New Siege

6 Capítulo 6 - Sem saída (parte III)


Notas iniciais
No capítulo anterior...
Hanne se reencontrou com as amigas, Heda e Yuvia. Os três acabaram cercados por vários monstros e agora se encontram encurralados por Minorous.

Os Minorous marcharam em direção ao trio, fazendo tremer o chão sob seus pés. Hanne foi o primeiro alvo das criaturas gigantescas. Dois deles atacaram com suas marretas de aço em movimentos quase sincronizados, obrigando Hanne a se jogar para o lado para desviar. Em resposta, o Gatuno pegou impulso na parede e saltou sobre o inimigo mais próximo. Do alto da cabeça do monstro, desferiu várias punhaladas, ferindo profundamente sua nuca. Outro Minorous se aproximou, em defesa de seu semelhante, com a marreta em riste.

– Cuidado, Hanne! – gritou Heda.

Uma marretada violenta atingiu em cheio o Minorous já ferido, estilhaçando um de seus chifres. Hanne saltara numa fração de segundos, sem deixar margem para que a criatura aparasse o golpe desferido em sua direção.

O Minorous atingido tombou, desacordado. Mas era apenas um. Os outros voltavam à carga, furiosos.

Heda, vendo o colosso no chão, ganhou mais confiança. Cerrou os dentes e se juntou ao combate. Girava seu machado antes de desferir cada golpe, afim de acumular mais potência em suas investidas. A força de Heda era descomunal; a resistência dos Minorous, no entanto, era igualmente poderosa. A lâmina do machado da Mercadora ganhava fendas cada vez que se chocava com o corpo de uma das criaturas.

Yuvia tentava ao máximo dar cobertura para os companheiros, disparando seu impressionante Double Strafe, que evitava ataques simultâneos dos Minorous. Ela sabia que as flechas não durariam muito, e usava seu poder espiritual para maximizar o dano causado pelos projéteis.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

O estresse aumentava à medida que os Minorous pressionavam o trio em direção ao final do beco. Hanne já havia tombado três deles e Heda outro, ambos contando com a colaboração fundamental de Yuvia. Mas ainda haviam oito monstros, e o trio já estava chegando no limite de suas forças...

– Droga! – esbravejou Hanne, sentindo que havia fraturado algumas costelas.

– Eles são muito fortes! – disse Heda, segurando o braço que estava com o machado, com uma expressão de dor intensa.

– Hanne, Heda, afastem-se para os lados! – gritou Yuvia para os amigos.

Ambos evadiram do combate e procuraram encostar-se nas paredes daquele largo corredor. Os olhos de Yuvia brilharam, como autênticas esmeraldas, enquanto ela apontava o arco para o teto acima dos Minorous. Um pequeno círculo de energia se formou à frente do arco, ao que Yuvia disparou uma só flecha.

– Arrow Shower! – gritou a Arqueira.

Ao passar pelo círculo de luz, a flecha disparada se dividiu em dezenas de outras, feitas de energia espiritual, fluindo em direção ao teto. Contudo, antes de tocá-lo, as flechas fizeram uma curva brusca, descendo ferozes e certeiras em direção ao bando de Minorous. Sem perceberem o que acontecia, as criaturas foram alvejadas pelas flechas, no que outro Minorous tombou. Restavam sete.

Yuvia puxou outra flecha de sua aljava e posicionou novamente, mirando o teto.

– Arrow... Shower! – gritou Yuvia outra vez, agora com bastante dificuldade.

Como que por instinto, alguns minotauros erguiam suas marretas, para protegerem as cabeças. Atento ao fato, Hanne se aproveitou do breve momento entre o disparo e a mudança de trajetória das flechas, e correu em meio aos Minorous.

– Envenom! – gritou Hanne, distribuindo golpes breves, com as palmas das mãos.

Os minotauros se distraíram com a ação aparentemente inofensiva de Hanne e se esqueceram da chuva de flechas, baixando suas marretas. As flechas de Yuvia, certeiras, derrubaram mais duas criaturas.

A Arqueira, sem forças, foi ao chão. De joelhos, se apoiava em seu arco prateado, tentando levantar, sem muito sucesso.

– Prima! – gritou Heda preocupada.

– Ela usou poder espiritual demais... – disse Hanne. – Aguente firme, Yuvia!

