New Wave

1 1x00: Prólogo - Conhecendo Cíntia e Natália


Notas iniciais
O capítulo é somente um prólogo para apresentar as duas personagens principais e demonstrar suas primeiras interações. A partir do próximo capítulo a história começa. Espero que gostem, há bastante por vir.

Cabelos armados, cores fluorescentes, cantores de um só hit e a busca pela liberdade de expressão: quatro características marcantes dos anos 80. Há aqueles que se arriscam em dizer que tudo na época era “brega, cafona”; mas a verdade é que a década foi marcada pelo glamour e jovens com um espírito de liberdade inspirador.

Por um lado, vários movimentos da década impulsionaram grandes mudanças que refletem até a nossa atual geração. Os mais conhecidos: Diretas Já e o fim da ditadura militar. A sensação de liberdade após todas essas conquistas era inspiradora a ponto das pessoas fazerem valer tais conquistas vivendo a vida sem medo, pois agora todos eram livres.

Cíntia era uma das pessoas que viviam por essa filosofia. No auge de seus vinte e três anos, cursava história na UERJ, já no penúltimo semestre. 1985 tinha sido um ano bem agitado para Cíntia: Rock in Rio, mais um semestre na faculdade, incontáveis noites viradas no Bar do Mauro que fica aos arredores dos prédios da UERJ e conquistas fúteis de uma só noite. Cíntia já começava a ficar entediada, seu estilo de vida sempre “no limite” já estava ficando ultrapassado. Não é como se Cíntia não tivesse seus problemas, mas após a morte de seus pais em um acidente, passou a ser criada por sua avó liberal e bem disposta de bens materiais. Aos vinte e um, Cíntia ganhou seu apartamento no Bairro Maracanã. O local se tornou seu porto seguro no mundo, onde ela podia ser ela mesma, além de descansar do mundo que era seu quintal. Apesar de suas badaladas conquistas, Cíntia nunca havia levado nenhuma de suas mulheres para seu apartamento, preferia os motéis baratos ou becos escuros do Centro do Rio. Conhecida na UERJ não só pelos alunos, mas pelos professores, Cíntia era uma das solteiras mais disputadas pelas mulheres e por homens também. Com seus cabelos curtos e negros sempre trabalhado pelo gel New Wave, Cíntia abusava de sua sensualidade sem apelar para a vulgaridade. Seu segredo não estava somente em seu corpo definido, porém magro devido ao cigarro e sim por seus lábios de dia enfeitados com um tom mais suave e à noite com um tom mais escuro ou até mesmo fluorescente. Com suas roupas em sua maioria escuras, Cíntia ditava moda e despertava sentimentos nunca descobertos pelas pessoas à sua volta. Mulheres decididas sabiam que precisavam passar pela lista de conquistas de Cíntia, as bissexuais pendiam definitivamente para as mulheres após vê-la passar e as meninas-mulheres que começavam a sentir os primeiros desejos por mulheres, esses desejos eram despertados por Cíntia. Porém, a mesma não se dava ao trabalho de converter ninguém. Gostava das decididas, que já sabem do que gostam e sabem como ser dominadas por outras mulheres.

Para Cíntia não havia tribos, estilos e grupinhos diferentes, o mundo era uma coisa só. Se dava bem com todas as pessoas de diferentes classes sociais e diferentes crenças. Tinha amigo crente, viado, cachaceiro, virgem, rico, pobre, flamenguista e vascaínos. A lista era tão grande que não seria inacreditável se ela tivesse um amigo que se encaixasse em todos os itens citados. E apesar do pensamento geral ser de quem tem muitos amigos se sente solitário, pois faltam amizades verdadeiras uma vez que o conhecimento que se tem de seus amigos é apenas superficial. Poderia ser assim para os amigos de Cíntia – que raramente conheciam seus sentimentos mais profundos – mas não para a própria, uma vez que sabia da história de cada um de seus amigos, a pretensão para o futuro, medos, inseguranças e maiores desejos. Era uma memória calibrada, pois naquele tempo não havia redes sociais na internet, onde se sabe todas as informações de uma pessoa e todos os seus gostos. Cíntia conhecia seus amigos mais que a si mesma e os defendia até a morte.

