Never leave me
23 Finalmente nós
Notas iniciais
Admito: é completamente estranha a maneira como as coisas mudam. Nada faz sentido no começo, e estou realmente tentando me habituar a essa descoberta. Leon e eu nos conhecemos no Natal, ficamos pela primeira vez quando ele estava indo embora, descobri que ele estava namorando e agora a namorada havia dado um belo pé na bunda dele e estávamos um tanto resolvidos agora. Como não se surpreender com isso, afinal de contas?
Não sei ao certo o que estamos fazendo. Na verdade, não sei onde estamos indo. Decidimos apenas nos afastar de todos que conhecíamos e ter um momento só nosso. Leon pegou na minha mão e agora andávamos pela cidade as escuras, de mãos dadas, com passos curtos e despreocupados.
– Gostaria que existisse alguma praia por aqui – disse ele, segurando minha mão levemente. – Praias costumam ser cenários muito românticos.
– É, acho que não conheço isso de perto – admito, e dessa vez, ele me envolve em um abraço enquanto caminhamos. Penso que ele vai me soltar, mas é assim que ficamos. Gosto disso. – Posso fazer uma pergunta?
– Claro – e ele beija minha bochecha.
Paramos de andar e ficamos um de frente para o outro, nos encarando.
– É que... Eu sempre fui tão fora de linha, e você sempre foi tão certinho. Isso é diferente, e estranho, e tudo mais.
– Aonde quer chegar?
– Eu... – suspiro de leve. – O que você viu em mim de verdade?
Ele parou por um momento e me olhou dos pés a cabeça. E depois sorriu.
– Você sempre foi diferente, e eu sempre soube disso. Foi tudo repentino, claro que foi, mas gostei de tudo o que aconteceu. Conhecer você foi uma das coisas mais loucas que já aconteceram comigo. Você me fez esquecer Chloe por um momento, e me fez perceber que eu estava preso em algo que nunca daria certo.
– Então porque...
– Porque eu queria me aventurar em algo diferente – ele me interrompeu no meio da frase. – Eu queria descobrir algo novo quando, na verdade, o novo estava bem na minha frente há algum tempo.
Sorri para ele, com o sorriso mais verdadeiro de todos. Fiquei na ponta dos pés para beijá-lo. Meus braços envolveram seu pescoço, e suas mãos envolveram minha cintura. E então, tudo estava como deveria estar. A única coisa que ainda permanecia era aquele típico frio na barriga que eu sentia quando estava com ele, mas sei que isso é normal, então apenas sorri. Ele sorriu também, mesmo estando no meio de um beijo.
– Acho que deveríamos parar um pouco com isso – disse ele.
– Não acho isso. Vou embora em poucos dias. Acho que precisamos aproveitar o máximo qualquer coisa.
Ele me encarou, dessa vez com os olhos um pouco tristes.
– Está chegando, não está? – perguntou ele. – Vai ser meio que um namoro a distância?
– Namoro? – perguntei, sorrindo ao pensar na possibilidade. – Você ainda não me pediu em namoro.
– Preciso mesmo pedir? Acho que já está muito na cara – ele sorriu, dando-me um selinho.
– Olha, daremos um jeito. Você vai fazer faculdade, eu vou terminar o colegial e veremos o que fazer. Mas acho que existem coisas mais importantes agora.
– Claro – respondeu ele, beijando-me novamente. – Mas primeiro preciso perguntar – ele aproximou os lábios do meu ouvido. – Quer dar-me a honra de ser minha namorada por um longo tempo antes de ficarmos noivos, nos casarmos e termos filho gêmeos?
Ri de sua brincadeira formal.
– Gêmeos? – perguntei. – Não pensei nessa possibilidade...
– Três também é um bom número – disse ele, sorrindo.
– Quatro, quem sabe – falei, sem nem ao menos pensar no que eu estava dizendo.
– Vamos continuar apenas com dois, está bem? Isso está se tornando um exagero! – disse ele, fazendo-me rir.
– Certo, certo.
Ele me beijou novamente, mas interrompeu o beijo e disse:
– Ei, o que me diz sobre minha proposta? – perguntou, hesitante.
Fingi pensar para deixá-lo curioso, mesmo nós dois já sabendo a resposta.
– Bem, talvez...
– Um talvez bom ou ruim? – ele perguntou.
– O melhor talvez do mundo – respondi para ele, dando inicio a mais um de nossos longos beijos.
. . . . . .
Os últimos dias me mudaram completa e definitivamente. Leon e eu estávamos oficialmente namorando – e isso estava sendo maravilhoso. Quando contamos a família, todos ficaram felizes – tirando a parte em que meu pai caiu da cadeira. Ele era um pai ciumento, e levaria tempo para digerir isso. Mas ele sabe que Leon é um bom garoto, e sabe que ele me faz feliz.
– Obrigada por não ser contra isso, pai – falei para ele assim que tivemos algum momento a sós. – Sei que pode ser difícil para você, mas é totalmente incrível para mim. Leon é incrível.
– Eu sei disso. Sempre percebi, na verdade.