Os cinco Minorous restantes, extremamente furiosos após os ferimentos causados pelas flechas espirituais, partiram em direção à Yuvia. Hanne e Heda, rapidamente, se colocaram no trajeto, erguendo suas armas. Um passo. Dois passos. As criaturas ficavam lentas, e ramificações violetas espalhavam-se sobre suas peles; exatamente a partir do ponto onde Hanne tocara cada uma delas. Três passos, e todas pararam, como se travadas por algo.

– O veneno fez efeito! – disse Hanne, com fulgor no olhar.

– Minha vez de ser útil... – disse Heda, enquanto agarrava a alça de seu carrinho com as duas mãos. – Change Cart!

Heda apertou o botão que havia na parte inferior da alça e um som metálico tomou conta do lugar. Partes do carrinho começaram a se desdobrar e deslocar com rapidez e precisão. Num instante, toda a madeira que cobria o carrinho, assim como os laços e flores que o enfeitavam, desapareceram. No lugar, agora havia um aço negro, maciço, com espinhos metálicos nas bordas. O carrinho estava totalmente transformado, era o dobro de Heda agora.

– Cart Revolution! – gritou a Mercadora.

Ela puxava o carrinho rapidamente entre os monstros. Aquilo não era mais a loja de Heda; era um monstro metálico, que se atirava nos Minorous e disparava duros golpes, sem descansar. Heda não se fazia de rogada: girava e girava o carrinho, como se estivesse empunhando seu machado de batalha. Chifres e argolas em pedaços agora tilintavam no ar. Com o carrinho transformado, Heda era uma poderosa guerreira, e não dava margem à derrota. Hanne e Yuvia admiravam a agilidade com a qual a amiga aplicava os golpes, que faziam os Minorous feridos recuarem aos poucos. Mas logo os olhares de admiração se converteriam em pânico...

Mais três minotauros surgiam logo à frente, talvez atraídos pelos sons daquela batalha. Um deles, quase sereno, ergueu a marreta acima da cabeça com as duas mãos, enquanto encarava os humanos. Uma aura tomou seu corpo.

– Essa não... – balbuciou Hanne, percebendo o que viria a seguir. – Heda, saia já daí!

Yuvia fez um último esforço, ao ouvir o grito alarmado de Hanne, e alvejou o Minorous em posição de ataque. Porém, o disparo não surtiu efeito; a Arqueira estava exausta demais para uma boa mira.

A marreta desceu violentamente, num estrondo. Como energia viva, a aura esbranquiçada fluía do Minorous para a marreta, e dela para a superfície, se espalhando para além do final daquele beco – onde o Verit solitário tombou desacordado.

– Que... sensação... é essa? – perguntou Heda, deixando o carrinho escapar de suas mãos assim que atingida pela aura. – Estou... tonta...

– Também não... consigo... me controlar... – disse Yuvia, deixando cair seu arco.

O golpe atordoante do minotauro havia alcançado o trio, afetando diretamente seus sentidos.

– Droga... mova-se... corpo! – disse Hanne, sentindo seu corpo tremer ao lutar contra os efeitos do ataque.

O bando de Minorous, agora reforçado, se aproximava do trio indefeso para finalizar o combate de uma vez por todas.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

– Grimtooth – ecoou uma voz serena e firme.

Imediatamente, dezenas de lâminas de gelo começaram a se erguer do chão, de forma alternada. Atingiam as criaturas e se enterravam novamente, vários ataques por segundo, que a olhos humanos pareciam como flashes de luz celeste.

O ataque cessou num instante, e convenientemente, apenas os Minorous haviam sido alvejados; seus corpos, extremamente feridos, pereceram um após o outro, sobre uma enorme poça de sangue negro.

A silhueta do dono daquela voz misteriosa se revelou. Seu porte físico lembrava Hanne, porém ligeiramente mais alto. Os cabelos negros estavam cobertos por um chapéu chinês bem conservado, que fazia sombra sobre seu rosto.

– Hm... – fez o homem, com apatia. – Vocês, aí... Estão todos bem?

Os três se entreolharam, aliviados com o final positivo daquela batalha. Hanne percebeu que suas amigas já se recompunham, então ignorou a própria dor e se voltou para o estranho.

– Estamos bem, obrigado! Se não fosse você aparecer, estaríamos mortos, provavelmente...

– Hm... – murmurou novamente o homem, enquanto revirava os cadáveres, arrancando as argolas metálicas dos focinhos. – Mas por quê motivo vocês atacaram esses Minorous?

– Como é? – perguntou Heda, arregalando os olhos.

