Never Love
5 Capítulo 4 - Um coração pelo outro
Notas iniciais
“Mumifiquei meus sonhos de adolescente
Não, não há nada de errado comigo
As crianças estão todas erradas,
As histórias estão por fora
Pois eu só nasci em meus sonhos
Até que você morra por mim, contanto que haja luz,
Minha sombra está sobre você
Pois sou o oposto da amnésia
E você é uma flor de cerejeira
Você está prestes a desabrochar
Você está linda, mas vai embora muito rápido
Algumas lendas são contadas
Algumas se tornam pó ou ouro
Mas você se lembrará de mim,
E apenas um erro
É tudo o que precisa
Vamos ficar na história
Lembrará de mim por séculos”
(Centuries – Fall Out Boy)
*Peter Pan
– Você se acha, não é? – Disse puxando-a pelo pulso, virando seus olhos escuros para mim. – Tentando pagar a durona, irmã protetora. Mas eu vi muito bem quem você é naquela sua explosão no acampamento e vi de novo na clareira. – Completei.
No acampamento eu pude ver, na verdade, ela estava tão desesperada para controlar seus sentimentos que não conseguiu controlá-los. O desespero nos torna capaz de tudo mas também impede de fazer qualquer coisa. E ela fez o arco quebrar sem fazer nada. Foi suficiente para eu perceber que a magia contida nela se baseava em suas emoções. Principalmente nas que a tiravam de seu autocontrole.
Na clareira, eu, simplesmente a vi. Não como ameaça aos meus planos de conseguir o Coração do Verdadeiro Crédulo ou como alguém que me desprezava. Eu a vi pelo que ela era. Apenas uma garota. Uma garota confusa sobre si mesma e temendo o que desconhecia de si própria. E refletindo em seus olhos escuros eu me vi. E tive a ilusão que realmente havia alguma luz em mim.
– E quem sou eu, então? – Perguntou em seu tom irônico sorrindo o mesmo sorriso irônico que mostrava quase sempre que me dirigia a palavra e semicerrando os olhos.
Ignorei sua ironia e a olhei nos olhos antes de começar:
– Você se faz de dura, de fria e sarcástica, mas tudo isso é só uma fachada pra impedir que olhem pra você, que vejam quem você realmente é, Ananda. – Fiz uma pausa. Ela tentou parecer indiferente ao que eu tinha dito, mas não adiantou. Eu percebi em seus olhos que eu estava certo, mas, óbvio, ela não admitiria isso.
Soltei seu pulso, agora a pele pálida tinha a marca dos meus dedos. Lamentei ter deixado aquelas marcas no momento que as vi. Mas eu não as teria feito se ela não tivesse fugido. Tive uma vontade súbita que beijar-lhe as marcas e dizer que sentia muito ter-lhe ferido a pele branca como... porcelana... Exato, ela era quebradiça. Como uma porcelana.
– Por dentro você é tão frágil quanto uma porcelana. Mas tenta parecer mais dura do que isso, assim não tentam quebra-la. –Completei meu pensamento em voz alta.
Ela deu um passo para trás, ainda fingindo que eu estava errado.
–Você não podia estar mais errado sobre mim. Eu sou fria e sarcástica, — Disse imitando o jeito que eu dissera as palavras. – porque não tenho que ser gentil com você. E segundo, eu não tento parecer forte. Eu me torno mais forte a cada vez que duvidam que eu seja.
Assim, que terminou com sua habitual rispidez. Ela me deu um empurrão para trás. Forte apenas para me fazer cambalear. Quando voltei ao meu eixo ela desaparecera pela trilha contrária à que fazíamos. Não pude evitar rir de sua coragem. Era como se ela quisesse me desviar do caminho de volta ao acampamento. Novamente ela me faria perder tempo com esse jogo de gato e rato.
Deixei ela ganhar alguma vantagem na trilha. Ela não iria muito longe, e de qualquer modo eu a alcançaria. Contei exatos três minutos antes de começar a seguir a trilha que ela tinha seguido.
