New Perspective
5 Mundo perfeito - Mahalo
Notas iniciais
Renato procurou um lugar pra sentar entre Kel e Arthur, no ponto mais distante de Lay que conseguia ficar. Tinham se distanciado nas férias, mas ele sabia que tinha começado antes.
No ano anterior, quando ela tinha começado a namorar um garoto de outra turma, mas Renato avisou que não daria certo. Três semanas depois eles terminaram.
Foi a primeira vez que ele não ficou feliz por estar certo.
Quando chegou à casa de Lay no dia seguinte, ela parecia arrasada. Pensou em alguma coisa pra animá-la, mas não entendia como podia estar tão triste por uma coisa tão pequena.
— Pequena pra você. — Ela dissera. — É minha vida! Minha! Não pode cuidar da minha vida! Eu tenho a noção de que meus problemas são menores que os dos outros, mas precisamos viver pra alguma coisa, certo?
Eles voltaram a se falar depois disso, mas não como antes. Ele sabia que nunca seria como antes. Lembrar o deixava triste, mas ela estava certa: precisava viver pra alguma coisa.
A Freira-de-redação entrou na sala com uma bolsa imensa a tiracolo e todos sabiam o que tinha dentro. Todo ano tinham que fazer uma redação sobre as férias.
Renato começou a tirar uma caneta da mochila, quando um garoto passou espremido pela porta que a freira estava prestes a fechar murmurando um “bom dia” e vindo sentar na carteira ao seu lado.
— Pode dizer seu nome pra a classe? — Perguntou a freira, sorrindo.
É claro que ela não podia simplesmente falar “sala” ou “colegas” como uma professora normal do século XXI, tinha de ser “classe”. Primeiro porque não era uma professora e Renato desconfiava que tivesse nascido no século passado.
— É Luan. — O garoto disse, fingindo procurar alguma coisa na mochila.
Ouviu uma risadinha vinda do fundo da sala. E se virou pra ver João sentado ao lado de Ju, cobrindo a boca com uma das mãos enquanto conversava com ela.
Tinha quase certeza de que ele não deveria estar naquela sala, mas João podia perder todas as aulas e ainda assim tiraria uma nota maravilhosa no fim do semestre. Claro que podia perder uma aula superimportante pra conhecer o aluno novo.
Luan era baixo, tinha olhos escuros e o jeito que remexia na mochila, sem parecer ter muito interesse em encontrar o que estava procurando, deixou claro que era tímido. Tímido demais pra olhar pra aquelas pessoas novas e desconhecidas pra ele.
Renato o observou por mais alguns instantes e voltou a atenção para a explicação anual sobre a importância de uma redação, dicas de como fazer uma e outras chatices que ele já tinha decorado, quando um aviãozinho de papel aterrissou em sua mesa.
Desamassou o papel olhando pra Lay, esperando que a mensagem fosse dela.
“Troca de lugar comigo? –João”
Olhou pra o garoto duas carteiras atrás dele, pensando se trocaria ou não. Os grandes olhos verdes de João estavam pregados em Luan, mas Julia estava fazendo que sim com a cabeça. Ela tinha mandado a mensagem.
Rabiscou um “NÃO” na folha e mandou de volta pra ela. A resposta veio alguns segundos depois.
“Troca logo a droga da mesa”
Renato respirou fundo, jogou as coisas dentro da mochila e foi até o fundo da sala, onde João estava sentado. Ele levantou sem entender e foi até a carteira do outro, com as bochechas bronzeadas corando lindamente.
— A festa do Well vai ser em casais, topa ir comigo? — Julia começou, enquanto copiava o que a freira escrevia na lousa.
— Achei que ia com o João.
— João vai com Lay.
Renato olhou pra a carteira da garota do outro lado da sala e então baixou os olhos pra a folha de caderno em branco.
— Eles fizeram um acordo de ir pra todas as festas juntos Re, não tem nada a ver com... Você sabe.
— É, sei. — Começou a escrever a lição, mas Julia agarrou seu braço.
— Se está tão mal assim devia chamar ela pra sair. Se te serve de consolo, Lay também tá mal...
— Claro que serve de consolo. É muito reconfortante saber que minha melhor amiga está triste por minha causa.
— Não foi o que eu quis dizer... A vida dela não gira em torno de você.
