New Perspective
1 A lebre e as rãs
Notas iniciais
(Ps. A fic seria contextualizada mais ou menos após a Segunda Grande Guerra. Mas não nos concentramos muito nos detalhes. ^^')

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Aslebres e as rãs
O vento úmido dos arredores de Londres assoprava os fios dourados de meu cabelo, que normalmente já tinham aspecto de bagunçado. Eu caminhava do lado externo ao muro da propriedade que ocupava inúmeros hectares; os pés calçados com um par de Chanel em uma coloração bege escura. O tempo se encontrava agradável, de forma que a roupa de alta-costura, em um tecido firme, não me incomodava. O motivo de minha chateação era outro.
Meus olhos seguiram em direção ao horizonte,onde era possível enxergar o início da capital do Reino Unido. Daquela distância, a vida urbana não me parecia, de forma alguma, maior do que os muros que até aquele momento me prendiam. Por outro lado, eu sabia muito bem que, de onde eu estava, meus olhos eram capazes de mostrar somente uma pequena parcela da grandiosidade de uma Londres que me era desconhecida.
Um suspiro fugiu-me pelos lábios delicados, enquanto eu girava nos calcanhares e decidia voltar à mansão.
Odiava aquela vida e tudo o que a ela se relacionava. Repleta de expectativas, deveres e exigências desagradáveis; mesmo no passado, quando eu não passava de um pequeno e inocente menino. Eu não tinha liberdade de escolha e estava amarrado a um futuro que em nada me agradava ou meinteressava. Além disso, também estava preso a esta propriedade sem graça –em meus dezessete anos de vida,esta foi uma das poucas vezes em que minhas tentativas de fuga deram certo.Desde meu nascimento, sempre que precisava de algo, fossem alfaiates ou médicos, eram eles quem vinham até mim, tudo para evitar meu contato desnecessário com o mundo exterior.
Assim, o que eu sentia enquanto retornava para dentro dos portões seguros do imponente terreno não era medo ou remorso. O que me fazia retornar à minha casa era pura satisfação; eu já provara um pouco da minha almejada liberdade e não havia porque gastá-la toda de uma vez.
Eu já retornava, com os pensamentos ocupados com lamentos infrutíferos, quando algo novo surgiu no horizonte sempre imutável, atraindo minha atenção e curiosidade. Um pouco distante, mas ainda perceptível, uma sombra passeava por entre as penumbras das árvores do bosque: uma sombra alta e bípede.
Com a curiosidade fisgada pela figura incomum, aproximei-me sorrateiramente, seguindo o vulto misterioso para o interior do bosque. Quando ele enfim parou de se locomover de maneira aleatória por entre os altos carvalhos, aproveitei a ocasião para analisá-lo melhor, apesar de não estar exatamente próximo.
Ele era um jovem de cabelos muito loiros, que chegavam até a altura de seus ombros, e vestia roupas simples e desgastadas. Certamente, alguém que não condizia com os arredores refinados aos quais eu estava habituado a ver.
Depois de observá-lo por uns instantes, enquanto este passeava o olhar pela sua volta, decidi chamá-lo:
– Ei! – só então ele pareceu notar minha presença, a poucos metros distantes de si.
Um estranho nervosismo correu pela minha espinha quando ele se virou rapidamente em minha direção e abriu um sorriso de orelha a orelha. Mas, apesar de minha agitação,eu não poderia me calar, não agora! Nervoso, cuspi as primeiras palavras que me vieram à mente, mantendo uma postura desnecessariamente severa.
– Que- Quem é você? O que faz aqui?
Eu estava longe de estar irritado com sua presença, por isso, condenei-me internamente pelas palavras proclamadas. Porém, estas acabaram por ser totalmente ignoradas pelo desconhecido. O garoto – pois notei depois que ele não passava disso, com talvez mais ou menos a minha idade – se aproximava rapidamente. Ele vinha com um sorriso radiante nos lábios e os olhos brilhando de satisfação. Vê-lo diminuir a distância que nos separava apavorou-me de certa forma, mas eu era incapaz de me mover.
Sendo assim, restringi-me apenas a observar sua veloz aproximação, sentindo o meu nervosismo aumentar gradativamente. Eu também nada disse quando a criatura me agarrou as mãos e pôs-se a balançá-las em um cumprimento espalhafatoso, ou mesmo quando ele começou a me encher de perguntas que eu simplesmente não entendia.
Não sei se era culpa da língua que ele falava ou se era minha própria, por estar demasiadamente distraído o observando. Quero dizer… Eu estava surpreso! Apesar da aparência humilde e talvez um pouco magra demais, o jovem a minha frente era dotado de uma beleza refinada! E não era só isso… Algo nele simplesmente me chamava a atenção, apesar de que eu não soubesse exatamente o quê.
– De- Desculpe, mas não estou te entendendo. – eu disse, por fim, com minha face quente pelo constrangimento.
O loiro, poucos centímetros mais alto do que eu, abandonou o sorriso e me largou enfim. Suas expressões se tornaram um tanto pensativas por um momento, mas não demorou até que ele voltasse a sorrir, desta vez um tanto embaraçado.
– Perdão. – ele levou a mão à cabeça e mexeu com os fios loiros que caíam em sutis cascatas. – Às vezes, esqueço que não estou mais na França. Enfim... Eu estou procurando a mansão dos Kirkland. Tenho uma entrega a fazer. – seu sotaque era forte, mas sua fala era até compreensível.
– Uma entrega? Para o meu pai?... Ah! Devem ser os contratos que ouvi ele mencionar ao secretário noutro dia... – murmurei, meus pensamentos fugindo-me pelos lábios.
– Seu pai? Então você seria um Kirkland? – o loiro perguntou um tanto surpreso.
– Sim. Arthur Kirkland, o filho mais novo.
As expressões do loiro tornaram-se de repente um tanto mais exasperadas, ao que ele rapidamente pôs-se a se desculpar por seu comportamento anterior. Algo nessa situação simplesmente me fez sorrir.
Normalmente, eu seria extremamente chato em questão de etiqueta, fosse com quem fosse, mas eu não havia dado muita atenção no caso do francês, e havia feito isso até sem perceber. Eu simplesmente estava ocupado demais observando a curiosa figura que ele era.
– Tudo bem. Não tem problema. Mas me fale, você quer que eu entregue isso por você? Já estou indo para lá mesmo, logo, não me custaria nada.
– Ah… A oferta é muito gentil, mas não posso aceitar.
– Já falei que não tem problema. Não é incômodo algum.
– Não é isso, senhor Kirkland, eu…
– Arthur. – interrompi-o.
– O quê?
– Me chame de Arthur. – minha voz soava rígida e séria.
O loiro pareceu surpreso com minha estranha exigência – Mas quem não estava? Até eu não sabia o que estava fazendo! – e, por isso, demorou um pouco para voltar a se pronunciar.
– Certo… Arthur, obrigado de verdade pela oferta, mas tenho que recolher a assinatura de seu pai. Vou ter que pedir para que me mostre a direção.
– Oh. Entendo. Tudo bem. Vamos juntos então.
– Desculpe pelo incômodo. – o loiro fez-me uma reverência e me senti desconfortável.
– E- Eu já disse que não me importo, afinal eu já estava indo para lá mesmo…
Ao que o francês ergueu novamente a cabeça, para meu alívio, ele sorriu de forma educada. Um curvar gentil dos lábios rosados que eu não consegui ignorar, e que me fez sorrir também.
Sem mais nos demorarmos, pusemo-nos a caminhar pela propriedade, desta vez no caminho certo. O silêncio reinava a maior parte do tempo, e o único momento quando este se quebrava era quando eu fazia algum comentário sobre os arredores. Consequentemente, o que eu tanto queria lhe perguntar, que era sobre a vida além-muro, acabou por não ser pronunciado.
As minhas dúvidas permaneciam e eu não sabia o porquê disso. Eu estava desperdiçando uma ótima, e talvez única, oportunidade.
Esta pessoa ao meu lado poderia me responder tantas perguntas, poderia me dizer sobre como é a cidade e a vida das pessoas comuns… Então por que eu mesmo fujo do meu desejo de iniciar tal tópico?
– Err… – virei meu rosto em seu sentido, determinado a lutar contra o estranho medo que o assunto me provocava.
– Estamos quase lá. – ele disse, olhando ainda em direção à frente.
Segui seu olhar, notando que ele estava certo. As paredes altas da mansão já se encontravam em nosso campo de visão, e isso me fez entristecer de certa forma. Além de que, não pude evitar me condenar por não ter afinal adentrado no assunto que mais me interessava.
O mais alto apressou os passos e, assim, tive que acelerar também os meus para acompanhá-lo. Depois de não mais do que dois minutos, havíamos alcançado a porta de entrada. Uma criada nos esperava à porta, e foi para ela para quem solicitei que avisasse meu pai do visitante.
Assim que comecei a falar, porém, fui interrompido. A criada parecia estar no meio termo entre o alívio e a aflição.
– Senhor Arthur! Graças a Deus! Pensei que tinha saído da propriedade. A segurança já estava se preparando para ir procurá-lo na cidade. – ela parecia séria em sua preocupação, mas eu sabia que não era por minha segurança que ela temia. Meu pai deixara bastante claro da última vez em que eu tentara sair portões afora que, qualquer um minimamente envolvido comigo, seria punido por meus atos.