Não precisei andar muitos metros até que vi ela vindo na minha direção. A expressão em seu rosto estava diferente, estava determinada e dava os passos firmes, ela olhou fixamente para mim.
– Eu preciso falar com você. – Disse, direta. Eu não entendi o que havia acontecido. Ela voltando na minha direção por vontade própria, e querendo falar comigo? Eu não sei o que aconteceu, mas alguma coisa nela havia mudado.
– O que quer falar? – Perguntei. Eu realmente estava curioso, não conseguia pensar em nada que a fizesse cooperar comigo.
– Um dedal me contou que você busca a juventude eterna e que um dos jeitos de conseguir isso é usando o coração do meu irmão. – Começou ela. Mas ela falava calma, me olhando nos olhos determinada a terminar o que falava. – Isso é verdade não é?
– Sim, é verdade. Eu venho procurando o Coração do Verdadeiro Crédulo há séculos. E agora que o encontrei, só faz sentido se eu terminar o que comecei. – Respondi na mesma calma e o mesmo olhar. – Por que a pergunta?
– Também fiquei sabendo que há outra coisa que pode te dar o que procura. – Fiquei curioso para saber como ela havia descoberto sobre o Coração da Eterna Felicidade. Mas ignorei minhas indagações e deixei que terminasse. – Mas que você desistiu por causa de uma profecia que você não decifrou. Também é verdade?
– Também é verdade, mas o que quer com tudo isso? E como ficou sabendo, se dedais não falam? – Ironizei a ela.
– Como eu sei das coisas, é problema meu. Eu acho que você não havia parado para pensar de novo naquela profecia. Como era mesmo? “Na escuridão se esconde; Da felicidade eterna a fonte; De um nome calado...
– “...Bate em disritmia; Recusa dos sentimentos a sincronia.” – Continuei a profecia junto dela. Comecei a ver onde ela ia com aquilo. – O que mais sabe sobre o Coração da Eterna Felicidade? – Indaguei.
– Sei quem o possui. E, acredite, está mais perto do você pode imaginar. – Eu não me interessaria em ir atrás do Coração da Felicidade Eterna quando o Coração do Verdadeiro Crédulo já estava em minhas mãos. Mas estava disposto a ver até onde ela iria.
– Continue. – Pedi. Ela caminhou dois passos, respirou fundo e me encarou com uma expressão completamente séria.
– Obviamente, você já notou. Meus olhos tem a íris muito escura, quase não se vê minha pupila. E eu não costumo dizer isso às pessoas, por que não é motivo de orgulho. O significado do meu nome. – Comecei a perceber que o que ela falava realmente tinha um objetivo.
– Ananda significa felicidade. –Tudo começou a fazer sentido e vi a onde ela iria chegar. — E você já reparou nisso também, minha magia é vem dos meus sentimentos e é por isso que os evito. O Coração da Eterna Felicidade é o meu coração.- Quando ela terminou. Tudo finalmente fez sentido. Eu não pensava naquela profecia há muito tempo.
E não havia como ter se encaixado mais perfeitamente. Ainda um pouco perplexo por não ter percebido antes. Percebi que ela não havia terminado:
– Então eu quero oferecer um acordo. – Ela fez uma pausa, se aproximando de mim até ficarmos frente a frente. Ergueu os olhos e me olhou fundo. — O meu coração, pelo do Henry.
Ananda me fitou, sua expressão passou de séria e determinada para apreensiva. Ela apertou as mãos contra a lateral do corpo para impedir que saísse de seu controle.
– E porque eu me interessaria nesse acordo? – Perguntei apenas para provoca-la. Realmente, não faria diferença entre os dois corações, os dois estavam ao meu alcance.
–. Eu quero que meu irmão viva, mesmo que eu não o veja viver. Eu me importo com ele. Há uma chance que ele escape de ser morto por você e eu estou aproveitando. Essa é a vantagem que eu levo nesse acordo. – Era até que emocionante vê-la falar do irmão daquele jeito. Com sentimento.
– Quanto a você, a sua vantagem é conseguir sua sonhada juventude eterna. Ambos podemos de dar o que você quer. E de qualquer jeito você pode tê-la, só peço que considere meu acordo. Meu irmão é mais inocente do que eu, deve ser poupado de você e sua mediocridade. – Completou asperamente.