– Eu perguntei... – começou o homem, erguendo uma argola contra a luz das tochas laterais, e revelando seus olhos dourados – Por quê vocês atacaram os minotauros?

Hanne e Yuvia estavam tão confusos quanto a Mercadora.

– Hã?! – indagou novamente Heda, fazendo careta. – Do que você tá falando? Você não viu? Fomos cercados, lutamos, e depois você apareceu e nos salvou...

– Mas vocês não viram que eles já tinham dono? – perguntou o Mercenário.

– Como assim dono? – indagou Hanne. – Além disso, fomos surpreendidos por eles. Estávamos nos escondendo.

O Mercenário cerrou os olhos e respirou pesadamente; firmou o chapéu na cabeça com uma das mãos e se virou novamente para o trio.

– Hm... Eu reuni vários e trouxe para esse local... Então saí... Voltei com mais alguns... E vocês já estavam lutando com meus bichos – explicou o Mercenário.

– Não havia ninguém aqui além de nós, desde o começo – disse Heda.

– Hm... Mas eu estava bem... ali – apontou o Mercenário. – E então fui até... lá.

A distância apontada pelo homem era grande para ser percorrida a pé, com tanta calma, no meio de todos aqueles monstros – e sem ser notado. Então Hanne pensou nas incríveis habilidades dos Mercenários, que diziam ser abençoados com mantos das sombras...

– Então isso é o Cloaking! – disse Hanne para si mesmo, com os olhos faiscando. – Poder se mover durante o Hiding...

Os olhos de Heda também se inflamaram, mas por motivos diferentes; foi preciso que Hanne fizesse sinal com as mãos para que ela se controlasse.

– Pois então foi isso – constatou Yuvia. – O senhor trouxe o bando, ficou invisível com sua habilidade e partiu... Eles acabaram nos vendo, e então atacaram, antes que o senhor retornasse. Nós apenas nos defendemos.

– Hm... entendo – disse o Mercenário. – Que situação perigosa para vocês... Tomem mais cuidado. Agrupar os monstros em bandos pra depois matá-los... é comum. Ninguém perde tempo matando um por um desses... Monstros fracotes.

Heda já não podia ser contida.

– Aff! Você tem noção do que tá falando? – esbravejou ela, já apontando o dedo no nariz do homem, que se mantinha inalterado. – Situação em que nos metemos!? Você nos colocou nessa situação! Reunir esse monte de monstros e largar por aí... Quase matou a mim e meus amigos, sabia? E essa sua calma irritante... Grrr!

– Calma, Heda! – disse Hanne, puxando a amiga pelos ombros. – Foi tudo um mal entendido, mas o importante é que estamos todos bem. E querendo ou não, graças à ele...

– Humpf! – fez Heda ao virar o rosto, ainda irritada, mas reconhecendo que o Gatuno tinha alguma razão.

– O senhor salvou nossas vidas – disse Yuvia, tentando mostrar simpatia. – Como poderemos agradecê-lo?

– Hm... Apenas me deixem em paz. – respondeu de forma desinteressada. – Eu já vou... Até.

– Espere um pouco! – disse Yuvia. – Qual é o seu nome?

– Albu – respondeu o homem, de forma seca. – Adeus...

– Espera! – insistiu Yuvia. – Me diga, Albu, o que podemos fazer em agradecimento?

– Eu já falei que...

– Eu insisto! – interrompeu Yuvia.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

O carrinho de Heda já havia voltado à composição original, de madeira polida e enfeites por toda parte; ela separava algumas poções brancas e azuis para distribuir entre os amigos, para alívio do corpo e do espírito. A seu lado, Hanne se limitava a observar Albu, bem como o par de katares gélidas que ele trazia penduradas na cintura. Ainda recordava o quão rápido o bando de Minorous havia sido derrotado por uma única técnica daquele Mercenário; e como antes quase morreram, pros mesmos inimigos...

– Hm... – disse Albu, coçando as bochechas. – Você é muito insistente... Arqueira... Eu não procurava por nada, em especial...

– Você não estava aqui procurando algum item? – perguntou Yuvia.

– Eu apenas vim fazer um favor... Acendendo as tochas de todos os andares... – disse Albu, continuando. – Depois, aproveitei pra testar minha katar... Só verifiquei os corpos pois já estavam mortos... Seria idiotice deixar algum objeto valioso pra trás...

– Mas deve ter algo que eu possa fazer por você, algo que procura! – disse Yuvia, desviando o olhar para as armas do Mercenário. – Talvez algum tipo de katar, você as coleciona?