– Eu só fui dar um passeio no jardim, não se preocupe. – tratei de acalmá-la, antes que as coisas piorassem. Lembrei-me então, que havia uma testemunha contra minha afirmativa, e lancei um olhar hesitante na direção ao meu acompanhante, temendo ser contrariado. O loiro, porém, só me observou com curiosidade, sem fazer qualquer comentário. – Então... Vamos ao escritório, sim?
A mulher apressou-se e nós seguimos atrás, os passos mais lentos. Nada era dito por qualquer um de nós e isso me incomodava. Olhei de esguelha o maior, notando que ele observava cada canto do corredor com bastante interesse. Entristecido, joguei meu olhar ao caminho que eu percorria.
Algo me ansiava e eu não sabia o que era.
Talvez, quem sabe, fosse o simples pensamento de que logo eu me separaria do interessante visitante, e que eu nunca mais o veria.
O som de uma batida alcançou-me os ouvidos, fazendo-me subir os olhos novamente e descobrir que já havíamos alcançado o escritório de meu pai. A criada a nossa frente abriu a porta assim que recebeu uma resposta do patriarca.
O francês não se conteve ao trespassar a porta e entregar o envelope, recebendo um canhoto assinado e carimbado em troca, além de alguns trocados, que ele se apressou em enfiar no bolso das calças. Não demorouaté ele que ele passasse por mim, seguindo para o corredor. Num ato impensado, segurei-o pelo braço.
– Só espere um momento. – pedi. – Eu o acompanharei até a porta.
Ele pareceu surpreso com o pedido, mas assentiu. Assim, apressei-me escritório adentro ciente de que seria chamado de um jeito ou de outro. Os olhos do mais velho não demoraram a cair sobre mim com peso, porém não recuei.
– Fui informado de sua tentativa de burlar a propriedade, hoje. – eu abri a boca para contestá-lo, mas não o fiz. Meu pai não gostava de ser interrompido. – Os responsáveis pela segurança serão punidos, é claro. Quem mais te ajudou?
– Ninguém. Eu não tentei fugir. – antes mesmo de terminar a frase, percebi que ele não acreditava em mim. A saliva desceu ansiosa pela minha garganta seca, arranhando-a. – Só fui dar uma volta pelo jardim e perdi a noção do tempo. Só percebi que deveria voltar quando encontrei aquele homem.
Tentei soar convincente, mas ao terminar não era capaz de acreditar em mim mesmo. Todavia, por sorte, meu ouvinte pareceu minimamente convencido.
– Bem, se esse é o caso… – ele tinha ainda os olhos muito sérios e intimidadores. – De qualquer forma, você está proibido de deixar a casa, a partir de hoje, sem um acompanhante. Não desejamos que este tipo de desentendimento volte a ocorrer.
–... Sim, pai. Com sua licença.
Ele voltou seus olhos para os documentos recém recebidos e não mais prestou atenção em mim. Despedi-me com uma curvatura silenciosa, e saí da sala temendo que o francês já tivesse sumido.
Para meu alívio, ele estava apoiado na parede do corredor, conversando com a criada que nos levara até ali. Ela parecia mais do que encantada, mas não fiz qualquer comentário. Pigarreei para anunciar minha presença, recebendo a atenção que desejava quase que automaticamente.
– Senhor, tenha um bom dia. – a moça despediu-se, pronta para sumir pelos corredores da grande mansão e voltar às suas tarefas habituais. Entretanto, eu não me demorei em impedi-la, lembrando-me da ordem de meu pai.
– Ah, espere! Eu preciso que me acompanhe até o portão. – ela pareceu surpresa com o pedido, mas não tentou me contradizer. Claro que não, ela era paga para tal. – Vamos, então.
Nosso grupo não poderia ser menos estranho, nem mais silencioso. O caminho foi feito um pouco rápido demais, e a presença da criada me impedia de fazer as perguntas que eu antes pretendia fazer quando estivéssemos a sós. Por fim, alcançamos a saída, e quando chegou a hora da despedida, ele não muito se demorou. Logo, suas costas já caminhavam pelo longo caminho em direção aos portões de ferro, sumindo rapidamente.
E, por algum motivo, não me movi. Permaneci estático, apenas observando a trilha por onde, àquela altura, o francês nem mais estava à vista. A criada me lançava, vez ou outra, olhares confusos e ansiosos, provavelmente questionando minhas ações tão insensatas e desejando que eu apenas a desse permissão de se retirar. Todavia, eu estava pensativo demais para lhe dar atenção, e, sobretudo, meus olhos ansiavam pela visão do loiro.
Depois de sentir um pouco do vazio que tomou conta da minha pessoa e, sem pensar muito no que eu fazia, corri atrás dele. A criada exclamou algo, surpresa e confusa, mas não se moveu de qualquer forma que fosse para me impedir de prosseguir atrás do desconhecido propriedade a fora. Quando o encontrei, pouco mais de dez minutos depois de uma corrida exaustiva, ele já se encontrava quase na metade do caminho.
– E- Espere! – acenei, ao longe, chamando-o por em um berro.
Ele se virou no momento em que eu o alcançava. O garoto parecia não surpreso, mas confuso quanto às minhas razões para procurá-lo.
– O que foi, Arthur? Você está bem?
Eu me apoiei sobre meus próprios joelhos, puxando o ar com força. O fôlego demorava a voltar e isso me causava um insuportável mal-estar.
– Estou bem. A- Apenas não estou acostumado a correr… – eu respondi ainda não totalmente recuperado.
– Mas você precisa de alguma coisa? Por que me seguiu? – o loiro parecia realmente preocupado com minha situação.
Ergui meu rosto, encontrando seus olhos azuis bem próximos. Eu não havia os dado muita atenção até então e notei que isso fora um erro. Eles eram tão belos… Um azul tão cintilante e livre, tão espontâneo e sonhador… Devia ser essa a cor da liberdade.
Um riso breve escapou-me pelos lábios, enquanto eu começava enfim a me recompor.
– Então era isso… Você é realmente diferente.
As faces do francês pareceram confusas, enquanto ele me ajudava a pôr-me em pé. Ele tinha a mão apoiada em meu ombro e a outra me segurava pelo braço.
– O que quer dizer?
– Você… Qual o seu nome? – perguntei, finalmente.
– Francis Bonnefoy.
– Francis, você é como o vento. Você é livre. E isso é maravilhoso. – um sorriso dominava-me os lábios finos.
– E- Eu não te entendo… Do que está falando, Arthur?
– Francis, eu tenho um pedido a fazer.
– Qual? – ele pareceu um tanto receoso de repente e, por algum motivo, eu compreendia como ele se sentia, pois eu estava da mesma forma.
E se eu me arrependesse da minha atual decisão? Seria melhor deixar tudo como estava? Mas não sei se aguento viver desta forma por muito mais tempo... É angustiante demais viver uma vida em que não se aproveita.
Meus dedos e braços tencionaram. Tentei movê-los um pouco, mas isso não melhorou realmente as suas situações.
– Por favor… – minha voz estava determinada – Me leve com você.
O silêncio foi o que se seguiu. Com as expressões chocadas, o francês me encarava, perplexo. Nenhuma palavra saia de sua boca e tampouco da minha. O ambiente foi rapidamente tomado por uma quietude desconfortável e só foi rompida instantes depois, por uma súbita e mal contida gargalhada por parte dele.
Francis tinha as mãos sobre os lábios, mas se via incapaz de não rir da presente situação. Minhas sobrancelhas se contraíram, e eu me sentia irritar consigo pela primeira vez até então.
– Do que está rindo? Eu estou falando sério!
– De- Desculpe!... – ele pediu, sendo ainda incapaz de se controlar devidamente. Francis abanou uma de suas mãos diante da face, a outra ainda ocupada tentando conter o riso. – É só que essa foi a coisa mais sem noção que escutei até hoje.
Quando ele enfim retomou a sua postura habitual, Francis sorriu e pousou as mãos na cintura. Seus gestos eram imponentes, ao meu ponto de vista, apesar de não saber dizer o porquê disso. Um sorrido divertido dominava-lhe os lábios.
– Por que você quer sair desta boa vida? Aqui, você tem tudo que precisa e mais um pouco!
– E- Eu odeio este lugar, simples assim! – joguei meus olhos ao chão, a raiva crescente tomando conta de mim cada vez mais – Esta casa, este sobrenome, esta vida… Odeio-os, todos! Não me deixam fazer nada do que quero, só sabem jogar responsabilidades e mais responsabilidades sobre os meus ombros! Eu quero mais é sair deste inferno!
Quando enfim me acalmei um pouco e subi os olhos, suas expressões não eram mais as mesmas. O francês claramente se irritou, e eu não sabia o porquê. Ele me encarava de uma forma intimidadora e o azul de seus olhos eram agora frios como a neve.
– Inferno? Você chama este lugar de inferno? – ele me agarrou pela blusa e me ergueu um pouco. Senti medo, mas, apesar da minha vontade de gritar e sair correndo, eu me vi incapaz de reagir de qualquer forma. – Eu daria tudo para estar neste seu dito inferno! Metade da Europa daria!