Ignorei o insulto. E me aproximei mais dela, até que pude ouvir sua respiração pesada e sentir seu cheiro doce. Vi que ela ficou ainda mais nervosa pela aproximação. Eu pretendia continuar algum pensamento, mas escapou da minha mente quando reparei o quão perto eu estava dela. E de seu rosto, seus olhos e seus lábios. Só formulei uma frase:
– Acordo fechado. – Disse rapidamente. E antes que eu pudesse cogitar me afastar pressionei meu lábios contra os dela. Ela tentou me afastar, mas eu permaneci em seus lábios. Fiquei surpreso com sua capacidade de autocontrole. Ela não respondeu ao beijo, muito menos se movia. Ela enrijeceu o corpo e prendeu a respiração por certo tempo, tentando me afastar se fechando ainda mais. Parei por um segundo para olhá-la nos olhos. Ela soltou a respiração e me olhou de volta. Seus olhos tinham uma mistura de raiva e surpresa na íris escura.
Tornei a beijá-la. Ela não tentou me afastar, mas não respondeu o beijo. Mas insisti, mesmo sem resposta. Beijei os cantos de sua boca e suas bochechas, embriagado pelo cheiro do perfume doce em sua pele. Depois tornei a seus lábios, doces e macios. Intensifiquei o beijo erguendo-a do chão. Sem apoio, ela enroscou os braços em meu pescoço.
Quando ela finalmente correspondeu quase não acreditei. A melhor sensação que eu poderia ter se apossou de mim naquele momento. Ela correu as unhas em meu pescoço, o que me fez ter arrepios. E relaxou o corpo, soltou a respiração. Se deixando levar por mim. Não sei por quanto tempo ficamos nos beijando pareceu uma eternidade, e ao mesmo tempo pareceu um segundo.
Relutei antes de colocá-la novamente no chão. Temendo que se eu a soltasse ela virasse as costas e tentasse fugir de novo. Embora, de novo, eu a encontraria. Mas, assim que seus pés tocaram o chão e cessamos o beijo. Ela apenas fechou os olhos, tomou ar, “limpou” a boca com as costas da mão e ergueu o olhar para mim, atordoada.
– Por quê fez isso? – Sibilou.
– Eu não sei... Talvez o jeito que você estava falando do acordo, tão nobre se oferecer pelo irmão, você sabe as consequências que isso acarreta, não sabe? – Fiz uma pausa ao lembrar disso. Arrancar o coração da primeira garota que eu beijara após milhares de anos não me fez sentir muito bem. Ela acenou a cabeça. Ela sabia que eu a mataria.
Ela sabia que eu a mataria pela juventude eterna, por quê respondeu ao beijo se sabia disso? Qualquer acordo que ela propusesse, implicaria a isso no final, não haveria alternativa.
– E também, você tem cheiro muito doce. Eu gosto. – Confessei rindo, para aliviar o que eu dissera. Ela piscou e ergueu um canto da boca, interpretei como um sorriso. – Eu vou te levar de volta ao acampamento. E devolver seu irmão ao grupo de vocês, mas você vai continuar comigo. – Ela apenas assentiu com a cabeça, ainda atordoada.
– Faça uma coisa por mim, já que aceitei seu acordo. Esqueça o que acabou de acontecer entre nós. – Pedi. Naquele momento uma frieza sem tamanho tomou conta de seu olhar e não me senti bem por saber que eu era o motivo.
Tentei puxar-lhe a mão para retomar o caminho, mas ela esquivou.
– Considere completamente apagado do minha memória. Acho que você tem mais que me puxar contra minha vontade, já que agora o acordo me mantém presa a você.
Então apenas fiz sinal para que ela fosse na frente, para que eu vigiasse que ela não fugisse de novo. Durante todo o caminho ela não olhou para mim uma única vez e ficou em silêncio quase mortal. E por mais que tivesse sido eu a pedir que ela esquecesse, quem não conseguia para de pensar naquele beijo era eu.
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