Neverland
3 Capítulo 3
Notas iniciais
– Percy é você?
Quando me virei me deparei com um rapaz, que parecia ter a minha idade, mesmo já tendo uma barba um tanto quanto longa e encaracolada. Ele olhava pra mim com surpresa. E usava nada mais que uma camisa branca, daquelas antigas com a manga bufante.
– Quem é você? Consegui perguntar depois de algum tempo.
– Você some por três anos e ainda esquece a cara do seu melhor amigo? Agora ele parecia indignado com a situação. Pelo modo como ele falava eu era amigo dele, todavia, não me lembrava do rosto dele.
Nesse momento reparei que ele usava calças muito peludas. Calma... Aquilo não eram calças, eram pelos. Já ouvi falar de homens com o corpo peludo, mas aquilo já estava sendo um exagero. E o que era aquilo nos pés dele? Cascos? Eu desmaio em casa e acordo em um campo estranho e conheço um homem com pernas de bode? Deveria lembrar a mim mesmo de nunca mais comer um pedaço de pizza sem lembrar quando a comprei.
– Percy você está bem? – O homem-bode me perguntava. – Sei que preciso fazer a barba, mas não é para tanto não?
– Desculpe, mas... – eu comecei a falar meio sem jeito. – Está tudo bem com as suas pernas?
– Minhas pernas? – Ele olhou para elas por um instante. – Não vejo nada de errado com elas. – Ele coçou a cabeça, olhando para mim, ligeiramente confuso. – Você deve estar mal mesmo hein? Eu sou um sátiro lembra?
Sátiro? Quando ouvi aquilo, me veio a mente uma cena, duas crianças, uma era eu, com o cabelo escuro e os olhos verdes, provavelmente a outra era esse sátiro que falava comigo. Estávamos correndo, com cara de quem tinha aprontado alguma coisa. Chegamos perto de uma enorme árvore, com uma copa fechada o suficiente para nos esconder bem. “Ei Perseu! Isso é injusto” o sátiro reclamava. “Você sabe que eu sou péssimo em subir em árvores.” “Então se esconda atrás daqueles arbustos ali.” Reconheci minha própria voz quando o garotinho abriu a boca para falar. “Rápido que ele está vindo.” Não muito longe estava vindo um camponês, com uma enxada na mão, procurando alguns “moleques desgraçados”, ele estava com a cara vermelha de raiva. “Rápido Grover! Ele está chegando!”
– Grover? Eu arrisquei.
– Pelo menos o meu nome você lembra. – Ele ainda parecia chateado de alguma forma. – Mas por onde você esteve durante todo esse tempo.
Antes que eu pudesse responder, uma jovem chegou, se naqueles últimos cinco minutos eu achei que um cara com pernas de bode era estranho, eu iria me surpreender muito ainda. Ela usava um longo vestido verde, que estava num tom diferente da sua pele. Isso mesmo, a pele dela era alguns tons de verde mais claro que o seu vestido, e seu cabelo era laranja. Eu definitivamente iria ficar um bom tempo sem comer pizza de novo.
– Grover? – Ela se dirigiu ao sátiro. – Onde você estava? Achei que você ia comigo para... – Foi quando ela reparou que eu estava ali. E me olhou como se tivesse visto um fantasma. – Pelo trono dos três grandes... Grver não me diga que ele é...?
– Pelo jeito é ele mesmo Juniper. Parece que Sua Majestade voltou.
– Hã desculpa... Sua Majestade?
– Sim Perseu. – Juniper me disse. — Ou você vai me dizer que esqueceu que você é o Príncipe de Source? E onde você esteve durante esses anos?
– Pelo que me parece ele está com amnésia.