Ele me jogou para trás, largando-me enfim. Cambaleei alguns passos, mas não cheguei a cair.
– Criança mimada…
E depois de dizer tais palavras, no tom mais irritado e enojado que eu já ouvira, ele me deu as costas e partiu. Antes que eu pudesse perceber, as forças das minhas pernas haviam sumido e acabei por cair sentado.
Eu olhava na direção por onde o loiro sumira, enquanto minha mente coloria-se totalmente de branco. Eu me sentia destruído por dentro, pela rejeita. Além disso, a forma como ele tratara meu sério pedido, como se fosse a coisa mais estúpida possível, não mais me irritava, porém me magoava.
Depois de quase três minutos inteiros, o sol começou a se deitar e decidi que era hora de voltar para casa. Ergui-me do chão de terra, limpei as roupas como pude, e então dei as costas ao caminho que o francês seguira, caminhando pelo muito conhecido trajeto, como se nada tivesse acontecido.
Todavia, de algo eu estava certo: não seriam as palavras rudes de um qualquer que me fariam desistir do meu sonho de sair deste lugar. Mesmo que eu não soubesse quanto tempo levaria, eu ainda teria minha almejada liberdade.
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Três meses depois, a minha vida continuava a mesma.
Eu não mais tive contato com alguém que me interessasse, e muito menos com o jovem Francis Bonnefoy. Era bem como se ele sequer tivesse pisado naquela propriedade tão reservada, e estava certo de que ninguém mais se lembrava de sua existência – ninguém, exceto eu.
Porque eu soucapaz de esquecê-lo.
Fosse seu sotaque carregado de recém-chegado, fosse seus cabelos loiros ou a sua face irritada, todas eram memórias frescas em minha cabeça. E sua lembrança vinha sempre acompanhada de dois sentimentos em especial: primeiro, a raiva e, depois, a angústia.
Eu ainda não havia o perdoado pela forma como tratara meu sincero pedido, e duvido que um dia o fosse capaz. Claro, não que isso faça tanta diferença, afinal, as probabilidades de um possível reencontro são completamente nulas.
Pousei no pires a xícara da qual o chá eu bebericava. A mesa posta a minha frente tinha também alguns doces, mas estes jaziam intocados. O gosto um tanto amargo da bebida me agradava, por isso, não sabia porque eu haveria de estragar o seu sabor, misturando-o com algo exageradamente doce e enjoativo. E, embora eu já houvesse deixado claro pelo menos umas vinte vezes desde o começo do mês, as criadas insistiam em trazê-los; talvez fossem elas que ficavam com os restos, quem sabe… Não me importo.
Meus olhos trilharam da mesa ao céu azul. As nuvens, brancas e fofas, quase pareciam imóveis naquela imensidão celeste, que se estendia até o horizonte. Lembrei-me que, quando mais novo, eu perguntara uma vez ao meu pai até onde a terra acompanhava o céu em sua infinidade. Recordo-me de que aquele foi um dos poucos momentos de minha vida em que tive a oportunidade de ouvir sua risada.
“Nosso mundo é finito, Arthur. Redondo e minúsculo, em meio a um céu inalcançável.” ele me respondeu.
Sou obrigado a discordar dele. O meu mundo era finito, escondido entre as quatro paredes da casa, crescendo entre um grupo muito semelhante de pessoas, sempre com o mesmo “Bom dia, senhor” ou “Por favor, não vá por aí”. Meu limite sempre foi os piqueniques na entrada do bosque, e mesmo estes se findaram ainda em minha infância.
Todavia, eu logo percebi que isso não se aplicava a todos. Essa não era uma realidade coletiva, e eu nunca conheci alguém que vivesse o mesmo tipo de clausura que eu. As pessoas eram livres para ir aonde quisessem, quando quisessem e com quem quisessem. Meus próprios pai e irmão tinham essa liberdade. Assim, me pergunto: por que não eu?
Por que comigo era diferente?
Meu pai tinha em mãos poder e dinheiro o bastante para ter a própria liberdade, e meu irmão sempre o acompanhou em suas viagens a negócios, já que seria ele a tratar desse assunto no futuro, enquanto eu trataria apenas da questão administrativa.
E tudo isso me traz a tona certas lembranças, já quase esquecidas por culpa do passar dos anos. Minha antiga babá costumava dizer que eu havia nascido em um mundo onde tudo, mesmo o amor e a felicidade, era muitas vezes ligado à riqueza que cada um possuía, comprado como se fosse mercadoria. Hoje em dia, eu começava a ver que muito do que me fora dito não era assim tão verdadeiro. Embora eu também não soubesse dizer se essas discordâncias se deviam à minha personalidade...
Afinal, mesmo com todo o dinheiro do mundo, estou certo de que, enquanto meu pai estiver vivo e por perto, eu não terei a minha almejada liberdade. Continuarei preso pelas correntes invisíveis que me impedem de respirar o ar de fora e de sentir as brisas da liberdade.
Mas tudo bem. Isso não importava, porque eu havia enfim chegado a uma resolução, e na qual eu não voltaria atrás. Se meu pai não pretendia abrir mão de sua teimosia, eu o faria, a força.
Claro que tal coisa seria impossível com ele por perto, principalmente porque ele tinha seu próprio circulo de sentinelas, que pareciam sempre saber o que eu fazia e onde eu estava. Por isso, tive que juntar toda minha paciência e aguardar, esperando que não muito demorasse até surgir uma oportunidade favorável. E agora aqui estava eu, pela primeira vez, sendo grato ao fato de sua injusta liberdade tê-lo forçado a uma viajem de negócios de última hora.
Eu tinha, contando com o dia de hoje, uma semana para conquistar meus desejos. E durante esse tempo, os únicos encarregados de minha constante sentinela seriam os criados que, cá entre nós, não foram exatamente bem preparados para tal. Eu poderia escapar destes tão facilmente quanto à água fugia entre os dedos, ao ser apanhada por mãos vazias.
Era como diziam os heróis e exploradores dos vários livros que lotavam as estantes da biblioteca: “É agora ou nunca”.
Eu não mais teria uma chance tão perfeita como esta.
Uma brisa mais forte do vento que circulava pelo quintal agitou os meus cabelos loiros, enquanto levava consigo pétalas das rosas brancas do jardim sempre bem cuidado. O Sol brilhava forte e, sob sua luz e calor, meus olhos claros recaíram de volta à mesa a minha frente. Eu fugiria, e sozinho. Não é como se eu precisasse de ajuda para um ato tão mundano.
Não é como se eu precisasse da ajuda de Francis Bonnefoy.
Apanhei a xícara e beberiquei mais um pouco do chá. Sem dúvidas, delicioso…
O som de batidas fez com que eu voltasse os olhos para a porta, por onde uma criada trespassou logo em seguida. Inconscientemente, eu me vi questionando se ela também tinha sua liberdade controlada; apesar de que eu achasse pouco provável que sua situação fosse de qualquer forma pior que a minha.
Por fim, ela deixou a sala, levando consigo a bandeja quase intocada. Antes de sair quarto afora e retornar às suas tarefas, ela despediu-se com uma curvatura e um discreto olhar incomodado, o qual não me passou despercebido. Talvez, o fato de eu tê-la encarado durante todo o processo fosse o causador de seu incômodo. Quando notei que estava novamente só, lamentei por ela ter levado também a xícara onde eu tomava chá, e questionei-me sobre porque não a impedi.
Bem, aparentemente era hora de uma caminhada entediante pelo jardim…
Quando deixei meu quarto e segui pelo corredor, fui automaticamente acompanhado por meu atual vigia, um rapaz que eu identifiquei como um dos ajudantes da cozinheira, e que fora deliberadamente ignorado por mim. Ele era um dos melhores, pelo menos. Ficava em silêncio e simplesmente aceitava onde quer que eu pretendesse ir, contanto que eu me mantivesse do lado de dentro dos muros.
O jardim, como esperado, continuava exatamente o mesmo do dia anterior, e do dia antes daquele, com exceção das begônias, que vinham florescendo aos poucos nos últimos dias. Eu já tentara, algumas vezes antes, me envolver com jardinagem. Mas, como esperado, fui impedido por ser considerado “Um trabalho para empregados, para que eu pago um jardineiro, afinal?!” e acabei largando a prática.
À medida que a tarde findava e o céu se coloria de tons de rosa e laranja, senti meu coração se apertar com a expectativa. Cheguei à conclusão de que aquilo era mais do que o suficiente para uma caminhada em círculos dentro de minha área condicionada. Com um sorriso de desculpas na direção de meu acompanhante, disse que desejava já retornar. O pobre rapaz me pareceu mais do que grato por eu estar voltando para dentro, já que a temperatura estava caindo bastante com a vinda da noite.
As primeiras palavras que ouvi ao entrar pela porta foram:
– Seu banho quente está pronto, senhor.
Acenei com a cabeça, seguindo escada acima até o banheiro. Um sorriso se plantou em meu rosto.
O plano começava agora.
