Never Love
4 Capítulo 3 - Ironia
Notas iniciais
“Estou sempre carregando esse peso nas costas
Esta noite eu enterrarei esse peso na terra
Pois gosto de deixar minhas questões definidas
É sempre mais escuro antes do amanhecer
Liberte-se, liberte-se
É difícil dançar com um demônio nas costas
Então, liberte-se dele
E eu cansei desse meu coração sem graça
Então, esta noite vou arrancá-lo e recomeçar
Pois gosto de deixar minhas questões definidas
É sempre mais escuro antes do amanhecer
E estou pronta para sofrer
E pronta para ter esperança
É um tiro no escuro mirando direto na minha garganta
Pois buscando pelo paraíso, encontrei o demônio em mim
Bem, que se dane
Vou deixar acontecer comigo”
(Shake It Out – Florence And The Machine)
*Ananda Mills
Já fazia alguns minutos desde a última vez em que tentei forçar meu pulso para Pan me soltar. O que só fez ele me segurar com mais força. Os dedos dele quase davam a volta no meu pulso. Ele permanecia em silêncio, e eu também. Embora, na minha mente o barulho dos meus pensamentos se misturava com o dos sentimento que por ficarem afastados do coração ficavam presos na minha cabeça, fosse mais alto que os sinos de uma catedral. O meu pulso doía.
– Eu sei andar em linha reta, sabe? – Tentei girar meu pulso na mão dele para afrouxar um pouco. Droga. Ele era mais forte do que eu.
– Eu sei. Mas não vou arriscar que você saia de perto de mim. – Disse e apertou meu pulso mais uma vez.
– E porque todo esse interesse em me manter por perto? – Indaguei. Ora, se ele queria o coração de Henry não teria porquê me querer.
– Porque você pode ser útil para eu conseguir o que quero. – Disse ele. – Mas, você só me faz perder tempo. – Resmungou ele.
– Como se eu me importasse com quanto tempo você tem pra conseguir o que quer e quanto tempo você desperdiça comigo. – Dei de ombros.
– Você se acha, não é? Tentando pagar a durona, irmã protetora. Mas eu vi muito bem quem você é naquela sua explosão no acampamento e vi de novo na clareira. – Disse ele me virando para fitar-me nos olhos.
Eu tentei desviar o olhar dele, mas me senti puxada a olhá-lo os olhos, como se me hipnotizassem, capazes de ver dentro de mim e ver as minhas falhas, os meus erros e meu passado. E eu não podia deixar isso acontecer. Ninguém vê o sobre mim, a não ser que eu permita. Ninguém sabe o que eu sinto, a não ser eu.
– E quem sou eu, então? – Ironizei. Eu não podia deixar que nada do que ele dissesse se tornasse uma verdade sobre mim. Nenhuma palavra.
–Você se faz de dura, de fria e sarcástica, mas tudo isso é só uma fachada pra impedir que olhem pra você, que vejam quem você realmente é, Ananda. – Descreveu ele. Droga, ele estava certo. Mas eu não podia deixar ele saber disso, ou mesmo concordar que era verdade. Ele fez uma pausa e soltou meu pulso.
– Por dentro você é tão frágil quanto uma porcelana. Mas tenta parecer mais dura do que isso, assim não tentam quebra-la. –Continuou ele.
– Você não podia estar mais errado sobre mim. – Menti. Dei um passo para trás. – Eu sou fria e sarcástica, — Usei as palavras dele com ironia que eu dominava muito bem. — porque não tenho motivo pra ser gentil com você. E segundo, eu não tento parecer forte. Eu me torno mais forte a cada vez que duvidam que eu seja.
Tomei um impulso, invocando força dentro de mim, que eu jamais saberia que tinha até aquele momento. E o empurrei, não forte suficiente para que ele caísse, mas pelo menos para atordoa-lo. O que me deu tempo de me virar e correr em direção à uma trilha diferente da qual seguíamos.
