossir mais de três vezes seguidas — álcool em gel!'' Então não poderia ser boa coisa.
— Filha, eu e sua mãe tomamos uma decisão – Meu pai coçou a barba moída e se inclinou na cadeira de forma lenta e dolorosa, enquanto meu cérebro buscava as coisas erradas que eu havia feito ultimamente, mas não consegui me lembrar de nenhuma — Eu não era uma garota má .
— Lembra como seu pai e eu nos conhecemos no intercâmbio que eu fiz da Irlanda para Nova Jersey? Nos conhecemos porque ele era vizinho da minha Host Family e decidimos nos casar e mudar para cá? – Obviamente me lembrava dessa história, e a achava a mais romântica de todas, mas ela continuou não me dando um rumo na conversa.
— Sim... Eu sei – Disse baixinho.
— Como eu sou muito grata pela experiência que tive quando jovem, eu e seu pai decidimos um mês atrás nos tornarmos uma Host Family, e vamos receber um intercambista daqui uma semana pra passar um ano conosco, não é legal?
A minha irmã ampliou tanto seu sorriso banguela que era quase possível enxergar o seu terceiro molar — o que me irritou de certa forma. Meus pais olhavam pra mim como se esperassem uma aprovação, mas com um sorriso positivo no rosto, como se eu fosse apenas aceitar aquilo tudo. Minha respiração falhava e eu conseguia sentir um nó na minha garganta se formando — Em uma semana!? E eles nem queriam saber o que eu pensava disso antes de mergulharem de cabeça nessa história!?
— Deixa eu ver se entendi, vocês vão receber um jovem aqui em casa. Já tomaram essa decisão há um mês, e me avisaram faltando uma semana para minha casa ser invadida por um desconhecido? –Perguntei sarcástica. — Que divertido.
Lizzie recolheu o sorriso rapidamente — Apesar de aparentar ser só uma garotinha de doze anos que idolatra a Toys R Us e tinha um kit de montar miçangas, minha irmã tinha apenas o sarcasmo e outras práticas da magia negra como seu forte — Era a pessoa mais manipuladora de toda a Manhattan, por esse mesmo motivo à amava tanto.
Meus pais murcharam seu positivismo em seguida.
— Claro que é assim, é sempre assim. Vocês sempre planejam tudo sem mim e me deixam por último em todas as suas loucuras – Senti o meu rosto queimar violentamente – Eu tenho opiniões, sabia?
— Claro, minha filha, nós achamos que ia achar uma ideia legal, o intercambista...
— Não quero saber, pai, não vou participar dessa idiotice dessa vez, se estão pensando que eu vou ajudar a receber essa pessoa e a fazer se sentir bem acolhida em casa, melhor achar outra saída, porque vou fingir que ela nem existe.
Sim, acabei parecendo a filha mais insuportável do mundo, mas vou tentar expressar meu lado da história. É sempre assim, meus pais fazem viagens para lugares que nem a geografia reconhece, aulas aeróbicas indianas em conjunto e até compraram um barco veleiro em Plattsburgh. Ano passado, contrataram um fotógrafo especializado em fotos de celebridade para o álbum de família, que passou a seguir eu e minha irmã pela cidade sem que nós duas soubéssemos, tirando fotos escondido, já que meus pais acreditavam que o ''o melhor tipo de foto é a espontânea''.
Eles eram malucos, divertidos e apesar de aparentarem serem um casal banal da alta-sociedade, sabiam viver a vida em sincronia desde a bendita viagem em que se conheceram, e tudo isso talvez fosse maravilhoso, se não fosse invasivo, e se eu sempre fosse a última a ficar sabendo de tudo. Se eu não tivesse perdido inúmeras festas e acontecimentos porque meus pais de última hora resolveram me mandar para austrália em uma instituição de cangurus, me colocarem em aulas de pintura aquarela à dedo, ou até um curso de sobrevivência no oceano — maldito barco veleiro em Plattsburgh.
— Gabi, porque você tá chorando?! – Mackenzie levantou-se do chão do meu quarto automaticamente e tirou uma mecha de cabelo dourado do meu rosto, arregalou os olhos cor de mel tentando decifrar minha tristeza. Chegava a ser engraçado — Seus pais brigaram com você? – Fiz que não com a cabeça.
— Acho que preferia que tivessem – Ela abriu um sorriso sem dentes piedoso.
— Olha, não sei se isso te deixa melhor, mas adivinha quem te mandou uma mensagem – Ela me entregou o celular arqueando uma de suas grossas -e perfeitas — sobrancelhas de forma misteriosa.
Peguei o celular de sua mão e ela arregalou os olhos como se eu fosse uma criancinha, eu estava chateada, mais ia cumprir minha promessa, seja lá quem fosse esse intercambista, eu iria fazer de sua vida um inferno.
Fim do capítulo 1
Notas finais
Espero de coração que gostem bastante.
Deixem comentários, me deixam super feliz.
Estou em processo de revisão para consertar alguns errinhos (Incluíndo o travessão pequeno).
Desculpem pela inconveniência!
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