New Perspective
2 Boom Clap - Charlie XCX
Notas iniciais
A menina respirou fundo uma última vez antes de abrir a porta do carro, antes de finalmente abrir mão das suas férias, abrir mão de escrever todos os dias incansavelmente, de todos os dias só comer, dormir e comer. De vez em quando sair, mas basicamente só comer, dormir, comer e escrever. Não nessa ordem necessariamente.
Ela sabia muito bem como agir naquela escola. Soltou o ar e abriu a porta do seu carro verde aonde era muito mais seguro do que aquele zoológico com nome de Academy Sant Mariann. Pessoas riam, conversavam, discutiam por vagas e brigavam pela ultima coxinha do Sr. Crowell. Ela deu um riso e começou a caminhar.
Andou até lá, cabeça erguida e parecia fuzilar qualquer pessoa que ousasse falar alguma gracinha, focando apenas chegar á barraquinha de salgados sem ter matado alguém.
Chegando perto da barraca, viu duas meninas estavam brigando pelas duas últimas coxinhas da barraca, mesmo havendo vários outros tipos de salgado. Uma tinha seus olhos castanhos claros e balançava a mão pra todos os lados enquanto falava. Usava calça jeans rasgada ao invés da saia obrigatória do uniforme a deixava mais baixa e seu moletom estava amarrotado, como se tivesse acabado de vestir. Seu cabelo na altura dos ombros estava arrumado e seus cachos pretos balançavam junto com as mãos. Seus óculos pareciam a ponto de cair.
A outra garota encarava tudo quieta, apenas fitando a mais baixa com as sobrancelhas levantadas. Parecia querer bater na garota menor, e tinha uma expressão irritada. Tinha os cabelos maiores, mas também usava calça jeans, porém seu moletom estava impecavelmente passado e seus cabelos castanhos estavam completamente desarrumados.
A menina caminhou até lá e sorriu quando ouviu a discussão. Sentira falta disso desde o primeiro dia que ficou em casa.
– Realmente não sei como vocês sobreviveram às férias todas sem brigar. – falou, e as outras duas a fitaram, surpresas.
– VEJA SÓ SE A NOVIÇA REBELDE NÃO RESOLVEU FICAR MAIS UM ANO – A menina de óculos gritou e abraçou a menor. As três estavam paradas na frente da escola, perto da barraca da discórdia, vendo todos os alunos novos entrarem, e alguns pais saírem.
– Sinceramente, Lay, não sei como você consegue está tão feliz em uma segunda-feira e ainda por cima, de volta as aulas. – Debs, a maior entre as garotas, disse. Ela tinha um sorrisinho nos lábios, parecia feliz, apesar da briga que estava rolando há alguns minutos atrás. Debs estava sempre feliz, ao contrário do resto de toda Academy. Ou pelo menos, em comparação à garota.
– Isso, — disse Lay, soltando a Noviça Rebelde e apontando pra Debs. – é falta de um namorado. – no momento em que Lay disse, Debs revirou os olhos castanhos, irritada e se virou pra comprar a coxinha.
Lay se virou com os olhos grandes, fitando a garota menor. Seus olhos pretos e grandes sempre a dava um pouco de conforto, mesmo com todas aquelas pessoas ao seu redor a julgando a maior parte do tempo, e a aliviava a vontade de matar a maior parte da população mundial, se existissem mais pessoas como Lay.
– Estou com uma inveja branca de você, Mariana. Parece que seu cabelo ficou mais castanho/preto/ruivo nessas férias. – Ela disse, sorrindo. Mari riu e ajeitou a franja em um grampinho simples.
– Já disse que você tem que parar de me chamar de Mariana. Qual o seu problema com Mari? É alguma espécie de bullying? – Mari disse, revirando os olhos. Lay sempre amara apelidos, tanto que a maior parte dos amigos das duas tinha apelidos graças á ela.
Lay soltou uma risada adorável e olhou fixamente pra meia calça rasgada de Mari. A própria não evitou soltar uma risada irônica em relação ao o que tinha feito com o próprio uniforme.
– Você realmente tem que noviçar rebeldizar tudo o que usa? – Lay disse e Mari riu.
Ela havia cortado sua meia-calça preta em vários pontos diferentes e sua saia de prega, também preta, estava parecida com as das meninas do 9° ano, já que tinha o tamanho delas, não fazia muita diferença. Havia tingido seu moletom nas férias e agora ele estava em vários tons de vermelho, rosa e laranja. Seu cabelo na altura da cintura parecia a deixar mais baixa do que o normal.