Eu corri, alguns metros, mas não teve jeito. Perdi o fôlego de novo, nunca foi boa em educação física, comecei a andar arfando por entre as árvores. Não tinha como saber se Pan me seguiria, mas pelo menos eu tomaria tempo. Eu precisava sair dali. Encontrar os outros, dizer onde Henry estava para o resgatarmos e cair fora dessa maldita Ilha.
Andando sem rumo pela trilha. Acabei deixando escapar uma memória da minha mente: aquele momento na clareira. As mãos dele nas minhas. Os olhos verdes, apenas daquela vez não havia hostilidades ou ameaças em seu olhar, e nem no meu, eu me vi perdida naqueles olhos. E apenas naquele segundo eu não tinha nenhum sarcasmo, ironia ou palavra de desprezo para ele. Apenas tinha a mim mesma naqueles olhos. E por aquele segundo senti meu coração ameaçar pular do meu peito tentando alcançar o dele.
Porém, tudo isso durou apenas um segundo, assim minha lembrança desse momento passou rapidamente e foi interrompida por alguém que clamava ajuda:
– Socorro! Alguém? Ajude! – A voz era fina e fraca, como se esforçasse muito para fazer o pouco som que fazia.
Procurei ao redor e não via pessoa. Mas escutei novamente, mais fraca:
– Socorro! ...
– Onde você está? – Sussurrei, rezei que quem quer que fosse tivesse ouvido, porque não queria arriscar fazer barulhos quem denunciassem a Pan onde que estava. Embora, achasse muito provável que à esta altura ele soubesse onde eu estava, mas deixava o jogo acontecer, desde que ele pudesse me encontrar e me arrastar de volta ao acampamento.
– Em cima... — A voz respondeu mais fraca, do que antes quase sem fôlego.
Quando olhei para cima, pendurada em um grosso galho de árvore havia uma jaula, parecia de madeira fina e palha içada por uma corda. Quem quer que estivesse lá dentro, obviamente, Pan não queria que fosse visto. O que me deu motivos para tentar libertar quem quer que fosse o prisioneiro.
– Calma, vou tentar te tirar da aí – Sussurrei novamente.
A corda que mantinha a jaula suspensa estava presa à uma estaca de madeira no chão. Quase arrancando a unha do meu anelar desatei o nó. Enquanto descia a jaula ouvi quem estava lá dentro respirar pesadamente antes de me agradecer assim que a jaula tocou o chão.
– Quem é você? Por que está preso aí? – Perguntei tentando enxergar quem estava lá.
– Me ajude a sair. – Sussurrou a voz. Consegui ver que era, de fato, uma pessoa. Uma garota.
Forcei a pequena porta até que ela abrisse. Assim, que abriu a garota saiu depressa dali. Eu não precisaria perguntar de novo quem era, adivinhei na mesma hora. Mas perguntei novamente, apenas temendo estar enganada:
– Quem é você?
– Meu nome é Wendy. Wendy Darling. – Apresentou-se a garota.
Ela parecia ter quase mesma idade que a minha. O cabelo castanho-claro tinha todos os cachos embaraçados. O vestido branco estava sujo de terra. Ela parecia assustada por sair dali.
– E quem é você? – Perguntou ela. Os olhos azuis-esverdeados me fitaram com surpresa por ver que eu estava tão assustada por estar ali quanto ela.
– Meu nome é Ananda. Quem prendeu você nessa jaula? – Perguntei.
– Pan, ele me prendeu aqui. – Respondeu ela abaixando a cabeça. Não pude evitar de lembrar a antiga imagem que eu tinha dela. E como eu costumava ser fascinada por sua história com Peter. Era mesmo uma pena que não fosse nem um pouco verdade.
– E parece que não fui a única aqui que cruzou o caminho dele. – Disse ela apontando meu pulso e meu pescoço.
Embora eu ainda lembrasse da ferida da adaga no meu pescoço, não havia notado que ele deixara marcas dos dedos em meu pulso.
– Que ele quer com você? – Perguntou ela.
