Never Love
12 Capítulo 11 - Arrependimentos
Notas iniciais
“E eu desistiria da eternidade para te tocar
Pois eu sei que você me sente de alguma maneira
Você é o mais perto de um paraíso que eu estarei
E tudo que posso sentir é este momento
E tudo que posso respirar é a sua vida
E mais cedo ou mais tarde se acaba
Eu só não quero ficar sem você essa noite
E você não pode lutar contra lágrimas que não virão
Ou o momento de verdade em suas mentiras
Você sangra apenas para saber que está viva
E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito para ser quebrado
Eu só quero que você saiba quem sou eu”
(Iris – Goo Goo Dolls)
*Peter Pan
Me sentei em um dos galhos mais altos. A visão das copas das árvores e mais além o mar e ainda mais além a Caveira – a tumba – onde eu encerrei os olhos negros de Ananda.
Não gostava do que estava sentindo. A imagem de Ananda em meus braços, expirando pela última vez com os olhos negros fixos nos meus, o sorriso que não conseguiu dar, as lágrimas que não derramou. Por minha culpa.
Porque eu a matei. A matei pela eternidade que esse tempo todo pensei ser o que eu mais queria. Meu final feliz.
Tudo estava ainda muito confuso dentro de mim. Passei tantos anos atrás do Coração de Verdadeiro Crédulo que completamente esqueci do que acarretava os poderes do Coração da Eterna Felicidade. Embora suspeitasse que o aperto dentro de mim não tinha relação com o coração de Ananda. Mas com o meu próprio.
Pela primeira vez eu tinha arrependimentos, Como eu pude deixar a mim mesmo fazer coisas tão terríveis quanto as que fiz por uma eternidade na solidão? Eu nunca teria alguém para passar a eternidade. Eu estaria sozinho pelos séculos dos séculos.
De repente, um dos cipós da árvore me derrubou e me amarrou ao tronco. Me apertando de maneira que senti minhas costelas quase se partirem. Droga. Arrependimentos! A arvore perseguia quem sentia algum remorso.
Gemi de dor tentando me soltar. O aperto dos cipós junto com o aperto de culpa que eu sentia era uma soma mortal. Eu não conseguia me libertar com a magia ainda fraca em minhas veias.
Isso não estaria acontecendo se ela estivesse aqui. Se ela estivesse aqui...
Aquele pensamento: “se ela estivesse viva...”. Não tinha certeza do porquê a queria perto.
Não sabia ao certo por que apenas de pensar nela, eu sentia como se o peso das atrocidades em meu passado diminuísse e me curasse de tudo o que já havia feito e que no meu sono me impedia de sonhar, porque as sombras do meu passado me perseguiam em pesadelos. A “cura” que me dava estar perto dela. Apesar de ela não perdoar o que fiz a ela, um sentimento de redenção me rondava ao estar perto dela, mesmo que machucando-a, mesmo fazendo-a sofrer, mesmo fazendo-a me odiar cada vez mais e esse sentimento de redenção me fez apelida-la de “anjo”. Um anjo capaz de levar embora minhas culpas, meus erros e me recompensar com o mínimo de paraíso que eu encontrava a seu lado. E esse pensamento dela me dava arrepios...
Me debati contra os cipós mais uma vez e escutei alguém rindo. Era uma risada aguda, mas não estridente como de criança. Mas em tom de zombaria. Aquilo me tirou de mim. E puxei forças não sei de onde e me libertei dos cipós.
— Quem está aí? – Minha pergunta pairou no ar.
A risada continuou a se afastar, correndo. Segui o som. Apenas consegui ver o movimento das folhas onde quem quer fosse havia cortado o caminho. E ouvi a risada novamente mais alta.
Cortei caminho entre as folhas e vi um pedaço de tecido branco se dobrar para trás de uma árvore seguido por pés descalços. Sem fazer o menor ruído me aproximei o máximo que pude da árvore.
Outra risada e tomei fôlego. Contornei a árvore e, com meu braço, prendi o Vulto contra o tronco.
— Está rindo do quê, covarde? — E o fitei de baixo a cima. Quando ergui os olhos para o rosto pulei para trás. Impossível!
— Ananda?! – Ela me olhava rindo sem cessar do meu susto. – É impossível. Você está morta. – A olhei novamente para ter certeza de que não era uma ilusão. A ilusão da luz nos olhos dela estava ali e seus olhos não tinham ironias ou raiva para mim, estavam ternos.
— Você é um fantasma dela? Veio atrás de mim para me perseguir com mais arrependimento e culpa do que sinto. – Acusei.
