New Perspective

21 Mundo de Ilusões - 3030


Notas iniciais
Um agradecimento imenso a todo mundo que espera pelos capítulos, mesmo que eles sejam demorados, desculpa gente, eu tô tentando melhorar... E claro, brigada a Ju, por me aceitar como essa bagunça que eu sou e não desistir de mim ♥ Boa leitura!

Artur encarou a caneta e deixou a mente viajar para outros planetas. Não se lembrava de ter feito nada de tão cansativo no fim de semana, mas estava se sentindo um zumbi.

Enquanto sentia que podia dormir com a voz da freira, Well ao seu lado, copiava o que ela dizia, calmamente e sem expressão. Well copiando atividades. Well sem expressão em uma segunda feira. Well fazendo qualquer coisa calmamente.

Artur estreitou os olhos, nada naquela situação fazia sentido.

— Em que o seu fim de semana foi melhor que o meu? — Perguntou quando não aguentou mais conter a curiosidade.

O amigo sorriu, sem tirar os olhos da freira.

— Lembra da festa da família?

— Sei... Falando nisso, conseguiu amarrar a tal gravata? — Se lembrou de ter passado a noite enviando vídeos de tutoriais.

— Sim! — Well elevou a voz, mas voltou a sussurrar quando a freira lhe olhou feio de relance. — Quase morri enforcado, mas a mãe da Rakel deu um jeito pra mim... Mas não é esse o ponto.

— Claro que não, o ponto é a garota que você encontrou por lá.

O amigo apertou os lábios, parecendo culpado.

— Pelo amor de Deus, tá na cara.

— Foi legal... Ela estava meio bêbada, então não aconteceu muita coisa.

Artur não pôde conter o sorriso orgulhoso. Well podia ser o mais podre dos garotos quando se tratava de romance, mas nunca se aproveitaria de uma garota bêbada.

— Espero que seja gata, pra te fazer copiar textos de Ética. — Mudou de assunto.

— Sim! — O outro torceu o nariz.

Os dois riram baixinho, um se inclinando para a mesa do outro, até que um estrondo fez o coração de Artur saltar.

— O que é isso? — A freira, que escrevia algo no quadro, se virou, mais branca que de costume.

— De que lado você está? — Julia rosnou.

Os dois garotos, perdidos em meio à confusão, olharam em volta, mas todos estavam paralisados, com os olhos fixos na fileira da frente. A garota estava encarando João, que olhava pra baixo, parecendo prestes a desmaiar.

— Não existe um lado. — Ele sussurrou ainda sem encará-la.

Ela ergueu a cabeça para a mesa seguinte, onde Jess olhava para João com uma mistura de culpa e preocupação. Artur não tinha certeza do que estava vendo, mas sabia que algo importante tinha acabado de acontecer.

— O que está acontecendo? — A freira perguntou outra vez, mas o sinal que anunciava o fim da aula a cortou.

Ju empurrou a mesa e saiu da sala voando. Artur pensou em ir atrás dela, mas se nem João, que era sempre o primeiro a se preocupar com ela tinha se mexido, achou que deveria permanecer ali.

Lay, algumas mesas atrás, se levantou também, agarrou Jess pelo braço e a levou dali. Artur percebeu que Renato o encarava como que esperando uma resposta.

Balançou a cabeça para o colega como se dissesse "vá" e o outro se levantou instantaneamente. Voltou a olhar para Well, mas dessa vez era ele quem queria uma resposta.

O que tinha acabado de acontecer?

***

Renato nunca tinha se sentido tão aliviado quanto no momento em que ouviu o sinal do fim da aula. Àquela altura, Julia já tinha saído da sala, deixando uma turma de adolescentes desnorteados tentando entender o que havia acontecido.

Ainda encarava a porta com a testa franzida, quando viu Lay se levantar, arrastando Jess. O garoto hesitou por um segundo, sem saber o que fazer.

Como era possível que tanta coisa tivesse acontecido em um espaço de tempo tão curto?

Olhou em volta, procurando pelos olhos sempre seguros de Artur, esperando por algum conselho silencioso, mas o amigo parecia tão perdido quanto ele. Ainda assim, quando seus olhares se cruzaram, Renato o viu assentir e apontar para a porta com a cabeça.

Ele se levantou e foi atrás das garotas, que já estavam descendo o corredor em direção à biblioteca. Lay ia na frente, rebocando Jess, que parecia atordoada, até o fundo da sala. Só notaram a presença do garoto quando finalmente chegaram à estante mais afastada.

— Tem 3 segundos pra me contar o que está acontecendo. — Lay começou.

Renato não tinha certeza se já tinha visto Jessica parecendo tão envergonhada quanto naquele momento, mas quando ela começou a falar, foi o rosto dele que ficou vermelho.

— Então eram vocês? — Disse mais alto do que pretendia.

— Sabia disso? — Lay franziu a testa.

— Não. — Respondeu imediatamente, se corrigindo em seguida. — Sim... Talvez... Me disseram que no fim de semana duas garotas saíram no tapa por casa de um cara. Não imaginei que eram vocês.

— Eu só disse a verdade, ela estava errada defendendo ele, sabem disso. — Jess resmungou.