– Na verdade, não é comigo. É com meu irmão. Ele tem o Coração do Verdadeiro Crédulo, e parece que Pan quer muito isso. Não posso simplesmente deixá-lo matar meu irmão. – Expliquei.
– De fato, ele vem procurando isso há muito tempo. –Disse ela.
– Você está aqui há muito tempo? – Perguntei indiscretamente, ela apenas concordou com a cabeça.
– Porque ele quer tanto isso, afinal? – Perguntei. Ela parecia, realmente saber sobre os planos de Pan. Por isso que deve ter sido isolada na jaula.
Ela se sentou sobre a jaula, e me sentei ao seu lado. E começou a contar:
– O Coração do Verdadeiro Crédulo é a última coisa que resta à Pan para tentar ter o que ele mais quer: ser jovem para sempre. Só há duas coisas que poderiam dar-lhe isso e a primeira ele desistiu de encontrar. Ambos são corações, mas o primeiro se esconde atrás de uma profecia que ele nunca pode decifrar. – Explicou-me ela.
–Qual era a primeira? – Indaguei. Ser jovem eternamente? Que meta de vida mais mesquinha. Mas se houvesse alguma esperança de salvar meu irmão eu teria que entender qual era o propósito de Pan com esse jogo todo.
– O Coração da Felicidade Eterna. Concede o que quer que seja que faça a pessoa capaz de usufruir do poder dele ter seu final feliz de acordo com sua própria vontade. Óbvio, para ele a felicidade eterna seria a juventude eterna. É um poder muito antigo, assim como o do Coração do Verdadeiro Crédulo ou até mais antigo ainda. Mas, Pan nunca entendeu a profecia então, desistiu de procurar. — Contou. Se havia esperança de que Pan deixasse meu irmão e o coração dele em paz, seria essa. Um coração pelo outro.
– Não leve a sério a minha curiosidade – Brinquei. Embora eu estivesse falando sério. – Você sabe qual era a profecia?
– Sei, sim. Embora, ele já tivesse desistido quando eu vim para essa ilha, certa vez o ouvi repetir a profecia...
“Na escuridão se esconde,
Da felicidade eterna, a fonte;
Ocultado pelo significado
De um nome calado
Bate em disritmia;
Recusa dos sentimentos sincronia.”
Ao fim da profecia, eu não ouvi mais nada do que ela falava. Na minha mente formou um quebra-cabeça que assim que se formou eu torci para que estivesse completamente errado. Eu me conhecia muito bem para perceber logo de cara que aquela profecia falava de mim mesma, dos meus olhos escuros, do meu próprio nome e até mesmo do que passava por ter magia.
Eu detestava ter os olhos escuros porque eles pareciam não ter graça, por simplesmente quase não terem cor e eu não conseguir ver minha pupila, exceto quando a luz do sol batia neles só assim se tornavam castanhos. Pouca gente sabia, mas o motivo de eu detestar falar meu nome era justamente o significado dele: felicidade. Uma coisa inalcançável que todos se iludem que um dia irão conquista-la. E desde que a magia se manifestou em mim passei a desviar de qualquer sentimento que pudesse me tirar de mim.
Tudo estava rodando ainda na minha mente quando cai de volta em mim e me dei conta do que eu precisava fazer: encontrar Pan, e libertar meu irmão de ter seu coração arrancado, mesmo que isso significasse Pan arrancar o meu no seu lugar.
– Wendy, eu já sei como eu vou salvar meu irmão. – Sorri. Omiti que salvá-lo me condenaria. Certas coisas ficam melhor pela metade. – Mas vou precisar me encontrar com Pan outra vez. Então, acho melhor você correr para bem longe, há pessoas boas aqui nessa floresta, se você disser que me conhece vão protegê-la. Da última vez que os vi, não estavam muito longe da praia. Pode confiar neles.
– Mas o que você vai fazer? Como vai salvar seu irmão do Pan? – Perguntou-me ela, se levantando.
– Vou oferecer um acordo.
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