— Não! – Rebateu ela. – Eu realmente estou aqui.
Ela veio na minha direção. Perto, mais perto do que ela se permitiria por conta própria. Ela pôs a mão em minha nuca e me puxou para ela.
— Eu estou aqui. – Sussurrou de encontro a mim. E passou seus braços ao redor do meu pescoço segurando-se em mim. Não pude resistir e a envolvi com os meus. O cheiro doce de sua pele era exatamente o mesmo. Enfiei o nariz entre seus cabelos castanhos, me aninhando o mais perto que pude.
Ela estava em meus braços, finalmente!
— Espere. Ananda nunca me abraçaria por vontade própria. Não depois de tudo que fiz. – Era bom demais para ser real. Por isso minha consciência me alertou e brutamente nos separei.
— Exatamente. — Não havia surpresa em seus olhos com minha desconfiança. – Ela Não.
— O quê? – Espantei-me.
— O Coração da Eterna Felicidade, Peter. O coração dela que bate em você. Os poderes são instáveis, mas mais inimagináveis e maiores do que você pensava por todos esses séculos. – Eu ainda não entendia o que seja lá o que aquilo fosse, que não era a verdadeira Ananda dizia.
— O que você pensa, imagina — Ela fez uma pausa voltando a ficar perto de mim. — e deseja se torna realidade. Eu sou o que você pensa sobre ela. Sou o que você imagina sobre ela. – Aquela ilusão começou a me rondar por todos os lados.
— Eu sou o que você quiser e o que você quer. – Ela sussurrou ao meu ouvido. Tornando a me olhar nos olhos, chegando mais perto. A Ilusão tocou meus lábios com os dela.
Não conseguia controlar o quanto eu a queria. E a puxei para mim, aprofundando o beijo. Eu tinha dificuldade para respirar mas ignorava. A ilusão dela em meus braços era tão boa quanto a verdadeira. Sua pele e seus lábios respondiam a mim na mesma intensidade.
Mas de repente, algo gritou dentro de mim. Um grito cortante de agonia. Vindo do coração de Ananda, a verdadeira, ou pelo menos o que restava dela dentro de mim. Me empurrou para longe da Ilusão.
— Espera! Você não é o que eu quero. Eu quero a verdadeira. A real. Aquela que eu matei. – Me partia um pedaço lembrar do quão sem escrúpulos eu fora ao deixar-me matá-la. – Mesmo que demore mais séculos do que esperei pela Juventude Eterna reencontrá-la. Nem que eu morra tentando achar um jeito de trazê-la de volta.
— Infelizmente, você sabe que não há como trazê-la de volta sem você morrer logo em seguida. Se você fizer isso, se devolver o coração à ela, seu tempo volta a correr de onde ele parou. E isso é pouco tempo. De que adiantará salvá-la e não conseguir terminar um dia com ela?
Eu me calei. Não queria ouvir aquilo. Eu não tinha mais espaço em mim para tudo que se misturava dentro de mim, já não sabia quais eram meus sentimentos, e quais eram os dela. O que estava quebrado dentro dela se partia novamente dentro de mim.
— Vá embora! Eu retiro tudo o que pensei. Eu não me arrependo de tê-la matado! A única coisa que eu quero, sempre quis, foi ser jovem para sempre. E consegui! Não vou voltar atrás por causa de uma garota problemática que já está morta e prestes a voltar para casa e ser enterrada e esquecida enquanto eu viverei eternamente! Esse é meu final feliz. E nada além disso! – Meus pensamentos devem ter sido realmente poderosos ao falar. Ela começava a esmaecer.
— Pode ter se convencido disso por agora. Mas pode enganar sua própria mente para sempre. Você sabe agora, o que realmente quer. Boa sorte com isso. – Ela riu sarcasticamente, antes de desaparecer completamente.
O som de passos vindo na minha direção me acordou de meus devaneios. Desci da árvore. Escondendo meus arrependimentos atrás da máscara de crueldade antes de ser novamente atacado pela árvore.
Pousei a Caixa de Pandora sobre uma pedra. Uma isca. E me escondi detrás de outras árvores maiores. Os passos se aproximaram, Regina, Emma e Branca de Neve.
Enquanto discutiam a Caixa em cima da pedra, a árvore sentiu o cheiro de seus arrependimentos. Puxando-as uma a uma. Emma deixou cair a espada que trazia na mão ao ser puxada.
— Ainda estão tentando? – Indaguei com ironia enquanto elas debatiam tentando inutilmente afrouxar os cipós. – Não sabem? Eu nunca falho.
Peguei a espada de Emma do chão.