– Hm... eu gosto delas – respondeu Albu.

– Posso lhe conseguir alguma katar que ainda não tenha – persistia Yuvia, agoniada. – O que me diz?

– Hm... realmente... Ainda não tenho de todos os tipos... – respondeu Albu, segurando o queixo. – Mas não se preocupe, eu as consigo sozinho... Nos despedimos aqui, adeus.

Antes que Yuvia pudesse argumentar novamente, Albu desapareceu de vista, durante um breve aceno. Desapontada, a Arqueira encolheu os ombros e se juntou aos amigos, recebendo as poções entregues por Heda.

– Não fica assim, prima! – consolou Heda. – Ele não nos fez nenhum favor, só corrigiu o erro que ele cometeu, em primeiro lugar.

– Hora de voltarmos – disse Hanne, encerrando a conversa.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Naquela noite, apenas Hanne e Heda deram as caras na taberna de Morroc. Durante o caminho de volta à cidade, Yuvia havia se mantido em silêncio, e quando convidada à cear com eles, alegou mal estar, dizendo que iria direto para seu quarto. Para os amigos, era óbvio que o motivo ainda era a indiferença do Mercenário.

– Tadinha da minha prima... – lamentou Heda, escorando o rosto com as mãos. – Vai levar uns dias até ela se recuperar. Aquele cara estranho não podia ter aceitado logo qualquer coisa, hein? Onde já se viu, um Mercenário recusar algo em troca de uma coisa que ele já fez... Humpf!

– Quando você me disse que a Yuvia tinha problemas com favores, eu não imaginei que fosse algo tão sério! – comentou Hanne, enchendo a mão com salgadinhos.

– É... – disse Heda, com a voz melancólica. – Meus tios... os pais dela... morreram naquela tragédia em Payon, poucos anos depois que me mudei pra Alberta. Até então, a minha prima adorava receber presentes, favores e coisas assim, espontâneas. Principalmente no Natal, ela queria todo ano ir até Lutie, que é longe pacas, pra visitar uma vovozinha que distribuía presentes... A prima ficava eufórica ao sair de lá com tanta coisa lindinha e fofa!

Hanne percebera o modo como Heda se expressara ao contar a última parte; teve dúvidas se era realmente Yuvia a mais apaixonada pelos presentes...

– Nos anos seguintes, ela passou a se concentrar praticamente só nos treinos para se tornar uma Arqueira – continuou Heda. – Aí na época que eu mudei pra cá, ela resolveu aproveitar a viagem e veio de carona. Daqui, foi pra Comodo, onde esteve morando até o ano passado, quando retornou pra cidade natal... Ela veio pra Morroc de novo no dia que você virou Gatuno, mas só pra conseguir aquela Essência... Provavelmente teria partido pra Comodo, caso você não tivesse convidado-a pra guilda.

– Hm... entendo – disse Hanne, imitando o tom de voz daquele Mercenário.

– Besta – disse Heda, esboçando um sorriso involuntário.

– Não se preocupe, ela vai se animar! – disse Hanne, empurrando o prato de petiscos para perto de Heda. – Afinal, em poucos dias teremos os zenies necessários pra comprar a bendita Emperium e nossa guilda estará criada!

– Né?! – disse Heda, corando, enquanto pensava nas próximas palavras. – Ei, Hanne, sobre a guilda... Antes de dar uma resposta, eu queria me confessar...

– Raios! – esbravejou um homem barbudo, ao se chocar contra a quina da mesa que Hanne e Heda ocupavam, interrompendo a conversa de ambos. – Argh... Opa, não tinha te visto aí, gatinha da loja! Foi mal!

Heda forçou um sorriso, disfarçando sua frustração e raiva pela interrupção repentina. Fez menção de retomar seu assunto com Hanne, mas além de ter parte da coragem arremessada longe, com o tranco na mesa, percebeu que ele já estava imerso na conversa daquele homem barbudo com outros dois companheiros que o seguiam. Sem alternativa, largou o corpo sobre o encosto da cadeira e se concentrou nos aperitivos, até que o amigo lhe desse atenção novamente.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

– Olha lá! Eu falei que era aquele homem! – disse o mais baixo. – Ali no balcão, do lado direito... É ele!

– É mesmo... – concordou o barbudo, controlando seu tom de voz. – Theodor Albu... Ele tinha deixado Morroc há anos... O que será que deu nele pra voltar assim?

