Never Love
7 Capítulo 6 - O Coração Arde
Notas iniciais
“Como você consegue ver dentro dos meus olhos,
como se fossem portas abertas?
Levando-o até meu interior,
onde eu me tornei tão entorpecida?
Acorde-me por dentro (Salve-me)
Chame meu nome e salve-me da escuridão
Faça meu sangue correr
Antes que eu me desfaça
Salve-me desse nada que me tornei
Estive dormindo mil anos, e parece que
Tenho de abrir meus olhos para tudo
Sem um pensamento, uma voz, uma alma
Não me deixe morrer aqui
Deve haver algo errado
Traga-me para a vida
Eu tenho vivido uma mentira
Não há nada lá dentro
Traga-me para a vida.”
(Bring Me To Life – Evanescence)
*Ananda Mills
Eu já imaginei, várias vezes, como seria minha morte. A que eu mais achava provável era que seria quando eu já estivesse bem velha e arrependida de tudo o que não fiz. Cercada por, pelo menos, dezessete gatos. E que se não estivesse morrendo por alguma complicação de uma doença, ou mesmo de velhice, seria pela minha teimosia em ter dezessete gatos quando tenho alergia à pelo de gato. E asseguro, nas outras cenas de leito de morte que imaginei para mim em nenhuma meu coração seria arrancado por Peter Pan.
– Não ouse tentar fugir outra vez. — Ameaçou Pan, mais uma vez apertando meu braço. — Até que eu arranque seu coração, você pertence a mim. — Disse entredentes antes de me soltar e dar de costas.
Henry veio mais uma vez na minha direção, eu quase não suportava o olhar que ele me lançava. Mesmo não sendo de raiva, repulsa ou ódio. Mas porque era um olhar de preocupação, de aflição e, pior, de pena. E, eu detestava que tivessem pena de mim.
– Como? Por quê? O que você fez? – Ele está confuso, e me enche de perguntas.
– Como eu descobri não importa. — Omiti com medo que algum dos Meninos Perdidos me ouvisse. Wendy merecia ser livre tanto quanto Henry. — Eu fiz isso porque quero te ver a salvo e, de preferência, onde não corra risco de vida. Por isso, eu ofereci meu coração no lugar do seu, eu ofereci um acordo. E ele já aceitou. — Terminei.
– Ananda, você não tinha que fazer isso. Você salvou minha vida, mas acabou com a sua. Ele vai matar você! — Disse quase marejando os olhos. Eu não podia deixar que ele chorasse na minha frente. Porque eu desabaria a chorar também.
– E você acha que eu não sei disso, Henry?! — Exclamei. Por mais que me assustasse a ideia de morrer daquela maneira, eu não podia deixar esse medo se apoderar de mim. Nem por um segundo.
Me esforcei para esboçar um sorriso. Uma tentativa péssima de confortá-lo.
– Eu vou ficar bem. – Menti. Eu não sabia se eu ia ficar bem. Era bem provável que não. Mas era o que ele precisava ouvir.
Ele me abraçou forte. Como fazia antes da chegada da magia, antes de eu ter me trancado por dias aprendendo a me controlar, deixando apenas Regina entrar para me ajudar a me acalmar ou colocar no lugar tudo que fazia cair quando saia do controle.
– Promete?
– Prometo. — E eu o abracei de volta.
Henry ficou do meu lado durante todo o resto da tarde e anoitecer. Nos sentamos em um tronco cortado no chão.
Acabei me deixando levar por devaneios do momento que Peter me beijou ao aceitar o acordo. Me permiti lembrar, de cada coisa naquele momento, de seu olhar antes de me beijar novamente, do gosto amargo de seus lábios, do jeito como me segurou em seus braços, como se tomasse cuidado para que não me quebrasse, e como deixei me levar por ele. Quase acreditando que pudesse deixar algum sentimento nascer dali. Mas eu não podia deixar nada nem ninguém entrar em meu coração. Era arriscar demais.
– Não consegui te perguntar, antes. Como você chegou aqui? – Perguntou Henry, me acordando.
– Logo depois que Greg e Tamara te levaram pelo portal nós fomos atrás de você. – Respondi. Henry sorriu.
– Nós? Quem mais veio pra cá? – Tornou a perguntar.
– Todo mundo, David, Mary Margaret, Sr. Gold, mas ele deixou o navio antes que desembarcássemos, Emma, Regina e o pirata alcóolatra. – Ri e Henry riu também. Fazia tempo que eu não o fazia rir. Desde a chegada da magia eu havia ficado distante em vários sentidos. – Eles devem estar tentando nos encontrar.