— Admito. Não esperava que me encontrassem. Mas não estou surpreso, vocês tem uma determinação admirável. – Olhei diretamente para Regina. – Eu diria que Ananda teria puxado isso de você. Se ela fosse realmente sua filha. — Ri.
— Se quer ter Ananda de volta. Eu já disse, e direi de novo, só há um jeito de se juntar novamente a sua filha. – A raiva fervia nos olhos de Regina. Era certo de que se pudesse ela me mataria naquele momento. – Na morte.
Regina tentou forçar os cipós novamente, com mais força. Mas ainda inútil.
— Desconfortável? É bem normal, dado a situação que se encontram. Sabe, dizem que não há aperto pior que o arrependimento.
— Do que está falando? – Questionou Emma.
— Esta é a mesma árvore em que eu fiz algo que me prendeu à um remorso semelhante ao de vocês. – Elas me olhavam confusas. – Eu também abandonei alguém. Meu melhor amigo, e quem eu devia ter protegido.
— Então, você se arrepende e também se arrepende de tê-lo abandonado. – Sugeriu Emma.
— Não, não me arrependo. – Me virei e apanhei a Caixa de Pandora de cima da pedra. – Na verdade, o oposto. Como podem ver, ele está bem protegido agora.
— Rumplestilskin? Você era amigo dele? Por isso Rumple sabia com quem estávamos lidando o tempo todo. – Regina inclinando a cabeça para trás matando a charada.
— Sou mais velho do que pareço, não? – Brinquei dando risada.
— Você é uma fraude. Sua magia está enfraquecida. Não pode nos machucar. – Regina ria da minha cara, desceu os olhos para Caixa em minha mão. – Muito menos irá conseguir machucar Rumplestilskin.
— Você pode até estar certa. Mas é exatamente por isso que estou aqui. – Mirei o topo da árvore, onde costumava crescer flores de Pó de Fada. – A árvore me protegerá até eu recuperar minha magia. E depois? – Fiz uma pausa mirando cada uma nos olhos e ergui a espada na altura de seus rostos. – Bem, depois eu vou poder me divertir.
— Não se sairmos daqui. – Ameaçou Emma. Ri de sua tentativa fracassada de forçar os cipós.
— Ah, mas vocês não vão conseguir. Veem, esta árvore ataca o arrependimento de quem vem aqui. E você? – Me virei para Regina. — Tem muitos.
— Me arrependo de não ter tirado minha filha das suas mãos quando tive chance. – Bradou ela.
— Mas isso não tudo, não é Vossa Majestade? – Me diverti. Palavras sempre foram meu meio de tortura predileta. – Não mesmo.
Os olhos de Regina se retraíram para dentro de si.
— Eu tenho o coração da sua filha dentro de mim. E sei muito bem quantas vezes você a ignorou para dar atenção ao filho de outra. E quando Emma chegou para dar atenção a ele, ao invés de deixar e dar atenção à ela, você deu mais atenção ainda à ele. — Era visível o que causara em Regina ouvir isso. E não me importava em continuar.
— Eu sei quantas vezes você a decepcionou. A deixou sozinha chorando no quarto, enquanto corria atrás de Henry. – Eu não estava mentindo.
Eu pude sentir a aflição de Ananda naquele momento. O desespero por estar sozinha ao se descontrolar pela primeira vez. Quantas vezes ela havia se machucado ao lutar contra si mesma para se controlar. A dor que ela sentia ao se manter entorpecida vendo outros sofrerem por sua distância.
— Deixe-as em paz. – Interrompeu Branca. Eu não teria misericórdia nas minhas palavras. O coração de Ananda dentro de mim e a lembrança dela eram tudo que me restavam. Não iam tomar de mim.
— E você tem alguma moral sobre como ser boa mãe? Você foi um ótimo exemplo para a sua filha, não foi? Abandonou-a por 28 anos.
— Já acabou? – Desafiou Regina.
— Ah, as últimas palavras da rainha. Uma confissão na hora da morte da pessoa com mais arrependimentos de todas?
— É. Só tem um problema. – Disse provocando enquanto se ajeitava entre os cipós. – Eu lancei uma maldição que devastou uma população inteira. Eu torturei, matei. Fiz coisas terríveis. Eu devia transbordar arrependimentos, mas não estou.
Nesse momento ela se soltou dos cipós. Juntamente com Emma e Branca. E avançou em minha direção.
— Porque foi tudo isso que me levou até os meus filhos! – Antes que eu tivesse maneira de desviar, ela enfiou a mão através do meu peito. E puxou de mim o Coração de Ananda.
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