— Uma coisa que ela deixou bem clara na nossa última conversa.
Voltou a fazer a tarefa. Sabia o que cada um ia dizer sobre as férias. Ju passava o tempo em uma fazenda no fim do mundo. Well numa loja de discos depois do fim do mundo. João (caso ele resolvesse fazer a tarefa, uma vez que fazia o que queria) diria que ficou na praia. Deborah e Kel faziam em dupla e sempre resumiam as férias a coxinhas e David Guetta.
Lembrava que Lay escrevia uma única linha, mesmo que a freira pedisse algo mais. E ele... O que faria ele? Apoiou o queixo em uma das mãos, pensando.
— Só acho que ela não tá feliz. — Julia recomeçou, dessa vez sussurrando. — E você também não. De que adianta viver assim? Vocês são amigos deviam se apoiar acima de qualquer briga.
— Aceito sugestões.
— Peça desculpas e se for orgulhoso demais pra isso, arranje um jeito de dizer que sente muito ou pelo menos dizer que sente falta.
Ele acenou e voltaram pra suas redações.
Minutos mais tarde, quando a Freira-de-redação pediu que cada um lesse a sua, ele foi o primeiro a levantar a mão.
— Minhas férias foram uma droga. — Leu a mesma frase que Lay lia todo ano. — Tanto que acabei viciado nelas.
Um risinho rolou pela turma e a freira fez uma careta de descontentamento, mas ele estava olhando pra a amiga.
Lay mordeu o lábio do outro lado da sala, antes de erguer o caderno e apontar pra ele, como se dissesse que tinham feito a mesma coisa. Depois sorriu e acenou.
Do seu lado, Julia agarrou seu braço sorrindo.
— Sugiro que chame Jack pra a festa do Well. — Renato a encorajou.
— Talvez eu chame.
***
Quando o primeiro dia de aula terminou, Well já estava louco pelas férias.
Atravessou o pátio, lutando com as pessoas que entravam e saíam, procurando por Arthur, quando Deborah o puxou de lado.
— Festa na sua casa esse ano? — Ela perguntou, meio saltitando.
— Festa sim, só não na minha casa.
As pessoas costumavam associar as festas de início e fim de ano a ele. Claro que ele passava muito tempo planejando essas festas e cuidava da maior parte dos assuntos, mas com toda certeza, era Debs a mais envolvida.
Ela e Kel andavam sempre juntas e falando sobre música, por isso sempre acabavam sendo a dupla de DJs oficial das festas. Claro, esse ano teria que ser diferente.
— Ju me deu umas ideias pro tema, mas queria sua opinião. —Começou. — Ela pensou em uma festa de casais literários.
— Casais, bem a cara da Julia mesmo. — Debs sorriu. — O que seriam casais literários?
— Romeu e Julieta, Tarzan e Jane, Capitu e Bentinho, Frankenstein e a mulher do cara que criou ele...
— Eles não ficam juntos, o monstro mata a esposa do cientista, isso é só uma teoria doentia sua.
Mas fazia sentido. Desde que lera Frankenstein, Well tinha uma certeza meio paranormal de que o monstro amava a esposa de seu criador e a matou porque ela não sentia o mesmo.
Talvez a autora quisesse essa paixão entre o monstro e uma mulher normal. Ou talvez ele estivesse apenas paranoico quanto a isso, como todos achavam.
— De qualquer forma — Debs continuou, antes de Well poder dizer mais alguma coisa. — Acho a ideia bem boazinha, mas não lembro nenhum casal literário clássico com duas garotas.
— Acordou se sentindo meio lésbica Deborah? O que você e a Lay estavam fazendo na sala do diretor hoje mais cedo?
— Você é um babaca, seu babaca. Não vou ser DJ de nada se a Kel não estiver comigo.
— Então seus impulsos lésbicos estão te empurrando pra a Kel e não pra a Lay? — Ele disse se esquivando da mão dela. — Calma mulher. Você e a Kel podem ser uma dupla de DJs, mas não precisam ser um casal. Vai com o Jack.
— Eu hein... Ex-namorado de amiga minha pra mim é mulher.
— Então é pelo Jack que você está tendo impulsos lésbicos?
Deborah fechou a cara e começou a se afastar.
— Te vejo na festa Debs. — Well gritou e voltou a andar, dessa vez pra casa.
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