Do outro lado do Rio, mais precisamente em Santa Cruz, residia Natália. Todo dia pegava o trem e saltava na estação da Mangueira, indo direto pra UERJ. Diferente de Cíntia, poucas pessoas a conheciam. Natália nunca tinha sido vista no bar do Mauro ou em qualquer outro. O esquema era casa-faculdade / faculdade-casa / casa-igreja / igreja-casa. Nem mesmo seus encontros com Milton, seu namorado há seis anos (começou a namorar aos catorze anos) e noivo há dois, eram distantes de casa. A fase de namoro no portão já havia passado há muito tempo, mas se a conservadora Dona Rosane, mãe de Natália, descobrisse que sua filha não era mais virgem há quatro anos, um apocalipse aconteceria naquela casa. Natália não se sentia frustrada por sua vida ser parada a tal ponto de nem os professores saberem seu nome, mas sua concepção sobre vida, religião e sexo havia mudado muito desde que ingressara na UERJ após passar entre os dez primeiros colocados. O problema é que Natália era presa demais em seu mundo, seus amigos eram todos conservadores e seu namorado caminhava para ser pastor em apenas um ano, recebendo grande apoio da sogra Rosane, que tinha certeza que sua vaga no céu já estava garantida. Natália via tudo aquilo e só pensava na palavra “patético”, mas nunca se arriscou em dizer, pois tinha medo das consequências. O problema é que ela já estava a ponto de explodir. Antes do penúltimo semestre de história começar, recebeu a notícia que sua turma ia se juntar com outra, devido à quantidade de alunos reprovados. Até então tudo bem, Natália não se socializava muito com os alunos de sua turma, quem dirá com os novos. Mas ela nunca imaginou que sua tentação estaria tão próxima a ela. O nome da tentação: Cíntia.

Primeira aula do novo semestre e Cíntia estava radiante como sempre. Encontrara-se com seus amigos de longa data e os inúmeros colegas que ela só conhecia de vista, mesmo com todos eles sabendo seu nome e sua história. Ela não esperava uma novidade, muito menos uma que fosse abalar tanto seu mundo. Mas quando viu Natália pela primeira vez em sua classe, sabia que o que sentia era inédito, afinal, ela conhecia bem o tipinho dela, mas nunca tinha sentido atração por qualquer uma do gênero. O problema era que Cíntia sempre foi invasiva e não ia conseguir segurar a ansiedade por muito tempo. Logo no primeiro intervalo, juntou Vera, sua companheira de aventuras e foi se apresentar a Natália e Marisa, sua amiga. Cíntia já elaborava um convite e seria infalível.

Cíntia não tinha se interessado muito por Marisa, já que ela era uma wannabe da época, tentava entrar na moda, mas sempre dava errado pra ela. Já Natália, que claramente despertou o interesse mais reservado de Cíntia, tinha algo a mais para oferecer. Era como uma princesinha da favela dos anos 80. Se vestia como as personagens de Ti Ti Ti, seu cabelo avermelhado e armado tinha mais estilo que óculos Ray Ban na década de 60, sua boca envolvida em um batom mais discreto era não só misteriosa, como convidativa a coisas que partia da imaginação de cada um. Sua personalidade vista de longe era forte e de perto era assustadora, mas Cíntia não se intimidaria com ela. Só que acabou intimidando. Vera nunca tinha visto Cíntia cambalear em um convite tão comum quanto aquele, mas com Natália foi diferente. Pessoas de fora não perceberiam que Cíntia estava um quanto amedrontada naquele momento, mas Vera pode ver de longe:

- Eu tenho observado que vocês são um pouco distanciadas da turma e poxa, isso não é muito legal, né? A gente tá caminhando pra reta final e esses podem ser nossos anos dourados, não é legal a gente tá perdendo assim... Entendem? Não sei, é só um pensamento...

Na cabeça de Vera, estava a visualização de um convite normal de Cíntia:

- E aí quengas, vamo partir pro Mauro?

Após mais algumas palavras confusas de Cíntia, Natália olhava fixamente para esta, aparentemente pensando. Marisa olhava para Natália esperando sua resposta, sua opinião não importava mesmo. Não seria justo dizer que Natália não considerou a proposta. Em sua cabeça, seria ótimo aceitar o convite e se livrar de uma noite discutindo com Milton. Mas as palavras ditas foram:

- Pois é pra mim não dá. Meu namorado está me esperando e eu tenho coisas pra fazer em casa. Eu moro longe, lá em Santa Cruz e não tem trem a noite toda. Fica complicado.

Cíntia, segura de si e parecendo indiferente não relutou:

- Ah, ok. Mas fica o convite pras próximas vezes. Toda sexta feira a gente se encontra lá, fica aqui pertinho. Também estamoslá na terça, quarta, quinta e segunda quanto tá aberto né.

Após algumas risadas e o agradecimento do convite, cada uma pra seu lado, em duplas. Marisa disse que gostaria de ter ido, mas Natália explicou mais uma vez o quão chato era seu namorado, além que não iria se misturar com os bêbados do curso de história.

Cíntia era apaixonada pelo mundo e por tudo dentro dele, mas nunca tinha se apaixonado por alguém em específico. Um segredo que ela sempre guardou consigo era o medo de rejeição e atribuía o medo a seus pais. Por isso a ideia de estar se encantando por uma simples colega de classe que é da igreja e tem namorado era assustadora a ponto dela impedir os pensamentos de fluírem em sua mente. Ainda bem que era sexta-feira, assim poderia beber sem peso na consciência. E foi o que aconteceu. Cíntia nunca soube como aconteceu, mas acordou na areia fina da praia de Camboinhas naquele sábado. Não importava como, o importante é que qualquer pensamento não desejado naquela noite foi bloqueado pelo álcool – um ponto pra mim – comemorou. O problema era que essa história estava longe de acabar e marcaria sua vida de um jeito inimaginável para uma mente virgem de amor como a de Cíntia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.