Com uma expressão inocente, recusei a ajuda alheia. Disse que era perfeitamente capaz de esfregar minhas costas sozinho e, quando percebi a hesitação da criada, lancei meu melhor olhar de impaciência, que por sorte foi o bastante para expulsá-la dali.
Eu realmente tomei meu banho, tinha a sensação de que precisaria de um pouco de calor antes de sair para a noite fria, mas o fiz o mais rápido possível, ansioso a terminar logo com aquilo. Saí o mais silenciosamente possível da banheira, sabendo que ainda tinha meia hora até invadirem o cômodo.
Vesti as roupas que, depois de uma semana de esforços, consegui pegar do copeiro da casa, que tinha medidas semelhantes às minhas. A calça ficou um pouco larga demais, mas considerei aquilo uma vantagem. A blusa era branca e de botões, e eu coloquei um casaco grande e antigo por cima. Optei por usar minhas próprias botas por medo de acabar tropeçando e me ferindo se arriscasse usar as de outra pessoa.
O fator chave que favorecia aquele banheiro ao invés do quarto como nos clichês dos livros, era sua localização no primeiro andar, e não no terceiro, como o resto dos dormitórios. Empurrei silenciosamente para cima o basculante e escorreguei o corpo para fora, rezando para que minha queda não fizesse tanto barulho.
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O mundo era silêncio e escuridão.
Meus olhos já haviam se acostumado parcialmente com a ausência de luz, e eu agora percorria a floresta que se estendia da propriedade dos Kirkland até a cidade, escondido pelas árvores e por suas penumbras. Já fazia quase uma hora desde minha fuga e, apesar de alguns mínimos problemas com a segurança, tudo corria perfeitamente bem.
Fugir de casa não fora tão fácil quanto eu pensei que seria, mas tampouco foi difícil. Aposto que a surpresa fora grande ao não me encontrarem no banheiro, que é onde eu deveria estar. Bem, provavelmente estavam todos a minha procura neste momento, temendo pelos seus empregos.
Porque, no fundo, era somente isso que os preocupava: acabarem desempregados, nas ruas, passando fome como antes de serem contratados por meu pai.
Eram todos egoístas; inclusive eu. Afinal, cá estou eu, dando trabalho a todos, apenas para alcançar meus objetivos particulares e egocêntricos. E não há motivos ou argumentos razoáveis que sirvam de desculpa para o egoísmo de um ser. Sei que meus desejos são egocêntricos e que estou complicando o serviço alheio, e não é como se eu gostasse disso, entretanto, eu não terei paz de espírito enquanto não seguir, uma vez na vida, o que meu coração manda.
Sinto que secontinuar a viver aprisionado, naquela jaula que tanto querem que eu chame de lar, acabarei por perecer devido às minhas frustrações. A tristeza que me abala diariamente por me ver enclausurado é grande demais, pois sou alguém destinado à liberdade.
Suspirei e ergui os braços ao alto, entrelaçando meus dedos sobre minha cabeça e espreguiçando-me. Já devia ser por volta de dez e meia e a noite jazia bastante escura, por ser período de Lua Nova. Assim, as únicas luzes visíveis eram as das estrelas que brilhavam fracas, e que de forma alguma propiciavam uma iluminação decente.
Recostei-me num dos muitos carvalhos da floresta que me acompanhava desde a propriedade e me permiti descansar por breves três minutos; porém não mais que isto, visto que já havia pessoas atrás de mim. E estas, com certeza, estavam se direcionando à cidade, afinal não havia alma naquela mansão que não tivesse conhecimento de meu sonho de ir até a capital, Londres. Por isso, eu não poderia demorar.
Continuei a caminhar, os pés cansados, mas insistentes em alcançar os solos desconhecidos da cidade. Os meus olhos, de um verde claro, iam atentos às penumbras da floresta, procurando por qualquer sinal de adversidades. Pouco depois de dez minutos, enfim as ruas e construções de Londres tornaram-se visíveis, e eu, mesmo esgotado, apressei meus passos.
Um sorriso largo dominava os meus lábios e uma euforia incomum fazia meu coração bater acelerado. Quando menos percebi, eu já havia aumentado ainda mais meu deslocamento, de forma que agora eu corria pelas ruas, encantado com os arredores tão estranhos aos meus olhos.
Apesar das lojas estarem, àquela hora, todas fechadas, eu não me sentia sequer um pouco decepcionado; até porque eu poderia muito bem visitá-las assim que amanhecesse. O simples ato de caminhar por entre as ruas e sentir que nada me segurava era indescritivelmente reconfortante.
Continuei com minha vista pela cidade por mais uma meia hora, mais ou menos, e então decidi que seria melhor apenas arrumar um lugar para passar a noite e continuar meu passeio no dia seguinte.
Mais para o centro da cidade, adentrei em uma pousada que considerei discreta o suficiente para passar despercebida aos olhos de meus perseguidores, e aconchegante o suficiente para os padrões aos quais eu estava habituado. Ao que me vi dentro da recepção do estabelecimento, um senhor, em seus cinquenta anos, sorriu largamente.
– Boa noite, senhor. Desejaria um quarto?
Hesitei perante o sorriso amistoso do homem. Estava habituado ao linguajar educado dos criados, mas sempre me foi óbvio que eles tinham seus motivos para agir daquela forma. Analisando o homem a minha frente, deduzi que ele não era muito diferente. Por outro lado, eu sabia que precisava arrumar logo um abrigo, ou poderia ser encontrado por algum dos criados. Assim sendo, não hesitei muito em aceitar a oferta.
-... Sim, por favor.
Depois de uma breve conversa com o atendente, eu me vi do lado de dentro de meu quarto, com uma chave antiga e puída em mãos. Soltei um suspiro de alívio, só então percebendo o quão tenso estive durante aquele tempo. Talvez, fosse o bastante para hoje.
Virei-me e dei uma boa olhada no aposento. Era pequeno, mas de um jeito confortável, como o quarto dos empregados no castelo, só que bem mais frio. Havia uma mesa pequena com quatro cadeiras, uma lareira e algumas toras, uma tigela com água e uma cama. Hesitei em frente à última, sentando-me e constatando que era confortável, apesar do tamanho desfavorável. Por uma última vez, olhei em volta, pensativo e curioso com os detalhes.
Só então percebi a janela, fechada para evitar o vento, e meus olhos brilharam.
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Quando o dia raiou, ergui-me da cama sem rodeios. Era até que bem cedo, mas isso não impedia meu desejo latente de conhecer uma Londres movimentada, com suas lojas abertas e ruas lotadas.
Descendo as escadas, meus pés trotavam velozes, e eu tive inclusive que lutar arduamente contra meu impulso de pular os últimos três degraus, como uma criança ansiosa por ver os presentes sob a árvore no dia de Natal. Um sorriso curvava-me os lábios ao que cumprimentei o senhor, que me recepcionou na noite anterior, o qual era também o dono da humilde hospedaria.
– O senhor já está de saída? Não desejaria sequer um rápido café da manhã?
– Obrigado, mas pretendo comer na cidade. – eu disse, virando-me nos calcanhares uma última vez antes de sair a fim de despedir-me. – Eu voltarei mais para o final da tarde. Poderia deixar o quarto reservado?
– Certamente, certamente! – ele tinha um sorriso fino e satisfeito. – Bom passeio. – ele me desejou, mas a essa altura eu já me misturava à multidão, que circulava a passos velozes pela rua.
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Depois de exaustivas quatro horas de caminhada constante, eu havia então visitado a maioria das principais e mais famosas lojas da capital inglesa. Eu caminhava sob o Sol forte, com pelo menos meia dúzia de sacolas de diferentes estabelecimentos penduradas nos braços. O casaco que eu vestia me esquentava, e os meus pés doíam por conta da atividade incomum que exerciam. Meus passeios pela propriedade Kirkland nunca foram tão duradouros, tampouco tão cansativos.
A ausência dos recorrentes descansos aos quais eu estava habituado, o grande número de pessoas ao meu redor e o terreno irregular, cheio de subidas e descidas, eram todos fatores que contribuíam à minha presente situação. Além disso, eu não estava acostumando a carregar tanto peso... As consequências de minha vida monótona como prisioneiro de meu sobrenome eram tantas e tantas que já chegava ao ponto de ser inviável contabilizá-las.
Incapacitado pelo cansaço, decidi que era boa hora para dar uma breve pausa em uma pequena lanchonete. Sentei-me a uma mesa qualquer, externa do estabelecimento, e o garçom não demorou a se aproximar, trazendo consigo um pequeno bloquinho e uma caneta.
– Boa tarde, o que vai ser, senhor?
– Uma xícara de algum chá mais cítrico, por favor.
– Como desejar.
Assim que o atendente sumiu de minha vista, pousei as sacolas no chão junto aos meus pés e espreguicei-me. Um sorriso largo e satisfeito cruzou meus lábios enquanto eu observava o garçom voltar já com uma xícara em mãos. Ele pousou a bebida na mesa, agradeci e, respondendo a sua seguinte pergunta, disse que nada mais desejava.