– Vai saber... – disse o terceiro homem. – Só quero manter distância desse cara. As histórias que ouvi falar desse maluco são de dar medo...

– Dizem que ele quebrou os instrutores de Gatunos da geração dele, de tão forte que era! – continuou o pequeno. – Por isso, o líder máximo da guilda dos Mercenários, o lendário Eremes Guile, teve que treiná-lo pessoalmente...

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

– Ei! Onde você vai, Hanne? – perguntou Heda, observando o amigo se levantar com aparente pressa.

– Vou ali falar com aquele cara no balcão – respondeu Hanne. – Desculpe, pode acertar a conta? Depois você me cobra... Me espera aqui, já volto!

Heda ameaçou protestar, mas desistiu, ao perceber a seriedade de Hanne. Ela não entendia o que se passava, mas tinha algo a ver com o que Hanne ouvira daqueles homens estranhos. Desejou também ter se interessado em bisbilhotar a conversa...

Seu amigo e o misterioso Mercenário ficaram conversando durante algum tempo. De início, Heda não havia reconhecido quem era o homem, dera mais importância à bebida em sua caneca e em finalizar o prato de salgadinhos – afinal, ia pagar por eles –, mas logo reconheceu aquele chapéu de bambu antiquado sobre o balcão, além da semelhança física com o amigo. Sem dúvidas: era Albu.

Heda sentiu um impulso de ir até eles imediatamente, podia dizer uma ou duas coisas para aquele Mercenário irritante, em nome da prima; mas se conteve ao lembrar das palavras de Hanne, pedindo que aguardasse sua volta. Ele permanecia de costas para ela o tempo todo, e parecia também não encarar Albu diretamente. Este, por sua vez, se mostrava impassível, como no encontro anterior; vez ou outra, coçava o rosto ou o topo da cabeça.

A Mercadora já não aguentava de curiosidade, quando o Mercenário colocou seu chapéu na cabeça e saiu. Então Hanne retornou até a mesa.

– E aí? Aquele era o tal Albu, não era? O que vocês conversaram? O que ele disse? – disparava Heda. – Vai, me conta tudo!

– Bah, não há muito o que contar – disse Hanne esboçando um sorriso. – Eu contei a ele como Yuvia ficou sentida com sua atitude, então ele concordou em ouvi-la novamente amanhã.

– Hâ?! – estranhou Heda. – Fácil assim? O que exatamente você falou pra ele, que o fez mudar de idéia?

– Foi só isso mesmo – reafirmou Hanne, terminando sua bebida. – Apenas tivemos uma conversa entre homens, sem rodeios. Ele é gente boa, acabou entendendo.

– Tá, né... – aceitou Heda, contrariada, pois estava certa de que havia algo mais por trás daquilo. – Aqui. Sua parte da conta!

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Albu deixou a taberna. Parou, ainda sob a pequena cobertura da entrada, como se soubesse o que viria a seguir.

– Ei, Albu! – disse um homem de trás de um dos pilares de sustentação. – É isso mesmo que eu ouvi ali dentro? Você vai bancar o professor agora, é?

– Hm... não é da sua conta – respondeu Albu.

– Quero dizer, tudo bem que ele é filho bastardo do seu antigo mestre – continuou o homem, dono de uma voz naturalmente debochada. – Mas daí a querer tomá-lo como discípulo?! É estranho... Até mesmo pra você, Demônio das Katares...

Albu apertou o chapéu na cabeça, no que seus olhos foram encobertos pelas sombras.

– Eu não sou digno de ter discípulos – disse o Mercenário. – Ele quer proteger as amigas, me pediu para torná-lo forte... Ofereceu pagamento adequado, eu aceitei. Só isso.

O homem deixou a sombra do pilar. Tinha uma aparência intimidadora, com cabelos roxos arrepiados e uma cicatriz sobre o olho esquerdo. Usava uma jaqueta de pele, aberta, diversos anéis e outros acessórios metálicos com caveiras, que reluziam à luz da lua. Carregava uma adaga de lâmina curvada, embainhada na cintura.

– Esse moleque pode ter sido criado por Eremes, mas não tem talento – disse o Arruaceiro, continuando. – Ouvi que bombou várias vezes até virar Gatuno. Fica aí de segredinhos com ele, você vai é perder seu tempo! Ele só é bom no carteado... Me levou alguns zenies, na última festa, aquele maldito Gatuno...

Notas finais
No próximo capítulo...
O acordo com Albu, o início do treinamento e a volta da noiva de Hanne.