O rosto era angelical. Mas, na maior parte do tempo, tudo o que ela tinha de angelical era o rosto, e fim.
– Tenho que fazer jus ao apelido, Lay – a outra garota sorriu e logo depois ouviram uma gritaria do outro lado do portão, bem no estacionamento. Mari reconheceu as vozes na hora e teve vontade de correr na direção delas.
Lay riu e a puxou pela mão na direção das vozes, enquanto corriam, os gritos se tornavam mais altos. O dia estava nublado, e o vento frio batia em seu rosto enquanto corriam na direção das vozes.
– SERÁ QUE ESSE TEMPO LONGE TE DEIXOU CEGO? – perguntou uma voz de menina, carregada de sarcasmo. Mari e Lay riram quando viram a cena.
Um garoto com cabelos cor de areia e alto estava com uma expressão irônica, enquanto tirava fotos da menina que gritava. A garota estava com as bochechas coradas e os olhos castanhos raivosos, parecia que ia sacar uma arma e dar um tiro na testa do fotografo.
O garoto usava calça jeans e um moletom vermelho com o emblema do colégio, seus cabelos cor de areia estavam arrumados em um topete perfeito e ao mesmo tempo bagunçado. Seu rosto estava com uma expressão de falsa calma, que se Mari realmente não conhecesse ele, diria que estava tudo sobre absoluto controle. Mas Mariana conhecia Well como a palma de sua mão, e sabia que tudo o que ele queria fazer naquele momento era jogar sua câmera na cara de Julia.
– POR QUE VOCÊ NÃO VAI TIRAR FOTO DE UMA DAS SUAS VACAS E ME DEIXA EM PAZ? – Julia gritou mais uma vez, fazendo com que os tímpanos de Mari doessem até sua 10° geração. Suas bochechas estavam coradas de irritação e Mari não soube exatamente se interrompia, ou se continuava no seu lugar. Ela, obviamente, escolheu a segunda opção.
– Por que você simplesmente não me deixa tirar a maldita foto e cala a boca, depois você pode ir atrás de um mundo mais ecológico, salvar as árvores, os pandas, o mundo! Apenas me deixe tirar foto. – Well disse, se aproximando mais de Julia para pegar o que quer que ela estivesse escondendo atrás de si.
A garota era uns 15 cm mais baixa que ele, e seus cabelos parte loiros, parte castanhos, iam até o meio de suas costas, em cachos bagunçados. Ela tinha olheiras debaixo dos olhos e parecia que não dormia há dias. Mesmo assim continuava bonita. Mari sempre gostara de Julia, do seu jeito meio observador, meio escandaloso (quando se tratava de Well, Julia sempre era escandalosa).
Quando Well tocou nela pra tirar o que ela estava tentando esconde a todo custo atrás de si, a menina deu um tapa em seu rosto e correu pra trás de Mari. Por mais que ela fosse alguns centímetros mais altos que Mari, ela se encolheu atrás de si.
– Oi, flor. Proteja-me desse animal, e – Julia disse, atrás dela. Sua voz estava rouca e com um requisituo de medo. – eu senti sua falta. Agora, por favor, me proteja dessa cobra.
Well tinha uma expressão de assassino psicopata no rosto e parecia que ia explodir Mari com olhos cor de mel cheios de raiva. Mari sabia que podia o desconcertar em apenas um ato, e por isso esperou até que ele começasse a andar na direção delas para dar as ordens à Julia.
– Quando eu começar a andar na direção dele, você corre. – Mari disse, e Julia riu.
– Senti muito sua falta – disse e, antes de Mari começar a andar, Julia sussurrou um “vou guardar um lugar pra você na aula de química”. Como ela sabia que tinham aula de química juntas, Mari não tinha a mínima ideia.
Quando Julia correu pra dentro da escola, Mari andou lentamente até Well, com medo de ele descontar sua raiva nela. Seus olhos ainda estavam cheios de raiva, mas sua expressão se suavizou quando viu que Julia havia entrado e só restavam eles e alguns poucos alunos do lado de fora.
– Você sabe muito bem que uma hora eu vou encontrar ela sozinha. – ele disse, quando Mari parou em sua frente e deu um meio sorriso. Ela passou seus braços ao redor da cintura de Well, em um abraço meio desajeitado. Ele beijou o topo de sua cabeça.