Depois de observar sua desaparição, voltei minha atenção exclusivamente à bebida que esfumaçava um pouco. Agarrei a asa e levei a xícara aos lábios, virando um pouco do conteúdo pela abertura. Não pude evitar a careta de desgosto que se sucedeu. O gosto da mistura de água quente com chá de baixa qualidade era azedo, mas não agradável.
Desistindo da bebida, ergui-me e me aproximei do garçom que passava perto, atendendo outra mesa. Ele agradeceu a gorjeta e sorri educadamente enquanto despedia-me. Avisei-o sobre o chá, mas ele não pareceu muito interessado no que eu dizia.
Quando voltei à minha mesa para apanhar as sacolas das compras, percebi que estas haviam sumido. Rodei os olhos pelos arredores, as feições da face contraídas em confusão, mas as mercadorias não estavam em nenhum lugar à vista. Ao que recorri ao garçom da lanchonete, tudo que recebi como resposta foi um “Você devia tomar mais cuidado com suas coisas.”.
Um tanto chateado pela situação, decidi dar uma caminhada pela extensão da rua. Talvez, quem sabe, eu avistasse a pessoa que havia se confundido e apanhado as minhas compras por engano. Todavia, se passou uma hora e nada. Seja lá quem fosse, este já havia sumido para não mais ser encontrado.
Era então pouco depois das dezessete horas quando uma fina chuva começou a cair. Suspirei, pensando no azar que eu estava tendo naquele dia. Rodei os olhos pela minha volta, surpreendendo-me ao ver que eu havia, em algum momento, saído da via principal. Os meus arredores eram compostos por lojas pequenas e as pessoas que pelas calçadas circulavam eram poucas. Caminhei um pouco, virei em algumas esquinas, mas tudo continuava desconhecido.
Aproximei-me de umas das lojas, concluindo que era hora de pedir direções, entretanto não me vi capaz de adentrar o estabelecimento que era um dos poucos abertos, apesar de que não fosse ainda nem dezoito horas.
O lugar tinha a frente pintada de um verde-água chamativo e, de seu interior, o cheiro de perfume feminino era carregado até o lado de fora pelo vento que soprava pelas poucas janelas do lugar. Eu, que estava do outro lado da rua, observando o curioso lugar com certa apreensão, podia senti-lo fracamente.
– Você vai entrar ou não, jovenzinho? Se não tiver acompanhante, não me importo de ir com você.
Ao ouvir a desconhecida voz feminina, virei minha cabeça à direita, notando a repentina presença de uma alta mulher de longos e encaracolados cabelos loiros. Mas mais que a cor dos seus fios, o que me chamou a atenção fora a sua vestimenta, composta por um vestido curto e decotado, de um vívido vermelho e sapatos de saltos pretos.
– Ah, não. Estou bem. – respondi, sentindo meus lábios tremerem de vergonha alheia. Como ela conseguia expor tanto o corpo e se sentir totalmente à vontade?!
– Poxa, vamos. Eu não vou cobrar caro. E agora que vi a sua cara mais de perto, eu nem me importaria de fazer um preço especial. – ela tomou meu rosto em suas mãos, fazendo-me corar ainda mais. Ela estava perto, perto demais, e eu me via paralisado, sem saber como reagir àquela situação inusitada.
Ela encerrou a pouca distância que nos separava, juntando nossos lábios em um beijo habilidoso. Não demorou nem três segundos e a mulher já havia me invadido a boca com sua língua. Estremeci, a sensação nunca antes experimentada trazia um calor estranho a cada parte de meu corpo, espantando o frio da noite. Levei minhas mãos aos seus ombros e a afastei em um bruto movimento.
Assim que me livrei de seu contato, passei as costas das mãos sobre os lábios, sentindo-o quentes e molhados. O fôlego me faltava e meu coração batia acelerado. A minha frente, a loira parecia chocada com minha reação.
Tentei me forçar a falar algo, a perguntar o que exatamente ela estava fazendo, mas as palavras não saiam. Puxei o ar, que entrou chiando pelos lábios e saiu rapidamente logo depois. Repeti o processo algumas vezes. Ainda conseguia sentir a língua dela na minha boca.
– O que diabos você pensa que está fazendo?! – Ela perguntou, parecendo indignada. Franzi o cenho, sem entender. Aquela deveria ser minha frase.
Incapaz de encarar a moça, passei os olhos ao meu redor, percebendo uma dupla de homens vindo em nossa direção. Eu até poderia considerar inocente a aproximação, mas percebi que ambos nos lançavam olhares intimidantes.
– Olha... – tentei, respirando fundo antes de continuar – Eu só preciso chegar ao hotel. Estou perdido.
–... Perdido? – seu tom soou debochado, seguido por um cruzar de braços que parecia completamente proposital, com o objetivo único de deixar ainda mais aparente seu busto... Já bem dotado. – Ninguém que passa por aqui está realmente perdido, meu bem. Quer mesmo que eu acredite nisso?
Apertei os lábios, a dupla já a poucos metros de nós. Questionei-me se estariam atrás de mim ou dela, todavia não pude alcançar uma resposta definitiva. Não reconhecia nenhum deles, mas também não poderia dizer que conhecia todos os funcionários de meu pai. Entretanto, eu não pretendia ficar ali para descobrir.
Sem mais nem menos, virei nos calcanhares e corri, voltando pelo mesmo caminho que usei para chegar ali. Ouvi a moça gritar algo sobre um pagamento e sobre o beijo, mas eu não seria estúpido a ponto de ficar para ouvir.
Tentei compassar ao máximo minha respiração, por um lado, temendo que me alcançassem, por outro, confiante que, de certa forma, eu sucederia em minha fuga. Anos fugindo da segurança me colocavam naquele nível. Eu podia até não ter muita estamina, mas me esconder e arrumar rotas de fuga tornaram-se minhas especialidades com os anos.
Corri por um bom tempo, até que a exaustão me fez olhar para trás – só para ter certeza de que não era mais seguido – e então, começar gradativamente a desacelerar um pouco o passo. Contudo, no exato momento em que pensei em parar, bati contra algo pesado e maciço, sendo lançado para trás. E claro que dei a grande sorte de cair bem numa poça d’água, para melhorar ainda mais minha situação...
– Você me deve.
Ergui os olhos, sem entender a declaração. Apesar da pouca luz, definitivamente era um dos brutamontes de antes, o qual me parecia ainda maior daquela distância. Ele me encarava friamente, aguardando por algo que eu não compreendia. Eu não devia nada a ninguém!
– Sinto muito, mas não sei do que o senhor está falando. – murmurei, erguendo-me e tentando limpar a sujeira que se instalara em minhas roupas agora molhadas. Assim que pus os pés no chão, porém, fui erguido pela gola da blusa até que meus olhos e os dele se encontrassem. Ele era uns bons vinte centímetros mais alto.
– Não se faça de bobo, pivete. Me deve dinheiro pelo serviço.
–... Serviço?
– O maldito beijo com a meretriz. Lembrou-se agora?
Meretriz? Eu não tinha beijado nenhuma… Ah! Mas...
– Foi ela quem me beijou, não eu! Eu só ia pedir informações!
– Não me interessa quem fez o quê! Passa logo toda a grana que você tiver aí, ou prefere apanhar antes?!
Respirei fundo, pronto para discutir mais um pouco, e para deixar claro que violência física não levaria a nada – apesar de não estar tão convicto assim, considerando o tamanho do agressor em questão. Foi então que uma terceira voz se uniu a discussão.
– Vamos lá, John, pega leve com ele. É novo no país e não sabe o que fala.
–... Você conhece ele, Francis?
Só então me virei, ainda sem acreditar que realmente ouvia aquela voz, para encarar o francês que agora segurava o braço do gigolô, um sorriso afetado brincando na face.
– É, algo assim. Deixe ele comigo.
– Certo… Mas trate de ensinar o seu amiguinho sobre como funcionam as coisas por aqui. – John resmungou, soltando-me novamente na mesma poça lamacenta. Obviamente, não fiz comentários – ainda gostava de respirar –, mas demorei um pouco mais antes de me levantar, ignorando a breve conversa que se seguiu entre os homens. – E ainda quero o dinheiro. Afinal, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Francis coçou de leve a testa, e suspirou. Seu próximo ato foi me lançar um olhar cheio de mensagens subliminares, as quais foram muito bem captadas por mim. Enfiei a mão no bolso e me aproximei do homem, largando em suas mãos minha carteira estufada. Ele não demorou em sorrir satisfeito e guardá-la no bolso da calça de farrapos, dando-nos as costas e partindo logo a seguir.
Quando dei por mim, estava sozinho com o francês, e o silêncio que tomava conta do ambiente era desconfortável. Depois de alguns segundos daquele ar estranho, ele se virou a mim e finalmente se pronunciou:
– Então, adeus.
Ele já havia dado uns dois passos quando reagi, segurando-o pelo pulso e o impedindo de partir. Ao que se virou e me encarou, seus olhos encontravam-se confusos, além de desagradados. Era evidente que ele não desejava minha companhia.
Sendo assim, por que, mesmo ciente de tal fato, não o larguei? Por que meus dedos, que contornavam seu fino pulso, apenas o agarraram com mais força?