– Tenho certeza que estão. Uma família sempre se encontra. – Disse Henry, a esperança brilhava em seus olhos. Sua fé inabalável nas pessoas era linda, mas perigosa. Porque, no geral, as pessoas são traiçoeiras e quem se ilude e confia nelas acaba sempre se machucando. E era disso que eu o estava salvando. Henry não podia confiar seu coração à alguém tão egoísta, cínico e arrogante como Pan.
Não que eu devesse confiar o meu à ele. Mas Henry merecia mais felicidade do que eu. Ele tinha um propósito de vida: sua família e sua fé. E muitas pessoas sentiriam sua falta se ele se fosse. Os avós, Mary Margaret e David, sua mãe biológica, Emma, e Regina, a quem eu não poderia consolar porque lidar com sentimentos me tiraria do meu controle e não posso deixar isso acontecer. Eu poderia consolar Regina, antes da magia. Eu fiz isso quando Henry fugiu para encontrar Emma em Boston. Mas isso foi quando eu não via problemas em ter sentimentos, quaisquer fossem. Agora eu era capaz de virar um cômodo inteiro de cabeça para baixo se saísse do controle. E definitivamente, aprender a controlar a magia não é uma opção quando você vê o sofrimento que isso acarreta. Aprendi duas coisas com a convivência com a magia. Primeira, a magia pode até começar como algo bom, novo e até mesmo puro, mas sempre acaba corrompida e causando dor e sofrimento. Segunda, magia corrompida só é usada para causar ainda mais dor e sofrimento. E sempre tem um preço, bem caro, a pagar.
Mas quando eu me for, quando Pan arrancar meu coração, Henry e Regina poderão consolar um ao outro e eles serão os únicos a se lembrar de mim depois de algum tempo. Ou, se quiserem, podem me esquecer. Acho que seria melhor...
Conforme escurecia os Meninos Perdidos começaram a brincar entre si, perto da fogueira no centro do acampamento, a brincadeira começava a se parecer cada vez mais com uma dança, agitada e barulhenta pois eles gritavam enquanto giravam ou pulavam. E eles pareciam não se cansar.
Pan estava do outro lado do acampamento conversando com um dos Meninos Perdidos e alternava entre trocar uma dúzia de palavras com ele e me olhar com o canto do olho. O outro garoto, alto e de cabelos loiros, não desviava os olhos da conversa.
Eles conversaram por vários minutos. Eu já havia deixado de prestar atenção, e estava começando a sentir meus olhos pesarem de cansaço quando senti um olhar sobre mim. Eu soube que era Peter me olhando e eu estava certa. Me virei na direção de seu olhar. Ele estava de frente para mim, do outro lado da fogueira. Meu olhar encontrou o dele através das chamas altas. Mas ele não me olhava com o olhar cínico e arrogante que eu havia visto antes.
Era o mesmo olhar quando me segurou na clareira. O mesmo olhar quando me beijou. E eu sentia o olhar dele acender uma faísca, iniciando um incêndio dentro mim. Fazendo arder em brasas, trazendo à vida, o que me esforcei tanto para deixar esfriar e morrer dentro de mim até que eu não sentisse mais nada. Reduzindo a cinzas tudo o que fiz para me proteger e me afastar de meus sentimentos. E me queimando por dentro.
– Eu gostaria de tocar uma música. — Falou em voz alta. Dando a volta na fogueira até parar diante de mim e de Henry. – Para os nossos convidados de honra. – Disse colocando a flauta nos lábios.
Quando o som das primeiras notas penetrou em meus ouvidos, eu senti o incêndio que ele havia iniciado em meu peito se alastrar por todo meu corpo. Eu não podia deixar que isso acontecesse. Não podia deixá-lo queimar tudo que restava do meu precioso autocontrole. Ele não tinha esse direito sobre mim.
Mas ele continuava a tocar, e ficava mais difícil me manter no controle. Cravei minhas unhas nas minhas coxas. Olhei de relance para Henry, ele não estava ouvindo. Por que ele não ouvia? Várias imagens, momentos sobre os quais eu não pensava há anos invadiram minha mente. As famílias que me devolveram, seus rostos aliviados ao me deixar no orfanato. As crianças do orfanato que se recusavam a me deixar brincar com elas, suas piadas cruéis sobre como nenhuma família jamais me amaria. As pessoas que me julgaram na escola por eu ser adotada. Os sussurros em meus pesadelos todas as noites desde a chegada da magia. Os olhos de Peter em mim. Lembretes das minhas falhas, dos meus erros, do meu passado, de tudo que eu já tinha esquecido, ou pensava ter esquecido e o que me estava consumindo por dentro, me deixando esgotada. Eu não queria mais ouvir.
