Never leave me
8 O amigo oculto - parte I
Notas iniciais
Finalmente, era vinte e cinco de dezembro. As coisas não estavam muito diferentes até agora. Eu estava 'de férias' dos estudos. Francesca e Leon conversavam boa parte da noite sobre tudo o que havia acontecido na vida deles naquele ano, enquanto eu apenas lia.
Pude ouvir a conversa que eles tiveram sobre seus relacionamentos. Francesca dissera que não estava namorando. Ela estava interessada em um garoto, mas que ele era legal demais para ela. É claro que ele era o garoto. Era óbvio demais. Leon havia dito que estava gostando mesmo de uma ruiva da cidade dele. Ela era sortuda por isso. Leon era um cara legal.
A ceia de Natal de Jade era um enorme banquete — e não estou exagerando quando digo enorme. Quando mamãe e eu preparávamos a ceia de Natal, mamãe preparava um peru e eu preparava o arroz e um pouco de macarrão. Por fim, comiámos uma pequena sobremesa, que variava todos os anos. Aqui tinha um pouco de tudo: arroz, feijão, ervilhas, macarrão, e todas essas coisas que pessoas com menos condições de vida comem raramente. Coloquei um pouco de tudo no meu prato. Enquanto comíamos, meu celular tocou, e tive que atender ali na mesa. Era minha mãe. Papai havia conversado comigo que não queria que eu saísse da mesa nos horários de refeição. Eu sempre falava baixinho, mas todos ficavam em silêncio — é claro que não era para ouvir a conversa, mas tinha esse privilégio também.
– Mãe! — falei, animada — Estou com tantas saudades!
– Eu também, querida, eu também — ela parecia um pouco mais feliz desde a última vez que nos falamos — Como está tudo aí?
– Indo — respondi, abaixando a voz — E então, como você está?
– Indo — respondeu ela — Não se preocupe, resolvi variar um pouco esse ano. Estou no banheiro da casa da minha amiga . Lembra-se dela?
– Claro que lembro — na verdade, eu não me lembrava muito. era uma daquelas amigas da mamãe que tentava parecer legal, mas que não sabia como fazer isso — Mas porque está aí? No banheiro, quero dizer?
– Preciso contar algo para você, e não quero que fique com aquela voz de adolescente quando escuta algo do tipo — disse ela, abaixando a voz — Acabei de conhecer um dos primos dela . Ele é dentista, e gosta de conversar sobre dentes.
– Como ele é? — meu pai levantou o olhar ao ouvir isso.
– É apenas um dentista. Não vou me precipitar dizendo coisas que não devo. Mas estamos conversando. Estou seguindo em frente, e estou feliz comigo mesma.
Sorri ao ouvir aquilo. Mamãe estava feliz. Há muito tempo ela não dizia aquilo, e com os problemas que eu provavelmente causava, a dificuldade em ouvir essas palavras apenas aumentavam.
– Fico feliz em ouvir isso, principalmente que você está feliz — sorri — Vou levar algo para você quando voltar.
– Não precisa, querida, de verdade. Ei, como está seu namoro com Diego?
Minhas mãos congelaram. Eu não queria falar sobre ele, não queria. Na verdade, meu namoro com Diego não estava. Eu não sabia o que havia acontecido com esse namoro.
– Não sei — respondi, suspirando — Estou com saudades. Aproveite a festa. Você merece ser feliz de vez em quando — olhei de relance para meu pai ao dizer isso — Amo você, mãe.
– Amo você, filha. Feliz Natal — disse ela.
– Feliz Natal — repeti, desligando o celular.
O resto da ceia não foi tão barulhento como nos outros jantares. Acho que o assunto já havia acabado ali, afinal. Teríamos apenas um amigo oculto, assistiríamos a um especial de Natal na televisão e finalmente iríamos dormir.