Meus lábios prensavam-se com grande nervosismo, estando estes um tanto trêmulos inclusive. Meus olhos tentavam olhar diretamente o outro, todavia, quando estes se encontravam com os seus, frios e azuis, fugiam depois de certo tempo, amedrontados. Minha respiração encontrava-se pesada enquanto eu tentava formular, em minha cabeça, um modo de acabar com o silêncio ainda mais desconfortável, que agora nos rodeava.
– O que você quer?
O loiro foi quem por fim se pronunciou, extinguindo de uma só vez a quietude indesejada e, além disso, libertando-se de meu aperto com um movimento bruto do braço. Ele definitivamente não estava nem um pouco feliz.
– Eu já te ajudei, então trate de sair deste lugar. – seu tom de voz era tão frio quanto seu olhar – Creio que você deve ter assuntos pendentes na cidade, então não perca tempo passeando e termine logo com seu serviço para poder voltar ao seu castelo.
– Como se meu pai fosse mandar logo a mim para tratar dos assuntos da família. É para isso que ele tem meu irmão, afinal. Eu… Eu só estou em Londres a passeio... E eu meio que me perdi… – a resposta de meus lábios trêmulos veio rápida e impensada, e o chão era meu foco de atenção durante todo momento. Eu simplesmente não desejava que o silêncio voltasse a se formar em nossa volta. Tudo já estava por demais desagradável.
– A passeio?... – o outro pareceu subitamente confuso. – E você acha que está área é algum ponto turístico? Você tem ideia do quanto este lugar é perigoso?!
– Eu já disse que me perdi! – de repente raivoso, meus olhos subiram aos seus.
– Aposto que se separou intencionalmente dos seus seguranças particulares.
– Eu vim sozinho. Não preciso de seguranças.
– Não precisa? Você viu o problema em que acabou de se meter? O que você faria se eu não tivesse aparecido?
– E -Eu… Bem, eu…
– Viu?! Você não tem noção das consequências trazidas pelas suas idiotices impulsivas! E… – ele deu uma breve pausa, sua face de repente reflexiva. Depois de alguns segundos, ele estava nada além de incrédulo – Meus Deus! Não acredito que você está novamente agindo como um rebelde inconsequente!
Ele me agarrou pelo pulso e me puxou em sua direção, deixando-me a poucos centímetros de seu rosto. O francês, que sempre julguei até que belo inicialmente, tinha uma aparência cada vez mais intimidante em sua face de pele clara e mal cuidada.
– Arthur, me responde. Você fugiu de casa?
Meu coração faltou com uma batida, resultando em um aperto insistente e dolorido. Agora, meus tremores não eram exclusivos aos meus lábios, já que haviam se espalhado por todo meu corpo. Minha boca se abriu, mas nenhuma das muitas palavras que me confundiam a linha de raciocínio foi pronunciada; eu me via incapaz disso, de me proclamar. Assim, minha única reação foi desviar novamente de seu olhar, covardemente.
E isso foi o necessário para que o francês me segurasse com mais força, chegando ao ponto de machucar-me o pulso fino. Repentinamente, vi-me sendo arrastado por aqueles becos escuros, incapaz de não seguir junto ao outro, que se negava a responder minhas pertinentes, e um tanto desesperadas, interrogativas.
Por fim, segui-o pela cidade, tentando reconhecer os caminhos pelos quais ele passava. Pensei que ele poderia estar usando as ruelas e becos de propósito, jogando na minha cara a pobreza e sujeira que realmente empesteavam a cidade. Apertei meus lábios, tentando parar, quando vi uma criança sentada num canto do beco pelo qual passávamos. A situação do pequeno ser me fez estremecer, mas o francês não me deu tempo de observar ou tentar ajudar em algo, forçando-me a manter a caminhada.
Finalmente acabamos saindo numa rua que eu conhecia. A avenida principal da cidade entrando em meu campo de visão e me fazendo pensar no longo caminho até a mansão. A saída da cidade estava a poucos metros de nós, percebi. Eu fora enganado.
– Pare… Pare! – freei os pés, puxando o corpo para trás numa tentativa de me soltar. Finalmente consegui de volta meu braço, ignorando por um momento a expressão raivosa do rapaz a minha frente. Ainda incapaz de olhá-lo nos olhos diretamente, aproveitei a oportunidade para reagir, a visão caída e uma mão apertando o pulso dolorido da outra. – Eu não vou voltar agora, nem tente! Há ainda tanto para se ver... E eu tenho o direito de ver o mundo pelo menos uma vez! Se vai tentar me impedir, ótimo!
– Você é idiota?! Já viu o suficiente e fez besteira o bastante para uma vida inteira! O que está esperando? Ser roubado uma segunda vez? Ou talvez te matarem? Chega! Volte pra sua boa vida e nos deixe em paz! Este não é o seu lugar!
– Não pedi sua ajuda! – na verdade, eu meio que pedira, mas isso era um detalhe – Se te incomoda tanto, volte para dane-se lá onde. Eu me viro pra encontrar a pousada!
Eu já o havia dado a costas, caminhando pela extensão da cumprida e relativamente iluminada rua com passos pesados e teimosos, quando o som baixo de sua voz alcançou-me os ouvidos:
– Criança ingrata.
De imediato, rodei em meus calcanhares, pronto para jogar sobre si minha insatisfação. Todavia, este já não estava mais lá. Pisquei uma, duas, três vezes, confuso com o súbito desaparecimento do loiro. Meus lábios se contorceram um pouco enquanto eu bufava em resposta a um desagrado que eu não realmente sentia. Meus pés voltaram a trabalhar, apesar de lentamente. Meus olhos acompanhavam as lojas, que já estavam quase todas fechadas.
A cidade de repente me parecia muito maior… Exageradamente grande. Desnecessariamente espaçosa.
Voltei ao meu caminho, sem mais olhar para trás. A cidade iluminada me chamava.
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Quando alcancei a porta da pousada, metade da madrugada já havia decorrido. Encontrar o local levara certamente bem mais tempo do que eu inicialmente julgara, todavia o alívio sentido ao avistar a fachada conhecida chegou às alturas.
Meus dedos bateram na madeira da porta, que se encontrava àquela hora já trancada. Nada. Bati uma segunda vez, uma terceira e depois uma quarta, sendo que cada vez as batidas tornavam-se mais insistentes e barulhentas, e menos “cavalheiras”. Depois de quase dois minutos esperando em meio à noite fria, escutei um berro vindo do interior. Passos apresados decorreram logo em seguida, os quais corriam escada abaixo e depois seguiram pelo corredor que levava até a porta. Assim que o senhor me atendeu, vestido em largos pijamas listrados de azul e branco, suas expressões tornaram-se imediatamente surpresas.
– Senhor Arthur! Eu já estava preocupado! Pensei que algo o houvesse ocorrido, pois não voltastes como disseste que farias!
– Obrigada pela preocupação. – sorri, sentindo-me mais que nunca aliviado. O homem me abriu passagem, e eu adentrei a sala escura – Meti-me em alguns imprevistos, nada de mais. Só… Só fui assaltado. Mas estou bem, totalmente inteiro.
– Assaltado?! – a boca do senhor de meia idade jazia totalmente aberta.
– Sim, lamentavelmente... Foi uma primeira experiência que não pretendo repetir. Certamente nada agradável.
– Então, e a sua carteira?! E o seu dinheiro?! – o homem estava tomado por ainda mais agitação que eu. Ele se encontrava completamente descrente em relação às minhas palavras.
– Ah, bem... Levados. Mas o que eu podia fazer? Fui ameaçado! E, sem dúvidas, o homem não blefava.
– Mas você não tem nada? E nessas sacolas?
– Eram alguns doces, roupas e chapéus. Eram. Acabaram afogados na lama, amassados, pisoteados durante a confusão. Não são nada além de lixo agora. Não sei nem porque os trouxe comigo, eu devia os ter largado durante o caminho...
– Mas, mas…
– Mas pelo menos estou inteiro. – sorri, sentindo-me verdadeiramente aliviado – De certa forma, acho que é isso que importa. Certo?
O senhor estava com a boca aberta e o olhar vazio e decepcionado. Aparentemente sem saber como reagir perante a situação inacreditável em que se envolvera, pusera-se a me empurrar porta a fora. Sua ação surpreendeu-me, causando-me espanto.
– O- O que está fazendo?
– Fora.
– O quê? Por quê?
– Como assim “Por quê?”? Aqui não é nenhum abrigo.
– Mas... – virei em sua direção, tentando impedi-lo, mas ele era mais forte que eu. Eu estava totalmente chocado com o que me acontecia.
– Sem dinheiro, sem quarto.
O homem me jogou na rua, as sacolas sujas caindo sobre mim durante minha queda. A porta foi fechada com força e rancor, o homem consequentemente sumindo do meu campo de visão.
Fiquei certo tempo a encarar a porta de madeira; minha situação me parecia irreal demais, impossível demais. Afinal, não tinha como aquilo estar acontecendo comigo. Só porque eu não tinha mais dinheiro, ele… Quero dizer,poderia pagá-lo depois, quando retornasse a cidade novamente. A não ser que eu tenha feito algo que o irritasse. É… É, deve ser isso. Só pode ser.
Não é como se todos fossem como meu pai. Não é como se todos só pensassem em cifrões e status.