– Pare! – Exclamei, me levantando. A flauta voou de sua mão até o outro lado do acampamento. Aquela música, de alguma maneira fez entrar no meu coração toda a raiva, toda a angústia. Tudo que eu reprimia sobre meu passado e sobre mim mesma. E me tirou de mim.
Ele simplesmente ergueu os olhos para mim, e abriu o sorriso arrogante e cheio de segundas intenções que me fazia odiá-lo.
– Você ouviu. – Ele realmente parecia feliz com isso. Mas eu sentia como se o incêndio que ele havia iniciado em mim finalmente tivesse me corroído por completa e agora tudo contra o que eu vinha lutando todo esse tempo fervia e borbulhava dentro de mim.
– Você ouviu. – Ele repetiu sorrindo. Porque ele parece satisfeito com isso?
– Porque você parece surpreso com isso? – Esbravejei.
Ele sorriu arrogantemente. E eu cerrei meus punhos para controlar meus impulsos. A última coisa que queria era dar a ele o gosto de me ver completamente fora de controle.
– Ainda bem que não apostei que você não ouviria. Eu teria perdido feio. – Hã?! Porque raio de motivo eu deveria não ter escutado? – Deixe-me explicar, meu anjo, — O modo com que ele disse “meu anjo” me deixou com vontade de soca-lo no rosto.
– Essa flauta que você tirou da minha mão. É mágica, a música que ela toca só pode ser ouvida por aqueles que se sentem sozinhos, que se sentem perdidos. – Ele fez uma pausa e deu um passo na minha direção. — E por aqueles que não se sentem amados. – Ele estava tentando me irritar, e estava conseguindo.
– Eu só precisava ter certeza se você ainda conseguiria sentir algo. Não serviria para nada o Coração da Eterna Felicidade morto. – Disse, abaixando o tom arrogante.
– Eu não estou morta. – Pelo menos não ainda... acrescentei mentalmente. – E se eu estou, isso deve ser o inferno. E o demônio, já tive o desprazer de conhecer. – Disse correndo os olhos ao redor e retornando à ele.
Ele riu, deu mais dois passos na minha direção até que estávamos a menos de meio metro um do outro.
– Eu sei que você não está morta, meu anjo. – “anjo?!” ele definitivamente, está implorando que eu saia do controle e cometa um homicídio. – E é realmente uma pena que você ache isso um inferno. Porque para mim é o paraíso. O que eu quis dizer com morta é que você seria inútil se fosse incapaz de sentir alguma coisa. E embora, eu já tinha tido essa prova antes... – A intenção em seus olhos foi clara: ele se referia ao momento em que eu me entreguei à ele quando me beijou. Porque me pediu para esquecer se ele mesmo não o esquecera? – Todos tinham que ter essa prova. Para ver quem você realmente é....
– E agora eles sabem quem eu sou. Mas sabem quem você realmente é? – Desafiei. Se ele estava brincando comigo para ver até onde conseguiria me irritar, eu poderia tirar proveito disso e brincar com ele também. Ver até onde ele iria...
Ele fingiu não me entender e me ignorar.
– Você disse à eles que o seu verdadeiro objetivo nisso tudo é manter VOCÊ jovem eternamente? Sou capaz de apostar que não. Porque é assim que você se mantém. Confundindo, enganando, fingindo para todos. Pandemônio! – Lembrei. Pan, não era um garoto, nem um demônio. Sempre suspeitei que PAN me lembrava alguma outra palavra... – É isso que você é. Confusão, tumulto, onde ninguém é compreendido. É isso que você faz com todos, confunde, brinca com as mentes como uma criança brinca com bonecos! – A palavra servia muito bem também para o que ele havia feito comigo.
Desde que eu entrara naquela clareira eu senti meus sentimentos começarem a se debaterem dentro de mim novamente. E pouco a pouco serem trazidos de volta à vida. Sem meu consentimento. Apenas pela presença dele. E agora eles se tornavam incompreensíveis e se recusavam a me obedecer. E esse garoto, esse pandemônio, era o culpado por isso.
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