Nevoeiro

1 Minha Memória


Estou deitada, e essa é a única certeza que tenho, minha cabeça dói, meu corpo parece estar completamente adormecido, não consigo sequer abrir os meus olhos, o vento que bate contra o meu rosto é gelado, faço um esforço e consigo finalmente abrir os meus olhos, porém o que vejo não melhora em nada meu ânimo.

Não vejo nada além de uma grande cortina branca de vapor, fumaça ou seja lá o que isso for, começo a me mexer e sinto meu corpo formigar, é como se meus músculos se liquefizessem cada vez que tento me mexer.

Fico em pé, com minhas pernas trêmulas, olho em volta e começo a sentir um medo descontrolado quando percebo que estou cercada por essa nuvem branca. Começo a andar e não consigo segurar o gemido de dor, cada passo é uma tortura, mas sigo em frente em passos lentos.

Além de cada passo ser doloroso o medo de tropeçar em algo ou bater com o meu rosto em alguma coisa é muito grande já que não consigo ver mais do que 15 cm á minha frente.

— Olá, tem alguém aí ?

Grito com uma voz bem esganiçada que nem reconheço como sendo a minha, mas a única resposta que obtenho é o eco da minha própria voz. O mais estranho de tudo é o fato de não me lembrar de como posso ter ido parar nesse lugar, sinto muito frio, abraço meus próprios braços na tentativa de me aquecer, começo a vasculhar na minha cabeça a minha última memória, e como um grande flashback ela aparece.

— Louise ande mais rápido já são 20:25 o shopping fecha as 20:30 se não achar logo algo que te agrade vamos embora e nem sei quando vamos voltar !

— Calma mãe, eles não vão fechar o shopping com nós duas aqui dentro né ?

Minha mãe bufa e sai andando com as mãos pra cima, resmungando alguma coisa provavelmente como sou uma péssima companhia para fazer compras.

Sou puxada de volta a realidade por uma enorme dor na cabeça, ao levar minhas mãos até lá sinto um enorme calombo um pouco acima da nuca, eu não me lembro aonde eu poderia ter me machucado dessa maneira, mas não me lembro de quase nada, afinal essa memória do shopping foi inútil já que ela não explica como vim parar nesse lugar.

Por fim vejo um lampejo de esperança ao me lembrar do meu celular, ele é um péssimo celular, não é um iPhone, nem mesmo tem como baixar aplicativos nele, mas minha mãe insiste que eu sou muito nova parar andar com aparelhos tão complexos e caros, tenho 17 anos, e não, não sou muito nova, sou a única da escola que não tem um celular descente, mas apesar de tudo isso ele serve para fazer ligações ainda.

Tateio o meu bolso a procura do meu celular, encontro e logo suspiro de alivio ao constatar que ele tem sinal.

— Ótimo, pelo menos eu não estou em um filme de terror !

Começo a discar os números da minha casa, que sei de cabeça graças a uma musiquinha que minha mãe me ensinou a anos atrás para que eu pudesse decora-lo.

O telefone começa a chamar mas ninguém atende, tento novamente, mas não obtenho nenhum êxito. Onde eles poderiam estar ?

Procuro na agenda do celular o número da minha mãe, mas quando ligo o celular dela dá fora de área, torço a boca por um segundo pensando em quem mais poderia me ajudar em uma situação dessas, penso em ligar para o meu pai, mas faz alguns meses que não falo com ele, o divórcio dele com minha mãe foi difícil e embora no começo ele enfrentasse ela para poder me ver aos fins de semana com o tempo acho que ele considerou mais fácil se esquecesse que tinha uma filha,então achei melhor esquecer que tinha um pai também.

Reflito por alguns minutos sobre isso e decido que na situação que estou não posso me dar ao luxo de manter a minha birra contra o meu pai, e ligo. Depois de 3 toques ele atendeu, mas sua voz estava distante e com muita estática acompanhando-a.

— Alô ? Pai... ALÔ?? PAI ? TA ME OUVINDO PAI ?

Gritei tanto naquele telefone que minha garganta chegou a arder, mas não soube a resposta dele, só ouvia um chiado e palavras indistintas, e por fim a ligação caiu.

Me sentei no chão, sem esperanças de mais nada, quem ia me ajudar ? Aonde eu tava ? E foi nesse momento que aquela névoa horrível começou a se dissipar. Foi bem pouco dela que se dissipou na verdade mas fez com que eu pudesse ver alguns metrôs a minha frente, mas o que vi me deixou mais chocada do que qualquer coisa.