Meus punhos se fecharam e eu estava, sobretudo, confuso. O impulso de me levantar e buscar Francis e pedi-lo ajuda era grande, mas minha teimosia também era. Como eu poderia simplesmente me jogar aos pés de alguém que só pensava em me ter longe? O fato de que minha presença era por si depreciada já estava há bom tempo evidente.
Eu não precisava dele. Eu não precisava de ninguém.
Pus-me de pé, batendo as costas das mãos na roupa que ficava cada vez mais suja. Como se não bastasse a lama, agora ela também estava repleta de pó, e o mau odor começava a se tornar perceptível.
Deixando para trás as sacolas desnecessárias e caminhando pela longa e larga rua mal iluminada, comecei a descer a comprida ladeira, com uma única pergunta me enchendo a mente: “E agora?”.
Agarrei-me às bordas do fino casaco que eu usava, pensando agora o quão melhor teria sido se eu tivesse trazido minha própria vestimenta. A do copeiro era tão fina, que de forma alguma, espantava o frio que me seguia pela rua. Eu não poderia continuar assim, eu precisava encontrar, e logo, um lugar para me proteger da noite.
Mas como fazer isso sem dinheiro? Eu certamente não desejava ser jogado na rua novamente, seria o fim do pouco orgulho que me resta.
Ergui os olhos verdes à minha frente, pois estes haviam, em algum momento, descido à calçada, e, olhando rapidamente em volta, notei o quão vazia as ruas se encontravam. Todavia, senti que as duas ou três pessoas com quem eu vez ou outra cruzava em meu deslocamento me encaravam desagradadas. Suspirei, compreendendo muito bem a reação delas. Eu certamente não estava no melhor dos estados.
Fugi por uma pequena ruela, saindo da via principal de Londres. Eu assim voltava aos becos, mas não aos mesmos de antes, onde eu me encontrara com Francis, ou com a meretriz. Estes eram tão sombrios e frios que pessoas, vestidas em trapos velhos e rasgados, aglomeravam-se em volta de pequenas fogueiras provavelmente por eles acesas.
De repente, me vi parado, encarando-os um pouco de longe, ainda agarrado ao fino casaco do copeiro. As chamas cintilavam ferozes e agitavam-se bastante, de um lado para o outro, como se fugissem das mãos que eram em sua direção estendidas. Um dos homens, notando-me, me estendeu a mão e chamou-me com um sorriso amarelado para que eu me aproximasse. Estremeci e os dei as costas, afastando-me dali o mais rápido possível.
Depois de mais alguns minutos caminhando, minhas pernas já começavam a reclamar. Rodei os olhos pela minha volta, constatando que ninguém se encontrava por perto. Era melhor assim. Ficar sozinho não era tão desagradável – ou ao menos era melhor do que correr o risco de ser novamente assaltado e perder também as roupas, que era tudo o que me sobrara.
Sentei-me num canto, recostado numa das paredes, a qual se encontrava inacreditavelmente gelada. Puxei as pernas para mais perto, abraçando-as em busca de um pouco de calor.
O frio que fazia era quase insuportável. Nunca antes desejei tanto o aconchego de minha cama, com grossas cobertas para me aquecerem, ou um banho quente no fim do dia. Antes tudo me era comum, tão habitual, que nunca os considerei de forma alguma especiais.
Meus músculos aos poucos relaxaram. Tudo que tive que fazer foi deitar minha cabeça sobre meus braços e fechar os olhos para pegar no sono.
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Quando acordei, a manhã estava estranhamente quente; quente demais, considerando a noite fria que fizera. Eu esperava chuva, uma tempestade ou, ao menos, um dia parcialmente nublado. Entretanto, o que encontrei ao abrir meus olhos, de um verde cansado, foi um Sol radiante em meio ao céu limpo. Seu brilho inclusive feriu os meus orbes claros, que tive que cerrar por um momento, até que me sentisse pronto a encarar o novo dia.
Um bocejo fugiu pelos meus lábios e joguei a cabeça para trás, recostando-a na parede. Meu corpo doía em todas as partes imagináveis, algo, sem dúvida, relacionado ao fato de eu ter, naquela noite, trocado minha confortável cama pelo chão duro.
Ergui-me do chão, passando as mãos com força em minha calça para limpá-la um pouco da sujeira, mas não obtive resultados. Avistando a alguns metros adiante um espelho, que na verdade não passava de um vidro escuro refletindo os raios de luz, mirei meu reflexo, assustando-me com meu estado.
Meus dedos traçaram imediatamente o caminho até meu cabelo, sentindo-o tão bagunçado quanto o reflexo o mostrava. Tentei melhorá-lo de alguma forma, mas os fios apenas arrepiaram-se mais. Minhas roupas também não seriam limpas sem um bom banho com água e sabão. Acabei por desistir. Eu nada poderia fazer em relação àquela aparência.
O som de uma porta abrindo chamou imediatamente minha atenção. Um homem alto, gordo e com a barba por fazer surgiu por uma porta que havia, até então, passado por mim despercebida. O homem também pareceu tomar imediatamente noção de minha presença, mas sua reação fora bem diferente da minha.
– O que está fazendo aqui? – sua voz mostrava nada além de nojo e desagrado – Não temos nada para moribundos. Saia, saia. – ele gesticulou com as mãos para que eu me afastasse, enquanto depositava um saco de lixo num canto ao lado da porta.
– Isso foi um mal-entendido. Uma coincidência para ser mais exato.
– Não adianta falar bonito. Não te darei sequer um pedaço de pão. Agora vá embora.
Percebi então que o local se tratava de um restaurante e que o homem era um dos funcionários, um garçom ou então alguém da cozinha. Não importava.
– Foi realmente uma coincidência. Eu não aceitaria caridade de qualquer jeito e... – meu estômago se remexeu, produzindo um barulho estranho e desconfortável. Senti-me corar, apesar de não entender muito bem o que havia acontecido. Envolvi minha barriga por meus braços, sentindo-a incomodada. Aquela era uma sensação certamente muito estranha.
O homem deu uma risada alta e debochada.
– É, pirralho. Você pode até tentar me enrolar, mas a sua barriga não me engana. Está totalmente vazia. Não que isso mude alguma coisa.
Dito isso, o homem sumiu novamente porta adentro. Meus olhos prenderam-se nela, só se desgrudando quando minha barriga novamente resmungou. Mais incomodado do que nunca, dei meia volta e voltei a sentar, procurando um canto onde o Sol não batesse.
O jeito seria dormir mais um pouco.
Remexi-me, desconfortável com o pensamento do chão sujo debaixo de mim. Dormira ali à noite, mas me parecia completamente impossível fazê-lo agora. Apoiei a cabeça no muro, erguendo os olhos para cima, encarando o céu sem nuvens como se esperasse um milagre.
Sendo sincero, eu queria voltar para casa agora e desistir de toda essa loucura. Por outro lado, minha inocente e aventureira consciência sussurrava-me que aquela era uma oportunidade única, e eu ainda tinha muito daquele mundo a ver. Remexi-me um pouco mais, ainda em busca de uma posição minimamente confortável, que me permitisse pegar no sono, apesar de que bem no fundo eu sabia que seria incapaz de dormir dessa vez. O meu corpo era quem mais exigia pelo retorno à mansão, desejando pelo conforto que lhe fora privado.
E foi então que meu estômago reclamou pela segunda vez, porém mais alto e mais forte. Sua irritação era tamanha que, o incômodo do passado, tornara-se a dor do presente.
Suspirei, descendo os olhos às minhas pernas, que haviam sido novamente recolhidas e envoltas por meus braços. É, talvez eu já tivesse visto o suficiente. Eu poderia até aguentar o frio ao dormir na rua, porém a fome já estava de mais e mal se passara um dia, de sabe-se lá quantos eu teria que aguentar enquanto estivesse em minha desejada liberdade. Era hora de voltar, e eu sabia exatamente como o fazer, apesar de que isso também significava encarar a chance de receber uma severa punição do meu pai ao que ele voltasse.
Levantei do chão e bati as mãos nas roupas, o que fora mais por hábito do que por qualquer outra coisa. Pus-me a caminhar em direção à via principal, mas parei antes de alcançá-la por me lembrar do seu movimento nessa hora e, consecutivamente, de meu estado. Eu certamente não me sentiria nada confortável se fosse encarado por cada pessoa que eu cruzasse na rua…
Dando meia volta, voltei alguns passos, seguindo por uma estreita ladeira que ia paralela à via. Esta era composta por alguns casebres e a movimentação não era tamanha quanto na outra, onde se encontravam o comércio e a prefeitura da capital. Foi por ela que segui, jogando o olhar esverdeado na rua principal sempre que possível, em busca de algum rosto conhecido. Afinal, eles ainda estavam em minha procura, tinham que estar…
Quero dizer, não era como se eles sequer pudessem desistir de mim. Como eu já disse, meu pai os puniria, e eles seriam todos demitidos. Eles precisavam de mim tanto quanto eu precisava deles. Os empregados seriam meu passe de volta à mansão.
