Notas iniciais
Então eu levei um tempo pra fazer esse capítulo, mas tô muito orgulhosa dele. Um muito obrigada pra a Ju, que infla meu ego todos os dias; outro pra meu amiguinho que me incentivou a ouvir Mahalo primeiro; um último pra todas que tem um impulso lésbico pelo ex da amiga (essa só quem leu o cap vai entender), porque eu tenho. Um oi e dois tchaus, boa leitura ;)

Renato procurou um lugar pra sentar entre Kel e Arthur, no ponto mais distante de Lay que conseguia ficar. Tinham se distanciado nas férias, mas ele sabia que tinha começado antes.

No ano anterior, quando ela tinha começado a namorar um garoto de outra turma, mas Renato avisou que não daria certo. Três semanas depois eles terminaram.

Foi a primeira vez que ele não ficou feliz por estar certo.

Quando chegou à casa de Lay no dia seguinte, ela parecia arrasada. Pensou em alguma coisa pra animá-la, mas não entendia como podia estar tão triste por uma coisa tão pequena.

— Pequena pra você. — Ela dissera. — É minha vida! Minha! Não pode cuidar da minha vida! Eu tenho a noção de que meus problemas são menores que os dos outros, mas precisamos viver pra alguma coisa, certo?

Eles voltaram a se falar depois disso, mas não como antes. Ele sabia que nunca seria como antes. Lembrar o deixava triste, mas ela estava certa: precisava viver pra alguma coisa.

A Freira-de-redação entrou na sala com uma bolsa imensa a tiracolo e todos sabiam o que tinha dentro. Todo ano tinham que fazer uma redação sobre as férias.

Renato começou a tirar uma caneta da mochila, quando um garoto passou espremido pela porta que a freira estava prestes a fechar murmurando um “bom dia” e vindo sentar na carteira ao seu lado.

— Pode dizer seu nome pra a classe? — Perguntou a freira, sorrindo.

É claro que ela não podia simplesmente falar “sala” ou “colegas” como uma professora normal do século XXI, tinha de ser “classe”. Primeiro porque não era uma professora e Renato desconfiava que tivesse nascido no século passado.

— É Luan. — O garoto disse, fingindo procurar alguma coisa na mochila.

Ouviu uma risadinha vinda do fundo da sala. E se virou pra ver João sentado ao lado de Ju, cobrindo a boca com uma das mãos enquanto conversava com ela.

Tinha quase certeza de que ele não deveria estar naquela sala, mas João podia perder todas as aulas e ainda assim tiraria uma nota maravilhosa no fim do semestre. Claro que podia perder uma aula superimportante pra conhecer o aluno novo.

Luan era baixo, tinha olhos escuros e o jeito que remexia na mochila, sem parecer ter muito interesse em encontrar o que estava procurando, deixou claro que era tímido. Tímido demais pra olhar pra aquelas pessoas novas e desconhecidas pra ele.

Renato o observou por mais alguns instantes e voltou a atenção para a explicação anual sobre a importância de uma redação, dicas de como fazer uma e outras chatices que ele já tinha decorado, quando um aviãozinho de papel aterrissou em sua mesa.

Desamassou o papel olhando pra Lay, esperando que a mensagem fosse dela.

“Troca de lugar comigo? –João”

Olhou pra o garoto duas carteiras atrás dele, pensando se trocaria ou não. Os grandes olhos verdes de João estavam pregados em Luan, mas Julia estava fazendo que sim com a cabeça. Ela tinha mandado a mensagem.

Rabiscou um “NÃO” na folha e mandou de volta pra ela. A resposta veio alguns segundos depois.

“Troca logo a droga da mesa”

Renato respirou fundo, jogou as coisas dentro da mochila e foi até o fundo da sala, onde João estava sentado. Ele levantou sem entender e foi até a carteira do outro, com as bochechas bronzeadas corando lindamente.

— A festa do Well vai ser em casais, topa ir comigo? — Julia começou, enquanto copiava o que a freira escrevia na lousa.

— Achei que ia com o João.

— João vai com Lay.

Renato olhou pra a carteira da garota do outro lado da sala e então baixou os olhos pra a folha de caderno em branco.

— Eles fizeram um acordo de ir pra todas as festas juntos Re, não tem nada a ver com... Você sabe.

— É, sei. — Começou a escrever a lição, mas Julia agarrou seu braço.

— Se está tão mal assim devia chamar ela pra sair. Se te serve de consolo, Lay também tá mal...