Os dois começaram a conversar e eu fiquei lá boiando, algo que nunca foi muito incomum pra mim. Enquanto eles conversavam eu tentava recapitular que aconteceu comigo em menos de dez minutos. Eu achei um diário com uma foto que me trouxe para outro mundo. Confere. Encontrei um sátiro e uma garota com pele verde. Confere. Eu sou alguma espécie de príncipe nesse mundo estranho. Confere. A única razão para isso acontecer? Até agora pode ter sido a pizza que eu comi, mas parte de mim está querendo descartar essa ideia, já que eu de algum modo “lembrei” algum momento que talvez pertencesse a minha infância.
– Com licença. – Eu disse meio sem jeito. – Mas será que algum dos dois poderia me ajudar a... Eu não sei... Voltar pra casa eu acho.
– Ah desculpa Percy. – Grover me ajudou a levantar. – Pelo jeito sua memória já era mesmo. Bem... Sua cabeça nunca foi boa mesmo.
– Grover. Juniper o olhou com censura.
– Estou mentindo? De qualquer modo, acho bom nós resumirmos tudo pra você, já que até sua casa é uma boa caminhada.
– Casa? Desde quando se chama um castelo de casa?
No caminho, o eles me resumiram tudo o quanto foi possível. Pelo jeito eu era herdeiro do troo de Source, meu pai já havia morrido há muitos anos, e minha mãe, Sally, governava tudo sozinha. Perguntei se ela havia tentado se casar de novo, e me responderam que ela não gostava da ideia de ter que substituir o antigo rei. Eu estava desaparecido há mais ou menos três anos, ou doze estações como eles falavam, tanto eu quanto minha noiva, Annabeth, que era princesa do reino de Saphir. Enquanto eles falavam eu tive alguns flashes na minha mente, como se lembrasse do rosto de Sally, de Source e de Saphir, das poucas pessoas de quem eles falavam. Mas eu não consegui lembrar de nada relacionado a Annabeth. Parte de mim começava a pensar, e se tudo aquilo fosse verdade. Sempre me senti muito desconexos na sociedade, e eles também me tratavam como se eu não fosse dali. Será que, por algum motivo, eu estava no lugar errado durante todo esse tempo?
– Do jeito como a Rainha é. – Disse Juniper. – Ela vai querer fazer um banquete hoje mesmo.
– Não duvido de nada. Grover respondeu.
Em poucos minutos chegamos a um enorme castelo, feitos com pedras de um tom azulado de cinza, por algum motivo aquilo me fez sorrir. Enquanto andávamos podia ouvir as pessoas sussurrando e olhando para mim diretamente, como se fosse alguém que tivesse voltado dos mortos. Assim que entramos pelo portão principal, um guarda nos parou.
– A rainha está ocupada no momento.
– Com licença. – Juniper disse com uma voz levemente autoritária e com as mãos na cintura. – Você não vê quem está nos acompanhando?
Assim que o guarda olhou para mim, ele fez a mesma expressão que os outros e logo saiu falando com outros guardas, que logo bateram continência para mim. Eu apenas acenei de volta e sorri, tentando parecer amigável. Entramos em um grande salão. Daqueles com enormes janelas e uma escada central, como se vê nos filmes de época. No alto da escada estava uma mulher, os longos cabelos castanhos presos em um complicado penteado, o vestido que ela usava era azul escuro, e ricamente detalhado. Podia se ver em seu rosto as marcas de noites mal dormidas, mas tudo isso sumia diante daquele sorriso radiante.
– Perseu? Ela disse tão baixo que quase não ouvi.
Enquanto ela descia quase correndo aquela escada, pude ver as lágrimas em seu rosto. E quase caí quando ela me abraçou com força.
– Não posso acreditar que é você. Eu estou sonhando não. Ela sussurrava enquanto me abraçava.
Eu respondi ao abraço, aquilo me trouxe uma sensação nostálgica, como se aquele abraço tivesse feito parte do meu dia-a-dia desde que eu era criança. Uma lágrima rolou pela minha face, enquanto eu fechava os olhos e apertava ainda mias aquele abraço. E não pensei duas vezes em dizer:
– Estou de volta mãe.
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