— Errada? — Agora Lay estava praticamente gritando. — O irmão de uma amiga faz um merda e você bate nela? E ela está errada? E depois de tudo ainda faz ela brigar com o único cara que sabe da história?

Os três ficaram calados por um longo instante. Realmente era algo a se pensar.

A expressão de Jessica passou de envergonhada para culpada e Renato teve vontade de desaparecer dali.

Pra que diabos ele tinha ido se não conseguia pensar em nada que ajudasse? Respirou fundo, se preparando para fugir discretamente, mas Lay foi mais rápida, saindo da biblioteca sem dizer mais nada.

— Devia ir atrás dela. — Jess murmurou.

— Devia, mas não acho que possa ajudar... O que vai fazer?

A garota encarou os pés por alguns instantes, parecendo perdida, mas quando levantou a cabeça seus olhos estavam firmes.

— Vou falar com a Ju.

Ele assentiu, sorrindo.

***

João estava sentado no chão de uma das poucas salas vazias da escola.

Encostado na parede, com os olhos fechados, repassava a discussão da aula anterior, imaginando inutilmente o que poderia ter feito para mudar o rumo das coisas.

A professora de Ética havia lido um texto sobre lealdade e insistia com as perguntas de sempre.

— O que vocês consideram como lealdade? — Ela perguntou, como fazia com todos os assuntos em todas as aulas.

Como sempre acontecia, ninguém respondeu voluntariamente, obrigando a freira a apontar alguém.

Ju.

A garota estava decididamente estranha, distraída. João não teve tempo de decidir se estava assim por bom ou mau humor.

Ela ergueu a cabeça subitamente, tentando adivinhar o que a professora havia pedido, mas como as aulas de Ética seguiam uma rotina, não deve ter sido muito difícil.

— Eu acho que ser leal a alguém é apoiar, seguir essa pessoa em todos os momentos. — disse, parecendo incerta.

— Se a pessoa pular de uma ponte, você pularia também? — Ele brincou, sorrindo.

— Muito bem colocado. — A freira disse, silenciando o garoto. — E quando a pessoa vai contra o que você acredita?

Mais uma vez, a turma ficou em silêncio, mas dessa vez, a mulher apontou para uma garota diferente.

— Antes de ser leal às ideias de alguém, você tem que ser leal a si mesmo. — Jess respondeu.

— Colocar os próprios ideais na frente dos de outra pessoa? — Ju murmurou e então ergueu a voz — Soa egoísta, na minha opinião.

O coração de João parou por um instante, imaginando a briga no parque se repetindo. Sacudira a cabeça na direção da amiga, mas ela tinha os olhos fixos em Jess.

— Talvez pra você, que prefere seguir alguém a pensar com a própria cabeça.

— Eu não sigo ninguém. As pessoas vão ao meu lado porque querem. Não que você saiba o que é isso.

O garoto fechou os olhos com força, sem querer se lembrar do resto. Na hora, chamar a atenção da amiga pareceu o certo, mas agora começava a questionar a própria decisão.

Ela parecia furiosa quando deixou a sala e ele não tinha certeza se um pedido de desculpas aliviaria as coisas.

Seus pensamentos foram interrompidos quando o garoto de cabelos claros sentou ao seu lado.

— Ficar encostado desse jeito, vai acabar com sua coluna. — Luan comentou. — E fechar os olhos com essa força pode deslocar a retina.

— Cego e corcunda. — João murmurou. — Não parece tão ruim.

O outro sorriu enquanto tirava três cordas finas de dentro do bolso. Alguém tinha começado uma trança, mas ele não perguntou nada.

— Se tem um pensamento te incomodando, tente se concentrar nele enquanto trança e ouve música ao mesmo tempo.

João franziu a testa, sem entender. Era a ideia mais sem pé nem cabeça que já tinha ouvido, mas obedeceu mesmo assim.

Enquanto ele começava a enrolar as linhas, Luan lhe entregou um dos lados de um fone com uma música calma, que ele não fazia ideia do nome ou do idioma.

— Anda por aí com uma trança meio feita no bolso? — Perguntou, por fim.

— Uma amiga minha tinha problemas com ansiedade, ela furava as palmas das mãos com as unhas quando ficava nervosa antes de aprender isso, daí eu sempre tenho linha no bolso. Loucura, né?

João refletiu sobre aquilo por alguns instantes e deu de ombros. Loucura ou não, estava mais relaxado do que antes.

— Quero ir pra casa... — O outro quebrou o silêncio.

— Quero ser atropelado por um caminhão.

Luan sorriu.

— Meus desejos são mais elegantes.

— Então quero ser atropelado por uma limousine.

— E dormir.

— Ah sim, dormir também.

— E a garota ideal.

João estava com o próximo desejo na ponta da língua, mas o engoliu assim que se deu conta do que acabara de escutar.

— Qual o tipo ideal? — Perguntou, sem saber ao certo se por curiosidade ou pra manter a conversa.

— Sabe que nunca pensei nisso? O que você acha?

— Quando paro pra pensar em coisas ideais, só consigo enxergar unicórnios...

— Quê? — O mais baixo murmurou, com as sobrancelhas unidas.

— Nem eu sei o que foi isso. — Respondeu, segurando o riso.

Então os dois estavam rindo, sem ter muita certeza do porquê, mas estavam felizes apenas rindo.

Coisas da vida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.