– Você deixa ela te irritar muito rápido. Tem que aprender a se controlar – disse ela, enquanto caminhavam para dentro da escola. O sino tinha começado a tocar e eles dois andavam lentamente pelo chão de cascalho do estacionamento. Well soltou uma risada irônica e pegou a câmera em seu pescoço, tirando algumas fotos dos alunos passando pelo arco da entrada.
A arquitetura da escola se erguia alta e impotente sobre os alunos. Uma única torre alta o suficiente ficava no meio do lugar, onde todos os dias, as freiras que moravam ali, tocavam o grande sino. Mariana amava tanto aquele sino que havia escondido um caderno, uma barra de chocolate e um suquinho, caso tivesse que ir morar lá algum dia durante um apocalipse zumbi.
– Você sabe que você é a última pessoa que pode falar de controle por aqui, certo? – Well disse, levantando uma das sobrancelhas. Mari gargalhou e ajeitou a franja, soltando-a do grampinho. Eles pararam e Well entrou na secretaria abafada, que ficava próxima a entrada. Segundo a ele, Julia gastava muito tempo na sua vida e ele acabava esquecendo-se de fazer as coisas realmente importantes.
Mariana estava subindo as escadas quando o viu pela primeira vez. Seus olhos pretos se cruzaram com o seus pela primeira vez e todo o mundo parou de girar por alguns segundos.
***
Julia caminhava apressadamente nos corredores iluminados até bem demais, na opinião dela. Ela estava fugindo de Well, por que, se ela bem conhecia, depois de um tapa daqueles (que acontecia quase todos os dias na rotina deles), ele iria ir atrás dela até o fim do mundo.
Ele não podia, simplesmente, deixá-la quieta, cuidando de sua flor rara, no seu canto? Julia estava cansada de brigar e gritar com Well, mas uma parte dela gostava disso. Quando ele estava calmo, era extremamente estranho. Na verdade, ele era extremamente estranho de qualquer jeito.
Enquanto andava pelos corredores em passos rápidos, Julia demorou apenas alguns segundos para perceber que várias pessoas a olhavam e isso a deixava incomodada. Ajeitou a sua saia, que naquele dia ela havia colocado na altura na cintura, por cima do moletom. Mari sempre achava engraçado o jeito que ela se vestia, porém Julia nunca havia ligado muito pro que as pessoas pensavam. Apenas não gostava de ser o centro das atenções.
Como agora.
Ela fez o máximo pra andar mais rápido com suas pernas pequenas. Equilibrar as suas coisas, a sua flor rara e a bolsa em seu ombro. Seu cabelo cacheado caía em seu rosto e ela calculou que provavelmente em algum ponto do corredor tropeçaria e cairia. Seu All-Star azul parecia está com o cadarço desamarrado.
No momento em que ela virou o corredor, (finalmente) tropeçou no próprio cadarço e era bem provável que caísse de cara no chão, se um braço firme não tivesse a segurado pela cintura.
– Uma pena que eu seja tão cavalheiro, era pra eu ter deixado você cair de cara no chão. – A voz tão temida a fez estremecer. Merda merda merda, isso era tudo o que conseguia pensar.
– Tão cavalheiro quanto uma galinha – Julia murmurou enquanto se ajeitava e se apoiava em um armário qualquer tentando o máximo ficar longe daquela cobra.
Ele rolou os olhos cor de mel e a segurou pelo braço indelicadamente, puxando-a para a entrada do banheiro feminino.
– Decidiu finalmente revelar que você é uma menina? Sempre soube disso... – disse, e Well parecia querer jogá-la longe. Por isso, decidiu ficar quieta.
– Tenha certeza que você é à última pessoa pra quem eu contaria se eu fosse gay... – Well disse e a menina não conseguiu controlar a língua.
– Isso quer dizer que você já considerou essa possibilidade? – ela disse, com as sobrancelhas arqueadas.
– Muito engraçada, Srta. Capim – ele disse rolando os olhos, e Julia bufou. – Preciso da sua ajuda.
– VOCÊ? – a menina gritou. – Quem é você?
– É sério. – ele disse, e realmente pareceu sério. Seus olhos cor de mel brilhavam. – Vai me deixar explicar ou tem mais alguma piada?
– Você tem 5 minutos antes de eu gritar pedindo socorro. – dito isso, Well começou a explicar qual era o seu trauma. Ou pelo menos um deles.
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