– Obrigada de verdade por não se ‘rebelar’ novamente, como da outra vez – falei, lembrando-me do nosso primeiro beijo e da expressão de poucos amigos do meu pai. – Confesso que você quase conseguiu estragar a minha felicidade naquele momento.
– Han, posso atrapalhar? – Leon entrou no quarto e ficou em pé ao meu lado.
– Já que estamos nós três aqui, esse é um bom momento para conversarmos – disse meu pai, pedindo para que Leon sentasse ao seu lado na cama. Eu estava sentada em uma cadeira de frente para os dois. – Bem, as coisas estão acontecendo rapidamente para mim. É estranho saber que vocês estão... Se relacionando. Nunca pensei nessa possibilidade. Sempre pensei que teria que colocar Violetta em algum programa de relacionamentos. Ela nunca foi do tipo que gosta de namorar alguém.
– Pai! – sorri para ele, e ele sorriu para mim. – Eu já namorei antes, tudo bem?
– Com um idiota completamente imaturo. Pois é, namorou mesmo. Ponto para você – ele riu. – A questão aqui são vocês dois. Leon – ele se virou para Leon . – Sei que você é um bom rapaz, e fico feliz por isso. É um alivio. Mas somos homens, e sabemos que homens gostam de... Bem, você sabe... Daquilo.
Meu pai falou essa palavra como se estivesse sendo socado por alguém. A palavra saiu de sua boca tão sem vida que é como se ele tivesse medo de usá-la. E eu havia entendido sua preocupação. Ele tinha medo de mim e Will. Tinha medo de relações entre nós dois. Sorri para ele, e aproximei minha cadeira um pouco mais.
– Pai, não sou esse tipo de garota, tudo bem? Eu sou virgem, e pretendo ser por mais algum tempo.
– Virgem. – disse ele, olhando para as próprias mãos. – Puxa, que palavra complicada, não?
– Olha, sei que Leon entende que não quero isso. E nem ele quer isso. Não é nossa intenção. Estamos bem assim, obrigada.
Ele suspirou, aliviado.
– Obrigado.
Leon e eu nos levantamos, de mãos dadas, e fomos até o jardim. Era bom andar com ele, ficarmos sozinhos por um tempo, sem preocupações. Eu iria embora em poucos dias. Ele ficaria ali, e seria um namoro a distância. Novamente.
– Faltam apenas alguns dias – disse ele.
– Alguns dias – concordei.
– Então, eu... Eu preciso contar uma coisa – disse ele, fazendo-me pensar que ele terminaria comigo ou algo do tipo.
– Já quer terminar? Nem começamos! – respondi, brincando. – Não se preocupe, sei que não é isso. Né?
– É claro que não é isso! Não confia em mim?
– Não sei. Vamos ter certeza ao longo do tempo.
Ele suspirou.
– Eu entendo. E respeito sua opinião. Mas não é sobre isso que quero conversar com você.
– Não? – perguntei
– Não – respondeu ele, sério. Leon parou de andar e fez com que eu olhasse para ele, fitando-o sem parar. – É sobre minha faculdade.
Esse era um assunto na qual eu não queria chegar perto. Ficaríamos longe por um tempo indeterminado – talvez até o Natal – e a faculdade pesaria muito para ele, algo que faria com que nossa relação ficasse um pouco mais distante do que ficaria. Olhei para o chão, suspirando.
– Precisamos falar sobre isso agora? – perguntei.
– Precisamos – respondeu ele. – Eu sempre quis fazer uma faculdade que me agradasse, e decidi tentar por algum tempo. Não sei ao certo qual é a minha vocação, mas pretendo descobrir. Sei que pode parecer um pouco precipitado, mas...
– Mas?
– Conversei com minha família e também com seu pai hoje de manhã, e eles concordaram que eu viajasse por um tempo para tentar descobrir qual é a minha verdadeira vocação. Posso começar a faculdade ano que vem, talvez.
– Puxa, isso é mesmo repentino. E legal, já que é o melhor para você – respondi, não entendo a que ponto chegaríamos.
– E estou indo morar com você por algum tempo.
– Muito legal, e... – parei por um momento, repensando suas palavras. – O quê?
– Surpresa! – disse ele.
Eu não sabia como reagir. Não sabia se deveria chorar ou sorrir. Não sabia se devia gritar ou correr. Apenas fiquei na ponta dos pés e o abracei, dando um leve selinho em seus lábios.
– Isso é maravilhoso, Leon ! – falei para ele. – Quando você vai?
– Em alguns meses ou semanas. Quero permanecer um tempinho aqui, mas é praticamente certeza que eu vou.
– Puxa, nem começamos a namorar e já seremos praticamente casados? – sorri para ele. – Muito antecipado de nossa parte.
– Quem se importa?
Ele abaixou a cabeça, dando-me o mais demorado dos beijos. E eu finalmente senti que estava, aos poucos, completando antigas páginas em branco da minha vida, e que tudo seria novo dali pra frente. Era uma nova eu, mais conservada e feliz. E, inesperadamente, a palavra felicidade veio a minha cabeça. Uma palavra simples, mas bonita, que bastava pouco para que ela se tornasse real.
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