— Claro que serve de consolo. É muito reconfortante saber que minha melhor amiga está triste por minha causa.

— Não foi o que eu quis dizer... A vida dela não gira em torno de você.

— Uma coisa que ela deixou bem clara na nossa última conversa.

Voltou a fazer a tarefa. Sabia o que cada um ia dizer sobre as férias. Ju passava o tempo em uma fazenda no fim do mundo. Well numa loja de discos depois do fim do mundo. João (caso ele resolvesse fazer a tarefa, uma vez que fazia o que queria) diria que ficou na praia. Deborah e Kel faziam em dupla e sempre resumiam as férias a coxinhas e David Guetta.

Lembrava que Lay escrevia uma única linha, mesmo que a freira pedisse algo mais. E ele... O que faria ele? Apoiou o queixo em uma das mãos, pensando.

— Só acho que ela não tá feliz. — Julia recomeçou, dessa vez sussurrando. — E você também não. De que adianta viver assim? Vocês são amigos deviam se apoiar acima de qualquer briga.

— Aceito sugestões.

— Peça desculpas e se for orgulhoso demais pra isso, arranje um jeito de dizer que sente muito ou pelo menos dizer que sente falta.

Ele acenou e voltaram pra suas redações.

Minutos mais tarde, quando a Freira-de-redação pediu que cada um lesse a sua, ele foi o primeiro a levantar a mão.

— Minhas férias foram uma droga. — Leu a mesma frase que Lay lia todo ano. — Tanto que acabei viciado nelas.

Um risinho rolou pela turma e a freira fez uma careta de descontentamento, mas ele estava olhando pra a amiga.

Lay mordeu o lábio do outro lado da sala, antes de erguer o caderno e apontar pra ele, como se dissesse que tinham feito a mesma coisa. Depois sorriu e acenou.

Do seu lado, Julia agarrou seu braço sorrindo.

— Sugiro que chame Jack pra a festa do Well. — Renato a encorajou.

— Talvez eu chame.

***

Quando o primeiro dia de aula terminou, Well já estava louco pelas férias.

Atravessou o pátio, lutando com as pessoas que entravam e saíam, procurando por Arthur, quando Deborah o puxou de lado.

— Festa na sua casa esse ano? — Ela perguntou, meio saltitando.

— Festa sim, só não na minha casa.

As pessoas costumavam associar as festas de início e fim de ano a ele. Claro que ele passava muito tempo planejando essas festas e cuidava da maior parte dos assuntos, mas com toda certeza, era Debs a mais envolvida.

Ela e Kel andavam sempre juntas e falando sobre música, por isso sempre acabavam sendo a dupla de DJs oficial das festas. Claro, esse ano teria que ser diferente.

— Ju me deu umas ideias pro tema, mas queria sua opinião. —Começou. — Ela pensou em uma festa de casais literários.

— Casais, bem a cara da Julia mesmo. — Debs sorriu. — O que seriam casais literários?

— Romeu e Julieta, Tarzan e Jane, Capitu e Bentinho, Frankenstein e a mulher do cara que criou ele...

— Eles não ficam juntos, o monstro mata a esposa do cientista, isso é só uma teoria doentia sua.

Mas fazia sentido. Desde que lera Frankenstein, Well tinha uma certeza meio paranormal de que o monstro amava a esposa de seu criador e a matou porque ela não sentia o mesmo.

Talvez a autora quisesse essa paixão entre o monstro e uma mulher normal. Ou talvez ele estivesse apenas paranoico quanto a isso, como todos achavam.

— De qualquer forma — Debs continuou, antes de Well poder dizer mais alguma coisa. — Acho a ideia bem boazinha, mas não lembro nenhum casal literário clássico com duas garotas.

— Acordou se sentindo meio lésbica Deborah? O que você e a Lay estavam fazendo na sala do diretor hoje mais cedo?

— Você é um babaca, seu babaca. Não vou ser DJ de nada se a Kel não estiver comigo.

— Então seus impulsos lésbicos estão te empurrando pra a Kel e não pra a Lay? — Ele disse se esquivando da mão dela. — Calma mulher. Você e a Kel podem ser uma dupla de DJs, mas não precisam ser um casal. Vai com o Jack.

— Eu hein... Ex-namorado de amiga minha pra mim é mulher.

— Então é pelo Jack que você está tendo impulsos lésbicos?

Deborah fechou a cara e começou a se afastar.

— Te vejo na festa Debs. — Well gritou e voltou a andar, dessa vez pra casa.