Passei as horas seguintes caminhando aleatoriamente pelas ruas mais agitadas da cidade. Buscava por rostos familiares, e cheguei até mesmo a buscar por Francis em meio à multidão. Pensei em pedir ajuda para alguém nas ruas, mas a atitude do funcionário do restaurante e a do recepcionista do hotel na noite anterior me desencorajaram a novas tentativas de aproximação. Aparentemente, comerciantes não eram muito educados por aqui.
Agora, já desistindo de minha busca desesperada – ao menos, pelo dia de hoje – refletia sobre minha situação deveras irônica. Até ontem à noite, eu desejava desesperadamente não ser encontrado. Agora, buscava por qualquer um que tivesse participado de meus anos de cativeiro.
Minha barriga aparentemente desistira de reclamar, ou eu estava cansado demais para ouvir o seu barulho. Desci os olhos ao chão, monitorando os meus próprios pés, com medo de acabar tropeçando no nada enquanto perambulava distraidamente, fazendo o caminho de volta.
Um odor subitamente embriagante e delicioso penetrou meus pulmões, e eu nem pensei direito – e quando digo eu, quero dizer meu estômago vazio – antes de simplesmente seguir seu rastro até sua origem, arrependendo-me imediatamente ao perceber que aquele era o mesmo restaurante de onde eu fora tão rudemente enxotado mais cedo.
O odor agradável escapulira pela porta entreaberta, e um homem gorducho estava de costas para mim, colocando alguns restos de comida numa lixeira. Quase como se pressentisse minha presença, o homem voltou o rosto em minha direção, e o reconhecimento atingiu ambos, lembrando-nos da situação desagradável de mais cedo.
Corei, envergonhado ao ser pego babando por comida. Todavia, antes que eu pudesse reagir, o ajudante já me empurrava violentamente para longe do estabelecimento, berrando em tom furioso para que eu desaparecesse antes que ele chamasse a polícia.
– Ei, ei. O que está fazen...
– Não tenho tempo pro seu show, seu infeliz! – o homem, zangado, cortou-me. – Estamos recebendo pessoas importantes e não posso permitir que vejam um pedaço de lixo como você por perto!
– Como se eu quisesse algo desta taberna de estrada!
– Taberna de…? Ora seu...! – ele se zangou ainda mais, de forma que sua face já se encontrava mais do que completamente vermelha. Além disso, sua reação serviu também para confirmar um fato que eu já havia muito bem notado: ele se ofendia facilmente. Não foi difícil perceber que ele estava a um fino fio de partir para cima de mim novamente. Entretanto, eu já estava também em meu limite, e as palavras acabavam por sair impensadamente de meus lábios:
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– E quem quer que seja o seu convidado importante, espero que não seja idiota o suficiente para comprar um restaurante de quinta como este.
– Palavras muito duras, vindas de um sem-teto esfomeado!
Bufei, desprezando o xingamento.
– Minha roupa íntima vale mais que este lugar. Eu tomaria cuidado com o que diz, ralé, eu tenho poder o bastante para arrancar cada tostão de você, até sua última grama de ouro.
Atrás do ignorante assistente, a porta foi escancarada com violência, e dois brutamontes saíram acompanhados por um homem em um terno bonito. Encarei-o, percebendo quase que automaticamente que estava diante do verdadeiro dono do lugar. O nariz empinado e a cara de nojo o delatavam.
– Que alvoroço é esse?! – seus olhos não levaram sequer dois segundos para pairarem sobre a minha pessoa, sua expressão de desprezo se acentuando ainda mais em sua face – E o que é essa coisa suja?! Não disse para removerem toda a sujeira dos arredores?! – agora, ele brigava com seus funcionários, que me encaravam com um ódio mortal. Mas sua atenção logo voltou para mim. – Desapareça daqui, infeliz! Não temos nada para você.
– Se acha que vou sair só porque um comerciante metido a importante está me mandando, está muito enganado.
– Certo, então. Se não vai por bem, vai por mal. Homens, tirem esse bêbado depravado daqui. Já tive o suficiente desse moleque mendigando por hoje. E garantam que ele não voltará para estas bandas, sim?
Os dois brutamontes que acompanhavam o dono do lugar aproximaram-se e cada um me agarrou por um braço. Rebati-me, chutando o ar e gritando para que me soltassem, amaldiçoando-os e os ameaçando. Mas de forma alguma eles reagiram, apenas me ajeitavam de forma que eu não escapasse de suas mãos e me arrastavam em direção aos becos.
Eu já havia sido arrastado uns dois metros, o dono e o seu funcionário ainda me admiravam da porta, satisfeitos, quando uma terceira voz surgiu de dentro do local:
– O que está havendo aqui?
– Ah, não é nada, senhor! Apenas um rato. Por favor, voltemos para dentro, para discutirmos os assuntos sobre a compra. Certamente o convencerei!
O dono já adentrava novamente quando, enfim, consegui escapar das mãos dos brutamontes, chutando-os nas pernas e dando-os fortes cotoveladas. Corri alguns passos para longe dos dois homens, e imediatamente meus olhos caíram sobre a pessoa até então desconhecida e que, agora, impaciente, livrava-se da insistência do dono e adentrava definitivamente o estreito beco. Seus olhos, de um verde bem conhecido, caminharam imediatamente em direção aos meus, e a surpresa nos abalou simultaneamente.
Ninguém ousara se mexer ou se pronunciar perante o ar severo que tomara os arredores do jovem ruivo. Senti-me tremer por inteiro, as pernas fracas e os olhos lacrimejando um tanto.
Meu irmão mais velho, que eu não via há pouco mais de um ano – pois este vivia fazendo viagens de negócio para auxiliar o nosso pai– e que tinha inicialmente as feições bastante confusas, possuía agora as sobrancelhas grossas cruzadas e impacientes. Eu sentia seus olhos me furarem, e a realização de que eu havia fugido o tomava mais e mais a consciência. Todavia, não dei a ele tempo para que brigasse comigo, ou me apanhasse antes que eu fugisse novamente.
Antes que ele pudesse sequer reagir, apressei-me em sua direção e o agarrei, envolvendo-o por meus braços em um abraço desesperado. O ruivo acabou por se desequilibrar um pouco ao que teve que aguentar também o meu peso em si.
– Scott! – escondi minha face em sua blusa de um tecido firme e macio, não me preocupando nem um pouco com o fato de eu estar o encharcando com minhas lágrimas. – Graças a Deus! Graças a Deus, você está aqui. Desculpa, desculpa mesmo. Eu aprendi a minha lição, agora me leva pra casa, por favor. Me tira deste lugar, eu não aguento mais! Eu quero ir pra casa.
Se antes o ruivo estava confuso, agora ele estava ainda mais. Pior do ele, apenas os que assistiam à cena e que nada tinham a ver com aquela situação. Scott ficou imóvel por uns instantes, mas então sorriu de leve e levou os dedos aos meus cabelos loiros desgrenhados. A carícia era agradável, mas a mim estranha. Ergui os olhos surpresos até que alcançasse os seus, que me encaravam repletos de compreensão e bondade.
Ele abriu um sorriso largo.
– Você está num estado, irmãozinho... Vamos logo para casa, okay? Você está precisando mesmo de um banho.
Ainda o encarando, um sorriso manhoso se desenhou em meus lábios.
– Sim, vamos... – murmurei anuindo sutilmente a cabeça, enquanto as lágrimas ainda me manchavam a face clara e agradecida.
Moral da fábula: Julgar que nossos problemas são os mais importantes do mundo não passa de uma grande ilusão.
Notas finais
Gin: Uai. Deixa assim mesmo. xD Tá bom.
Clair: Nem pensar. xD Vai logo, Gin. Só falta isso. kk
Gin: >\.\
Clair: Eu vou por suas respostas daqui lá, vai ficar engraçado.
Gin: ASHAHUAHUA Não.
Clair: Ok. xD Hum Não, eu gostei da ideia de por isto lá *pondo*
Gin: Véi! Não! Por o quê?!
Clair: Você vai ver. kk
Gin: Não! Clair! Não! *cries* Senpai, bullying é feio!... Clair, você não colocou mesmo isso, né? Clair? CLAIR? CLAAAIR! Senpai. Senpai-sama. Clair-senpai. Clair-awesome-senpai-sama, por favor, não faça isso
Clair: O mais legal é que vai ficando mais engraçado ao que você se desespera. xD
Gin: Ç_Ç
Clair: Quer dizer algo antes de encerrarmos? xD
Gin: Morra. Sua cruel *já no cantinho*
Clair: Eu também te amo, amora. kk Bem, já que a Gin fugiu eu vou cuidar do resto. Como organizadora, desejo que esta coletânea agrade a todos e que os autores recebam todo o elogio que eles merecem. Como autora, espero que vocês deixem uns reviews para mim e para a Gin também, já que nós também trabalhamos duro para concluir esta estória. xD
Gin: Lembrem-se! Erros, sugestões, comentários, são todos bem vindos! o/ Vejo vocês nos reviews!
Clair: Hum... Acho que é só isso então.
Gin: Não, pera! Tenho algo a dizer!! Ò.Ó Por favor, sempre denunciem senpais do mau por tortura de kohais fofas e inocentes!! u3u
Clair: Ok Até uma próxima! o/
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