O amigo oculto começou pelo pai de Jade, por ser o mais velho da família. Ele havia dito diversas palavras sobre o tio Joe, e sobre como ele era um filho incrível. Logo em seguida, foi a vez de tia Marlee, tia Rachel, tio Billy, até que chegou a vez de Francesca. Ela ficou no meio do circulo, segurando o grande presente quadrado nas mãos.
– Bem — ela suspirou, olhando para o presente — Tentei comprar o maior presente possível que encontrei na loja. Não que eu conheça essa pessoa mais que todos aqui, mas... Eu gosto dessa pessoa, de verdade. Um grande amigo é o que ele é. Certo, não vou ficar enrolando, pois muitos ainda vão falar. Quero apenas que essa pessoa saiba que ela é muito especial para mim, e que meus dias ficam coloridos justamente porque ela está lá. Te amo, amigo.
Francesca caminhou em direção a Leon, e o abraçou. Leon sorria, e pude quase perceber uma pequena lágrima em seus olhos. Francesca havia praticamente declarado que gostava dele, isso estava bem óbvio, mas acho que ninguém reparou nisso. Eles eram grandes amigos, e é assim que todos queriam que as coisas fossem.
– Meu amigo oculto é uma pessoa muito legal. Definitivamente legal. Ele é pai, e não está em nossa família há muito tempo. Me desculpe pelas palavras, mas não costumo falar muito — ele sorriu — Olá — e caminhou em direção a meu pai, que sorriu um tanto ridículo.
Após abrir o presente de Leon, meu pai pegou uma caixa quadrada e olhou fixamente para ela por algum tempo. Pelo olhar que ele demonstrava, o presente parecia ser especial, para alguém especial.
– Meu amigo oculto certamente está com muita raiva de mim a algum tempo. E eu entendo seus motivos — ele ainda olhava para a caixa — Sei que as coisas ainda estão difíceis, e quero finalmente quebrar essa barreira que existe entre nós. Quando meu amigo oculto tinha seis anos, me perguntou se eu a amava. Eu respondi que sim, é claro que sim. Quando tinha sete, me fez a mesma pergunta, e eu respondi a mesma coisa. Então ela disse 'porque não me compra um vestido de princesa, então?' e eu respondi que amar não significa dar coisas que não tem valor por muito tempo. Amar significa apenas amar. Posso até demonstrar meu amor por alguém comprando-lhe objetos de valor que a pessoa queira, mas não vou ama-la somente por isso. E não quero que ela me ame por isso. No seu aniversário de sete anos, no mesmo ano, essa mesma garotinha me pediu um vestido de princesa, e eu disse que não. E me arrependi por isso. Nos anos seguintes ela pediu a mesma coisa, e eu continuei dizendo que não, até que percebi o porque disso tudo — ele finalmente olhou para mim, olhos redondos, bochechas coradas, um pequeno sorriso no rosto — Ela já era uma princesa, mas apenas queria comprovar isso para mim.
Meu pai caminhou em minha direção, e me abraçou. Ele não me dava um abraço daqueles há quatro anos. Há quatro anos não nos víamos. E foi naquele momento que percebi que eu sentia falta dele, e ele sentia minha falta. Não era a mesma coisa viver sem um pai, e para ele não era a mesma coisa viver sem uma filha. Eu era importante para ele, e ele era importante para mim.
– Amo você, filha — sussurrou ele, chorando.
Abri a caixa, e sorri. Aquele era o vestido que eu havia pedido para ele quando eu tinha sete anos de idade.
– Você sempre quis isso, e eu nunca te dei — disse ele — E eu sinto muito por tudo.
Dessa vez, eu o abracei por pura vontade. Ele apenas queria acertar as coisas comigo, e era o que eu queria agora. Quatro anos era muito tempo. Muita coisa mudou em quatro anos, e mudariam agora. Era por isso que eu era tão molenga. Eu era tão molenga por ser filha dele
Caminhei até o centro, onde pude ver centenas de lágrimas nos olhos das mulheres e também crianças. Com meu pequeno presente na mão, olhei para todos, prestes a revelar quem eu havia tirado...
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